Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Servir

Homenagem, na pessoa do Professor Moniz Pereira, a todos os que dão muito mais do que aquilo que esperam receber.

Foi há mais de vinte anos. Carlos Lopes acabara de chegar à meta da glória na Cidade dos Anjos. A emoção apertou-me a garganta e espremeu-me as esponjas das lágrimas.

Pensei no Professor Moniz Pereira. Deveria estar sofrendo a solidão dos treinadores quando os atletas vencem na pista e recebem todos os aplausos. Como se fosse possível aplaudir uma obra-prima esquecendo o seu criador.

Então, e apesar de mais de duas mil léguas nos separarem, imaginei que me aproximava dele e dizia: “Já pensei em si.” Ele olhou-me, sorriu e respondeu: “Pois eu ainda não.”

DANIEL DE SÁ

Terceira via

No tempo em que havia apenas caminhos de cabras, os portugueses saíam de Lisboa e levavam sete horas até chegar a Braga. Iam de Faro a Bragança seguindo as curvas de nível, e antes acautelavam testamento, para o caso de falecerem no caminho.

Um dia chegou a Europa e trouxe-lhes vias rápidas, e auto-estradas que rasgavam as montanhas, e tinham terceira via nas subidas. A ideia era poupar tempo, era habituá-los lentamente ao caos da civilização, ao moderno frenesi de quem tem pressa e um horário para cumprir. Porém eles, deformados pela história, esquivaram-se ao conceito. E ninguém lhes tira da cabeça que a terceira via das estradas é a dos romeiros que vão a pé a Fátima. Porque cumprir, só as promessas à Virgem.

Agora, indo para a estrada, os condutores portugueses ainda afivelam a máscara do frenesi moderno. Porém, atacados de piedade, oitenta por cento deles reservam a terceira via aos peregrinos. Alguns lá se lembram da Europa, esse hipermercado da civilização. Mas quanto a modernidade, a faixa do meio é-lhes mais que bastante. Encostam os cotovelos ao balcão, mudam de vez em quando de quadril de apoio, e ficam-se a ver passar algum civismo que passa.

Vivem muito bem assim, na alegre inconsciência dos cretinos. E quando calha matam-se uns aos outros, com uma tranquilidade ainda maior.

Jorge Carvalheira

«Crer é poder»

O jornal Sporting existe desde 31 de Março de 1922 e é, por isso, um dos mais antigos jornais de Clube da Europa. Saiu recentemente mais um número e lá está o que eu não queria ver: no site «www.sporting.pt» reproduzem a primeira página com um erro clamoroso. Trata-se da frase «Crer é poder» que surge em vez de «Querer é poder».

Numa semana em que o presidente da Direcção deu uma entrevista à Visão onde, blasé, se queixa do tempo que perde com o Sporting, tanto a despachar assuntos como a acompanhar a equipa de futebol, aparece dias depois o jornal a dar-nos este exemplo de incompetência a lidar com a língua portuguesa. Duas tristezas entre uma quinta-feira e uma terça-feira, é muito para um «leão».

No tempo da «quarta-classe bem tirada» qualquer pessoa sabia a diferença entre «querer» e «crer», pois querer tem a ver com vontade e crer tem a ver com fé. Tal como sabia a diferença entre «cozer» na panela e «coser» com agulha. Penso também em toda a legião de jornalistas e de colaboradores que entre 1922 e 2006 escreveu no jornal Sporting dando o seu melhor. Alguns devem estar a dar voltas no gavetão.

Mas não é apenas a língua portuguesa que aparece maltratada. É o facto de sermos motivo de chacota para os outros. E isso também é um ónus pesado. Ainda há pouco tempo o director (que surge sempre nas páginas do jornal de braços cruzados) tinha confundido «arguido» com «acusado», mas foi numa página interior. Agora dar um erro crasso na primeira página e em letras grandes é mesmo para ficar envergonhado. Como dizia o Poeta – «o que não tem sentido é o sentido que tudo isto tem».

José do Carmo Francisco

VERTIGEM

FRANCISCO GUEDES, tradutor, e exímio organizador dos encontros Literatura em Viagem, em Matosinhos (e co-organizador das Correntes d´Escrita, da Póvoa de Varzim), ofereceu ao Aspirina um dos seus contos. Aqui vai, com um muito obrigado.

Era domingo. O verão entrava lento pela janela entreaberta afagando o corpo nu e magro de Silvino estirado em cima dos lençóis. Desenrodilhou-se. Esticou as pernas, espreguiçou-se, bocejou, sentou-se na cama e pôs os pés no chão. Alisou o cabelo com as duas mãos, espreguiçou-se uma vez mais, pensou na liberdade conquistada desde ontem (Sim, decidira não mais escutar a voz sebosa de Rodrigues, seu patrão, nem os risinhos amarelos de Gertrudes, telefonista emaranhada nos seus braços e apetites); e foi com um sorriso a aflorar os lábios finos que se dirigiu para a casa de banho. Mirou-se no espelho antes da primeira urina. As olheiras faziam prova da noite dormida em tracejado. Noite de insónia entrecortada pela excitação e pela ansiedade. Aliás, desde que lera o anúncio, o cérebro não mais parara: iria daqui para acolá, sempre a viajar, mostrando a sua arte. O mundo abriria os braços, aplaudiria em pé, faria manifestações e reconheceria com espanto o seu maravilhoso trabalho, sonhou. Sob a água tépida ensaboou-se e duchou-se longamente. Depois escanhoou-se, massajou a cara com after-shave. Demorou tempo a vestir-se, mas quando se olhou pela última vez ao espelho — o outro eu, dizia, há mais de duas décadas —, Silvino viu-se reflectido como sempre imaginara: de fato escuro, sem uma dobra fora do sítio, a quilha era o nó da gravata azul-meia-noite, de malha de seda, a meio, exactamente a meio, do corpo, dava-lhe um ar distinto. Faltavam os óculos, de aros de tartaruga. Colocou-os e, pela última vez, olhou-se na superfície fria do espelho. Gostou do que viu, pegou na pasta, que sempre o acompanhava, e saiu da Residencial, sua casa desde que aos vinte anos viera para a cidade trabalhar como contabilista. Sentiu a brisa ainda fresca das primeiras horas da manhã, eram nove e trinta. Os pés arrastaram-no para o Café ao fundo rua. Pediu um cimbalino em chávena quente, como gostava, e uma torrada de pão bijou com muita manteiga. Um gole de café uma pequena trinca na torrada sucessivamente, até acabar de ler o jornal. Pagou ao balcão. Em passos tranquilos voltou ao seu trajecto e ao amor eterno de Maria, lacrimejado e jurado naquela última tarde calorenta de Dezembro. Reencontrou-a dez anos mais tarde, no cemitério da terra, quando Silvino pai foi a enterrar. Uma ninhada de filhos a rodearem-lhe os olhos, já sem laivos de esperança nem de futuro. Continuou a descer a rua em direcção ao local. De quando em vez avistava-se por entre o granito do casario a luz doirada do rio. Só no verão, e a esta hora, o rio tinha esta cor, pensou.

FRANCISCO GUEDES
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AUTO DO PLÁGIO

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No dia em que o Sporting apanhou três do Gil Vicente, não fiquei lá muito bem disposto. Para me vingar, brinquei a propósito de um poema publicado em dois jornais açorianos. Não haveria nada de mal se esse poema não fosse de António Gonçalves Dias, poeta brasileiro do século XIX, mas assinado por alguém vivo. Apenas apareciam trocados os nomes de “terra” por “ilha” e de “sabiá” por “biguá”, uma pobre ave que nem sobe às árvores nem canta. E palavra de honra que nem sequer me dei conta da ironia: o que eu fiz foi uma imitação, embora mal feita, de Gil Vicente, o de outros dramas… Aqui o deixo.

Observação: o sistema gráfico deste blogue não permite ‘avançar’ os versos quebrados. O leitor o compensará.

Personagens:
Gonçalves Dias;
Anjo da Guarda;
Diabo.
ANJO – Aonde ides tão asinha?
G. D. – Vou ali e volto já.
A – Levais cara muito má…
GD – Mas a culpa não é minha.
A – De quem é, se a cara é vossa,
E tanto vai transtornada?
GD – Meu anjo, não há quem possa,
Ter cara bem figurada
Se nos rouba a canalhada
Uma coisa que é bem nossa
E que custou a ganhar
Ou a fazer…
A – Pois então…
GD – Eu vou ali ensinar
Um descarado ladrão
Que pegou nuns versos meus
E sem vergonha os fez seus.
A – Ensinar um ignorante
É obra bem compensada.
GD – Mas este, que é um tratante,
Ensino-o à bofetada.

DANIEL DE SÁ
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Intervalo poético

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A poesia não nasceu para os «intervalos» da vida. Mas, se não criarmos intervalos para ela – como para o café, ou para uma volta ao quarteirão – quando chegaremos, muitos de nós, a ela? Pois então.

Seja, hoje, IVO MACHADO (Açores, 1958) e a sua última colectânea, Poemas Fora de Casa, de 2006 (edição da Exodus). Tem organização e ilustrações de Álamo Oliveira. Daí tiramos esta preciosidade.

TELEGRAMA

Filha: queres água ou nuvem?
Não penses, responde

– Água!

Eu sabia

Dentro de ti
o lago imenso da semente inicial.

Mais sobre o autor aqui.

NACIONAL-QUÊ?

Quando lho pediu a juventude inventou-se nacional-revolucionário, um rótulo que parecia cabalístico mas não tinha segredo nenhum. Era o mesmo que ser nacional-socialista, sem o fardo de o parecer. Aqui há tempos andou na televisão, a falar duma ficção recente sua, o retrato retocado dum professor de Finanças muito antigo.

Ponderou-lhe os predicados pitorescos, os cinismos de farsante, as artimanhas de frade. E alargou-se então no que chamou a sua grande inteligência patriótica. Sublinhou que o professor conduzira Portugal à glória dos eleitos. E considerou natural que, durante o seu governo, metade do país passasse fome, e outra metade fosse imolada numa guerra demente.

Achou bem que o país todo vivesse numa escuridão medieval, porque um povo é invencível se tiver a coragem de ser pobre. Isto mesmo decretara o professor. Já existir na Europa, em 1954, um campo de concentração para enjaular adversários políticos, e onde não mais que trinta portugueses foram levados à loucura e à morte, era para o nacional-revolucionário uma simples questão de equilíbrio do mundo.

Dizia ele estas coisas, assim em frente da câmara, sem levantar os olhos do soalho. É de se compreender. Desplantes deste calibre deixam vergonhas na cara, que um verniz ligeiro não disfarça. Tal como as mós de moinho penduradas ao pescoço, fazem peso na cabeça. Mesmo a um confuso nacional-revolucionário.

Jorge Carvalheira

Casa grande

– O que é que o senhor procura?
A interpelação acorda-o, e vem duma mulher vestida de preto, de vassoura na mão, no gesto de quem varre o pátio de cimento. O viajante já se tinha esquecido do que um dia leu nuns livros, mas aqui se lembrou novamente de que as palavras são mais que simples pedras atiradas ao vento. São como um cristal as palavras, disse-o quem sabia. Há que tomá-las na sua circunstância, atentar na moldura que as envolve, e observar com muito entendimento a ramagem que as enfeita. Não fora o tom cantado da voz, o sorriso aberto na cara desta miúda silhueta escura, e assim tão de surpresa interpelado, com tais palavras e uma lança nas mãos, lá ia o viajante, castelhano não sendo, pôr-se a imaginar uma padeira nova de Aljubarrota. Muita injustiça há neste mundo!
– Queria ver a sua igreja, por fora é bem bonita! Sabe quem tem a chave?
– Pois tem a porta aberta, aí ao lado! E o cemitério antigo, lá atrás, veja à sua vontade!

Jorge Carvalheira

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Terceira canção para Maria José

Na voz de Maria José permanece, ao mesmo tempo, a frescura da água de dois rios (o Alva e o Ceira) e o peso das pedras da serra do Açor. A cidade em frente tem no asfalto negro da Almirante Reis o espelho reflector do calor desmedido deste Setembro que já não respeita o calendário nem as estações do ano. É na ligação entre a frescura da água e o peso da pedra que Maria José modula a voz para responder às agressões e ao desgaste do quotidiano da cidade. Seu ruído e seu cansaço. Sua confusão e seu efémero. Porque sem raízes na terra.

Desde que acende a primeira lâmpada na casa da manhã até ao momento de apagar a última luz da noite há, no dia de Maria José, uma sucessão de tarefas quase invisíveis. E não deixam de ser reais, efectivas e completas mas são quase invisíveis pois não existe ruído à sua volta. Vai à praça num instante, corre à padaria, quase voa até ao talho, trazendo assim, numa fracção mínima de tempo, os víveres necessários ao almoço e ao jantar.

As sobrinhas fazem, com o pai de Maria José, o vértice de um triângulo feliz. Três gerações que se juntam à mesa para uma refeição de palavras. De um lado a memória, do outro lado o futuro. Maria José faz o enlace destas duas perspectivas. As meninas querem brincar pois já sabem, mesmo sem o saberem, que há uma idade para tudo. Os adultos não brincam com brinquedos. Os adultos são pastores de memórias, sempre aflitos não vá mais uma perder-se no vazio do esquecimento. E não há cão capaz de a trazer de volta. Maria José sorri depois de mais um dia. A felicidade é sempre uma convenção. Não tem utensílios de aferição, nada nesta matéria é objectivo. Há quem seja feliz produzindo e multiplicando a felicidade dos habitantes da sua casa. À custa de uma sucessão de tarefas quase invisíveis. Tal como permanece invisível a frescura da água e o peso da pedra na voz de Maria José. Como se de repente o Instituto Superior Técnico fosse a serra do Açor, a Almirante Reis fosse o rio Alva e a Morais Soares fosse o rio Ceira. A voz de Maria José justifica, altera e precipita esta nova geografia da cidade. Entre a água e a pedra como na primeira e mais feliz manhã do Mundo.

José do Carmo Francisco

Aviso à navegação

Alguns comentadores que aqui me lêem textos, em vez de deixarem um comentário qualquer, a que terão direito, praticam afanosamente a velha técnica de acrescentar a continuação da história.
Não duvido de que o fazem na maior candura de alma, e de que apenas os move a busca da perfeição.
Mas peço-lhes um favor. Vão-se foder e desamparem-me a loja.
Não é por arrogância que o faço. É que já me falece a paciência.

Jorge Carvalheira

A Casa do Pai

Seja a casa com portas só de abrir,
Sem grades nas janelas e sem aço.
E que nos aconchegue em cada abraço
Sem nunca ser abraço de ter de ir.

Seja a casa de estar, não de partir.
Que nos aceite, mortos de cansaço,
Com um beijo de amor por cada passo
Dado em muitos regressos, sem sair.

Uma casa que nunca nos pergunte
Que outras casas buscámos e que telhas.
Que toda a gente à porta se nos junte

(Quando algum dia a vida nos demore)
Com um ramo nas mãos – rosas vermelhas.
Mate o bezerro gordo, mas não chore.

DANIEL DE SÁ

Por desacerto mental – não por abuso ou vontade de apropriação – este poema esteve horas aqui sem a assinatura do autor. Parecendo, pois, meu. Não é. Lamentemo-lo.

O avental de Vítor Pereira

Vítor Pereira é o presidente da Comissão de Árbitros da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. A primeira imagem que tive dele foi na «Bola Magazine», um texto de Cruz dos Santos sobre as suas actividades teatrais. Vejo-o ainda hoje de avental num sketch perante uma plateia atenta de um bairro periférico de Lisboa. Mais tarde li uma enorme gaffe desse senhor quando se referiu a Dário Fo como autor da peça «E não se pode exterminá-lo?» de Karl Valentim. O lance do golo do Porto contra o Sporting na segunda jornada do campeonato nasceu de um erro crasso do árbitro. O defesa Polga, já em queda, desviou a bola que era conduzida pelo avançado Postiga, e na sequência desse corte, o guarda-redes do Sporting recolheu a bola com as mãos. Todos os especialistas na matéria consideraram erro do árbitro que também esteve péssimo no capítulo disciplinar deixando sem cartões vermelhos dois jogadores do Porto. Num assomo corporativo, o inefável Vítor Pereira apareceu a assinar um «esclarecimento» técnico que nada esclarece e que visa apenas tentar esconder com palavreado vazio o erro decisivo do árbitro do jogo das Antas. Qualquer pessoa percebe que um jogador só pode «passar» uma bola se a tiver. No caso quem a tinha era o Postiga que conduzia um ataque. Já em queda e (portanto) sem qualquer gesto deliberado (que é a palavra usada nas leis do jogo), o defesa Polga apenas «desviou» a bola, apenas «cortou» o lance, não fez nenhum passe nem poderia fazer porque estava caído no relvado e quem tinha a bola era o seu adversário. Em qualquer sociedade secreta há sempre um homenzinho com avental pronto a reescrever a História. Mas para isso é preciso saber escrever. E ter razão. Coisas que não se passam com este ex-actor amador.

José do Carmo Francisco

«O preço de um ‘Scolari’»

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Lendo – já tarde – o «Público» de hoje, dou com esta Carta ao Director.
O autor é da casa. Por isso, esta discreta divulgação.

fv

Todos condenamos facilmente atitudes como a de Scolari depois do jogo com a Sérvia. Ainda que a muitos apetecesse o soco que ele não chegou a dar. A violência não é a finalidade do desporto, tanto mais que idealmente o imaginamos como escola e prática de virtudes.
Pelo Natal de 2005, tive a grata surpresa de uma amiga comum me ter posto em conversa telefónica com o “Felipão”, porque ela sabia que eu o admiro e, por um acaso vindo da infância, torço pelo seu verde Palmeiras. Uma das coisas que lhe disse foi que o futebol era uma escola exemplar de disciplina. Sem tempo então para lhe explicar a ideia, faço-o agora, caso ele leia esta carta.
O gesto irreflectido de Scolari pode custar-lhe muito caro. Muito mais caro do que o mesmo gesto em outras circunstâncias da vida. Sá Pinto pagou um preço altíssimo pelo seu impulso vingador da honra que julgou ferida. O equivalente a muitos milhares de contos e a quase um décimo da sua carreira. Duas faltas leves durante um jogo de futebol podem equivaler a um cartão vermelho, com a respectiva expulsão e o consequente prejuízo de milhares de euros, além de uma multa de centenas. E vale o mesmo uma simples palavra de desabafo em calão.
Não sei que castigo será julgado justo para Scolari. Mas, por mais leve que seja, será sem dúvida muito mais grave do que se ele tivesse perdido a calma num gabinete de trabalho ou num bar de esquina.
Talvez não possa nem deva ser de outra maneira. Mas que há uma enorme desproporção entre a justiça desportiva e a comum, disso não restam dúvidas.

Daniel de Sá
Maia, São Miguel

A festa de Vavette

Acabo de descobrir o vídeo musical do ano, realizado por Johan Söderberg para o tema «Dat Snurrar I Min Skalle» dos suequíssimos Familjen. Tudo não passaria de um virtuoso exercício de VJing por cima de um grande tema pop, não fosse a qualidade da matéria-prima visual utilizada. Estejam sobretudo atentos a dois momentos apocalípticos:

1) o repeat / reverse daquela Conceição a ser exorcizada (tipo Devil In & Out);
2) o repeat / reverse daquela Clotide a cantar de boca aberta (tipo Alélé-Alélu-Alélu-ya)

Depois digam que não sou vosso amigo. Seus ingratos.

anamnese, procura-se

Ainda trazia no braço direito o baixo-relevo de um vinco do lençol amachucado, quando chegou. «Ola beibi», dizia o matutino sms. O tratamento carinhoso vindo de um perfeito desconhecido é quase tão comovente como o que vem de um desconhecido perfeito. Intrigada com o número, que não consta dos meus contactos, devolvo um «quem é?» e recebo esclarecimento. Alguém a quem chamo amiúde, explica, reclamando por não identificar o seu número. Mais: alguém com quem estive intimamente ainda há pouco e cujo nome sou desafiada a adivinhar. Pouco depois ligou-me – e eu numa reunião, oh sorte. Tremo agora de curiosidade, ansiosa. Quero, e não quero, saber. Mistério da empatia. Alguém me conhece tão bem que recorda experiências minhas, recentes, das quais não conservo memória.

susana