Foz do Arelho, ouvido cândido

São mais cás mães, pá. E aparecem, sem avisar, em tudo quanto é sítio, mesmo público, mesmo assim tipo discreto. O que mais por aí há são héteros, é o que eu te digo. Héteros. Nunca ouviste falar? Daqueles gajos que…, eh pá, tu percebes, não disfarces. E vêm, sim, vêm como calha: sozinhos, juntos, aos pares, claro, mas não se ensaiam por virem também aos magotes. Um gajo topa-os logo.

Também, pá, não escondem. Nem um nadinha de decoro. De urbanidade, digamos. Dantes não era assim. Dantes essa malta escondia um bocadinho. Fachada, meu, pois era, fachada pura, tá-se a ver. Mas sempre era outra coisa. Agora até os miúdos reparam, já viste? Até os miúdos. Que é que um pai vai dizer, se vêm com perguntas? Sim, um tipo não vai… Tá bom, há maneiras de rodear a coisa, eu sei. E os putos entendem. Às vezes entendem até mais que sei lá o quê.

Mas não devia ser. Não devia, pá. Quer dizer, eu nem sou contra. Nunca fui. Cada um lá… Ãh? Pois, pois falam, falam muito em liberdade, em assumirem, em «todos diferentes», comé quié? «Todos diferentes»… Isso, «todos iguais» tarantã. Mas depois um gajo é que os grama.

E são, são uma data deles. Vai por mim, meu. Mais cás mães.

15 thoughts on “Foz do Arelho, ouvido cândido”

  1. Esta expressão “mais que sei lá quê” é culta, não condiz com o resto do texto. Assim é que é correcto, pois claro, e por isso deveria estar “mais que sei lá o quê”, para não destoar do conjunto. Uniforme no desrespeito intencional pela linguagem como deve ser. (Aqui está, eu não disse “como deve de ser”, pois não. Uniformizei o texto…) Sem ser unissexo, que género é gramática e sexo é que é fisiologia.
    Um abraço
    Daniel

  2. Luís,

    Concordo, e envergonho-me. Mas rejubilo por encontrar em mim uns restos, un trocos, de vergonha.

    Daniel,

    Está passadinho a ferro. O texto, entende-se.

    Aliás, tínheis inteira razão, Senhor (mas posso tratar-te por tu?). Foi assim mesmo que o gajo disse: «mais que sei lá o quê». Ai, este meu ouvido!

  3. Pois claro, meu Caro. Venha daí o “tu”, que daqui já irão dois ou três. Já imaginaste, quando me falarem de ti e eu disser “O Fernando Venâncio? A gente trata-se por tu!”?… Farei um figurão. Até porque, mais dia menos dia, temos a mesma idade. Eu nasci a vinte metros do mar de água, tu nasceste num outro mar, no pedaço de Portugal de que eu mais gosto. Gosto da paisagem, das gentes, do ensopado de borrego e outras coisas. Tanto que, além da caldeirada de peixe à moda do meu Pai, é a única receita que aprendi. O Onésimo gosta muito dela. Também tentei o gaspacho, mas saí-me mal.
    Digo isto sem desprimor para outros vinhos portugueses. E gentes, claro.
    Um abraço.
    Daniel

  4. Epá as baleias a nadar são lindas mesmo, a fluir, dá ideía de que são especialistas no som do silêncio, e depois com a bossa de fora dão um belo bufo de salpicos

    e andam para ali a namorar o barco

    ——-

    Então aqui ninguém gosta de economia? Ando a morder-me para discutir economia (a injecção do BCE de mais do PIB português em poucos dias) e não sei onde. Tenho de ir à procura

  5. E porquê a Foz do Arelho? Pergunto porque tenho celestiais recordações de férias passadas lá. Daí, a singela curiosidade.

  6. Valupi,

    Com franqueza. «Porquê a Foz do Arelho?». Insinuas que eu vim pràqui inventar coisas? Se já nem os amigos nos dão um niquinhas de crédito…

  7. És, ou foste, um frequentador desse outrora paraíso. Muito bem, Fernando. Tenho memórias também elas supinamente cândidas desse lugar.

  8. Ai, Valupi. Agora é que fico constrangido.

    Chegados aqui, vejo que há em ti um excesso de confiança, inspirado ou por em mim, ou pelo texto. E não sei qual deles me lisonjeia mais. Ou mais me constrange.

    Que nada disto intervenha com as tuas memórias do paraíso.

  9. Fernando, mas precisamente. É que intervém. O texto transportou-me para o lugar. O “texto” – leia-se: o título.

    Ora, dividido como estás entre a lisonja e o constrangimento, mais me aumentas a curiosidade: porquê a Foz do Arelho?

    Repetida a pergunta, repito a explicação: tenho deliciosas memórias do lugar. E continuaria a tê-las se o conteúdo do texto versasse sobre corridas de bateiras ou pesca do sável.

    Valupi,

    [Não consigo colocar o comentário. Temos um sistema todo refinado]

    A Foz do Arelho é o lugar possível dum texto… impossível. Que, de resto, também versa sobre a pesca do sável.

    Vais ver aqui uma bela foto, para ampliar as saudades. Achei-a ao ver o blogue do Luís Eme e dar com um link para aí, o blogue… Foz do Arelho.

    O mundo é uma noz.

    Fernando Venâncio

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