Um largo atordoado

As ruas de Moreira têm calçada antiga, do bom tempo, não ficaram à espera que os fundos europeus viessem cuidar delas. E depressa chega o viajante ao largo do pelourinho, vistoso exemplar manuelino com cinco degraus. Cercado de fraguedos e hortas secas, o povoado é pequeno. Filho de estratégias muito antigas, nasceu à sombra do castelo que além está, no alto dum penhasco. Ganhou em esplendores e amplidão de vistas o que perdeu em espaço vital. Afora as casas, algumas modernizadas, tudo o que se pode ver neste adro minúsculo são antiguidades de outro tempo. A primitiva igreja de Santa Marinha, há muito sem usos litúrgicos, ainda hoje tem à porta o padrão das medidas correntes, entalhado nas colunas. Bastando a qualquer um dois côvados de burel para cobrir os ombros, estava aqui a justa medição. E se estes primores de pedra do pelourinho impressionam o viajante, mais o comove a secular gravidade do negrilho ali ao lado. Já sustentou uma frondosa copa, já a perdeu, e agora ganhou outra renovada. Só a frescura da sombra, que o viajante aproveita, é que se mantém igual.
Mais antigas do que o largo, e o castelo, e o negrilho, são estas sepulturas cavadas a picão, na fraga dura. A igreja de Santa Marinha foi-lhes construída em cima, e muitas outras ficaram por aí, disseminadas no largo. Há sepulturas debaixo das casas e dos canteiros de flores, algumas estão cobertas pela base do pelourinho, outras foram ocupadas pelas raízes do negrilho. A julgar pela dimensão e a fundura, dormiram nelas o sono derradeiro adultos e crianças, infantes e anciãos. Fossem eles justos, fossem pecadores, adormeceram todos a contemplar o sol, que todas elas foram escavadas na direcção exacta do nascente. Estão aqui, ombro com ombro, na grande igualação da morte. Mas porque o nascer do sol varia de lugar no horizonte, nem todas são paralelas. Este aqui morreu dos frios do inverno, aquele além sucumbiu às estiagens do verão, põe-se a imaginar o viajante. Se as contas baterem certas, logo aqui se pode ver a falta que faz ao mundo a sombra refrescante dum negrilho, e o fogo dos ramos dele.
Para chegar ao penhasco do castelo tem este viajante que subir uma empinada ladeira. Já passou à porta duma mulher de preto, que tem os figos a secar num tabuleiro, enquanto malha o feijão à sombra dum alpendre. Mas vinha tão afoito e decidido, à procura da cadeira do rei Sancho, que o viajante mal lhe deu a salvação. Muito a custo subiu à cidadela, ao pouco que dela resta, com este sol desapiedado a morder-lhe nos costados. Não viu cadeira nenhuma, e as bagas de suor que já lhe escorrem da fronte põem-no descorçoado. Manuel não está aqui para o ajudar. E apesar do panorama deslumbrante, decide bater em retirada, para escapar à canícula.
Bom refúgio era a sombra do negrilho, se não estivesse ocupada por duas famílias buliçosas, à volta dum farnel improvisado. Vêm dos lados de Aveiro, e andam à procura de alguma casita velha que possam reconstruir, cativas deste silêncio e do sossego da aldeia. Mas fazem tal barulheira que logo veio um vizinho, a explicar as qualidades dum queijo que lá tem para lhes vender. As mulheres falam tão alto que deixam o adro inteiro atordoado, era uma vez o sossego dum largo. E o viajante despede-se do negrilho, algum lugar há-de haver onde matar a sede.

Jorge Carvalheira

5 thoughts on “Um largo atordoado”

  1. …mas este negrilho, ou muito me engano ou é uma homenagem ao Miguel Torga. O tal que ele tanto amava e que morreu cinco meses depois da sua morte. De qualquer modo, o texto é belo. Muito belo mesmo. O Jorge é um dos grandes prosadores “líricos” da Língua Portuguesa, não tenho dúvidas.

  2. Agora o que resta sabermos é se ele é como o Arquelino Ribeiro que escrevia muito sobre a vida dos labregos, fragas córregos e úberes de vacas e não os chupava nem com molho de tomate!

  3. Estou aqui com uma curiosidade, que já vem de muito atrás: porque grafas “verão”, a estação, assim em caixa baixa?

  4. Marco
    Deixe-se de coisas, deixe de me comover!

    Meu caro Daniel
    Por mais que V. se gaste em generosidade, não me envaidecerá.

    verbo saloio
    Não sei se o seu Arquelino chupava, ou não chupava labregos, córregos e tetas de vacas. Se é o mesmo em quem estou a pensar, consta-me que era um vaidoso que passeava no Chiado, e que pôs uma bomba (terá posto?) que não chegou a rebentar a tempo. Ao certo, ao certo, sei apenas que aprendi a entendê-lo, ouvindo a minha avó.
    Interroga-se V. se não serei eu mais um, que fala mas não chupa. Não quero deixá-lo nessa dúvida ingente. Eu nem falo, nem chupo. Não me ocupo com labregos, nem com tetas de vacas (sejam úberes, pronto!). Ocupo-me com coisas de que gosto, e que V. entende mal. Mas chupar, mesmo com molho, isso não.
    Sossegue, pois, homem de Deus! E vá lendo, Arquelinos ou não, a ver se alisa as ideias enturvadas.

    Valupi
    Fazes bem em me lembrar as normas. Há tanto tempo a desrespeitá-las, já me tinha esquecido delas.
    Não sei se consigo explicar-te porque é que as desrespeito. Sei apenas que a questão é comum a outros campos, de que te forneço exemplos.
    Só raríssimamente concedo um discurso directo, sinto que não tem lugar num texto narrativo. E se encontro um trabalho em que ele abunda, não o leio.
    Sou incapaz de usar um sinal de interrogação, um ponto e vírgula, um qualquer dois pontos. São úteis na linguagem comum. Mas narrar implica resolver essas questões, sem usar simplificações.
    Maiuscular uma palavra qualquer significa dar estatuto ao conceito. E eu não o dou ao verão, nem ao inverno, por achar que o não merecem.
    Quer dizer, um tipo constrói um casulo, mete-se lá dentro, e legisla. Não pode ser doutro modo!
    Jorge Carvalheira

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