Dois selvagens ao piano ou a guerra das flores

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A revista Lux do passado dia 4 de Junho trazia esta bacorada atribuída em discurso directo a um tal José Piano que com um seu irmão (também Piano) mantém uma loja de flores na Avenida da República: «Não é preciso comprar numa florista a cheirar a flores para mortos, pode fazê-lo numa florista com bom ar e sem ter de gastar muito dinheiro com isso.»

Trata-se de um gesto miserável que repete um outro no passado mês de Março na revista «N.S.» do Diário de Notícias, quando uns pobres de espírito que são donos de umas lojas de flores aqui no Bairro Alto chamaram às outras floristas da nossa zona «floristas de esquina». A jornalista Vera Moura assinalou-me a repulsa que lhe causou ter que escrever (transcrevendo) essas ridículas palavras, mas obviamente teve que as reproduzir tal como foram afirmadas por esses pobres de espírito.

Todos nós sabemos que isto está mal, a luta pela sobrevivência está a atingir proporções terríveis. Mas há um mínimo de dignidade que é preciso manter. Um pobre diabo, só porque tem uma loja de flores, não pode insultar os outros que também possuem lojas de flores. Não tem esse direito. Chamar a alguém «florista de esquina», ou dizer que esse alguém vende «flores para mortos», é uma atitude infame que não tem perdão. Até porque essas pessoas podem não saber francês ou tocar piano, mas são pessoas dignas, simpáticas e competentes no seu trabalho que ajudam a tornar a nossa vida um pouco menos cinzenta.

Apetece-me dizer a esses selvagens ao piano e a esses pobres de espírito uma fala popular que ouvi há pouco tempo aqui na rua: «Gandas malucos, vão vomitar para outro prédio!»

José do Carmo Francisco

4 thoughts on “Dois selvagens ao piano ou a guerra das flores”

  1. Este é sem dúvida um dos grandes males da sociedade portuguesa, José. Ainda ontem, aqui no Porto, ouvi um motorista dos STCP e um passageiro encetarem o seguinte diálogo:

    – Vela fotografia essa do passe, Narciso.
    – Gostas, é? Olha que o modelo também nom é nada de se deitar fora…
    – Tou bendo.
    – E quando é que sais, ó coisa fôfa?
    – Fala vaixo, que bai ali o cunhado da minha bizinha. Às sete e meia.

    (Ups, wrong dialogue, este é que é:)

    – Ó rapaz! Bai-me gomitar pra outro prédio, carago!
    – Tu deves ser filho de alguma florista de esquina, nom?
    – Ai soua? Entom põe-te a paue, que lá também bendo flores para mortos, oubistes?

    Um despautério.

  2. Não sei que mal tem a expressão floristas de esquina, rais ma partam! Os manos Piano também não passam duns snobzitos (de esquina), mas não vem daí mal nenhum ao mundo. Agora esta história não deixa de me intrigar, pois às tantas fala-se duma jornalista, com nome e tudo, a qual eu fiquei com a impressão de que constitui o verdadeiro centro nevrálgico em torno do qual gira todo o post. Dada a gritante actualidade duma frase cinzenta pescada numa revista de dentista datada de Junho passado, presumo legitimamente que aqui haverá outro caso, muito mais interessante, que se desenrola à frente dos nossos olhos sem que nós demos por ele.

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