Benesse dos deuses

Posto de conversa com Jorge Carvalheira, descobriu Daniel de Sá, num recuncho da sua manjedoira, este manuscrito. Não sendo todos os nossos leitores destros furões (mas alguns são-no), puxámos o valioso texto para aqui. Eis:

SenhorHesta verdade he puvriqua e bem sabida que asy como a sargento que sube de segundo a prymeiro loguo lhe outhorga Deos que elle aja intelligencia de prymeiro, asy a nosos ministros da noso Senhor intendimento de ministro, pollo quall cada acto de mandar podeloham fazer muim bem feito; e mais he sabido que o Regno do Allgarve era asy dito, como se lee em o titolo de nosso glorioso rey – Dom Manuell, per graça de Deos Rey de Portugall e dos Allgarves daquem e dalem maar em Africa senhor de Guinee e da conquista e navegaçam, commercio de Ethiopia, Arabia, Persya e da India; pollo que se vee que o ministro Manuell Pinho tem muyta rezam em mandar que o Algarve seja Allgarve, mas quamto a querer tambem mandar o Regno pera ese tempo em tall nam quero cuidar, e esto contra todallas e quaesquer openiõoes que o governo do doutor Santanna Lopes nam ouve tempo de fazer sandices senão de dizelas, e este governo já vae avendo tempo de dizelas e de fazelas.

8 thoughts on “Benesse dos deuses”

  1. Caro Daniel
    Mandasse eu e eras já cronista-mor do reino.
    Não deste que aí está, de crónicas tristes e já feitas. Estão feitas elas, e, mais que elas, estamos feitos nós. Mas adiante.
    Havia de ser um reino outro, que esteve caboucado e não cresceu. Afogaram-no à nascença uns visionários loucos (que referes), metido dentro dum saco, como se fazia antigamente aos gatos que nasciam bastardos.
    Um reino de sargentos atilados, de ministros com entendimento, de senhores com algum pudor, e de reis que não são meros farsantes, a fingir cortesias num teatro.
    E sobretudo de um povo capaz de espetar no bucho dos ladrões e dos traidores a faca com que os porcos se matavam em tempos.
    Esse reino não no há. Mas olha, vai-o tu cronicando, com o jeito que Deus te deu. Sempre é um gosto imaginá-lo.

  2. Daniel,

    Ora confere lá bem no papelucho. Muito me admirava que não estivesse aí escrito Rey de Portugoal. Os escribas eram prescientes, mais do que tu, avaro, reconheces.

    És como todos. Lês o que queres, não o que está lá.

  3. Lendo o que está entre parênteses, este texto é uma provocação amigável ao Jorge. Saltando-os, é uma homenagem reverente.
    O PADRE VICENTE
    O viajante pasma na Vista do Rei, aonde subiu o landó real. E por causa de D. Carlos houve este nome. Se fosse de se benzer, benzia-se. Se fosse de ajoelhar, ajoelhava. Nem um clique de fotografia, para não mexer no silêncio. A princesa dorme ainda nas suas Sete Cidades.
    O viajante volta a embasbacar na Barrosa. Lá em baixo, a lagoa do Fogo. Um pedaço de céu sem nuvens pousado entre os barrocais. Gaivotas, com preguiça de vasculhar restos podres nas ondas largas, ou de roubar comida aos garajaus, têm ali cama e mesa.
    No pico do Ferro, o viajante não entende a fama das Furnas. A lagoa ameaça ser um pântano, a ermida das Vitórias perdeu a graça com que imitava o gótico, o cheiro a enxofre não chega lá acima. Há-de compreender tudo no vale, entre a fervura das caldeiras e a cor de ferro das águas.
    O viajante aceita o convite de ir ao Nordeste, porque é educado. Ele pensa que já viu tudo. É dos postais ilustrados. E à vista da Tronqueira não percebe se a ilha ali se acumula ou se derrama. Não fossem as arribas de trezentos metros, dissolvia-se. Não fossem as escarpas de rocha dura, desmoronava-se.
    Houve por aquelas bandas um padre, dizem-lhe, que deixou nome até hoje. Chamava-se Vicente. Pregou mais de mil sermões, e nunca esteve num seminário. Com outro padre se consumiu em brigas de fazer desabar o céu. Numa missa solene, na hora do incenso, disse-lhe: “Se não fosse aqui, dava-te com isto nas ventas.” “Isto” era o turíbulo, e a sacristia bastava para não ser ali.
    (Ao pé do padre Vicente, o padre Júlio é anão.)
    Também contam ao viajante que o padre Vicente foi visto um dia, quase a correr, subindo, na rua do Museu. Para alcançar quem queria que o ouvisse. Envelhecera já. Tinha-se cansado dos inimigos e os inimigos tinham-se cansado dele. Ou estavam mortos. Trazia a mão no peito, mas não era para segurar o coração, que ainda aguentava o peso do corpo e a ladeira da vida e do caminho. Era um pequeno tesouro que pedira como esmola. Dinheiro para pagar a renda de uma casa onde viviam duas mulheres ameaçadas de despejo. Protestantes.
    (Ao pé do padre Vicente, o padre Júlio é pagão.)
    Rude como o pico da Vara. Mas, se lhe dava a luz a jeito, era tão fascinante como ele.

  4. Meu Caro Fernando
    Quase adivinhavas outra vez. É que uns anos mais tarde, no tempo de D. João, o terceiro, há um documento em que consta “Portuball”. Não sei se é erro do escrivão, tanto mais que os nobres ingleses ainda falavam francês. Mas se é referência a jogo, é o da péla, de que a minha freguesia tinha dois dos três melhores que havia na ilha.

  5. Eu rendo-me, caro amigo. Mas olha que o padre Júlio não se renderia assim!
    Conheço mal ou bem a tua ilha, onde tive há trinta anos bons amigos. Os Pavões, velhos e novos, que se esqueceram de mim, por concluirem que eu me esquecera deles. Tal é a força do mar.
    Confesso que me fez medo, essa lagoa do Fogo. Tudo o resto são milagres, do Senhor Santo Cristo, não duvido. E às vezes tenho-te inveja.
    Mas calo-me, por agora, não se diga que o parlatório é nosso. E freiráticos somos todos ñós.

  6. Jorge,

    Há 110 anos, coisa assim, havia um serviço de contactos que actuava na perfeição: os correios. Abre tu a correspondência de Eça com a mulher (que ele amava, com ardor, mas sem paixão), ela no Porto, ou perto, ele em Lisboa, nas temporadas em que o parisino cônsul metia água chiadiana, e verás como a carta, ponhamos, de terça leva resposta à quarta e a de quarta é respondida à quinta. Excelentes tempos.

    Hoje, o que funciona com esta impecável regularidade é a internet.

    Penso nisto, vendo três senhores, diria o mundo, de provecta idade, carteando-se expeditamente entre São Jorge, o Porto, ou perto, e Amsterdão. Freiráticos, eis um modo desabrido de dizer o mesmo.

    «Calo-me», escreves. Podes fazê-lo. A prova está tirada.

  7. Meu Caro Jorge
    Fica bem essa humildade de me concederes a vitória. Mas mais bem te fica ainda não consentires que o padre Júlio entregasse os pistolões sem mais nem menos.

    Meu Caro Fernando
    Quem é esse insular de São Jorge que anda por aqui? Não quererias dizer São Miguel?
    Um abraço.
    Daniel

  8. Daniel,

    Os céus sabem que sou um espírito singelo. Os mais leves estímulos, como o nome do nosso amigo que habita o Porto, como o de certa ilha açoriana de que guardo memória grata, comandam-me os comportamentos.

    De resto, os guerreiros São Jorge e São Miguel hão-de entender-se lá nos altos. Como, ignoro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.