O ironista

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Detenhamo-nos um instante nessa quinta-feira, 2 de Junho de 1994. São nove e meia da manhã. Eduardo Prado Coelho barra concentrado o seu croissant, de olhos distraídos no Libê, quando se apercebe do ronronar do fax. Aquilo acontece mais vezes, editores e outros amigos não o deixam meia hora ínscio da imprensa nacional.

Eduardo aguarda pois, e só consumido o folhado se dirige, em passo rotineiro, para a fonte dos escândalos. «Isto é comigo», pensa sempre. Ali, era. Eduardo enterra-se no sofá e percorre o texto. Cresce nele uma doce hilaridade, qualquer coisa lhe diz: «Agora caladinho, porque só os tontos que me detestam se hão-de divertir com isto, e eu sou aqui o último a rir, depois de ter sido o primeiro.» Ora, por incrível que pareça, Eduardo desprezou este momento de graça.

Foi publicado no JL em 1995
e republicado em Maquinações e bons sentimentos em 2002
Leia, abaixo, «O ironista» completo
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O ironista

Foi assim: Eduardo Prado Coelho escreveu uma crónica, a coisa deu brado, e ele viu-se compelido a explicar-se. Foi isto há mais de um ano, mas podia ter sido ontem, tão mal a coisa ficou resolvida. Havia um programa de televisão, «Perdoa-me», e havia a rejeição dos intelectuais, até quando se recusavam a vê-lo. Eduardo Prado Coelho não pertencia ao número deles. Viu o programa. «Se alguém quer perceber um pouco as transformações do mundo em que vive, não pode deixar de querer ver um programa como este, e tentar pensar o que ele significa neste momento da vida portuguesa.» Veio isto no Público de 21 de Maio de 1994. Atente bem o leitor nesta e nas seguintes citações, porque vai haver, daqui a nada, um golpe de teatro.

Eduardo insiste, apela para algum bom senso: «Sejamos sinceros: poderíamos, sem nos tornarmos caricatamente anacrónicos, evitar entrar nesta nova idade televisual? Resta apenas expressarmos os nossos agradecimentos à SIC, que teve a coragem de dar este passo.» Sem dúvida: as histórias contadas no dito programa, acentua, são duma inanidade quase dolorosa. Mas não nos engane essa circunstância. «A importância de um programa como ‘Perdoa-me’ é o facto de não ser um programa de ‘representações’, mas de presenças, e de situações que não são apenas contadas, mas resolvidas.» E para quem ainda não tivesse penetrado: «Como a SIC demonstra, a realidade de um programa como ‘Perdoa-me’ pode ser desoladoramente banal, agoniantemente rasca, mas é a realidade portuguesa na sua autenticidade mais pura.»

Não sei se o leitor leu, se ainda está recordado. Eu li, leio sempre, e achei que Eduardo Prado Coelho era aqui igual a si próprio, do que não teria de envergonhar-se. Afianço que não pensei mais nada, e esqueci o caso.

Duas semanas não eram passadas, damos na Visão com uma crónica em que Helena Roseta fortemente se indispõe com o ensaísta do Público. Segundo ela, Eduardo Prado Coelho teria considerado toda a realidade portuguesa, na sua «autenticidade mais pura», «agoniantemente rasca» (sic). Este (sic) era de Helena Roseta. Eu tive, aí, a vaga impressão de que Eduardo não tinha dito aquilo, e menos ainda «sic». Mas eu estava a precisar de diversão, e prossegui. Linhas abaixo, insistia Helena: que era tal qual assim, que vissem a aleivosia. E porquê? Porque, além de Prado Coelho nunca ter desdenhado «populismos televisivos e outros», também a realidade nacional «nem é tão pirosa nem tão banal» como ele «a deduz do televisor». Querem ver? «Assistimos à emergência duma sociedade aberta.» Mais: «Há muita criatividade por aí em acção, mesmo que E.P.C. não se dê conta disso.» E vem este ad hominem apoteótico: «O que não percebo é que um conselheiro cultural português que tem da realidade nacional esta imagem desprezível se mantenha sem problemas de concorrência no lugar que desempenha.» (Hoje, que copio a asserção, reparo nesse «sem problemas de concorrência». Não teria sido «de consciência», ó gráficos? Se sim, é uma jóia de perversidade.)

Isto, devo avisar, não é ainda o golpe de teatro. É apenas uma lamentável tresleitura. A indignação  há que percebê-lo, por simples poupança de energias  é sempre má conselheira. «Agoniantemente rasca», dissera-o Eduardo, era, e só eventualmente, «a realidade do programa», não a realidade nacional, que igualmente não era «desoladoramente banal». Mas o assombroso estava nisto: em poder uma pessoa inteligente como Helena Roseta, numa revista séria, atribuir publicamente a Eduardo Prado Coelho afirmações tão extravagantes. O que ela disse, sem o dizer, foi que o homem era capaz de tudo. E era. Nem Helena Roseta suspeitava quanto.

Detenhamo-nos um instante nessa quinta-feira, 2 de Junho de 1994. São nove e meia da manhã. Eduardo Prado Coelho barra concentrado o seu croissant, de olhos distraídos no Libê, quando se apercebe do ronronar do fax. Aquilo acontece mais vezes, editores e outros amigos não o deixam meia hora ínscio da imprensa nacional. Eduardo aguarda pois, e só consumido o folhado se dirige, em passo rotineiro, para a fonte dos escândalos. «Isto é comigo», pensa sempre. Ali, era. Eduardo enterra-se no sofá e percorre o texto. Cresce nele uma doce hilaridade, qualquer coisa lhe diz: «Agora caladinho, porque só os tontos que me detestam se hão-de divertir com isto, e eu sou aqui o último a rir, depois de ter sido o primeiro.»

Ora, por incrível que pareça, Eduardo desprezou este momento de graça. Tomou imensamente a sério a indignação de Roseta, e por arrastamento tomou-se a sério a si. Tão a sério, que se imaginou ironista. O que escrevera há quinze dias passou a ser um produto de «ironia». Ou nos exactos termos dele, pouco depois, no Público de 11 de Junho: «Todo o texto está redigido num registo irónico». Confesso que fiquei espantado.

Com uma tocante candura, pergunta Eduardo aí se não se atentou nas suas «absurdas», «despropositadas» palavras, nas suas referências «desproporcionadas», na «óbvia enormidade» das suas frases, na «paródia» que ele produziu de «diversos discursos». Não, devo dizer que também não reparei. Mas pronto, concedia eu agora, bem podia ser que alguma coisa do que ele disse se prestasse a uma leitura irónica, como em tudo o que a gente escreve escapa sempre qualquer nota ironizante. Pois não: era «todo o texto», frisava Eduardo, que lhe tinha saído irónico.

E, então, disponho-me a reler, forçando-me a ver em tudo aquilo «ironia». E logo tropeço com o que está na portada do texto, e que o leitor já viu: «Se alguém quer perceber um pouco as transformações do mundo em que vive, não pode deixar de querer ver um programa como este, e tentar pensar o que ele significa neste momento da vida portuguesa.» E o cronista acrescentara: «É um dever cívico, goste-se ou não.» Mas então, se essas afirmações, fulcrais, programáticas, contiverem uma promessa de ironias, se elas próprias, como temos de supor, forem já irónicas, e deverem portanto (segundo as instruções do autor) ser entendidas como querendo mostrar o seu contrário, então era tempo de Eduardo Prado Coelho se acolher a algum mosteiro, onde dedicasse os seus dias a prosa só edificante. Porque há já um ano que ele traz desnorteado o mundo. Ninguém tem já a certeza, e talvez nem ele próprio, se, naquilo que Eduardo escreve, ele ironiza ou não. Se não ironiza nunca. Se ironiza sempre.

Um dia ele nos libertará, esperemos, de tamanha perplexidade. Facto é que, naquela longínqua quinta-feira parisiense, Eduardo Prado Coelho não conseguiu engendrar melhor saída do que se viu, quando podia esperar-se dele que, espectacularmente, desse a volta por cima. Tempo não lhe faltou, deveras. Nessa manhã, as «Leituras» do Público estavam a fechar, a crónica de sábado estava paginada, e nem era má. Eduardo teve sete dias pela frente, para uma pessoa como ele isso dava sete bons dias de reflexão. Mas faltou-lhe a ponderação, faltou-lhe a argúcia. Por uma vez na vida, os deuses o abandonaram. É quase enternecedor vê-lo caído no recurso dos fracos: Aquilo foi a reinar, não perceberam logo?

Resta-lhe, no fim de tudo, uma consolação. Desta vez, os tontos dos seus inimigos não entenderam o suficiente para se rirem tanto quanto podiam.

1995

5 thoughts on “O ironista”

  1. Quando se diz que o Sporting é um clube das elites, isso também tem muito a ver com o facto de ter adeptos e simpatizantes intelectuais como EPC, sem pejo de assumir que gostam de futebol e que têm um clube. EPC, que cultivava uma atitude aristocrática, não tinha preconceitos pseudo-intelectuais. Era capaz de escrever sobre o “nosso” Sporting e, mesmo assim, ser lido por quem detesta futebol. Porque quando escrevia sobre futebol abordava o fenómeno como uma pessoa normal. Com coração, cabeça e estômago. Também por isso, sendo um homem assumidamente de esquerda, chegando, às vezes, a escrever como se de um “spin doctor” do PS se tratasse, era lido e respeitado em todos os quadrantes políticos. Porque era livre nas suas escolhas, nos seus elogios e nas suas críticas. Desde a fundação do jornal “Público”, em 1990, EPC escrevia diariamente sobre as grandezas e as misérias da cultura, da política e da sociedade portuguesas, a partir dos episódios do quotidiano. Tinha amigos de estimação. E inimigos também. Como qualquer ser humano marcante.

  2. Pois, o ironista. Acontece ao mais pintado. Sobretudo ao mais pintado.
    Bom ensejo é este, sobretudo, para voltar às Maquinações e Bons Sentimentos.`
    Sobre a magna questão de ‘escrever bem’, ou ser dessa maçada dispensado, em literatura:
    “É grande o prejuízo? Para o crítico, muito pouco. Para os editores, nenhum. Já para a literatura, tanta indiferença, tanta relativização, são bastante fatais.”

  3. Caro António Silva, digo Leão da Estrela:
    Só espero não ter de voltar a escrever este ano um soneto como o que vai abaixo, quando levámos 4-0 do Rio Ave.

    Quatro dedos tem a ave…

    Que feitiço fatal ali se esconde?
    Que forças e que fúrias e que fado?
    Quem pôs no mapa aqui Vila do Conde
    Devia estar do siso avariado.

    Entra o primeiro golo, não responde.
    Entra o segundo, fica baralhado.
    Tenta meter a bola, mas por onde
    Se há riscas verticais por todo o lado?

    Quando o mal é de raiz não tem remédio,
    Nem santos, por mais santos, há que valham
    Contra tão violento e vivo assédio.

    Foi a gripe das aves, mas sem pena…
    E quando os grandes tanto se acanalham
    Qualquer espirro os põe de quarentena.

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