o espelho de Alice

O texto do Fernando foi profícuo em sugestões. Ligando-o com a especular especulação de um anónimo nada gratuito, veio-me ao neurónio a fertilidade dos acontecimentos no campo das hipóteses para a sua interpretação. Sujeitam-se a descrições distintas, muitas vezes antagónicas, entre os intervenientes que neles participam, motivo do comentário que lá deixei.
Há cinco anos um dos meus livros de praia foi Atonement, de Ian McEwan. Neste romance a narrativa é construída em torno de um episódio. Envolvendo três personagens centrais, o episódio é em si banal, retrato de atracções primárias e relações narcísicas. São as leituras diversas, de estrito sentido e avaliadas por cada um como factos, a conduzir os passos seguintes. Na conjugação com as circunstâncias e paradigmas individuais, factores exógenos da trama, é a distância de leituras a medida de entropia nas vidas destas três vítimas.
Trivial, sabemos nós. É da interpretação pessoal e criativa que se produz arte e muita literatura. Também as intrigas, os boatos, derivam por vezes de equívocos semelhantes, quando não da pura mentira. E os romances vingam enquanto duas ilusões se confundirem mutuamente.
Já o amor, nas múltiplas vertentes, tem forçosamente que ser relacional. Com os pais, os filhos, os amigos e os amantes queremos partilha, visões comuns, memórias coincidentes ou próximas. Não chegamos lá pela experimentação; atirar ao ar suposições é lançar achas para a fogueira. Só o inquérito a partir do outro pode resgatar a comunicação, a sintonia. Mesmo assim, a aliança entre a nossa atenção e a vontade pode ser insuficiente. O outro é sempre um outro, que nos escapa. Fatal impossibilidade de compreendermos em plenitude o que está em nós, permanecendo todavia inteiro e autónomo.

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susana

6 thoughts on “o espelho de Alice”

  1. Que engraçado susana, ninguém comenta este teu belo texto e ‘aguarela’. Só pode ser porque tocaste as fronteiras do indizível e do absoluto

  2. agradeço-te, py. não sei se toquei, não sei se será, muitas vezes não se comenta apenas porque não se tem alguma coisa para dizer.
    mas ontem, no aspirina, estava um daqueles dias que parecem refeições volantes onde nenhum dos comensais se atreve a ser o primeiro a tocar na travessa.

  3. Susana,
    Antes de mais, merci (vamos fingir que está em itálico) tardio pelo teu piropo ao comentário sobre o filme Sicilia, ainda Agosto corria lento, também ele sobre o amor – (e poderia ser sobre outra coisa? não será que é sempre sobre o amor que falamos, nós humanos tão humanamente desajeitados e indefesos, porque na escola ensinam-nos a somar e a falar inglês ou a saber os nomes das partes do corpo e até como funciona o coração, mas nunca nos poderão ensinar o que é o amor, na mesma escola onde embora nos ensinem a conjugar o verbo amar no pretérito perfeito, no futuro condicional ou no sempre imperfeito presente, não nos ensinam a conjugar o verbo na vida, na cozinha, na cama, nem ao ouvido?)
    Não terei o talento nem a arte para te dizer algo de novo sobre o amor (só quem nos ama realmente o poderá fazer e até mesmo ele ou ela o fará sem palavras), esse mistério que nasce em nós, sem avisar, algumas vezes na vida (poucas e por isso preciosas), para nos dizer, repito que sem palavras, que o nosso coração ainda pode continuar a crescer, posto que até ali viveu incompleto, um coração que se falasse, poderia dizer ao outro, nessa linguagem privada que será sempre incompreensível para o mundo, como se não houvesse nenhuma tradução para ela, até porque não há uma língua para tentar traduzir): mesmo que não te conhecesse, sentiria a tua falta.
    Há alguns meses, ofereci ao homem que amo há mais de mil cento e quarenta e nove dias, A Ideia de Prosa do filósofo italiano Giorgio Agamben.
    Ofereci-lho porque ele me ensinou a ler, sentir e entender o mais curto texto do livro, precisamente o da página 51, cujo título é a Ideia de Amor.
    “Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente – tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre abrto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada”.
    É claro que a cada dia que passou, fui percebendo melhor os espaços entre estas palavras, fui adivinhando o fio de sangue cor de cereja a escorrer da pontuação, fui ouvindo o ritmo cardíaco na respiração dos silêncios mais profundos. Percebi que aquele ser me tinha transformado para sempre, e me transformava sempre, a ponto deste texto me surgir a cada leitura como mais familiar – eu vivia-o – e mais distante – as palavras são ainda e sempre uma cortina entre nós e a realidade, entre o eu e o outro e acredito que não foi o coração que precisou de inventar palavras. Um acaso feliz trouxe-me aos ouvidos uma magnífica frase do pinga-amor Rilke, que arrisco a reproduzir na certeza de estar a errar: num casamento, há sempre um ser que é o doce guardião da solidão do outro. Concordo e aplaudo, embora todos os dias, quando ando na rua ou pela vida, quase sempre sozinha, entre reuniões e deveres, encontros e prazeres, repita baixinho ao homem que amo, sabendo que mesmo do outro lado da cidade ou do mundo só ele poderá entender estas palavras contadas ao vento: desde que te encontrei, deixei de andar sozinha no mundo. Porque desde que te encontrei, deixei de ter medo de estar sozinha. Enfim, o tema do amor tem erguido estátuas e moldado esculturas, forrado bibliotecas com livros e desfilado por procissões e templos, embelezado museus e acumulado definições todas elas válidas e muitas delas lúcidas. O amor inspirou o teu texto magoado escrito ao ritmo de um coração que bate descompassado à procura de ouvir o seu eco no outro (suprema ilusão ou rebuscado narcisismo) e a tua imagem verde cor da esperança (o coração é curiosamente o mais optimista dos nosso orgãos vitais), que não resisti a comentá-los, embora concorde com quem escreveu que nada lhes há a acrescentar. Porque “o amor é um lugar estranho”, sempre estranho a um terceiro que olha sem entender o espaço entre dois corações que por um milagre da vida bateram juntos durante alguns instantes ou por milhares de dias. E isso é uma e a mesma coisa, pois alguns instantes de sintonia valem por milhares de dias e milhares de dias sabem sempre apenas a alguns instantes, nessa eternidade que dura.

  4. muito obrigada pelo teu comentário, belle.
    o meu texto não era magoado nem procurava eco, no entanto; mera reflexão, sobre assunto em que penso muitas vezes, tocante a todas as relações.
    e concordo contigo: alguns instantes de sintonia já valeriam muito, tanto, tudo.

  5. susana,
    n’ao achei o seu texto magoado. nem quero que alguma vez o sejam – magoados, os seus textos.

    por isso, sugiro: encontre sintonias com quem as sente consigo. procure pessoas com antenas sintonizadas para si. esqueca as outras. todos os que nao estao sob o raio da nossa luz – da SUA luz -, sao desperdicio de tempo e energia.

    ‘e essa a minha maneira de viver. e ‘e essa que me atrevo a aconselhar-lhe.

    porque, sabe, susana? o amor nao ‘e um lugar estranho – ele ‘e, como bem diz no seu texto, relacional. se a relacao for verdadeira, ha partilha. se nao for verdadeira, h’a logro. o que ‘e estranho entao ‘e que ao logro se possa ter chamado, ou alguma vez chamar, amor.

    o que eu sei, para terminar, ‘e que um coracao que bate descompassado e com esperanca ‘e um coracao vivo. e eu gosto desse seu coracao.

    estou certa que nao sou nem serei a unica.

  6. sem-se-ver, não achou, claro – também porque me conhece um pouco, será? gosta do meu coração? eu também gosto do seu. :)

    repare que é precisamente disso que o texto fala: cada um, até aqui, faz a sua interpretação, de acordo com a sua visão, a sua experiência, os seus conceitos, o seu momento. também o comentário da belle será narcísico, pois está a falar sobre ela e o seu amor. tal como o seu é, tal como todos são. é impossível não sermos narcísicos quando pensamos em nós.
    do que o texto fala, não é exctamente do amor, essa entidade plástica e moldável a cada um. é sobre o risco dos equívocos e a compreensão dos acontecimentos. mas, já se sabe, o amor é tão atraente que sobressai a palavra, ou a forma de um coração esboçada tanto numa nuvem como numa poça de água suja.

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