Crónica dum tempo

De manhã levantávamo-nos às oito e vinte e cinco para a aula das oito e meia, apertávamos os botões no caminho e galopávamos por escadarias e vielas íngremes contra o vento aguçado que nos fazia esperas às esquinas, e nos mordia a porcelana rósea das orelhas. O maço dos cadernos abraçado ao peito baloiçava ao compasso do coração que nos trotava desenfreado, e só amainava depois de entrar na sala, antes que se esgotasse a tolerância da campainha despótica. Lá dentro a norma era a do livro único, e o saber era um testamento de verdades definitivas, a gotejar dos lábios pausados do mestre sobre a turma desatenta, perdida a imaginar a vastidão dos desertos de Gobi ou a violência do mar nas escarpas da Camecháteca.

Jorge Carvalheira
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Em Maio, quando voltava o sol que trazia ameaças de exames próximos, cortávamos em três a lombada dos compêndios e passávamos os dias, de cadernos enrugados na mão, na passada mística de monges em retiro, a recitar a litania das revisões na estrada da Dorna ou nas curvas do matadouro. Nessa época mudava todos os dias a geografia do mundo, havia sempre um nome de país novo a acrescentar no compêndio, riscai na página cem a colónia do Alto Volta, que passou esta noite a chamar-se Burkina Faso e tem a sua capital em Uagadugu. Mudava todos os dias a geografia do mundo, que estava simplesmente dividido em bons e maus e era menos incompreensível do que é hoje. Gentes e países maus eram aqueles que nunca se contentavam com o que Deus mandava, e passavam a vida a reclamar mudanças e transformações. Do lado dos bons estavam os que aceitavam a autoridade estabelecida e a ordem ancestral, e Portugal era o melhor de todos porque em Portugal nunca mudava nada, o povo ia cumprir as promessas a Fátima, os ministros limitavam-se a ministrar, os polícias policiavam, os doutores doutoravam, os pais faziam filhos e suavam, as mães sofriam e calavam, os trabalhadores deviam trabalhar e aos estudantes competia decorar os compêndios sublinhados, e sobre todos mandava Salazar, para Angola, rapidamente e em força.
Mas nem todos os professores se limitavam a professorar. Alguns sabiam deveras do que falavam, por isso eram homens tranquilos que vinham à rua sem gravata e passeavam connosco ao travesso da Praça Velha, a mostrar-nos que era vão o gesto de ajoelharmos na relva do D. Sancho, de braços abertos, no ar, ali no meio da praça, como quem saúda Mafoma. Ou o de assistirmos, perfilados, aos domingos, à saída da missa da Misericórdia, em guarda de honra à passagem de matronas que amaçavam romper os espartilhos, e das meninas que disfarçavam sorrisos, embrulhados em véus de catequista. Pena é que fossem poucos, os professores, pois eram tolerantes com os guinchos da campainha despótica, e até às vezes saíam do deserto do compêndio para falar connosco doutras coisas mais urgentes da vida.
Nós não sabíamos nada do mundo, que era nessa época mais agreste e menos incompreensível do que viria a ser, limitávamo-nos a vê-lo à distância a que estava duma cidade ainda mais remota do que é hoje, e bem mais acanhada e submissa. Sentávamo-nos às tardes no café Monteneve, que era o café dos doutores, estava quente lá dentro e havia painéis de azulejo com pastores e cães da Serra, discutíamos os dramas do João Barois – se o universo, a natureza, o nosso próprio corpo não é senão um campo de batalha onde se confrontam miríades de células, como pode a sociedade dos homens ser diferente e estática, ou que vamos nós fazer deste absoluto dogmático dum deus imóvel e cristalizado? – líamos Walter Scott e o Cavaleiro Andante, jogávamos xadrez à procura duma nova saída de cavalo, construíamos textos à volta dum desenho improvisado numa folha e fumávamos cigarros Impala, que o Zé Corno vendia a três por cinco tostões. À noite, nos filmes para adultos, íamos ao cinema com cédulas de amigos mais velhos, e lançávamos gatos do alto das muralhas, para comprovar se caíam em pé. No Regalo do Boi cozinhavam-nos de borla uma galinha quando entregávamos duas, era tarefa a dobrar nos quintais do Torreão, mas sempre havia alguém que soubesse resolvê-la a preceito. Havia quem estudasse hipnotismo por correspondência, o manejo de forças misteriosas abria na verdade passagem para outros mundos, e o Fernandes deu mesmo um passo gigantesco nos territórios do oculto, quando recriou, misturando mezinhas com elixires de droguista, a mágica alquimia que reduziria a mel o coração das colegas de Letras. Trazia ali a fórmula no bolso, dentro dum frasco de vidro, ao menos ficou explicado o fedor medieval que irradiava do rapaz.
Nós não sabíamos nada do mundo, apenas achávamos incómoda aquela espécie de silêncio de claustro, e suspeitávamos com vaga intuição de que havia em tudo uma outra história a desvendar. Tínhamos ouvido falar no saber e no livre pensamento, que transforma cada súbdito num cidadão, e acreditávamos piamente nisso, ainda não chegara o tempo das dúvidas e das desilusões. Trotávamos como gamos pela avenida das tílias na direcção do parque, o colégio das freiras era uma fortaleza com janelas que nunca se abriam, povoada por donzelas que viviam no maior recato e que nós considerávamos prisioneiras. As nossas emoções afectivas fervilhavam em circuito fechado, a turma só tinha rapazes e tudo o mais era um grande segredo. Discutíamos estas coisas caminhando nas veredas de saibro, na altura era toda a encosta uma grande mata de abetos, e um dia alguém encontrou num recanto os restos da donzelia de uma dessa prisioneiras, resumidos a uma esfarrapada peça íntima. Logo alguém arriscou desmascarar o fauno, e constou que era conhecida a pecadora. Porém, se a espinhosa verdade nos ia resistindo às investigações, muito mais duro, empedernido e encrespado se havia de mostrar o coração da velha madre directora, insensível como foi à carta que lhe enviámos a defender a causa da pobre madalena, caída neste lance por tão terreno momento de fraqueza. Nunca a retórica dos bíblicos exemplos foi tão inválida e vã, aquele de entre vós que não pecou lance a primeira pedra, nem o anjo da espada de fogo teria sido mais casmurro. Ainda não tinha passado uma semana, já a arguida estava expulsa da prisão.
Um dia a universitária marcou-nos encontro no café. Chegava de Coimbra, mais que todos, para nós, um lugar mítico. Era uma bela estampa de mulher, e calçava umas botas que geraram em nós persistentes fixações fetichistas. Foi ela que nos trouxe, repetidas vezes, notícias da contestação que agitava a universidade, e nos confirmou a suspeita de que o mundo era um lugar inquieto, e nos fez tomar consciência de que ninguém podia dar corda às pessoas e deixá-las a tocar pratos toda a vida, como bonecos de feira. Nós fazíamos uso ostensivo da sua companhia, passeávamos com ela pelas praças como quem exibe um troféu, a sua atenção, afinal, dava-nos estatuto e significado, pensávamos nós. Ela aceitou claramente a vassalagem, estamos para saber quem tirou deste arranjo o proveito maior.
Terá sido dos seus incitamentos que nasceu O Riacho, quem poderá agora deslindar este caso, ela dizia que era preciso romper os espartilhos e agir, o mundo estava aí à espera de que os homens o moldassem. E nós, que ainda hoje não sabemos ao certo se isto é verdadeiro, encontrámos no saudoso Francisco Pissarra a mão que nos assegurou ser possível. Ele tinha aqueles sapatos de sete léguas, abertos, ao andar, como um relógio às dez para as duas, dava-nos lições de filosofia e de fraternidade, e estendia-nos o garrafão da aguardente quando fazíamos serão lá em casa, noite fora. Dizia-nos que um dia haveríamos de rir do que então escrevíamos, mas que tudo estava certo, no momento. O Orlando Bernardo, que era tão grande de corpo como jeitoso de mãos, gravava a canivete no linóleo as ilustrações não figurativas. E nós voltámo-nos para a produção de textos que haviam de encher as oito páginas, desafiámos outros colegas, aceitámos a iniludível tutela da Mocidade Portuguesa que pagaria as custas previsíveis, levávamos os textos à velha tipografia de chumbo, catávamos as gralhas nos linguados de provas, alinhávamos a composição das páginas, recebíamos o jornal, organizávamos a distribuição, mobilizávamos amigos para a venda, e esgotámos a primeira edição com oitocentos exemplares a dez tostões. Desses ficou uma centena no seminário maior. O velho cónego reitor recebeu-nos a embaixada com empedernida prudência. Após vasto concílio, passou-nos para a mão uma nota de cem escudos e guardou os cem jornais, certamente uma ímpia vassoura acabou por varrê-los para o caixote, vá-se lá saber agora.
Nós ainda hoje não sabemos se o mundo é transformável, já todos vivemos uma coisa e o seu contrário. O que sabemos é que as pessoas o são, pelo que fazem. Foi isso que O Riacho nos mostrou.

Jorge Carvalheira

5 thoughts on “Crónica dum tempo”

  1. Meuu Caro Jorge
    Pois claro, também tinhas de ser da safra que amadureceu lendo o Cavaleiro Andante. E arrisco a tentativa de adivinhar, além do confessado Walter Scott, o que mais leste: Mark Twain, Emilio Salgari, Enid Blyton… e outros que tal.
    Quanto à hora de levantar, ninguém bate é a minha hora de sair. Em teologia, as aulas no seminário diocesano de Valência começavam às nove e cinco. Com Direito Canónico, Deus do céu! Os alunos combonianos iam para lá de bicicleta, e, como era sempre a descer, eu quase que punha à prova a teoria da relatividade. Fazia uma curva de noventa graus ao entrar na estrada numa velocidade daquelas de Deus te livre. Mas um dia não livrou. Tinha sido aberta uma vala para não sei quê, e eu espalhei-me por causa do cascalho e da terra. Esfolei os dois joelhos e os dois cotovelos, além do casaco, que não sangrou. Cheguei mais tarde do que o costume. Pedi desculpa pelo facto, e um colega brasileiro explicou ao professor: “O Daniel sai lá de cima às nove e cinco para chegar aqui às nove e quatro.”

  2. Texto estupendo, meu caro Jorge.
    Para quando novo voo do Corvo, esse mensageiro que prometeu regressar – e o deve fazer, ainda que sob a forma de outra ave – e que fez as delícias da família e as minhas?
    Também li o Cavaleiro Andante, o Mosquito e O Falcão, para além de Emilio Salgari, este trazido de barato nas carrinhas da Gulbenkian (que hoje perduram,como é o caso da empresa municipal que hoje as gere neste concelho). Julgo mesmo que, sem o assumirem, muitos dos que se julgam eruditos, fizeram o mesmo percurso literário, sem náuseas, sem constrangimentos bacocos e sem receios da lama que salpicaria a parentela na queda.
    Sobre uma interrogação que antecede – e sem querer assumir o papel de causídico – suponho que o Amigo tem proporcionado sombra a algumas amibas e alforrecas, cujas se limitam a (não) suportar a criação de terceiros; porventura, sem que isto abra polémica, acobertadas pelo breu da profundidade oceânica do anonimato.
    Até sempre, com um abraço

  3. Santos Costa

    A Corvos e a outras Aves, estou como diz o outro, é deixá-los poisar com sossego.
    Para não virem à luz como os cachorros cegos, que as mães cadelas pariram apressadas. Depois andam aí a fazer figuras de urso, conforme já se tem visto.
    E aceite-me este conselho. Em literatura, como noutras coisas, as melhores delícias são as delícias íntimas. O resto é fogo de vista.

    Já a interrogação que o intriga, estou para mim que não será da sombra, que eu não sou nenhum carvalho negral.
    Ou é charada, ou é alguém que nunca viu lobo pequeno, como dantes se dizia.

  4. Caro Jorge
    A mãe cadela pariu apressada mais um daqueles cachorros cegos, condenado a andar para aí a fazer figura de cão vadio. Apressada é um modo de dizer, pois o parto foi mais longo do que a cobrição e a cachorra arrastou uma prenhez suspeita – digo eu – pela falsa paternidade de sete ou oito cães vadios que lhe farejaram o traseiro. Brrrr!!!!
    Serve este intróito para lhe dizer que, por alguns escaparates (poucos, por decisão minguada e a habitual tacanhez do autor), vai andar mais um livro da minha autoria, talvez como corolário de uma desfaçatez de que não vou abdicar nesta fase da vida.
    Donde, então, a perplexidade?
    Sequente à pergunta, segue a resposta: trata-se do livro que leva no título “O Padre Costa de Trancoso” e que, antes da sessão de apresentação, já se encontra sob os focos da mediática corporação de jornais e televisões, se bem que, pelas últimas, passou em nota de rodapé.
    Para que ninguém chore lamúrias dos dinheiros injectados no livrinho de 168 páginas, saiu do meu bolso todo o custo da empreitada e a responsabilidade de o deixar ao deus-dará, com o sacerdote Varrão agarrado pela sotaina e pela bem avantajada ninhada de chorões ranhosos.
    Jorge, se um livro é suposto ser “um filho”, há-de entender que ainda me faltam muitos para conseguir ombrear com o nosso sacerdote de Santa Maria de Guimarães, o qual, por minha escolha, foi transferido de armas e bagagens para a paróquia de S. Tiago.
    De resto, o seu exemplar encontra-se guardado; seja a conveniência de ele ser “cego” e não poder conduzir quem o seja também.
    Um abraço

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