Prémios para EPC – 1

729078.jpg

Eu sabia, sabia que o tinha feito. Eu lera Tudo o que não escrevi, de Eduardo Prado Coelho, como ele diz que poucos críticos em Portugal fazem, «de lápis na mão». Não o li como crítico. Apenas como curioso. Muito curioso, aliás.

Reabro hoje (já o fizera mais vezes) esses dois volumes. E vejo que o meu lápis foi, ao longo deles, desenhando um retrato de EPC. O meu retrato de EPC. Cada linha dele, desse retrato, pode levar hoje um prémio. Prémios meus, ça va sans dire.

Prémio E Diz Você Isso Nessa Linguagem Luminosa

«O que os simplificadores não entendem é afinal algo que se pode dizer numa frase muito sim- ples: que vale sempre mais correr o risco da obscuridade e da ilegibilidade do que ficar no conforto da acessibilidade. Feitas as contas, foi sempre a obscuridade que venceu» (vol. I, pág. 27).

Prémio Mas Ele Até Tem Invejosos Baris

«Somos todos vítimas do poder pessoano, mas vítimas recompensadas e felizes. Pessoa não esconde, nem faz sombra, ao contrário do que pensam os invejosos apressados» (vol. I, pág. 79).

Prémio E Se Fosse Só O Canal Da Mancha?

«Ainda hei-de um dia tentar compreender melhor que imagem do quotidiano me separa tão visceralmente de tudo o que é Laura Ashley» (vol. I, pág. 106).

Prémio Nem Imaginou Você Como Vem A Propósito

«O gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. […] Retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio» (vol. I, pág. 113).

Edições Asa, primeiro volume, 1992, segundo volume, 1994

2 thoughts on “Prémios para EPC – 1”

  1. Um amigo meu lembrou que já enterrámos muitas vezes o melhor poeta português, o melhor escritor português, etc., tendo chegado agora a vez de enterrar, pela enésima vez, o melhor cronista. Este seu comentário veio na sequência de um meu em que eu dissera que, para EPC, a cultura lá fora era Paris, e, em Portugal, Lisboa. A alta cultura portuguesa deleitou-se com ele, ou tal fingiu, apesar de ele ter uma atitude de frequente desprezo para com essa mesma cultura que o mitificou. Vivemos muito dos fogos fátuos da crítica. Há umas largas décadas, David Mourão Ferreira escreveu que “Mau Tempo no Canal” era o melhor romance português do século XX. Sessenta anos e milhares de romances depois, ainda há quem repita isso, talvez sem sequer ter lido aquele romance que eu, rústico, só consegui ler à segunda tentativa e para valorizar o dinheiro que ele me custara. Mete-se nas mãos de uma criança, acabada de sair das artes do Harry Potter, ou ainda entusiasmada com elas, coisas como o “Memorial do Convento”, e depois aqui del-rei, que esta juventude não gosta de ler. Tenta um pobre professor ensinar o essencial da pontuação, e dão-lhe aquele senhor, que até escreve muito bem (também o Picasso pintava), dizem-lhe que ganhou o maior prémio de literatura do Mundo, e depois como é que se lhe explica que é preciso saber usar muito bem a língua para saber desconstruí-la? (Também o Picasso sabia muito de pintura, e por isso foi capaz de tamanha desconstrução.)
    Precisamos é de novos Camilos, de novos Gomes Leal, de novos Júlios Dinis, de gente que escreva de modo a entusiasmar o povo, mas com qualidade. Creio que EPC não entra nesta categoria.
    A minha companheira de bancada de há trinta anos, de que aqui já falei – a Conceição Bettencourt –, não sei o que diria nestas circunstâncias. Quando morreu um deputado muito novo, do PPD, de uma doença tenebrosa, foi proposto um voto de pesar. Pesar pelo homem ela sentia, não concordava era com a grinalda de louvores que lhe era tecida. Por isso saiu da sala no momento da votação. Umas lágrimas, muito bem; uma canonização, nem pensar.
    Estou na mesma posição, quanto ao EPC.
    Desculpem o exórdio. Poupo-vos ao corpo do discurso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.