Primícias – 2

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O exército é o espelho da nação, e isto era o que se lia nos panfletos colados a esmo nas ruas da cidade, virava-se uma esquina e logo tropeçavam os olhos naqueles rectângulos de cor envergonhada e baça, não tão baixos que pudesse mão herética meter-lhes a unha e silenciá-los, nem tão altos que risco houvesse de perder-se na atmosfera da tarde a jaculatória patriótica, o exército português é tão bom como os melhores.

Muito melhor que os melhores, diremos nós para que a verdade se saiba, pois convém a César dar o que de César é. E para o provar vamos ali à foz do Massanza, um destacamento avançado onde um pelotão de atiradores vai defendendo a soberania, do outro lado do rio alastra na paisagem, entre arames farpados, uma sanzala de realojados, que estendem ao sol as misérias da lepra.

Um dia os rústicos soldados saíram dos abrigos e deram-se a construir uma pista de aterragem, tinham-lhes prometido uma avioneta que poisaria ali uma vez por quinzena, não há nada melhor para romper o isolamento, para resistir à loucura ou receber o correio que houver, sempre se tem a ilusão duma ligação ao mundo. À custa de tempo e de suor aplainaram à mão esta faixa com dez metros de largo, esquartejaram umas dúzias de mangueiras bravas que arrastaram para as bermas, a pista começava logo à beira do rio e alongava-se até tropeçar ao fundo na colina, o resto do milagre haviam de fazê-lo os aviadores. E um deles o terá feito, uma vez sem exemplo, aterrou um dia a passarola mas só saiu daqui deixando atrás a carga toda e metade da gasolina, que a pista foi celebrada com cerveja mas não ia além de sessenta metros mal medidos, tudo quanto podemos fazer é passar em voo rasante e largar os sacos de biscoitos e massa, é largar as latas da marmelada e do atum, é largar os sacos do chouriço e da carne, se a houver.

E foi a partir daí que toda a canzoada da sanzala passou a regular a vida por um estranho calendário, mal se ouve ao longe o roncar dum avião e logo os bichos se põem a atravessar o rio, espadanando na água as patas frenéticas. Cada um escolhe o seu terreno ao longo da pista, e é vê-los a disputar aos irados soldados os restos dalgum saco rebentado, lá vai este a fugir para o mato com um par de chouriços nos dentes, aquele abocanhou um pão, a princípio ainda se ouviam tiros e rajadas a afugentar os bichos, agora já nem isso, toda a gente afinal concluiu que a vida custa a todos, que todos ficam parecidos no retrato, o exército português é melhor do que os melhores.

Jorge Carvalheira

5 thoughts on “Primícias – 2”

  1. Estas teus retratos da África colonialista e dos soldados do empório estão a ficar como o chá ou café. Bebe-se, bebe-se, não nos fartamos, mas fazem-nos esquecer bebidas muito melhores. Actualiza-te, filho, para b em dos escritores de meia-nata como tu. Se queres ensinar a esta gente, fala-nos dos “problemas” que vieram depois e que ajudam a compreender melhor a África e os poderes que a têm mantido em estado muito pior que no tempo do colonialismo. Prosseguires nestas descrições de comportamentos e reflexos caninos é postal sem selo que nunca chegará ao seu destino.

    Não considderes isto golpe baixo tipo anti-Daniel e Soledade. Quem te critica bem te quer. Que vergonha um filho perguntar-te daqui a uns anos onde é que tinhas a massa encefálica quando ele era menino.

  2. Os quadros africanos do JC, estou-me a lembrar também da pista dos Bijagós, são únicos e preciosos, porque nos dão, em português depurado e certeiro, cenas vividas, raras e inéditas, cheias de matéria de reflexão para quem não é distraído. Mais problemática borrava o desenho. Não é preciso explicar África (ela está lá!) nem o que veio depois (basta pressenti-lo). Yes sir outra vez!

  3. Caro Jorge
    A mãe cadela pariu apressada mais um daqueles cachorros cegos, condenado a andar para aí a fazer figura de cão vadio. Apressada é um modo de dizer, pois o parto foi mais longo do que a cobrição e a cachorra arrastou uma prenhez suspeita – digo eu – pela falsa paternidade de sete ou oito cães vadios que lhe farejaram o traseiro. Brrrr!!!!
    Serve este intróito para lhe dizer que, por alguns escaparates (poucos, por decisão minguada e a habitual tacanhez do autor), vai andar mais um livro da minha autoria, talvez como corolário de uma desfaçatez de que não vou abdicar nesta fase da vida.
    Donde, então, a perplexidade?
    Sequente à pergunta, segue a resposta: trata-se do livro que leva no título “O Padre Costa de Trancoso” e que, antes da sessão de apresentação, já se encontra sob os focos da mediática corporação de jornais e televisões, se bem que, pelas últimas, passou em nota de rodapé.
    Para que ninguém chore lamúrias dos dinheiros injectados no livrinho de 168 páginas, saiu do meu bolso todo o custo da empreitada e a responsabilidade de o deixar ao deus-dará, com o sacerdote Varrão agarrado pela sotaina e pela bem avantajada ninhada de chorões ranhosos.
    Jorge, se um livro é suposto ser “um filho”, há-de entender que ainda me faltam muitos para conseguir ombrear com o nosso sacerdote de Santa Maria de Guimarães, o qual, por minha escolha, foi transferido de armas e bagagens para a paróquia de S. Tiago.
    De resto, o seu exemplar encontra-se guardado; seja a conveniência de ele ser “cego” e não poder conduzir quem o seja também.
    Um abraço

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