Diálogo ingénuo

– Mamã, há monstros debaixo da cama?
– Não digas disparates. Há lá nada!
– Mas se houvesse?
– Fazias de conta que não sabias, e pronto. Come a sopa.
– E eles deixavam de meter medo?
– Pois deixavam. Mas vá, come a sopa, que há muitos meninos que querem comer e não têm.
– É verdade?…
– Sim, é verdade.
– Mamã, como é que se faz de conta que não se sabe?

DANIEL DE SÁ

15 thoughts on “Diálogo ingénuo”

  1. Até engoli em seco.
    Inteligente, esta abordagem.
    Gosto de ti, Daniel de Sá.
    Vou ler-te com afinco, até te desmascarares como um logro ou me confirmares com mais pérolas destas que te estragarei com os mimos, as vénias e as reverências que este auspicioso post me permitem antever.
    O Aspirina está, assim à vista desarmada, cada vez melhor.

  2. Cada vez melhor, sim. É este, é a susana e é o Jorge Carvalheira. O João Pedro da Costa ultimamente anda a dormir, mas quando acordar de certeza que também nos brinda com um texto à maneira dele. O Valupi também surpreende. Enfim, só dotados aqui dentro, lol.

  3. Daniel, as tuas palavras encantam-me. Os teus silêncios também. Porque será que a inocência apenas se pode perder, e nunca ganhar? Só uma mente inocente poderia acreditar nisso.

  4. “Mamã, como é que se faz de conta que não se sabe?”

    – Fecham-se os dois olhos, o da Esquerda e o da Direita. Não esquecendo o muito importante ao fundo das badanas.

    – Não sei se percebo essa métrica, Mamã.

  5. Falta o resto da história, ó Daniel:

    -Olha filho, cala-te e come, se não chamo o monstro que está debaixo da cama!

  6. Obrigado a todos pelo inesperado do que aí deixaram dito. Porque até nem somos maus. O que nos falta, quase sempre, é saber um nome e conhecer um rosto, para sermos bons. Como aconteceu com a Madeleine.
    Ficaríamos loucos, se vivêssemos tão intensamente todas a Maddies deste mundo.
    É verdade, milhares de vezes por dia, que uma criança, algures, morre de fome. É verdade que há quem nos prefira calados. Mas não serve de nada. Como tão-pouco serve um desabafo como este ou os prémios do World Press Photo. Desgraçadamente.
    Um abraço a todos.
    Daniel

  7. Senhor Sá

    O pãozinho ainda é o menos. Haverá sempre Madeira cake. O pior são as mensagens hieroglíficas com que nos bombardeia, pouco indicadas para os estômagos não-filosóficos. Dê-nos uma ajuda, caro senhor, porque aqui há uns quantos gajos interessados em saber quem são os responsáveis pela morte de milhares de criancinhas à fome. Mas nada de subterfúgios ou reparos na métrica…

  8. Pro-Desabafo, deve andar muito distraído neste mundo de Deus e do Diabo. Claro que não me refiro ao “Madeira cake”, mas talvez lhe convenha saber que a Madeira fica tão longe do lugar onde escrevo como de Lisboa. Quanto às criancinhas que morrem de fome, deixe-se estar na ignorância de que existem. Será mais feliz assim. Invejo-o.

  9. Pior é oferecer bolsa família, cesta básica,inventar o fome zero, continuar não sabendo nada e escondendo o “bicho papão”debaixo da cama.
    As criancinhas continuam existindo atrás das cortinas,olhos grandes, brilhantes de sonhos (sonham, sim) e bem longe da Ilha da Fantasia…
    Brasil, meu Brasil!!!

  10. Tenho visitado o Aspirina e fico muito satisfeita pela “entrada” do Daniel de Sá.
    Como sempre, com meia dúzia de palavras, consegue comover e agitar consciências.
    Há muito que conquistou o meu coração e ele sabe disso.
    Até sempre!
    Elisabete

  11. Caro Daniel

    Se o coração me não fosse um vidro pintado, como dizia o outro, davas-me cabo dele, com três penadas de mestre.
    Assim, salvaste-me o dia.

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