Balada da Rua Serpa Pinto

Mulheres na Serpa Pinto
Termómetros da cidade
Longas horas de amargura
Momentos de felicidade
Trazem a luz e o calor
À pedra das manhãs frias
Trazem frescura às tardes
Da rua dos nossos dias
Quando sacodem o sono
Farrapos de melancolia
Sabem que tudo na casa
Depende dessa energia
Dessa força transmitida
Dessa afirmação de ser
Todos os dias da vida
A razão de ser mulher
Na vida multiplicada
Na voz que sempre resiste
E acaba por vir cantar
Nos dias em que está triste
E transportam devoção
Na viagem mais profana
Fazer um tempo de festa
Mesmo em dia de semana
É a voz que ganha altura
Sobre as paredes das casas
Passam em bandos alegres
Só lhes falta terem asas
Mulheres que mudam a rua
Só porque vão a passar
Transformam toda a verdade
De quem espera num lugar
A grande revelação
Das dúvidas que elabora
No lado mais escondido
Que é o lado de fora
Vem a chuva vem o vento
Caem lágrimas em pingos
Esquecem os dias escuros
E só pensam nos domingos
Ficam as lojas vazias
Enche-se a rua de gente
É o Mundo que se altera
E passa a ser diferente
Passam mulheres só sombra
Logo atrás surgem meninas
No rio sem afluentes
Há barragens pequeninas
Por onde a água se fixa
À espera da combustão
Do peso forte da voz
Com o peso leve da mão
Num encontro imaginado
A viagem ao contrário
Entre o mais pequeno beco
E o Largo de Seminário

José do Carmo Francisco

2 thoughts on “Balada da Rua Serpa Pinto”

  1. Meu Caro JCF
    É pena a fluidez dessa melopeia dolente e bela tropeçar de vez em quando num ou noutro verso. Não convém deixar quebrar o pé, meu Caro.

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