Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Vinte Linhas 327

«Os Galegos nas Letras Portuguesas»

A partir das palavras de Fernando Venâncio no semanário «Expresso» de 1-12-2007 organizou Rodrigues Vaz este livro de 234 páginas que inclui autores tão diversos como Sá de Miranda e Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Teixeira de Pascoaes, Ramalho Ortigão e Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis e Francisco José Viegas, Wanda Ramos e Fernando Assis Pacheco.

Escreve Fernando Venâncio no intróito deste livro: «Na península que habitamos, na Europa, mesmo no mundo inteiro, nada nos é mais próximo do que a Galiza, nada deveria ser-nos também, mais caro. Temos ali uma irmã de cultura, no idioma, no modo de ser. Por ali se prolongam tranquilamente as nossas paisagens. Foi dali que, num dia longínquo, nascemos como país, depois de séculos em que o nosso Norte era somente o Sul da Galiza». A edição (Pangeia Editores) conta com ilustrações de Helena Justino e o apoio da Xunta de Galicia.

Fazemos uma única citação breve que pode e deve servir de «apetite» de leitura; eis um excerto do livro «Coisas espantosas» de Camilo Castelo Branco: «Abriu Gregório o seu armazém na travessa de S. Domingos, com uma tabuleta amarela e vermelha, onde se lia este mote em letras verdes O LEÃO DAS ESPANHAS REI DOS PETISCOS. De feito, sobre o dístico, via-se o leão empolgando nas garras um pato assado e um paio de Lamego. Afora este estabelecimento que lavrou créditos não vulgares, Gregório abriu nas hortas de Chelas uma casa chamada RETIRO ADMIRABELE onde os petiscos eram muito melhores que a ortografia».

Vinte Linhas 326

«Colchetes de ouro» não é de Alfredo Marceneiro

Durante umas horas valentes este Blog foi um espojadouro. A propósito da «balada do coletinho» e dos seus dois versos iniciais o Nik deu o mote com a frase infeliz «prefiro a letra do Marceneiro» e o Gandaenjôo atirou-se ao chão, rebolou-se e levantou pó com aquela da «falta de respeito pelo Alfredo Marceneiro». O Nik ficou-se pela ignorância mas o outro foi agressivo. Parecia um solípede nervoso, deitando espuma pela boca e expelindo pelas narinas um som aflitivo e desorientado. Deixei que o pó assentasse e fui confirmar ao livro sobre a vida do Alfredo Marceneiro (que me foi oferecido pelo seu neto Vítor Duarte) aquilo que já sabia. O autor dos versos conhecidos como «Colchetes de ouro» é o poeta Henrique Rego a quem muitos chamavam o príncipe dos poetas do fado. Príncipe porque o rei dos poetas do fado era, para muitos, Linhares Barbosa. A importância da amizade entre Alfredo Marceneiro e Henrique Rego era tanta que há um capítulo especial na Fotobiografia do primeiro sobre os versos do segundo. A moral da história é esta: não se deve acreditar em tudo o que aparece na Net. Só porque o Nik escreveu não pode o outro atirar-se para a frente e dar este espectáculo triste. Parecido com isto só a história da Alice Vieira que foi a uma escola e quando ouviu um aluno a dizer que ia ler um texto sobre ela não percebeu como era possível o miúdo dizer que ela tinha nascido em Braga, era invisual, tinha sido mãe solteira e outras mentiras. Afinal o miúdo tinha ido à Internet e copiado a biografia da primeira Alice Vieira que lhe apareceu. E nem mesmo o facto de estar à frente da escritora o impediu de dizer aqueles disparates copiados na Net. E a professora não fez nada…

Um livro por semana 109

«Portuguesas com história» de Anabela Natário

Acaba de sair o mais recente volume desta série, dedicado às mulheres portuguesas do século XX. Ao todo são seis volumes, com início no século X. No campo das letras e das artes as biografias são as seguintes: Fernanda de Castro, Vieira da Silva, Helena Sá e Costa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Beatriz Costa, Maria Judite de Carvalho, Natália Correia, Maluda e Luísa Neto Jorge. Por uma questão de critério ou de espaço outros nomes poderiam figurar (Maria Ondina Braga, Maria Archer, Natércia Freire) mas o importante é sublinhar o facto de haver nestes volumes o «outro lado» da história. A começar pela questão das mentalidades e do papel que a sociedade portuguesa exige que a mulher desempenhe – muito à volta da cozinha, das crianças e da religião. Nesse aspecto concreto é curioso verificar as palavras de Natália Correia sobre o tema «filhos», ela afinal uma mulher que se casou quatro vezes: «A minha maternidade é universal e não biológica». Outras figuras da vida portuguesa como (por exemplo) Virgínia Moura e Catarina Eufémia (acção política), Amália Rodrigues e Cândida Branca Flor (música), Irmã Lúcia (vidente de Fátima), Vera Lagoa (jornalista) ou D. Branca (banqueira do povo), são também biografadas neste volume num total de 30 personalidades da vida portuguesa do século XX. Um olhar bem diferente sobre o tempo português.

(Editora: Círculo de Leitores, Grafismo: António Diogo, Foto sobrecapa: óleo de Amélia de Sousa)

Vinte Linhas 324

O papagaio de Salazar

Agora que se fala muito de Salazar e que há até um filme a passar na TV embora o Salazar namoradeiro que aparece não seja o que me interessa (a mim interessa-me o Salazar do Aljube, de Caxias, de Peniche e do Tarrafal), descobri no alfarrabista «Telles da Silva» o livro de Norberto Lopes sobre a imprensa em Portugal. Chama-se «Visado pela Censura» e foi publicado pela editora «Aster». A história conta-se em breves palavras. No dia 11 de Junho de 1926, na sequência do 28 de Maio, Oliveira Salazar chegou a Lisboa para tomar conta da pasta das Finanças. Norberto Lopes estava no «Diário de Lisboa» e foi à estação de Entrecampos onde entrou no comboio e manteve com o novo ministro uma conversa até ao Rossio mas as respostas foram zero: «Não posso ainda dizer-lhe. Não trago programa. Não tenho ideias a priori sobre aquilo que vou fazer. Sobre a questão dos tabacos por enquanto nada posso dizer-lhe. Ainda é cedo para falar.» Perante a insistência de que havia milhões de portugueses ansiosas pelas suas respostas, Salazar apenas disse: «Os senhores jornalistas são terríveis».

O grande jornalista Norberto Lopes recorda então a célebre anedota do papagaio que um dia foi pedido a um brasileiro que trouxesse para um amigo. Em vez de um daqueles sem papas na língua, o bicho era verde e oiro, parecia ser um palrador de primeira ordem mas nada dizia. «Então o papagaio não fala?» – perguntavam os vizinhos. E logo o dono respondia: «O papagaio não fala, não; mas pensa».

E foi esta anedota inofensiva que o Diário de Lisboa publicou na sua edição do dia 12 de Junho de 1926. Talvez porque a Censura ainda não estava bem oleada.

Vinte Linhas 323

Soube agora que no passado dia 15-11-2008 o jornal ABC no seu suplemento «Las artes y las letras» publicou este poema traduzido por Vicente Aráguas e com uma nota biográfica de Amália Iglésias. Penso que é uma curiosidade para todos nós leitores do «aspirinab» esta revelação. Trata-se de um excelente e bem diversificado suplemento cultural e ter lá uma página é uma coisa agradável que merece ser compartilhada com todos nós.

ATÉ ESSE MOMENTO

Lembrarás então o pai aqui sentado

A máquina de escrever no chão

Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos

Farás promessas que não vais cumprir

E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho

Iluminado pela luz do teu olhar

À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado

Um gelado presente do indicativo

E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio

Será talvez a memória das noites

O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir

Nos desenhos (nos cadernos escolares)

Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado

Não como pai mas como anónima pessoa

Surpresa a esperar no céu do Outono

Terás nas tuas mãos um retrato

O voo das aves por cima da casa

Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos

Num momento ou talvez num lugar

Na tua idade como um portão aberto

Balada do coletinho

Toma lá colchetes de ouro

Aperta o teu coletinho

O teu peito é um tesouro

Envolvido em carinho

No coletinho vermelho

Que te defende do frio

É que eu vejo ao espelho

A luz em reflexo do rio

Há nos colchetes dourados

Do teu coletinho vestido

Um calor com dois lados

Que faz o frio um vencido

Não me canso na procura

Duma razão ou verdade

Num colete de ternura

Dou o teu nome à cidade

Num bulício de afazeres

E numa intensa corrida

Nas janelas das mulheres

É que a cidade tem vida

São janelas, são sorrisos

E portas do mundo aberto

Todos os sonhos precisos

Vão no teu passo ou perto

Entre as ruas e desgraças

Onde ninguém vai sozinho

Morre o frio quando passas

Dentro do teu coletinho

Quando chega o fim do dia

O teu colete é imagem

Nos colchetes de alegria

Faz a luz da carruagem

Da cidade ao regresso

Nos minutos do caminho

Ouve bem o que te peço

Aperta o teu coletinho

Vinte Linhas 322

O esplendor da ignorância no Diário de Notícias a propósito do derby

O recente Sporting-Benfica do passado dia 14 deu origem a um trabalho jornalístico no Diário de Notícias (páginas 2 e 3 do suplemento desportivo desse dia) e sobre essa publicação o menos que se pode dizer é que ela espelha o esplendor da ignorância dos seus autores. Começa pelas fotografias: apesar de o título referir que se trata de «derbies em casa verde» a fotografia maior das duas páginas é (como não podia deixar de ser…) do estádio da Luz. E não é preciso muita perspicácia para ver a diferença pois os dois estádios sempre foram diferentes – basta ver as escadas de acesso às bancadas. Portanto o erro não está na legenda e os minutos que Eusébio (ex-jogador do Sporting de Lourenço Marques) precisou para marcar um golo ao Sporting Clube de Portugal mas sim a foto em si – aquele é o estádio da Luz. Para além do mais, aquele que é de longe o mais famoso resultado dos derbies em Alvalade (o dos sete a um) tem direito a uma foto pequenina, tipo passe, enquanto a tal foto errada com Eusébio ao lado de Manuel Poeira, árbitro que em 1962 ainda não o era, tem direito a foto gigante. O segundo erro crasso diz respeito ao falso primeiro derby que não foi (nem poderia ter sido) em 23-2-1908 porque o Sport Lisboa e Benfica nasceu em Setembro de 1908. Tendo sido fundado em 13 de Setembro não podia disputar o jogo em Fevereiro. Um clube (em 1908) para existir tinha que ter estatutos entregues no Governo Civil, corpos gerentes eleitos, bandeira e emblema. O Sport Lisboa e Benfica foi fundado em Setembro de 1908; antes havia outros clubes que se juntaram nessa data e cada um tinha o seu emblema, os seus corpos gerentes, a sua bandeira e os seus estatutos. Não perceber isto é não perceber nada.

Vinte Linhas 321

O horizonte que flutua em frente ao banco de Marta

Há um som de marcha brasileira no pôr-do-sol em frente à última falésia e na linha de espuma na onda repetida, frente ao banco de Marta, com o hotel à esquerda e o oceano em frente. Atrás do grupo das tarolas e dos bombos, surge o músico da trompete e a rapariga do saxofone. São eles que, a partir da pauta em fotocópia, dão a força inicial das melodias. Mais atrás seguem as meninas que tocam clarinete. Há também uma requinta. E pandeiretas que nunca mais acabam.

Vejo o teu cabelo na onda que sobe e enche de espuma a pedra negra de onde todos os pescadores fugiram recolhendo apetrechos e botas oleadas. Vejo, ou julgo que vejo, porque não posso ter a certeza, entre a luz do sol e a breve neblina que se forma nas pedras depois das ondas terem batido a sua fúria.

No pôr-do-sol daqui é o teu olhar que ficou na sexta-feira desenhado nas ruas da cidade a deixar o limite da luz azul e a marcar o horizonte que flutua em frente ao banco de Marta.

São as máscaras que chegam da memória de Veneza no som do Carnaval da marcha das crianças e fazem com que a paisagem se transforme para, de repente, ter o teu cabelo no cimo das ondas.

Já não há por aqui alfândega nem mercadorias para pagarem direitos conforme a pauta aduaneira. Neste lugar passa o som da marcha, passam as imagens e as máscaras do desfile e o ponto alto das ondas acaba por ser, de sete em sete, o recorte do teu penteado que ficou na sexta-feira à tarde em Lisboa. E sobre essa memória nada nem ninguém pode cobrar imposto, taxa ou comissão aduaneira.

Um livro por semana 108

«Histórias de amor» de José Cardoso Pires

Mais do que um livro trata-se aqui de uma lição de história da literatura. Estamos no ano de 1952: Victor Palla e Aurélio Cruz na editora Gleba criam a colecção «os livros das três abelhas» e publicam em Julho estas «Histórias de amor» que em Agosto os serviços da Censura retiram do mercado. José Cardoso Pires, então com 27 anos, escreve uma carta ao director dos serviços de Censura reclamando contra o abuso mas nada consegue. Ficou a história de proveito e exemplo para hoje: é possível pelo sombreado verificar no texto as palavras e expressões cortadas pela Censura: «dor de corno», «filhos da mãe», «saliva de beijos», lábios húmidos», «não me beije», «sua tonta» ou «conversa do catano». Sem esquecer que também cortou nomes de autores como Maiakowski, Eluard, Gide, Pessoa e Debussy. Além dos contos e da novela, este livro inclui as críticas de Óscar Lopes, Mário Dionísio e Luís de Sousa Rebelo – o único a quem, por viver em Londres, foi permitido denunciar o facto de a Censura ter retirado este livro do mercado.

Lido em 2009, há neste livro de 1952 o vigor dum jovem escritor que queria dar o seu recado ao Mundo ao descrever a «rapariga dos fósforos»: «Deixei-a é certo, sozinha e a trincar fósforos. Mas que poderá uma pessoa, unicamente por si, quando se lhe depara uma rapariga tão jovem e com o corpo traçado pela boca esfaimada duma velha, uma rapariga que nada sabe do mundo nem nunca beijou um homem? A menos que um vento sagrado de justiça venha dignificar as razões ultrajadas, os gestos, o olhar.»

(De notar na referência biográfica de JCP a rasura de Vila de Rei; passando da freguesia ao distrito e esquecendo o concelho)

(Edições Nelson de Matos, Capa: Paulo Condez, Ilustração: Sónia Oliveira, Contracapa: Júlio Pomar)

Vinte Linhas 320

Brito Camacho ou Memórias felizes na A.P.E. com Óscar Lopes, Fausto e Seizette

Fui feliz a partir do momento em que recebi o prémio de poesia da A.P.E. em 1981: fiquei amigo de Raul Marques (o outro premiado), de Armando Silva Carvalho, Fernando J.B. Martinho e Pedro Támen (júri) e de José Correia Tavares e Urbano Tavares Rodrigues que assinaram a filiação na Casa. Depois David Mourão Ferreira e Orlando da Costa receberam-me como um igual sem cuidarem se eu era «licenciado». Acaba de chegar à minha mão o livro «Quadros Alentejanos» de Brito Camacho e, num relâmpago, recordo os nossos fins de tarde na A.P.E. com Óscar Lopes a falar dos grandes clássicos esquecidos que era urgente reeditar. Eu e Fausto Lopo de Carvalho éramos ouvintes atentos. Bebíamos as palavras do nosso querido professor mas bebíamos às vezes um vinho licoroso de Carcavelos que o Fausto trazia do seu escritório na Rua do Comércio. Atenta e simpática, Seizette, a eterna secretária, adiantava a bolachinha. Eram aulas grátis do professor Óscar Lopes. Este «Quadros Alentejanos» figura ao lado dos grandes livros do Alentejo: entre a poesia do Conde de Monsaraz («Musa alentejana») e a prosa de Manuel da Fonseca («O fogo e as cinzas»), entre os ceifeiros e carreiros de Francisco Bugalho e os feitores e negociantes de gado de Mário Ventura em «Vida e Morte dos Santiagos». Sei que a Seizette vais ser homenageada num jantar no Martinho e como não posso estar presente quero ir à A.P.E. levar este livro para nos lembrarmos melhor dos fins de tarde com Óscar Lopes e Fausto Lopo de Carvalho. Há nesta prosa a força da alma das pessoas da infância de Brito Camacho – «Vive-se tanto a recordar!». É bilhete para um certo tempo português em Portugal e em Aljustrel de 1862 a 1943.

Vinte Linhas 319

Recado a António Rebordão Navarro (ainda a tempo)

Soube pela Revista da Sociedade Portuguesa de Autores que o seu próximo livro tem o título de «As ruas presas às rodas» embora apareça por lapso «As luas presas às rodas». Quando fiz parte do júri de um prémio literário não sabia (obviamente) quem era o autor daquele texto e houve um lapso por parte da secretária do vereador da cultura que na listagem escreveu o nome do seu original como «As ruas presas às rosas» e deu-lhe o número «28» quando na verdade era o original nº 38. Como vê o nome do livro está e continua embruxado.

Todos nós gostamos de ter razão e somos felizes naqueles breves instantes em que temos razão no momento próprio. Ter razão fora do tempo já não é a mesma coisa. O seu livro agradou-me de tal modo que escrevi nas notas «Bom +++» mas na vida, tal como no futebol, há três resultados possíveis: vitória, derrota ou empate. Eu perdi, fui derrotado, porque o seu livro não ganhou mas agora que a publicação está anunciada, meu caro António Rebordão Navarro, permito-me enviar-lhe um recado: não se esqueça que há uma troca de linhas entre as páginas 127 e 129 do original. Uma pessoa com jeito para mexer em informática facilmente «recorta e cola» essa meia dúzia de linhas passando-as da 127 para a 129 com uma perna às costas. Não recorra a um «sem-abrigo informático» (assim como eu) que só piora as coisas.

Como vê continuo a ter uma memória razoável. Não é para todos ter estas referências tanto tempo passado sobre o concurso literário. O seu livro merece ser feliz mas não se esqueça da troca de palavras entre as páginas 127 e 129. Isso é «fundamental».

Um livro por semana 107

Os «Narcóticos – volume 2» de Camilo Castelo Branco

O espírito e o humor de Camilo iluminam estas páginas: «O leitor não se assuste. Pelo facto de chamar-se Narcóticos o meu livro, abstenha-se V. Exa. da pretensão egoísta de abrir a boca logo que abrir o livro e estirar-se de papo acima numa regalada modorra cheia de roncos assobiados em cromática infernal pelas trompas nasais. Não pretendo ser mais opiado e calmante que outro qualquer livro nacional. Estimo que adormeçam mas devagar, com os espreguiçamentos usuais nas duas Câmaras e etiquetados com frascos na grande farmácia do Diário das Cortes».

Camilo comenta o problema dos direitos de autor, discorda de Alexandre Herculano e afirma: «A literatura-mercadoria, a literatura-agiotagem tem na verdade progredido espantosamente». Mais à frente, sobre a poesia, proclama: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». As eleições de 1879 originam esta observação: «O Governo progressista de 1879 fez retroceder a liberdade do sufrágio a 1845, com a diferença que antepôs à violência da paulada o suborno das consciências com mais suaves pressões, exceptuando os dorsos que as sentiram duras». A suspensão do «Boletim da Bibliografia Portuguesa», dirigida por Fernandes Tomás, merece a Camilo este reparo: «A suspensão deste periódico é um dos sintomas da podridão que nos vai relaxando e acanalhando a um raso de desprezo das letras que não tem semelhante em parte do Mundo, onde, alguma hora, houvesse livros e civilização».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Um livro por semana 106

«Efeito borboleta e outras histórias» de José Mário Silva

Este é um conjunto de histórias muito breves cujo ponto de partida é a definição de efeito borboleta: «se uma borboleta bater as asas, algures na Amazónia, pode provocar um tornado no Texas». Aqui se percebe que o amor é difícil: «Meu amor, Esta é provavelmente a última carta que te escrevo. Os meus netos venderão os móveis, deitarão fora o espelho e lerão, talvez com a indiferença de quem nada compreende, estas centenas de cartas que nunca te enviei.» Aqui se percebe que a morte é inevitável: «São sete da tarde. Alberto está na sua área, agitando o braço em semicírculo enquanto espera que algum automobilista se decida a estacionar. Depois de pedir ajuda a uma velhinha num 2CV preto vem a resposta com três notas de 50 euros – Meu filho, toma lá isto mas olha que nunca mais te quero ver nesta vida que levas, ouviste? – mas olhando melhor Alberto descobre uma gadanha no banco traseiro do 2CV. Aqui se aprende que nem sempre a literatura nos salva: «Quando A. M. Sousa publicou o seu primeiro romance aos 31 anos em 2014, a literatura portuguesa levou, nas palavras do crítico José Maurício Palhavã, um choque eléctrico fulminante. Ninguém esperava aquilo. Depois deu-se o previsível colapso. Cenas lamentáveis num talk show. O internamento numa clínica psiquiátrica. A longa travessia do deserto. O culto do silêncio. A vida austera num quarto sem nada. A pose do eremita.» Aqui se descobre o espanto de quem quer escrever um conto e leva com um tsunami em directo no ecran da televisão: «Alguém ligou a TV. Era domingo, manhã radiosa. E no outro lado do mundo uma onda erguia-se muito acima da ficção.»

(Editora: Oficina do Livro, Capa: Neusa Dias, Revisão: Manuel Dias)

Vinte Linhas 318

Ler e publicar na era da abundância

Gabriel Zaid escreveu em 1995 o livro «Los demasiados libros» que em português deu «Livros de mais» na tradução de Miguel Graça Moura e na edição da «Temas e Debates». O ponto de partida deste livro é o passado («Graças aos livros sabemos que Sócrates desconfiava dos livros») para chegar ao presente: «Se a nossa paixão pela escrita não for controlada, num futuro próximo haverá mais gente a escrever livros do que a lê-los».

Um dos problemas é a rapidez de fabrico: «Os livros publicam-se a tal velocidade que nos tornam cada dia mais incultos. Se uma pessoa lesse um livro por dia estaria a deixar de ler outros quatro mil publicados no mesmo dia».

Surge a inevitável pergunta – «Ler para quê? E escrever para quê? – e a resposta do autor: «a medida da leitura não deve ser o número de livros lidos mas o estado em que eles nos deixaram». Isto porque há livros que não são para ler: «dicionários, enciclopédias, atlas, livros de arte, de cozinha, de consulta, bibliográficos, antologias, obras completas». E também há livros bons e maus: já Plínio (o Antigo) fazia um resumo de tudo o que lia porque pensava que não havia livro, por mau que fosse, que não contivesse algo de bom…

Lembra Gabriel Zaid que «depois de Gutenberg já apareceram a grande imprensa, o cinema, a televisão, a informática, os satélites, a Internet. E, de cada vez, profetizou-se o fim do livro; e no entanto, cada vez se publica mais e com maior facilidade». E por fim conclui: «as pessoas verdadeiramente cultas são capazes de ter em casa milhares de livros que não leram, sem perderem a compostura nem deixarem de continuar a comprar mais».

Cruz de tinta

Há uma cruz de tinta no teu dedo

Recado, lembrança, não se esqueça

Na tua mão se concentra um segredo

Que eu tento descobrir na promessa

Todos os dias no lugar do santuário

Onde teus olhos são altar principal

Nos lábios um sermão extraordinário

No teu rosto a grandeza da catedral

Há uma cruz de tinta no teu dedo

Que eu procuro decifrar devagarinho

Na abordagem feita quase a medo

Não vá a tua mão noutro caminho

E se perca no bulício desta cidade

O fascínio dum sinal já decifrado

Nas tuas mãos a tinta é a verdade

O segredo vai contigo a todo o lado

Vinte Linhas 317

«Um professor sem palmatória é um artista sem ferramenta»

Descobri na Livraria Alfarrabista «1870» um livrinho («Notas de um professor liceal») da autoria de João Anglin e publicado no ano de 1955 em Ponta Delgada. O que é espantoso nisto tudo é que na página 62 aparece a mesma data (1870) como referência dum grave incidente em Vila Franca do Campo: uma professora indigna desse nome infligia às suas alunas maus-tratos continuados. O comissário dos estudos Eugénio do Canto dirigiu-se ao administrador do concelho solicitando um inquérito urgente: a filha de João Oliveira Júnior tinha um tumor na sobrancelha e ferimentos nas orelhas, a de Manuel Açafroa estava quase a morrer no hospital porque tinha o osso do peito partido, a de Manuel Furtado tinha um braço deslocado. As filhas de Manuel Cantareira, Manuel de Medeiros, Serafim Tavares Pereira e Maria de Jesus também tinham razão de queixa do monstro. É neste contexto que o autor lembra «A paixão de Jane Eyre» de Charlotte Bronte e os problemas das raparigas no internato de Lowood mas também o conto «Para a Escola» de Trindade Coelho com o título desta crónica. Um episódio menos doloroso tem a ver com o Teófilo Braga que em 1860 motivou um «Conselho Escolar» no liceu de Ponta Delgada devido aos problemas que teve com o professor Coelho de Amarante (uma altercação prolongada que obstou à continuação da aula) mas tudo se resolveu a bem: o pai de Teófilo era professor no Liceu e garantiu que o filho não voltaria à aula do professor queixoso. Este, quatro anos depois, comprou e ofereceu aos melhores alunos do Liceu seis exemplares do livro «Visão dos Tempo» do mesmo Teófilo Braga. Pudessem todas as histórias acabar assim mas a maldade humana é infinita e não permite.

Um livro por semana 105

«A Batalha das Lágrimas» de Joana Ruas

Trata-se de um romance de 749 páginas que conta as histórias da História e cujo pano de fundo é a vida em Timor entre 1870 e 1910, um período que apanha em pleno o Ultimato britânico. Nesse tempo o governador de Timor repetia muitas vezes: «Estou aqui para governar e governar é submeter!».

Um viajante recém-chegado define assim o território: «Timor não tem uma biblioteca, nem um grémio, nem um teatro, nem um bilhar, nem uma orquestra, nem um meio qualquer de distracção do espírito». Resta fazer política: «Fazer política aqui reduz-se a discutir se se é pelo governador ou contar o governador». A diversidade religiosa é complicada: «Há quatro religiões aqui: a animista, a católica, a islâmica e a budista. E há a considerar a pressão do calvinismo a partir do Timor Ocidental».

A autora explica o que entende por povo de Timor: «Esta sociedade incaracterística, sem tradições definidas, invadida e perturbada pela massa de estrangeiros que a explora e abandona, continha muitas raças sem que houvesse um povo».

Poderia chamar-se este livro «O governador e a rainha» mas não. Primeiro esqueceria o papel de João Maurício, o brasileiro que liga habilmente os diversos fios da narrativa. Depois não poderia esquecer que «A batalha das lágrimas» é o nome que ficou para sempre nos relatórios escritos dos militares portugueses e na memória dos habitantes de Timor. Este livro é mais do que um livro; é um acontecimento…

(Editora: Calendário das Letras, Capa: Miguel Madeira)

Um livro por semana 103

«Mata – um falar peculiar e outras curiosidades» de Manuel Barata

Houve tempos em que as localidades portuguesas aspiravam a ter uma Monografia. José Cardoso Pires fez da Monografia da Gafeira personagem do seu romance «O Delfim». Este livro de Manuel Barata, publicado por Edições Alecrim poderia ser a «Monografia da Mata». Existe na Mata (Castelo Branco) um falar peculiar. Esse é o ponto de partida. Na Mata diz-se acajadar por guardar, apalamado por adoentado, arrezoar por murmurar, assedento por mau-olhado, baldão por desleixado, banquinha por mesa-de-cabeceira ou burra por picota. Seguem-se algumas expressões populares (como sardinha no ar em vez de levar um estalo) e as alcunhas, os ofícios e as profissões do campo. Depois surgem os lagares de azeite, as mercearias, as tabernas, os cafés, as forjas, as oficinas., os sapateiros, os alfaiates, os barbeiros, os talhos, as serrações, os moleiros. Noutro capítulo recorda-se a festa do casamento que incluía o cortejo, os rebuçados, o copo de água e a terrina de sopa para as crianças. Segue-se a memória das casas: «uma porta de entrada e um corredor, no início deste uma porta que dava acesso a uma salinha e esta dava comunicação a dois quartos, um destinado ao casal e o outro aos filhos e/ou às filhas.» Também a memória das festas e procissões, danças e cavalhadas. Por fim os jogos e a culinária, o posto da GNR, a prática religiosa e a difícil sociabilidade dos seus habitantes: «A Mata esteve isolada durante séculos. A construção da actual estrada, que liga a povoação à EN 240 ocorreu já nos anos cinquenta. A anterior ligação era de terra batida. A Castelo Branco ia-se ao médico quando a coisa não passava com os remédios caseiros e rezas ou para tratar de assuntos importantes».

(Editora: Alecrim, Patrocínio: Junta de Freguesia da Mata e Intermarché (Os Mosqueteiros), Paginação e Design Gráfico: RIP 2000 Valentim Costa e Lourenço Lda.)

Um livro por semana 104

«CAMPOAMOR – Uma história de encornados, encornadores e pássaros avisadores» de Hugo Santos

O palco da história é Campoamor: «há por aqui casas que, inesperadamente, se desatam dos alicerces e se põem a subir céu acima como se tivessem asas». Uma das personagens é Amílcar Cravo que, segundo as boas e más-línguas da vila, tem um par de cornos que vão do Bairro Operário ao largo do Curral dos Coelhos». Outra personagem é Fernanda Raposo, a catequista que adverte o padre «o senhor prior não pode» mas faz tudo para que ele possa transformar o «não» em «sim». Não é de estranhar que surja no café da vila uma lista de encornados: «Felismina Coxo e Daniel Entrudo, Zulmira Ataíde e Aureliano Chambel, Fátima Grisalho e Leopoldino Pé-de-Ouro, Mónica Soveral e Ismael Martinez, Domitília Fragoso e Armelim Constantino, Fernanda Raposo e o prior da Matriz, Claudina Tremoço e Joaquim Pardalinho, Conceição Tecedeiro e Jacinto Cortesão, Cândida do Ó e Jeremito Água-Nova, Celina Abrantes e Aurélio Alvorão, Salomé Mendes e o filho do Zé António». Sem esquecer Isaura Soveral de Almeida cujo marido «saía para Évora para negócios de gado» e que descobre o amor do jardineiro e da sua criada acabando a senhora com o jardineiro num fardo de palha que havia ao fundo do casão a pedir «faz devagar para que eu sinta tudo».

Depois há os pássaros que chegam aos milhares e todos perguntam: «que faz esta passarada aqui nesta época do ano, vieram eles festejar o quê?» A resposta está na página 153: «tombam gotas de luz dos céus de Campoamor, sagra-se a Primavera no trinado dum rouxinol, reinventa-se um amor urgente». Um amor no qual a única medida é amar sem medida, um amor que muda o nome da vila de Campo Maior para Campoamor.

(Editora: Campo das Letras, Capa: Arnaldo, Nota introdutória: Urbano Tavares Rodrigues)

Um livro por semana 102

«O Século» de Lopes de Mendonça: O primeiro jornal socialista

António Pedro Lopes de Mendonça (1826-1865) figura no nosso século XIX ao lado de Garrett, Castilho e Herculano: historiador, poeta, jornalista, folhetinista, doutrinador, crítico e ensaísta. Mas também fundador e redactor anónimo de «O Século», um jornal de 11 números com 16 páginas cada, que se publicou entre 10 de Abril e 25 de Junho de 1848. Ernesto Rodrigues recupera-o para os leitores de hoje em 165 páginas de texto anotado que dedica a Manuela Rego e a Teresa Martins Marques.

Vejamos de modo breve como Lopes de Mendonça escreve sobre a República em 1848: «A república não tem classes, não tem distinções, não tem interesses rivais: as lutas são as das ideias e a sua expressão é, tem de ser manifestada pela imprensa. Ás revoluções armadas hão-de suceder as reformas pacíficas; às paixões, os sentimentos; aos certames de partido, os combates de princípios. Alcançar-se-há esse ideal que debalde têm querido realizar as monarquias representativas? O sistema republicano acolherá no seu seio o princípio da perfectibilidade humana sem que ele ressurja de espaço a espaço tinto de sangue?»

Incansável jornalista e homem de ideias, Lopes de Mendonça responde à pergunta «O que quer o socialismo?» deste modo: «A fraternidade substituída ao individualismo: isto é, o indivíduo ligado pelos sentimentos e pelas instituições à sociedade: a associação em vez da concorrência, isto é um regime industrial que iguale as condições dos três agentes da produção, o capital, o talento e o trabalho».

A capa deste livro que vem revelar um novo aspecto na história das ideias do século XIX em Portugal, reproduz um quadro do pintor Gaspar David Friedrich (Nuvens passageiras).

(Edição: Ernesto Rodrigues, Execução Gráfica: Textype Lda.)