Ramón vermelho

À beira da estrada, num pequeno café, encontra o viajante refrigério. Que além de professora reformada e boa conversadora, a dona Mariazinha é a gentileza em pessoa. Os clientes são escassos, para não dizer nenhuns, salvo este velhote que tem bócio e veio encher a garrafa do tinto. E ela está entretida no croché, enquanto a irmã lá dentro traquina na cozinha. Logo quer saber a que anda o viajante, assim exposto ao calor, e o que faz ele na vida, e donde vem. Mas depressa aparece a cozinheira, a dar fé do que se passa. E acabam, ambas as duas, a contar ao viajante a história de Ramón.
O homem dormia na casa da escola, num quarto que ficava por trás do quadro preto. A dona Mariazinha e a irmã eram crianças na altura, e nunca mais se esqueceram do mistério. A professora encostava todos os dias o quadro àquela porta, e proibia alguém de lá entrar. Um dia em que a apanharam distraída houve quem a fosse abrir, e todos viram Ramón, que estava a dormir lá dentro. Logo nesse dia soube a aldeia inteira que havia um homem na casa das professoras.
Elas eram três irmãs. Uma trabalhava na costura, outra ocupava-se da casa, e a terceira dava aulas aos garotos. O homem era galego, dos vermelhos, andou na guerra de Espanha. E quando caíram as portelas da serra de Guadarrama, e a Casa de Campo sucumbiu às investidas, perderam-se também as esperanças de Ramón. Com o batalhão destroçado, em vez de recolher à ratoeira de Madrid, enterrou a escopeta por trás duma ruína e pôs-se a andar na direcção contrária. Mais de noite que de dia, mais por carreiros de bichos que por caminhos de gente, viu ao longe a serra de Ávila, depois os montes de Francia, passou dias escondido em casebres de pastores, um era de Alba de Tormes, outro era de Santo Estêvão, três vezes morreu de fome, e já lá iam dois meses quando uma noite saltou o rio Águeda e chegou a Portugal. Alguém lhe deu inculcas em Almendra, e só assim ficará explicado que o homem tenha vindo bater à porta do padre Júlio, aqui nos confins do mundo.
Durante muito tempo não saiu Ramón de casa, que o padre Júlio não era tolo nenhum. Até que um dia calhou ele morrer, e o Ramón foi ao enterro. Desde então deu em sair à rua, que já não aguentava a solidão. Juntou-se às fainas do campo, pôs-se a trabalhar à jorna, fez amigos aí no povo. No final já se mostrava pelas festas, não faltava a um bailarico, era mais um entre a gente. Sabia a guarda do caso há muito tempo, e as ordens eram severas. Mas sempre que ela aparecia, alguém havia a passar a palavra. E sumia-se o Ramón, no quarto por trás do quadro.
Um dia apareceu no povo um amola-tesouras que ninguém conhecia. Ficou dias por aí, rua abaixo, rua acima, a soprar numa flauta esganiçada. Foi ao Zabro, às Moreirinhas, aos Moinhos das Cebolas, a meter-se no coração a toda a gente e a dar fé das passadas de Ramón. Já não havia mais facas para aguçar, nem mais tesouras da poda, nem navalhas da enxertia, quando a guarda cá voltou. E o amolador, que afinal era espião, delatou-lhe o segredo de Ramón.
O padre já cá não estava, que era duro de roer. O Ramón foi parar ao calabouço, antes de o devolverem ao Vale dos Caídos, onde acabaram com ele. E a dona Mariazinha e a irmã ficaram sem escola, que as professoras desapareceram daí.
À saída, depois das alongadas despedidas, passa o viajante por uma escola abandonada. Mas não era a desta história. E pensando um pouco mais, conclui o viajante que o rei que Moreira teve não foi o pobre Dom Sancho.

Jorge Carvalheira

5 thoughts on “Ramón vermelho”

  1. Meu Caro, como não hei-de gostar da sua escrita, se até tenho uma personagem semelhante a este Ramón na minha novela mais recente?
    Aqui vai um cheirinho:
    Ele viera para a aldeia, sozinho e sem aviso, no último mês do primeiro ano da Guerra Civil de Espanha.
    Chegou sem calos nem passado. Mas depressa lhe imaginaram um trabalho e uma cor: contrabandista e vermelho. E foram compondo uma biografia heróica e bandalha, que a pouco e pouco cresceu até ao sangue frio do crime sem remorsos. Lutara com os vigilantes da fronteira e do contrabando. Mais do que isso: chegara a matar um guarda fiscal. Não, afinal haviam sido dois, que estavam em patrulha raiana. E assassinara dois nacionalistas… três… cinco… sete!

  2. Belíssimo este texto. Parabéns ao autor e a todos nós, seus leitores afortunados… A Internet também tem coisas boas; não é só lixo!

  3. Esse padre Júlio tem cada vez mais que se lhe diga ou para nos dizer. E galegos, em Portugal, fugidos, refugiados ou veteranos da guerra civil espanhola, é terreno tão fértil que até dá fruto sem ser preciso espalhar semente.

    Cheira a grande romance, cada um destes passeios do silencioso viajante.

  4. Cheira mesmo a grande romance, Valupi.
    Será que as “Primícias” do Carvalheira têm que ver com isso? Não sei se está recordado, no mês de Julho…

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