Ligeiros anos

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No eléctrico, a menina, dezoito ligeiros anos, faz questão de levantar-se.
– Não se quer sentar?
O veículo tivera um arranque violento, e eu precisei de deitar a mão, rápido, a uma argola.
Foi aí que ela reparou nos meus cabelos brancos.
– Não, muito obrigado.
E, ridículo, sincero, não pude conter-me:
– É que ainda sou novo, sabe?
Era a maior das verdades. Subo escadas a correr – ainda subo escadas a correr – e desço-as
dois a dois e com um rasto de elegância. Mas ela, a mocinha, nunca poderia adivinhá-lo.
– Mas, se quiser, sente-se.
Menina linda. Bem-educada. Cruel.
Não me sentei. Sorri apenas. Gentil. Vingativo.

13 thoughts on “Ligeiros anos”

  1. No eléctrico, o cota, cinquentão desempoeirado, atrapalha-se com o solavanco. Fiz questão de me levantar.
    – Não se quer sentar?
    O veículo tivera um arranque violento, e eu reparei que ele precisou de deitar a mão, rápido, a uma argola. Foi então que reparei nos cabelos brancos dele.
    – Não, muito obrigado.
    E, ridículo, sincero, disse-me:
    – É que ainda sou novo, sabe?
    Não duvidei. Até tem ar de quem sobe escadas a correr e as desce dois a dois e com um rasto de elegância. Mas ele, o cota, deve pensar que não dou por isso.
    – Mas, se quiser, sente-se.
    Cota simpático. Com bom aspecto. Não custa ser educada.
    Não se sentou. Sorriu apenas. Gentil. Acho que me achou cruel.

  2. onde se lê “Não custa ser simpática” deve ler-se “Não custa ser educada” [tá feito]

    Não tenho pretensões à excelência enquanto leitor e também não creio que se perca valor por não dizer o nome.
    Perderia valor se, a coberto do anonimato, viesse para aqui atacar ou ofender. Assim, não. Sinto-me muito bem.

  3. frenando, que bem contaste esta historia.
    anonymous, nao: era eu, a mocinha. levantei-me para cumprimentar o fernando. como o olhar que me lancou foi vago, percebi que nao me reconheceu. disfarcei o embaraco e vinguei-me, oferecendo-lhe o lugar. e ele ainda teve a gentileza de nao ver os meus cabelos brancos.

  4. Valupi,

    Não sei se as vinganças são produzíveis. Mas, quem sabe… Verei.

    Mao,

    Ainda me estragas. De resto, espero não ter-te estragado.

    Caro Anonymous,

    Parecia-me impossível algum dia escrever aqui essas duas palavras, mas foi desta.

    Eu teria, na sua história, apertado uma ou outra juntura, com que um texto ganha sempre (nisso, Torga era, é, um Mestre, vale a pena remirar-lhe a relojoaria), mas a sua experiência desvanece-me. Um abraço.

    JCF,

    Concordo contigo. Mas respeito. Tanto mais que a pessoa – diz – sente-se bem. Que mais podemos querer?

    Susana,

    Então, pintaste os cabelos naquele dia? E andavas pela Veneza do Norte? Muito nos contas.

    Cláudia,

    Obrigado. Finalmente, o Presidente falou. Para dizer o que se impunha (desculpa o surrado do dito).

    De resto, há umas semanas, o Saramago tinha confidenciado ao «Expresso» que nunca apertaria a mão a Cavaco. Uma coisa não tem a ver com a outra. Mas, na petite histoire, tudo ilumina tudo.

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