Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

A fome e o pão bento

O velho carregava uma montanha de anos pelo outeiro acima. Curvado sobre uma cana a servir de bordão. Ia muitas vezes ao mato buscar uns gravetos para a lareira ou o forno. Nesse tempo, não havia subsídio de invalidez nem de velhice. Só invalidez e velhice.

Por isso procurava passar sempre à hora certa, mas fingindo que o fazia por acaso, pela cafua onde pai e filhos comiam ao meio-dia. A pergunta do convite era invariável, a resposta também. E lá vinha a bendita fatia de pão de milho, com um chicharro ou um bocado de cavala.

Aquele pão, assim partido e repartido, assemelhava-se à bênção da Última Ceia.

DANIEL DE SÁ

Segunda canção para Maria José

Quinta das Conchas, lugar
Onde a tarde se desenha
Por entre a água a cantar
E um perfume de lenha
Entre a relva dos caminhos
Na sombra do arvoredo
Dou passos tão sozinhos
O meu dia é um enredo
De memórias e imagens
Testemunhos, despedidas
O teu rosto nas paisagens
Desafia as nossas vidas
De quem procura tua voz
Entre a água e esta lenha
Há som de moinhos e mós
Na tua pronúncia serrenha
Quinta das Conchas, Lilases
O parque onde tu não vais
Há um grupo de rapazes
Joga até já não poder mais
Caminho que tu não cruzas
Mas às vezes em ansiedade
Olho as saias e as blusas
E não descubro a verdade
A verdade é que não eras
Tu a mulher neste passeio
É mais uma das quimeras
Do meu tempo de receio
Receio que nunca venhas
Quinta das Conchas, lugar
Onde em tempo as azenhas
Faziam a farinha a cantar
Quinta das Conchas, Lilases
Onde o vento transfigura
Tristezas feitas tenazes
Num ribeiro de ternura
Quinta das Conchas, lugar
Ali a saudade é um posto
Onde o sol vem desenhar
Os limites do teu rosto

José do Carmo Francisco

À minha medida

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Sempre gostei do princípio antrópico. Ele diz: o Universo é como é porque nós existimos. É a versão eufórica desse princípio, e também a mais fascinante. Bem mais fascinante do que a versão fatalista: o Universo é como é para que nós existamos.

Simplesmente, existe hoje uma formulação mas refinada. Diz assim: este Universo é o único em que nós somos possíveis. A coisa é mais picante do que parece, e até bem mais do que a leitura criacionista da formulação. Com efeito, afirma-se aí que o Universo está feito à nossa medida, sim, mas também que ele não é o único pensável, e provavelmente nem o único existente. Explico-me.

Este nosso Universo está construído segundo as exactas – e estreitíssimas – constantes em que a vida, a vida como a conhecemos, foi possível. Uma pequena variação inicial, e estávamos fritos. Um acaso absurdamente feliz, portanto? Talvez, mas é pouco provável. A verdadeira explicação é duma simplicidade alucinante. Este é um dos infinitamente numerosos Universos existentes. E um deles tinha, por força, que ter estas medidas. As nossas medidas. As exactas, mas infinitamente casuais medidas que nos fazem.

Desencanta-me esta simplória matemática? Sinto-me defraudado? Qual! Todos os dias dou graças.

Diálogo ingénuo

– Mamã, há monstros debaixo da cama?
– Não digas disparates. Há lá nada!
– Mas se houvesse?
– Fazias de conta que não sabias, e pronto. Come a sopa.
– E eles deixavam de meter medo?
– Pois deixavam. Mas vá, come a sopa, que há muitos meninos que querem comer e não têm.
– É verdade?…
– Sim, é verdade.
– Mamã, como é que se faz de conta que não se sabe?

DANIEL DE SÁ

Pastor de Labão

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Nessa altura eu tinha namorada, e escrevia num blogue textos de circunstância. Mas a vida não corria bem. Eu há sete anos à procura dela, da vida e da namorada, e ela a persistir em esconder-se. Era uma teimosia. Eu a entregar-me cada vez mais aos textos, ela a desvanecer-se cada vez mais.

Um dia disfarçou-se de comentadora, atrás duma alcunha graciosa, sugestiva. E vinha assídua, calorosa, vinha sempre fiel, estava sempre na caixa dos comentários, quando lá fazia falta. Trazia a sua nota, deixava um incentivo, era a leitora melhor que pode haver.

Até que não resistiu e apareceu-me no e-mail, a duras penas descobrira o endereço. Exagerou na sua admiração, e sussurrou-me, no fim, que dispusesse. Eu culpei algum amigo inconfidente e fiquei sossegado.

Assim passámos a viver a três. A namorada a esvanecer-me em casa, eu a escrever textos de circunstância, e a minha fiel leitora a comentar. A própria namorada lhe sentiu a persistência – tens aqui admiradora apaixonada! – fez-me notar certa vez. De horas em quando ela aparecia no correio, porque há coisas que não cabem na caixa dos comentários. E eu deixei andar por si aquele enleio, a imaginar feitiços na literatura, a convencer-me que o verbo pode operar maravilhas.

Um dia, ao fim de sete anos, acabou por dissipar-se a namorada. Foi-se embora, exasperada, por tanto se esconder. E eu abri a corte à minha admiradora, subindo a escada emotiva costumeira. Ela acompanhava-me a escalada com reticências discretas, e sugestões nebulosas, e os véus translúcidos que um bom pudor não dispensa. As coisas chegaram a aquecer, em bom rigor havia incêndio à vista.

Certa noite chegaram dois e-mails, iguais rigorosamente. Um vinha da antiga namorada, o outro da virtual admiradora. Avisavam que eram ambas uma só, e vinham despedir-se para sempre.

Eu sorri, pus-me a pensar na vida. Se ela não fosse tão curta, quem ficava outros sete anos era eu, a escrever num blogue textos de circunstância. Não chegariam para convencer Labão. Mas ao menos acreditava eu em feitiços da literatura. E vivia a confiar que um bom verbo opera maravilhas.

Jorge Carvalheira

Balada do ciganito dos CDs

Foge mãe, leva os CDs
Chegou o carro patrulha
Eu vi mas tu não os vês
São dois e vai haver bulha
Ao guarda chamo «cabrão»
Fixo as mãos na garganta
No meio desta emoção
A minha lágrima canta
Faço ameaças de morte
Ao que chega primeiro
Com um pouco de sorte
Apanho um juiz porreiro
«Resistência e coacção»
Diz este código penal
Mas na minha educação
Não existe bem nem mal
Foge mãe, leva os CDs
Com quinze anos de idade
No sistema português
Não há responsabilidade
Meus pais são vendedores
Na cidade em todo o lado
Todos os nossos valores
Cabem num plastificado
Onde notas com gordura
Se perfilam em parada
Quando vamos à procura
A nota está encontrada
Onde tudo o que não seja
Notas de um certo valor
Vale mais que uma Igreja
E muito mais que o amor
Fechou o «quarto juízo»
Hoje não vou ser julgado
Afinal do que eu preciso
É andar por todo o lado
Vender os CDs piratas
E ser só aquilo que sou
Sou menor, vejam as datas
O estado a que isto chegou

José do Carmo Francisco

dorme bem*

Esta noite o céu partiu-se todo só para nos celebrar, meu amor. Os fragmentos quebravam-se em perfis angulosos, o teu rosto iluminava-se e os pedaços caíam num estrondo logo abafado. O som dos pneus sobre a água aproxima-se do restolhar das folhas de outono debaixo dos pés, por caminhos pouco pisados, em versão fast-forward. Estrelas diluídas atravessam a persiana mal fechada e dançam pelas paredes. Ouço contigo o tec-tec da chuva nas janelas, agora sim, agora não.

susana

* Re-post, porque o amor tem o espaço polissémico de tempo e a vida é como as estações.
Publicado na Sociedade Anónima em Outubro 2006

Quando Ferreira Fernandes mordeu a própria língua

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As coisas fazem desvios imprevistos, e são por vezes os melhores. Percebi, por um grupo de discussão galego, que Ferreira Fernandes, cronista do DN, falara da língua da Galiza. Fui ver e era verdade. Foi, repito, um desvio imprevisto, já que tenho o costume de ler o cronista.

Pois bem, Senhor Ferreira Fernandes, segure-se porque talvez vá ser preciso. Essa língua que você crê andar vítima de «modernices» e em mãos «reaccionárias» é a mesma que você aprendeu na sua nativa Angola, a mesma que eu escrevo aqui, a mesma de que você se tem servido para mostrar-se um jornalista com mérito e currículo.

Essa língua que, nos jardins-escolas galegos, se vai falar às criancinhas é a sua – delas, minha, sua – língua materna. Lá chama-se galego, aqui passou a chamar-se português. Isto, quando foi preciso darmos nome à língua, aí pelo século XVI, e já se tinha esquecido quem no-la tinha feito. Como bons nacionalistas, e bons já então desconhecedores do galego, nem nos passou pela cabeça chamá-la senão assim.

Em Portugal, filólogos competentes, como Manuel Rodrigues Lapa, linguistas argutos, como Luís Lindley Cintra, exprimiram-se claramente sobre a unidade do idioma em toda a faixa ocidental peninsular. Mas, afora eles, nunca foi bom-tom desafiar tanto o nosso senso comum, nacionalista até ao tutano. Os actuais linguistas portugueses são, a este respeito, tremendamente discretos. Elas queimam. E ninguém quer caídos o Carmo e a Trindade.

É um facto: o idioma lá em cima soa diferentemente, escreve-se diferentemente. Mas é linguisticamente o mesmo que aí em Lisboa. Na realidade, trata-se de duas normas – diferentes, marcadíssimas – da mesma língua.

O idioma que as criancinhas galegas vão poder falar também nas escolas é, sabe-o você agora, uma língua da Primeiríssima Divisão, a sétima do Mundo.

Não era razão para nos congratularmos um pouco, em vez de fazermos esse humor deprimente?

Actualização

A crónica de FF já tinha sido comentada aqui, aqui e aqui.

Faltava um?…

Esta é a primeira colaboração de DANIEL DE SÁ no Aspirina. Honra-nos tê-lo connosco. Mas ele proibiu-nos de dar informações sobre o seu (notável, diga-se baixinho) percurso. De modo que é assim. Este escritor acaba de nascer e estreia-se aqui. Também tem graça.

fv

A minha forte vontade de jogar futebol era vencida pelo fraco jeito que eu tinha. Arranjava-se um lugar na equipa, quase sempre à baliza, quando faltava um. Ou para qualquer outra posição que ninguém quisesse ocupar. Só a de avançado-centro e a de defesa-central me estavam proibidas. Até que houve um dia em que os responsáveis pelos trabalhadores do aeroporto se reuniram para despedir pessoal. Decidiram que haveriam de ser dispensados os homens com menos filhos. Meu pai só me tinha a mim e à minha irmã. O seu foi um dos primeiros nomes referidos. Mas o maioral, boa pessoa, lembrou que eu estava a estudar, que meu pai e minha mãe se sacrificavam muito por causa disso, e suspenderam a sentença. Nesse momento entrou alguém a dizer que meu pai tinha morrido.

A minha mãe e a minha irmã voltaram para S. Miguel. E, de repente, dei comigo, labrego da planície de Santana, em casa do Dr. Pessoa, na Vila. Passei lá o resto do ano, como se fosse da família. A nossa casa – tínhamo-la inventado como casa – era toda ao contrário daquela. E, no futebol, aconteceu um pequeno milagre. Porque nenhum dos novos companheiros me conhecia, fui facilmente escolhido. (Ainda hoje é assim. Quem vem de fora é tido como um ás indiscutível.) Eu usava nesse tempo uns sapatos com a biqueira recta. A primeira vez que apontei à baliza, a bola, de borracha, foi direitinha para onde eu olhara. Fiz isso uma segunda vez. E uma terceira. E várias vezes nesse jogo. E nos seguintes. De uma semana para a outra, o candidato ao lugar do “falta um” passou a ser o primeiro nas escolhas. Quando esses sapatos deram o último pontapé, não mais o milagre se repetiu.

Mas, hoje, estou aqui a anunciar que fui seleccionado. Não para o futebol que nunca soube e já não posso, mas para o jogo das palavras. E para uma equipa maravilhosa. Não sei que lugar ocuparei, mas, como todos os maus jogadores, estou disposto a ir para onde ninguém queira.

DANIEL DE SÁ

Paranóias

Despejava eu, tranquilo, o carrito das compras na bagageira do panzer, no parque do hipermercado. Praticamente de costas, ou de esguelha, mostrava um perfil enviesado, difícil de analisar. Mas ele foi decidido e peremptório. Parou-me ali ao lado, abriu o vidro do Corsa, esticou o pescocil e pôs-se a chamar pelo Jorge, que é o meu nome.
Eu lá fui ao seu encontro, debrucei-me na janela, vi-lhe o ventre dilatado a roçar-se no volante, observei-lhe as feições. Do arquivo não me saiu nada parecido.
– Desculpe, mas…
– Sou o genro do Teixeira! Tenho uns quilitos a mais, umas entradas aqui, que o tempo passa. Mas lembro-me bem de si!
E lá insistia, a apresentar-me a nuca, as misérias do cabelo. Eu voltei a mirar-lhe os trinta anos, o descair do olhar, a silhueta estranha. Voltei a remexer cá dentro nos ficheiros. E nada.
– Genro do Teixeira?! Mas qual deles?
– O funcionário do banco! Primeiro no Canidelo, mais tarde nos Francelos!
Lembrei-me do Abadesso, das traduções de alemão, mas do Teixeira do banco nem sinal.
– Não há nenhum Teixeira que eu conheça… nunca fui ao Canidelo…
– Então você onde mora?
– Lá para as Antas!
– É daí, fui lá carteiro! Você não se chama Jorge?
– É verdade!
E fui cedendo. Têm-se visto verdades mais atacadas de enigma do que as fábulas da esfinge.
– Pois é daí, eu despachava o correio!
Ele às vezes reparo nos carteiros. Trazem-me cartas do banco, os avisos dos impostos, trazem notícias longínquas de guerras administrativas que sustento há trinta anos. Mas, de quantos conheci, nenhum carteiro era assim.
– Trabalho agora em Alverca. Conhece Alverca?
– Muito bem!
Aterrei lá muita vez, dei lá lições do Camões, e um dia fui ver o Museu do Ar, que entre espólios mais concretos me guarda a mim bocados do canastro.
– Ele é um bocado longe, andar abaixo e acima!
– Pois compreendo…
Sinto-me à entrada do delírio. Carteiro ou não, eu nunca o vi mais gordo. Mas ele é novo demais para sofrer de paranóias. E eu, que já estou por tudo, passo em revista as últimas semanas. Tenho os impostos em dia, não me lembro de nenhum crime maior, e pecados só os do pensamento. Ele continua prazenteiro, fala-me outra vez de Alverca, jura que lhe sou familiar.
A instâncias minhas lá nos despedimos. E eu fico-me a pensar em espiões secretos, em conspirações maradas, a acreditar em bruxas, eu sei lá. Não tivesse a alma sossegada, e quem entrava em paranóias era eu.

Jorge Carvalheira

Prémios para EPC – 1

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Eu sabia, sabia que o tinha feito. Eu lera Tudo o que não escrevi, de Eduardo Prado Coelho, como ele diz que poucos críticos em Portugal fazem, «de lápis na mão». Não o li como crítico. Apenas como curioso. Muito curioso, aliás.

Reabro hoje (já o fizera mais vezes) esses dois volumes. E vejo que o meu lápis foi, ao longo deles, desenhando um retrato de EPC. O meu retrato de EPC. Cada linha dele, desse retrato, pode levar hoje um prémio. Prémios meus, ça va sans dire.

Prémio E Diz Você Isso Nessa Linguagem Luminosa

«O que os simplificadores não entendem é afinal algo que se pode dizer numa frase muito sim- ples: que vale sempre mais correr o risco da obscuridade e da ilegibilidade do que ficar no conforto da acessibilidade. Feitas as contas, foi sempre a obscuridade que venceu» (vol. I, pág. 27).

Prémio Mas Ele Até Tem Invejosos Baris

«Somos todos vítimas do poder pessoano, mas vítimas recompensadas e felizes. Pessoa não esconde, nem faz sombra, ao contrário do que pensam os invejosos apressados» (vol. I, pág. 79).

Prémio E Se Fosse Só O Canal Da Mancha?

«Ainda hei-de um dia tentar compreender melhor que imagem do quotidiano me separa tão visceralmente de tudo o que é Laura Ashley» (vol. I, pág. 106).

Prémio Nem Imaginou Você Como Vem A Propósito

«O gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. […] Retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio» (vol. I, pág. 113).

Edições Asa, primeiro volume, 1992, segundo volume, 1994

«Bad Boy»

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Um mimo, a crónica de PAULO MOURA hoje no «Píblico». Um mimo, como quase sempre. Para vos faire la bouche:

«A bicicleta é independente. Vive da nossa força muscular, que multiplica com eficácia cada vez maior. O objectivo da ciência ciclística é tornar o veículo mais leve, mais aerodinâmico, mais funcional. Os quadros, forquetas e guiadores começaram a ser construídos em alumínio, depois em fibra de carbono. Carretos, cremalheiras, correntes passaram a ser feitos em ligas metálicas resistentes e virtualmente isentas de peso. Sem recurso a nenhuma fonte externa de energia, à custa, apenas, do seu próprio desenho, a bicicleta é, hoje, um veículo extraordinário. Aproxima-se da perfeição, ou seja, de um limite utópico em que não seria preciso, sequer, pedalar.»

«Lixo demagógico», isto?

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A coluna de JOSÉ PACHECO PEREIRA, no «Público» de hoje, é de leitura obrigatória para quantos se mexem nestas embaladoras águas da blogosfera. Saia, pois, você de casa e compre o jornal. Começará a ler assim:

Um livro de Andrew Keen tem suscitado uma grande discussão na comunicação social internacional e na rede. O livro ainda não foi traduzido em português, mas o seu título e subtítulo não enganam ninguém: O Culto do Amador – Como a Internet dos dias de hoje está a matar a nossa cultura. É um livro panfletário e simplista, escrito para chocar, mas as questões que lá são levantadas são importantes e cada vez mais presentes, até porque são uma versão nova de problemas muito antigos potenciados numa dimensão que, essa sim, é nova. O livro de Keen não foi o primeiro e certamente não será o último sobre o assunto vindo do lado dos “apocalípticos” das novas tecnologias, para usar a terminologia de Eco. Pode-se até esperar um filão polémico de livros sobre este tema, porque os efeitos de “matança da nossa cultura”, usando o título de Keen, são sérios e só se podem agravar nos tempos mais próximos. O catastrofismo é uma longa tradição do pensamento ocidental, principalmente nas mudanças do século, mas lá porque é cíclico e porque as coisas nunca correram tão mal como se anunciava, nem por isso, nada nos garante que, desta vez, não corram mesmo muito mal.

Leia o resto com a sua bica, à sombra.

Actualização

José, outro, perdeu – confessa-o aqui nesta caixa de comentários – uma tarde de praia. Para escrever ISTO. E que teria adiantado, na praia, mais um José tostando (supomos) anónimo?

Balada da Rua Serpa Pinto

Mulheres na Serpa Pinto
Termómetros da cidade
Longas horas de amargura
Momentos de felicidade
Trazem a luz e o calor
À pedra das manhãs frias
Trazem frescura às tardes
Da rua dos nossos dias
Quando sacodem o sono
Farrapos de melancolia
Sabem que tudo na casa
Depende dessa energia
Dessa força transmitida
Dessa afirmação de ser
Todos os dias da vida
A razão de ser mulher
Na vida multiplicada
Na voz que sempre resiste
E acaba por vir cantar
Nos dias em que está triste
E transportam devoção
Na viagem mais profana
Fazer um tempo de festa
Mesmo em dia de semana
É a voz que ganha altura
Sobre as paredes das casas
Passam em bandos alegres
Só lhes falta terem asas
Mulheres que mudam a rua
Só porque vão a passar
Transformam toda a verdade
De quem espera num lugar
A grande revelação
Das dúvidas que elabora
No lado mais escondido
Que é o lado de fora
Vem a chuva vem o vento
Caem lágrimas em pingos
Esquecem os dias escuros
E só pensam nos domingos
Ficam as lojas vazias
Enche-se a rua de gente
É o Mundo que se altera
E passa a ser diferente
Passam mulheres só sombra
Logo atrás surgem meninas
No rio sem afluentes
Há barragens pequeninas
Por onde a água se fixa
À espera da combustão
Do peso forte da voz
Com o peso leve da mão
Num encontro imaginado
A viagem ao contrário
Entre o mais pequeno beco
E o Largo de Seminário

José do Carmo Francisco

mamas para que vos quero

Chegada a uma idade avançada deixou de ser adiável passar pela provação de uma mamografia. Neste exame radiográfico as mamas são apertadas em duas secções por um aparelho que apresenta semelhanças com uma tostadeira. Se fossem os homens a ter que prensar os seus tecidos moles para avaliações regulares do estado de saúde, cheira-me que há muito se teria inventado outro processo.
Quando era nova dizia-se que a firmeza de um busto se aferia segundo a impossibilidade de segurar um lápis pela prega inferior da mama. Depois do primeiro filho segurava uma esferográfica. Ao segundo, um marcador. Experimentado mais um item da parafernália criada para suplício das mulheres, estou certa de conseguir agora uma façanha notável: suspender um estojo inteiro.

susana

o espelho de Alice

O texto do Fernando foi profícuo em sugestões. Ligando-o com a especular especulação de um anónimo nada gratuito, veio-me ao neurónio a fertilidade dos acontecimentos no campo das hipóteses para a sua interpretação. Sujeitam-se a descrições distintas, muitas vezes antagónicas, entre os intervenientes que neles participam, motivo do comentário que lá deixei.
Há cinco anos um dos meus livros de praia foi Atonement, de Ian McEwan. Neste romance a narrativa é construída em torno de um episódio. Envolvendo três personagens centrais, o episódio é em si banal, retrato de atracções primárias e relações narcísicas. São as leituras diversas, de estrito sentido e avaliadas por cada um como factos, a conduzir os passos seguintes. Na conjugação com as circunstâncias e paradigmas individuais, factores exógenos da trama, é a distância de leituras a medida de entropia nas vidas destas três vítimas.
Trivial, sabemos nós. É da interpretação pessoal e criativa que se produz arte e muita literatura. Também as intrigas, os boatos, derivam por vezes de equívocos semelhantes, quando não da pura mentira. E os romances vingam enquanto duas ilusões se confundirem mutuamente.
Já o amor, nas múltiplas vertentes, tem forçosamente que ser relacional. Com os pais, os filhos, os amigos e os amantes queremos partilha, visões comuns, memórias coincidentes ou próximas. Não chegamos lá pela experimentação; atirar ao ar suposições é lançar achas para a fogueira. Só o inquérito a partir do outro pode resgatar a comunicação, a sintonia. Mesmo assim, a aliança entre a nossa atenção e a vontade pode ser insuficiente. O outro é sempre um outro, que nos escapa. Fatal impossibilidade de compreendermos em plenitude o que está em nós, permanecendo todavia inteiro e autónomo.

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susana

Crónica dum tempo

De manhã levantávamo-nos às oito e vinte e cinco para a aula das oito e meia, apertávamos os botões no caminho e galopávamos por escadarias e vielas íngremes contra o vento aguçado que nos fazia esperas às esquinas, e nos mordia a porcelana rósea das orelhas. O maço dos cadernos abraçado ao peito baloiçava ao compasso do coração que nos trotava desenfreado, e só amainava depois de entrar na sala, antes que se esgotasse a tolerância da campainha despótica. Lá dentro a norma era a do livro único, e o saber era um testamento de verdades definitivas, a gotejar dos lábios pausados do mestre sobre a turma desatenta, perdida a imaginar a vastidão dos desertos de Gobi ou a violência do mar nas escarpas da Camecháteca.

Jorge Carvalheira
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Canção para Maria José

Nas escadas da estação
Saída da Morais Soares
Este calor da tua mão
Faz um apelo a ficares
Ficar num tempo parado
Sem horários ou rotinas
O que eu sinto a teu lado
Nas tuas mãos pequeninas
Onde a ternura desagua
Como se fosse o estuário
Da paixão que anda na rua
No tempo sem calendário
Onde o calor e a gordura
Faz passar tão depressa
Quem esqueceu a procura
E não levanta a cabeça
Estamos em sessenta e seis
Na Rua Morais Soares
A memória não tem leis
Nem tem mapa de lugares
De repente é o passado
Que nos convida à viagem
Um eléctrico de atrelado
Vem irromper na paisagem
Lá estão homens, mulheres
Guarda-freios, cobradores
Se vais à Patrício Prazeres
Eu vou para onde tu fores
Nas escadas da estação
Saída da Morais Soares
Este calor da tua mão
Faz um apelo a ficares

José do Carmo Francisco