A cadeira do rei Sancho

A Moreira de Rei já chamaram ninho de águias, sobre um montão de rochas. E o viajante concorda. Se das águias não encontra sinal, que o tempo as levou para outros ares, já o ninho cá ficou e rochedos não faltam. Só a história, e a teimosia dos homens no que é seu, explicam um lugar assim. A igreja, logo à entrada, é de antiga fábrica românica, com bárbaros cachorros zoomórficos. O viajante encontrou a chave na porta lateral e foi cumprimentar a padroeira, que é Santa Maria. Já viu os caixotões do tecto, pintados com cenas devotas, e os painéis com figuras de santos, que são uns regalões. No mais ignoto lugar sempre lhes cabe a moradia mais aprimorada, e nunca lhes faltam esmeros e frescuras, como agora podemos ver. As talhas reluzentes de castanho genuíno trazem ao viajante lembranças do padre Júlio, que antes de tomar aqui os paramentos descarregava as pistolas na mão do sacristão.
Do padre já se não lembra Manuel, nem a mulher, que atravessam o largo atrás duma carroça. São velhos, mas não tanto. Só lhes constam as boas famas que ficaram no povo, e ainda se lembram bem da Carlotinha e do irmão, que eram filhos. Ela há muito que se ficou num parto, ele morreu há poucos anos. Mas agora já não têm padre residente, que os não há. Chegou a haver esperanças num rapazola aí do povo, que andava no seminário. Mas um dia tomou-se de amores e resolveu desistir, Deus é quem sabe.
Saberá ou não, isso é outra conversa. O burrico é que parece não ter dúvidas, já lá vai adiante com três sacos de milho e uns molhos de feijão para secar. Os donos seguem atrás e o viajante vai com eles. Manuel andou uns anos na emigração, como toda a gente. Foi onde ganhou dinheiro para comprar esta casa e arranjá-la, aqui à vista do castelo. Mas era uma vida desgraçada, aquela, uns escravos do trabalho. Os filhos lá cresceram, lá casaram, ainda hoje lá vivem. Ele, quando pôde, escapuliu-se, que não há como viver na nossa terra.
– Tivemos cá rei e tudo! Se passar no castelo, há-de lá ver a cadeira!
Manuel esvazia a carroça e recolhe o jumento, que o afligem o calor e a mosca. E a mulher fica a espalhar ao sol as maçarocas, na laja que se estende logo ao traço da porta. A canzoada que ladra ali ao lado é do pároco da vila, que vem rezar os ofícios quando calha. E está tão belicosa a cainçada, que nem deixa conversar. Com batedores assim, o padre há-de ser bom caçador. Mas o viajante fica a pensar que o padre Júlio caçava muito melhor.

Jorge Carvalheira

4 thoughts on “A cadeira do rei Sancho”

  1. Já soubera da existência desta aspirina contra outras dores, que ma indicara o meu dilecto amigo José do Carmo Francisco. Depois, atarefado em satisfazer compromissos por mim assumidos ou a que outros me obrigaram, mal tive tempo de sair a viajar por aí fora. Pior ainda, esqueci o nome deste remédio tão santo, e nunca mais pude voltar a saber novas do Fernando e seus amigos. Apenas quereria vir cá de vez em quando tomar um placebo qualquer contra a angústia de ler, por devoção imposta muitas vezes, tanto português maltratado. E entenda-se por “português” o nome da língua e o gentílico. Claro que nem tudo são rosas, por aqui, e o pão continua a faltar a muitos desde antes de a Rainha Santa haver transformado algum em flores. Descobri, por exemplo, lendo páginas de outros dias, que somos descendentes não de quem andou em Quinhentos pelo Mar Oceano, mas de quem nunca saiu de cá. Pior diagnóstico, afinal, do que fizera Pessoa quando afirmou pertencer àquele género de portugueses que ficaram sem emprego depois de descoberto o caminho marítimo para a Índia. Ou seremos todos um pouco como Bartolomeu Dias, que, segundo eu mesmo, ter-se-á queixado “Eu vi a Índia sem a ver”? (Desta frase gosta especialmente o meu amigo Manuel Alegre, e que se me perdoe uma pontinha de orgulho ao dizê-lo.)
    Já fui longe. Cheguei cá desta vez trazido por um cavalo com fama de mau trotador, e ainda para mais estrangeiro de La Mancha. E acabo de subir a este ninho de águias num passeio de perder o fôlego. Deliciado, juro. E, se as comparações não são todas odiosas, seja esta uma excepção: um naco de pão de palavras assim, meu caro Jorge Carvalheira, honraria até o próprio Aquilino.
    Um abraço.
    Daniel de Sá

  2. Sò`pròva que a chamada da térra onde nasçemos ainda tem uma força irrecistivel!Com os coraçôes num lado e noutro.Tendo deixado para tràs nétos e filhos,é o prêço a pagar por ter querido ter uma vida melhor

  3. Tem-lo tu, Valupi, num texto de Julho, 12, 2006.
    E ainda há-de voltar.
    Se eu soubesse fazê-lo, dava-te um link. Assim…

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