anamnese, procura-se

Ainda trazia no braço direito o baixo-relevo de um vinco do lençol amachucado, quando chegou. «Ola beibi», dizia o matutino sms. O tratamento carinhoso vindo de um perfeito desconhecido é quase tão comovente como o que vem de um desconhecido perfeito. Intrigada com o número, que não consta dos meus contactos, devolvo um «quem é?» e recebo esclarecimento. Alguém a quem chamo amiúde, explica, reclamando por não identificar o seu número. Mais: alguém com quem estive intimamente ainda há pouco e cujo nome sou desafiada a adivinhar. Pouco depois ligou-me – e eu numa reunião, oh sorte. Tremo agora de curiosidade, ansiosa. Quero, e não quero, saber. Mistério da empatia. Alguém me conhece tão bem que recorda experiências minhas, recentes, das quais não conservo memória.

susana

18 thoughts on “anamnese, procura-se”

  1. Esse beibi parece que está a cumprir um qualquer acordo ortográfico ibérico. Digo-o por causa do “tú”, que só leva acento em castelhano e quando é pronome pessoal.
    Natural a curiosidade da Susana, que deve ser normal em quem esquece e finge não ter esquecido. E bem debulhada no texto.

  2. Susan, leio que o seu coração se divide entre polissemias e anamneses. O amor, pois, o amor é fodido. Sobretudo quando não é amor.
    Beibi, vá chatear e insultar outra e de caminho aproveite para aprender a escrever português e inglês. Mas antes de partir, pode explicar o que é para si intimidade? Decerto perceberemos todos como incorre num qualquer mal entendido maldoso.

  3. daniel, verdade, verdadinha, já tínhamos chegado à fala. a minha dúvida: seria uma brincadeira de uma amiga, ou um engano. era a segunda. uma mulher, de voz murcha, insistiu que não, que o meu número era de um amigo dela. que, naturalmente (já sou eu a fazer histórias, novamente…) lhe ligou muitas vezes de número oculto, deu um nº errado, e se esqueceu dela depois da dita «intimidade».

    leãozinho, saudades suas. :) como vê, não era abordagem, hehehe. por cada coisa que acontece há uma infinidade de possibilidades. válido, também, para o não acontecer. escolhi um momento anterior ao desfecho para contar a história e a possibilidade de uma interpretação sem a minha presença consciente. os meus disparates, já os conhece…

    doctor strangelove, se dizes que o amor é fodido porque é difícil, tens toda a razão. de resto o amor é bom, toda a gente sabe disso. quando é que não é amor, a pergunta que te deixo.
    da «anamnese» já sabes a realidade. quanto à polissemia, falei em espaço polissémico. amor é amor, mas os amores diferenciam-se. naquele caso, escrevi o texto depois de ter estado a olhar o céu ao lado da excitação fascinada e reverente do meu filho mais velho. agora foi a vez do mais novo, com expressão mais luminosa que os clarões, a mostrar-me o deslumbramento. e eu deslumbro-me com o deslumbramento deles, renova o meu. lembrei-me do ano anterior e voilá.
    suspeito, ainda, que no contexto o beibi interpretou «intimidade» como devia…

  4. cláudia, a minha falha nos títulos e autores. lembro-me de livros e filmes com grande nitidez e quando quero indicá-los… chapéu.

  5. z, li. Não concordo a 100%. Se os homens se fiarem essencialmente na beleza, estão feitos ao bife. Nem tudo o que brilha é ouro. Quanto ao beijo, bem, bem… já não digo nada. lol. E é bom sermos deliciosamente primitivos.

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