
As coisas fazem desvios imprevistos, e são por vezes os melhores. Percebi, por um grupo de discussão galego, que Ferreira Fernandes, cronista do DN, falara da língua da Galiza. Fui ver e era verdade. Foi, repito, um desvio imprevisto, já que tenho o costume de ler o cronista.
Pois bem, Senhor Ferreira Fernandes, segure-se porque talvez vá ser preciso. Essa língua que você crê andar vítima de «modernices» e em mãos «reaccionárias» é a mesma que você aprendeu na sua nativa Angola, a mesma que eu escrevo aqui, a mesma de que você se tem servido para mostrar-se um jornalista com mérito e currículo.
Essa língua que, nos jardins-escolas galegos, se vai falar às criancinhas é a sua – delas, minha, sua – língua materna. Lá chama-se galego, aqui passou a chamar-se português. Isto, quando foi preciso darmos nome à língua, aí pelo século XVI, e já se tinha esquecido quem no-la tinha feito. Como bons nacionalistas, e bons já então desconhecedores do galego, nem nos passou pela cabeça chamá-la senão assim.
Em Portugal, filólogos competentes, como Manuel Rodrigues Lapa, linguistas argutos, como Luís Lindley Cintra, exprimiram-se claramente sobre a unidade do idioma em toda a faixa ocidental peninsular. Mas, afora eles, nunca foi bom-tom desafiar tanto o nosso senso comum, nacionalista até ao tutano. Os actuais linguistas portugueses são, a este respeito, tremendamente discretos. Elas queimam. E ninguém quer caídos o Carmo e a Trindade.
É um facto: o idioma lá em cima soa diferentemente, escreve-se diferentemente. Mas é linguisticamente o mesmo que aí em Lisboa. Na realidade, trata-se de duas normas – diferentes, marcadíssimas – da mesma língua.
O idioma que as criancinhas galegas vão poder falar também nas escolas é, sabe-o você agora, uma língua da Primeiríssima Divisão, a sétima do Mundo.
Não era razão para nos congratularmos um pouco, em vez de fazermos esse humor deprimente?
Actualização
A crónica de FF já tinha sido comentada aqui, aqui e aqui.