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Nascidos em caixas

Nenhuma norma ou lei – da Internet, do café ou da Galáxia – pode justificar o enxovalho público a que, há dias, foi submetido aqui o Daniel de Sá. A libérrima política do Aspirina em matéria de comentários permitiu que indivíduos exercessem a ofensa (não a crítica, a ofensa) sistemática.

Paralelamente a isso, construiu-se (se não nas intenções, decerto nos efeitos) um microclima em que a insinuação delirante ganhou rédea solta. Assim, alguns comentadores declararam-se «certos» de que o Daniel de Sá fora induzido à colaboração no Aspirina para ser publicamente massacrado. Uma variante virulenta desse delírio anunciou ao Mundo que esse é um procedimento habitual neste blogue.

Nada me obriga a dar acolhida a quem usa as caixas de comentários para a terapia de frustrações e paranóias. Anuncio que, nos «posts» que eu assine, valerá alguma – mínima, mas decidida – restrição. As caixas de comentários têm criado espaços onde frequentemente apetece estar. Deles, quanto de mim dependa, banirei a violência.

Nunca esquecerei que eu – e o Valupi, e o José do Carmo, e o Jorge – todos «nascemos», para o Aspirina, nas caixas de comentários (o João Pedro e a Susana já eram bloguistas – e o Zé Mário, bloguista pioneiríssimo, soube ser para alguns de nós um querido parteiro). O Daniel foi, apenas, o último a revelar-se… blogogénico.

Dois selvagens ao piano ou a guerra das flores

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A revista Lux do passado dia 4 de Junho trazia esta bacorada atribuída em discurso directo a um tal José Piano que com um seu irmão (também Piano) mantém uma loja de flores na Avenida da República: «Não é preciso comprar numa florista a cheirar a flores para mortos, pode fazê-lo numa florista com bom ar e sem ter de gastar muito dinheiro com isso.»

Trata-se de um gesto miserável que repete um outro no passado mês de Março na revista «N.S.» do Diário de Notícias, quando uns pobres de espírito que são donos de umas lojas de flores aqui no Bairro Alto chamaram às outras floristas da nossa zona «floristas de esquina». A jornalista Vera Moura assinalou-me a repulsa que lhe causou ter que escrever (transcrevendo) essas ridículas palavras, mas obviamente teve que as reproduzir tal como foram afirmadas por esses pobres de espírito.

Todos nós sabemos que isto está mal, a luta pela sobrevivência está a atingir proporções terríveis. Mas há um mínimo de dignidade que é preciso manter. Um pobre diabo, só porque tem uma loja de flores, não pode insultar os outros que também possuem lojas de flores. Não tem esse direito. Chamar a alguém «florista de esquina», ou dizer que esse alguém vende «flores para mortos», é uma atitude infame que não tem perdão. Até porque essas pessoas podem não saber francês ou tocar piano, mas são pessoas dignas, simpáticas e competentes no seu trabalho que ajudam a tornar a nossa vida um pouco menos cinzenta.

Apetece-me dizer a esses selvagens ao piano e a esses pobres de espírito uma fala popular que ouvi há pouco tempo aqui na rua: «Gandas malucos, vão vomitar para outro prédio!»

José do Carmo Francisco

MANIFESTO

A estupidez ganhou mais uma batalha. Cristo aconselha a dar a outra face, e já o fiz aqui uma vez. Mas isso foi com o Jorge Carvalheira, homem de grande talento e que, no caso, tinha alguma razão. Todavia, a face que podemos dar, se a tanto nos chegue a tolerância, é a nossa mesma. A dos outros, devemos defendê-la o melhor de que formos capazes. E vocês escolheram o momento errado para o fazerem, ó acéfalos dos pseudónimos multiplicados. Porque, monstros do absurdo, atingistes uma família exemplar. E já aí vinha aparecendo o mote da menoridade mental das ilhas. Ilhas onde nunca se queimou uma rapariga por ter fama de bruxa, como na zona geográfica, e umas duas décadas antes, do conto que não passa de um capítulo truncado de um livro meu. E, enquanto socialistas e comunistas lutavam em Lisboa pela divisão do país entre si, aqui sofríamos juntos prejuízos graves na integridade física e risco real de vida, para que Portugal, ao menos no mapa, continuasse unido. Eu fui um dos principais alvos, e nunca virei a cara à luta. Mas essa era uma luta que valia a pena, embora, perante casos como o desta turba ululante que andou a morder-me, chegue quase a duvidar de que sim. Ser português com gente desta envergonha. Porque foi gente assim que fez dos liberais ditadores tão violentos como os partidários de D. Miguel, que espatifou o ideal republicano, que ofereceu a cadeira onde haveria de sentar-se o homem de Santa Comba.

Eu admiro há muito tempo o Fernando Venâncio, e há uns vinte anos sou amigo do José do Carmo Francisco, que também admiro. E depressa me tornei um entusiasta da escrita do Jorge Carvalheira e do Valupi, e das aparições da doce Susana. Mas não suporto o grau zero da inteligência afectiva da turba acéfala de comentadores. Por isso lhes deixo o meu desprezo. Sem um pingo de remorso nem uma gota de ódio. Porque o não merecem.

Ficai-vos na sombra de onde espreitais as vítimas que aleatoriamente escolheis. Sede felizes em assassinar moralmente quem vos apetecer. Já sabeis o meu nome, embora pouco saibais de mim. Não procureis conhecer muito mais, para vos sentirdes mais à vontade a continuar ferindo, se vos der na gana.

Tenho pena de que um blog tão bem concebido atraia tal multidão de porcos. Que hão-de continuar a abocanhar as pérolas frequentes que aqui aparecem. O problema é com os bons joalheiros que cá existem. Que continuem, se a tanto lhes bastar o ânimo. Por mim, a experiência foi já suficiente.

Não quis reagir a quente, mas afinal a lucidez foi-me perturbando cada vez mais. E pela última vez peço desculpa: àqueles cujos nomes referi, sobretudo ao Fernando Venâncio.

Para eles, o meu abraço e a minha disponibilidade total. Mas não aqui.

DANIEL DE SÁ

Primícias – 2

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O exército é o espelho da nação, e isto era o que se lia nos panfletos colados a esmo nas ruas da cidade, virava-se uma esquina e logo tropeçavam os olhos naqueles rectângulos de cor envergonhada e baça, não tão baixos que pudesse mão herética meter-lhes a unha e silenciá-los, nem tão altos que risco houvesse de perder-se na atmosfera da tarde a jaculatória patriótica, o exército português é tão bom como os melhores.

Muito melhor que os melhores, diremos nós para que a verdade se saiba, pois convém a César dar o que de César é. E para o provar vamos ali à foz do Massanza, um destacamento avançado onde um pelotão de atiradores vai defendendo a soberania, do outro lado do rio alastra na paisagem, entre arames farpados, uma sanzala de realojados, que estendem ao sol as misérias da lepra.

Um dia os rústicos soldados saíram dos abrigos e deram-se a construir uma pista de aterragem, tinham-lhes prometido uma avioneta que poisaria ali uma vez por quinzena, não há nada melhor para romper o isolamento, para resistir à loucura ou receber o correio que houver, sempre se tem a ilusão duma ligação ao mundo. À custa de tempo e de suor aplainaram à mão esta faixa com dez metros de largo, esquartejaram umas dúzias de mangueiras bravas que arrastaram para as bermas, a pista começava logo à beira do rio e alongava-se até tropeçar ao fundo na colina, o resto do milagre haviam de fazê-lo os aviadores. E um deles o terá feito, uma vez sem exemplo, aterrou um dia a passarola mas só saiu daqui deixando atrás a carga toda e metade da gasolina, que a pista foi celebrada com cerveja mas não ia além de sessenta metros mal medidos, tudo quanto podemos fazer é passar em voo rasante e largar os sacos de biscoitos e massa, é largar as latas da marmelada e do atum, é largar os sacos do chouriço e da carne, se a houver.

E foi a partir daí que toda a canzoada da sanzala passou a regular a vida por um estranho calendário, mal se ouve ao longe o roncar dum avião e logo os bichos se põem a atravessar o rio, espadanando na água as patas frenéticas. Cada um escolhe o seu terreno ao longo da pista, e é vê-los a disputar aos irados soldados os restos dalgum saco rebentado, lá vai este a fugir para o mato com um par de chouriços nos dentes, aquele abocanhou um pão, a princípio ainda se ouviam tiros e rajadas a afugentar os bichos, agora já nem isso, toda a gente afinal concluiu que a vida custa a todos, que todos ficam parecidos no retrato, o exército português é melhor do que os melhores.

Jorge Carvalheira

Laura

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Laura, a mais maldita e mais desejada em toda a serra… Olhos como os seus Deus não deveria dar a uma mulher destinada a ficar viúva tão moça ainda. Ou teria ela de os não ter ou teriam os homens de andar cegos para que não vivesse sempre em risco de perdição. E tudo no seu corpo estava-lhe feito à medida, ou pelo mesmo valor das duas pérolas negras que faziam coruscar desejos.

A única fortuna que lhe ficara, depois de o marido morrer, foram aquele corpo e aqueles olhos que já levara no dote. “Negros como os do Diabo”, diziam as velhas pudicas, compondo as saias nas pontas dos pés, ou as raparigas invejosas de os seus não serem iguais. Para elas, beleza e pecado eram causa e consequência, lodo e lódão sinónimos absolutos. Em reservada lura se acoitaria ela, sem nunca se ver o efeito da devassidão. Pois pudera! Se vivera quatro anos com o marido sem gerar alma viva… Era estéril, erma como os penhascos da serra, podia dar-se a gostos sujos sem nunca ter de lavar cueiros.

DANIEL DE SÁ
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Os livros nas prateleiras do IKEA

Uma recente e dolorosa experiência em Alfragide nos Armazéns IKEA, durante um dia que parecia nunca mais acabar, levou-me a ver aquela coisa das prateleiras das mobílias em exposição com outros olhos. Há dezenas de prateleiras em dezenas de móveis de cozinha, de sala de estar e de quarto, prateleiras povoadas por livros a sério. Livros verdadeiros. São centenas e centenas de livros escritos em sueco, editados em sueco e de escritores suecos mas não só. Por exemplo há livros de Vidiadhar Surajprasad Naipaul que não é sueco (nasceu em Trindade e Tobago em 1932), mas tens livros seus traduzidos em sueco. E alguns deles estão no IKEA de Alfragide.

Mas a comunicação é impossível. Ninguém lê V. S. Naipaul em sueco no nosso país. Ninguém lê os romancistas suecos que escrevem livros em sueco comprados pelo IKEA para povoar as prateleiras das mobílias de cozinha, de sala de estar e de quarto. Aí é que bate o ponto. Livros suecos em Portugal nas prateleiras do IKEA não foram, não são nem serão nunca lidos por ninguém. Se o efeito era apenas fazer sombra nas prateleiras, não era preciso ser com livros verdadeiros, porque o efeito será o mesmo seja o livro a sério ou seja a fingir. E assim há muita gente na Suécia que não lê esses livros.

A mulher do António Alçada Baptista tinha o hábito de responder quando ele lhe perguntava o que devia fazer a uma coisa fora de uso, como por exemplo uma lista telefónica, «Dê isso a um pobre!». Mas o problema é que não podemos aplicar esse exemplo ao caso do IKEA. De maneira nenhuma. Na Suécia não há pobres.

José do Carmo Francisco

Um hino à vida

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No Correio da Horta de 26 de Outubro de 2006, li um “Agradecimento” que me emocionou muito. Vinha acompanhado da fotografia de um menino, chamado Guilherme, e referia duas datas: 10/08/2001 – 27/09/2006. Nada mais. Mal acabei a leitura, peguei numa folha de papel e numa esferográfica, e improvisei um breve poema.

Depois vim a saber que aquele menino era neto de Antero Gonçalves, um dos nomes míticos do desporto açoriano. Atleta de várias modalidades, foi no futebol que se tornou famoso. No Fayal Sport, o clube mais antigo dos Açores. Um Homem extraordinário. Enviei-lhe o poemazinho, e ele acabou por me pedir autorização para o gravar numa lápide em memória do neto. Aqui vos deixo o “agradecimento” como lição de vida, ou do sentido da vida, só possível em espíritos de eleição. E o poemeto.

“AGRADECIMENTO. Aos meus queridos avós, primos, padrinhos, tios e familiares. A todos os da minha orgulhosa Escola B1/J1 da Vista Alegre – coleguinhas, professores e auxiliares de educação. Aos meus companheiros de futebol e aos treinadores da Escolinha de Futebol do FSC. A todos os amigos dos meus pais que simpatizaram comigo. Aos médicos, enfermeiros e funcionários do Hospital da Horta que sempre foram muito carinhosos comigo sempre que precisei de lá ir. Aos meus grandes amigos médicos Drª. Isabel Gonçalves, Drª. Carla Veiga, Dr. Emanuel Linhares Furtado e restante equipa, enfermeiros, auxiliares de acção médica, professores da salinha de actividades e funcionários do Hospital Pediátrico de Coimbra, e por último a todos aqueles que me acompanharam na igreja Matriz da Horta numa maravilhosa celebração eucarística no dia em que cheguei ao meu querido Faial, o meu agradecimento por me terem permitido ser tão feliz durante os meus 5 anos de vida.”

UM HINO À VIDANem flor efémera, leve
Como um sorriso perdido.
Nem borboleta tão breve
Que num voo só alcança
O tempo de ter sido,
Num bater de asa que dança.
Nem um até amanhã,
Que amanhã é outro dia,
É dia de outros, mamã,
E com a mesma alegria.
Nem mil beijos ou abraços.
Nem mais passos… nem mais passos…
Nem flores de despedida,
Nem vozes contra o destino.
Só isto: mudei de vida
E serei sempre menino.

DANIEL DE SÁ

«Ex-libris»

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Há vinte boas razões para ler-se o conto «Ex-libris», de VASCO GRAÇA MOURA, no «Actual» do último EXPRESSO, que começa assim:

O meu nome é João de Melo Saraiva e nasci em 1950. Sou engenheiro informático. Além disso, colaboro com várias leiloeiras na elaboração de catálogos de livros antigos. Esse é o meu hobby e também me rende algum dinheiro. A minha mulher pôs-se a andar, vai para 20 anos, assim, sem mais nem menos, por lhe ter dado a súbita guinada de ir viver para Jerez de la Frontera com um espanhol que ela conhecera numa caçada à raposa em que tínhamos participado. Só a Helena é que montava a cavalo e eu preferi passar a manhã a espiolhar a biblioteca do monte alentejano dos nossos anfitriões. Tudo começou aí. Ela deixou-se fascinar pelo bigodinho rente, pela melena de cigano, pela casaca vermelha muito assertoada e pelas botas de montar do sujeito, enquanto eu me enfronhava em velhos cartapácios e ia tirando uns apontamentos sobre a edição de Os Lusíadas de 1613 e a biografia do épico, sob o título de «Ao estudioso da lição poetica», assinada por Pedro de Mariz.

Mas cedo o protagonista entrará em pormenores que – não fosse a minha sólida modéstia – me estragariam para a vida. Veja-se isto:

Nunca tive grande paciência para o Castilho, salvo a propósito das análises sobre «estilo e preconceito» de Fernando Venâncio, um professor que vive na Holanda. Nunca encontrei (nem procurei) a página em que ele diz isso e que, se estou bem lembrado, começava enfaticamente: «A leitura, meus amigos, sabeis vós bem o que é a leitura?…»

Pronto. Leiam o resto.

A sério, não tinha mesmo mais nada para fazer do que escrever este post

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O ser humano, mais do que uma grande besta, é um exímio catalogador. Do sistema geneológico da Poética de Aristóteles à Classificação Nacional das Profissões por parte da mui saudosa Secretaria de Estado do Emprego do Ministério do Trabalho da República Portuguesa, não faltam por aí exemplos dessa fúria taxonomista e mereológica. Reparemos na música: ele há o pop, o rock, o punk, o hip-hop, o trip-pop, o easy-listening, o lounge, o techno, o UK garage, o reggae, o ragga, o 2 step, a wave, a new-wave, a new wave of the new wave, o metal (heavy, speed, doom, trash, nu, gothic e quejandos) – no fundo, uma berdadeira Vavel de géneros e estilos que apenas servem para confundir o melómano e fazer sorrir o melófobo. Por isso, nos últimos dias, e apesar de possuir uma alma de ornitorrinco, resolvi dedicar algum do meu tempo a tão delicada matéria. E é agora com uma certa José Mourinhice fase pós-Chelsea que vou partilhar aquele que considero ser o único sistema mereológico válido e útil para classificarmos qualquer manifestação musical.

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Simples, não é? Sem querer antecipar-me às críticas que algumas pessoas mais distraídas poderão fazer deste meu sistema de classificação, gostaria apenas de dizer que a concepção desse modelo não tem absolutamente nada a ver com o facto de andar há uma semana a ouvir Comicopera, a mais recente obra-prima de Robert Wyatt. Trata-se apenas de separar o trigo do joio, nada mais do que isso. A dupla seta que surge no esquema pretende significar que uma cover feita por Robert Wyatt é, no fundo, equivalente a um original seu, na medida em que uma versão sua possui sempre uma genuinidade que o original desconhece. Para exemplificar, deixo-vos dois temas do último disco: o primeiro é um original intitulado «Just As You Are» (em dueto com a brasileira Mónica Vasconcelos) e o segundo uma versão do tema «Del Mondo», uma canção original dos CSI (Consorzio Suonatori Indipendenti), um dos projectos musicais do grande Giovanni Lindo Ferretti. Descubram lá as diferenças.


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Willie was very fond of his mother when he was little. He prayed to God and said: «Please God I want to love my mother with my whole heart and soul. And I want everything to be like it is now.»
And God answered: «Okay, Willie.»
Then Willie met this beautiful woman.
«As a matter of fact I want you to change that, I want you to make it that I love my wife.»
«Okay, Willie.»
And Willie had a son.
And he says: «I want that changed.»
And God said to the angels: «Take care of Willie.»
And the angels said: «What are we going to do with these human beings they all want the same thing and want it changed?»
And God says: «Arrange it that way. Everything stays the same and everything changes. What is in the world is really opposites.»

Agnes Martin, «Willie Stories», em Writings, Hatje Cantz, Ostfildern-Ruit, 2005

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Agnes Martin, Untitled, 1978
Aguarela e tinta da china colorida sobre papel, 22,9 x 22,9 cm

susana

Uma inesperada lição que vem de Inglaterra

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De Inglaterra não tem vindo nada de positivo nos últimos tempos. Só médicos e monstros. Monstros e médicos. Arrogância e estupidez, jornalismo de sarjeta e mais estupidez. Nojo e repulsa. Maldade em estado puro; se é que isto se pode escrever.

Pois eu rejubilei ao ler um livro inglês de Clive Gifford, Football – the ultimate guide to the beautifull game, editado para Portugal pela Sistema J como O mais belo jogo do Mundo. É óbvio que fui logo ver o que é que lá estava sobre o futebol português. Gato escaldado de água fria tem medo.

Mas não há razões de queixa. Pelo contrário: o que está escrito está correcto e é uma lição para muitos jornalistas portugueses que se limitam a «repetir os erros dos anteriores» como o caso da paranóia das Ligas. Entre 1935 e 1938 disputaram-se torneiros particulares ao mesmo tempo que continuava a ser disputado o campeonato de Portugal que teve o seu início em 1921 e durou até 1938. Como o Benfica ganhou 3 desses torneios, muitos jornalistas começaram a considerar essas provas como campeonatos, fingindo esquecer que o campeonato de Portugal só acabou em 1938.

Pois este livro não está com meias medidas: explica com muita calma que «como ficavam muitos domingos livres disputaram-se também as Ligas durante 4 anos (1935/1938) vencendo o F.C. Porto uma e o Benfica três.» Mais à frente explica que o campeonato nacional começou em 1939 quando a Federação resolveu criar a Taça de Portugal com jogos a eliminar e o campeonato a disputar por pontos e em duas voltas.

Fingir que os torneios experimentais de 1935/1938 já eram campeonatos da série que começou apenas em 1939 só para gente ignorante. E veio um livro de Inglaterra pôr os pontos nos is.

José do Carmo Francisco

Fábula

Entraram à noitinha na taberna, mandaram encher dois copos. Vinham de longe, quiseram impressionar.

– E aquela ribeira que passámos, onde havia um moinho no bico dum choupo?! – atirou ao moço o almocreve.

– Não vá, senhor, sem resposta! Nesse lugar vi um dia dois machos eguariços, carregados de fanegas, a trepar choupo acima! – isto retorquiu um aldeão.

– Pois hoje mesmo topámos nós um ganapo de sete braços! Está aqui o moço que não me deixa em mentira!

– Minta mais a modo, meu amo! Que o rapaz de sete braços não chegámos a topá-lo! Vimos-lhe foi a camisa de sete mangas, pendurada no estendal!

Transigiu o almocreve, e pagou uma geral.

Jorge Carvalheira