Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Alexei Bueno nas Escadinhas do Duque

Tinha que ser escritor este bandeirante

Nome herói de romance em homenagem

Assim a Rússia já não fica tão distante

Numa vida que é também uma viagem

Nas Escadinhas do Duque é rei à mesa

Dá lições de poesia em breve seminário

Entre cerveja e amendoim nasce a beleza

Da Poesia que o Mundo vê ao contrário

Somos poucos aqui um grupo acantonado

Na mesa posta por D. Rosa na sexta-feira

Viajamos num bacalhau bem temperado

Pelo azeite tão puro e leve duma oliveira

No Camões a mulher feia vende cocada

Desesperam por um visto os brasileiros

Que pena a vida não poder ficar parada

Aqui onde os poemas nascem inteiros

Dixit

 

 

 

 

“Senti, tenho de admitir, ao ouvir-te dizer, alto e bom som, que a tua mulher é uma reles pêga barata, uma enorme inveja de ti. Na verdade, só seria capaz de afirmar tal coisa alguém que recebe, mensalmente, um avultado salário.”

Um livro por semana 115

contos-de-helia-correia
«Contos» de Hélia Correia

Entre Natureza e Cultura – estas duas palavras podem definir, além do talento, a escrita de Hélia Correia. Tendo vivido a infância e a adolescência na Estremadura (serras, planícies e praias) ficou entretanto apaixonada pela cultura grega (teatro, poesia, pensamento) e esse fascínio é uma das características da sua escrita. Este recente livro de contos engloba seis segundo uma escolha pessoal da autora: Eirene, Capadores, Nessa noite, Sul, Doroteia e A compaixão, este último resvalando já para o formato de novela. Vejamos um excerto de Capadores: «A Europa mandava o seu dinheiro, especialmente destinado àqueles que deixassem morrer os animais. Os pastores levavam os rebanhos para o relento e a seguir embebedavam-se para não os ouvirem a chamar. Os camponeses viam os pomares e os favais cobertos pelo mato e só passados uns instantes conseguiam sorrir para a paisagem. Mas passara. Passara tudo. Uma justiça inesperada, quase ofensiva, se exercera sobre as classes sem, no entanto, descobrir a mão. De facto toda a gente se vestia de modo semelhante e, mais do que isso, todos desfrutavam do enorme serão televisivo que não apenas irmanava a noite de pobres e de ricos mas também lhes irmanava os próprios pensamentos. Estavam todos nas mesmas circunstâncias, preocupados com inundações e um pouco divertidos com as guerras que não ameaçavam chegar perto. Tinham todos o mesmo futebol e os mesmos enredos de ficção.»

(Editora: Relógio de Água, Capa: Paulo Scavullo, Foto: Graça Sarsfield)

Vinte Linhas 336

«Salão Portugal» de Vítor Serpa

São 15 viagens à infância do autor: «O meu mundo era Lisboa; o meu país, Belém; a minha aldeia, a Travessa da Memória». Esta infância, tempo no qual não há preço nem para os beijos nem para as lágrimas, tem uma geografia: «A fronteira sul era o Tejo, a norte era a Ajuda, a leste era a Boa-Hora, a poente o Restelo. Os meninos que lá viviam não brincavam connosco nem faziam trocas dos bonecos da bola». Cromos entre o «não tenho» e o «fica para a troca»: «o Ramin, o Falé, o Rita, o Paz, o Rocha». Nesta infância há diferenças entre dona e senhora: «a mulher do peixe, varina velha e cansada, não se chamava dona mas senhora». Aprende-se o primeiro amor (Leila) que veio com o circo Filadélfia, chamava-se Dores e desapareceu numa manhã de nevoeiro. Aprende-se o segundo amor (Sissi) no Salão Portugal: «Na minha frente a deslumbrante visão da Romy Schneider, haveríamos de andar de mão dada». A Escola Primária («os heróis da Pátria eram vizinhos de Deus») faz a ponte para a memória do atentado contra D. José: «Saíra o rei por amor. Outros terão saído por ódio. Tudo acabou em cinzas e sal». Da montra da D. Vitória onde Cochise, Zorro, Silver, Jim Clarck, Buda e a Senhora de Fátima vivem em fantasia, a narrativa salta para a verdade da viúva de 26 anos com o marido morto em Tete que, farta de ser chamada «gaja, mulherzinha e reles» se lança à linha do comboio deixando um bilhete: «Amar-te-ei sempre. Ainda mais na morte do que na vida. Laura» No tempo definido («operários presos pela PIDE, crianças internadas com tuberculose») o registo dual do texto oscila entre a vida («o Matateu foi para o Atlético») e a morte: «Que orgulho pode uma mãe ter pela morte de um filho? Só porque militares fardados lhe chegaram à porta e lhe dizem que o filho morreu pela Pátria?» Entre a vida e a morte, fica o lugar do sonho: «Era a Baixa de Lisboa. As mulheres, elegantes. Os homens, ricos. Os carros, luminosos. As montras, apetecíveis».

(Editora: Dom Quixote, Capa: Henrique Cayatte, Fotos: André Alves e Horace Bristol)

Intermitência

 

 

“Quero, desesperadamente, o teu sexo”, revela-me, fome e excitação, C. “Sim”, respondo. “Sempre me pareceu, sobretudo depois de olhar com atenção para o aspecto do teu rosto, que um pénis se encaixava melhor no conjunto do teu corpo”, acrescento.

Vinte Linhas 335

Homenagem a um mestre da fotografia no Chiado

O espaço belíssimo e acolhedor, composto por uma sucessão de salas em abóbada, tem o nome de «Fábulas» e fica na Calçada Nova de São Francisco nº14, ao Chiado. A exposição de fotografias de Manuel Luís Cochofel (n. Huambo, 1965) intitula-se «Binary Bodies – After Muybridge» e organiza-se numa homenagem à obra do fotógrafo Eadweard Muybridge. Explica Manuel Luís Cochofel: «Uma das características que mais me interessou explorara é o isolar de cada um dos movimentos tornando cada corpo no autor de um gesto que não compreendemos e temos dificuldade em imaginar como se seguirá, se terá continuação e nos deixa uma certa angústia e perplexidade que me interessa gerar».

Em vez de reproduzir apenas as imagens do clássico que pretende homenagear, este trabalho pega em velhas fotografias nas quais se depositou o pó do tempo e vai ampliando umas e fragmentando outras, fazendo de cada rosto uma silhueta, de cada movimento uma suspensão, de cada corpo uma memória difusa.

Já Aragon tinha avisado («Car j´imite, tout le monde imite, tout le monde ne le dit pas») e poetas de grande craveira como Carlos de Oliveira ou José Gomes Ferreira escreveram poemas em forma de imitações de poemas de Luís de Camões – por exemplo. No caso de Manuel Luís Cochofel em vez de imitação trata-se de uma transfiguração.

O local da exposição também convida a essa dicotomia: há nas lajes do pavimento e nos tijolos das abóbadas o peso do que é perene enquanto a fotografia aparece muitas vezes (e quase sempre) como a apoteose do efémero. (A não perder até 30 de Abril).

Um livro por semana 114

«O meu cinzeiro azul» de Henrique Manuel Bento Fialho

A origem deste livro é o Blog antologiadoesquecimento de Henrique Fialho (n. Rio Maior, 1974) e a sua primeira frase em 5-9-2005: «O meu cinzeiro azul está repleto de cinza». O ponto de partida destas reflexões é o tempo actual: «Para o bem e para o mal a religião chama-se hoje economia, a santidade metamorfoseou-se em fama, Deus dá pelo nome de dinheiro. No meio disto tudo, a liberdade, estro da indignação, é sonho, é utopia, é poesia». Neste mundo a poesia tem um lugar: «A poesia mora num lugar muito para lá da palavra, independente das costuras da linguagem. Ela é miopia reveladora». Mas além do lugar tem uma função: «Como entender a função da poesia num mundo que sobrevive à custa de uma constante simplificação das perspectivas que lhe dão forma?». Também a poesia tem uma vitalidade própria: «A poesia é útil como um garfo, um martelo ou uma esferográfica. Mais útil porque está mais presente na minha vida do que qualquer destes utensílios». Esta perspectiva conduz a uma compreensão de toda a poesia: «ver num poema uma representação do universo». Entre o mundo e a poesia, surge o amor: «Quem ama ou odeia nunca está só. Pode amar-se em dor, nunca em solidão. Havendo memória não há morte. Havendo memória há presença. Mas o amor é uma palavra demasiado grande. Tão grande que não cabe num poema». Fica a ideia final: «A poesia, a ser alguma coisa, que seja esse lugar de reencontro do homem consigo mesmo, do homem com a sua condição, lugar de encontro com uma verdade não mais triste porque inútil, nem mais alegre porque pateta, do que a própria vida: um passar por cá, entre a lágrima e o sorriso, entre a dor e o prazer, entre o gelo e a chama, entre a terra e o céu, entre os outros que são aqueles entre os quais também nós nos encontramos».

(Editora: Canto Escuro, Ilustrações: Cristóvão Crespo, Grafismo: Mário Pedro)

A factura de Conceição

Quando nasceste caiu todo o peso da Terra

Sobre os ombros já tão cansados da tua mãe

Venceu a vida sobre a morte em pé de guerra

Que tinha levado o teu pai para outro Além

Não pudeste sentir a força dos seus braços

Quando regressava a casa ao fim dos dias

Nem ele sorriu dos teus primeiros passos

Ou emendou as tímidas palavras que dizias

Agora tu devolves à tua mãe essa ternura

De há cinquenta anos mas em duplicado

É quase como quem paga hoje uma factura

Cujo vencimento nunca foi ultrapassado

Uma factura feita das lágrimas e dos sinais

Uma soma de muitos cuidados e de paixões

Corres por ela nos corredores dos Hospitais

Se pudesses eras tu que fazias as transfusões

Vinte Linhas 334

A irresistível vocação da Revista Visão para a conjuntivite

Esta semana a Revista Visão entra a matar na sua coluna «Radar – figuras» com fotos e comentários sobre quem ganhou cor e quem a perdeu na semana. Transcrevo a prosa: «Lucílio Baptista protagonizou o erro de arbitragem do ano no Estádio do Algarve. Mas foi só ele? E a sucessão de outros erros (contra o Rio Ave e o Belenenses) que permitiu a chegada de Sporting e Benfica à final?» Primeiro erro crasso: o Sporting chegou à final da Taça da Liga porque venceu o F.C. Porto por 4-1 e não porque beneficiasse de um erro do árbitro do jogo Rio Ave-Sporting. Segundo erro crasso: quando o Sporting jogou com o Rio Ave já tinha assegurado o primeiro lugar na sua série pois tinha vencido os outros dois adversários (Marítimo e Paços de Ferreira) obtendo assim seis pontos, pecúlio mais que suficiente para ser o vencedor da sua série onde todos tinham perdido com todos e (deste modo) tanto lhe fazia somar nove como sete pontos. Para o caso era igual.

Esta conjuntivite (olhos vermelhos e infectados) já eu conheço há muitos anos e lá continua a fazer carreira na nossa comunicação social. Comecei a colaborar em A Bola em 1979, passei pelo Record em 1986 e estive no Sporting de 1988 a 2006. Fui o organizador do livro «O Desporto na Poesia Portuguesa» em 1989, sou um dos co-autores de «Glória e Vida de Três Gigantes» de 1995 e conheço o meio. Não falo ao acaso.

Esta tentativa canhestra e mal amanhada de tentar branquear um erro terrível que inverteu um resultado de um jogo decisivo, numa altura em que o adversário do Sporting não conseguia alterar o curso dos acontecimentos, vem provar que hoje como ontem eles andam por aí. Não há pingos para esta conjuntivite; os olhos continuam vermelhos.

Balada da Rua de Baixo

Rua de Baixo, meu mundo

Onde eu regresso cansado

Quando o olhar é profundo

Já andou por todo o lado

São casas sem ninguém

De famílias desligadas

Não se ouve a voz da mãe

Na névoa das madrugadas

Meu berço e minha escola

Minha casa e minha igreja

O amor não pede esmola

Nas esquinas da inveja

Minha paisagem saudosa

Povoada por destroços

Duma sede mais gasosa

Que a água destes poços

Filarmónica formada

Manhã cheia de brancura

Há festa não tarda nada

Na rua desta amargura

Sete ondas repetidas

São sete beijos do mar

Na areia das nossas vidas

Já só podemos cantar

Pode-se cantar um fado

Feito só de melodia

Um homem fica calado

Ao ver a fotografia

Minha rua inicial

A vida, anos primeiros

Onde passou triunfal

A paixão dos baleeiros

Um livro por semana 113

«Deserto de todas as chuvas» de Sidónio Bettencourt

O ponto de partida deste livro é o lugar da infância («ouço-te desse lugar longe que não habito») o espaço ao qual é difícil voltar: «a custo se regressa ao berço, à escola, à casa, à velha igreja». Porque a infância não é hoje o paraíso perdido mas sim «a nostalgia da casa desabitada e a família dividida». A memória fica repartida entre a monotonia da paisagem («lá vão, a carroça, a bilha do leite, o cão, a missa, o vapor, tudo aceite») e as figuras que a povoam: «carregaste sacos, garrafas, cimento e gás / trouxeste e levaste embrulhos e a carne do talho para todos os doutores / rachaste a lenha do forno e cozeste o pão que o diabo amassou / riste de tudo e viveste entre quarto paredes despidas duma casa de cal e sol / partiste sem os braços quentes duma mulher».

Este retrato do «menino Jaime» é uma fórmula subtil para o poeta introduzir o tema do amor e dos seus desencontros: «não sei se te encontrarás algum dia e se me vires não digas palavra / saberei dizer-te no olhar o que me escondeste dos olhos e da voz calada sentirás o poema da partida». Quando o ponto de partida é a infância o da chegada é o regresso a esse lugar: «nunca tive outra pátria, outro rio, outra casa, outra rua, nunca tive outra terra, outro mar, outra mãe, outra mulher, nunca tive outra coisa qualquer».

Pelo meio fica a respiração entre o deserto («o porto é o deserto / a gente / a fome / a gritaria») e a festa possível: «enquanto houver uma farda branca de clarinete, um pacote de amendoins, uma lâmpada entre dois mastros de bandeira e esta saudade imensa, o tio João Alves pode cortar o cabelo para a festa».

(Editora: Salamandra, Capa: Marta Figueiredo, Desenhos: Emanuel Garcia, Prefácio: Eduardo Bettencourt Pinto, Nota da contracapa: Carlos Melo Santos, Apoio: Câmara Municipal das Lajes do Pico e Direcção Regional da Cultura)

Vinte Linhas 331

O vómito algarvio ou segundo caso «very light»

Corria o ano de 1996 quando na Final da Taça de Portugal no Jamor um «very light» atirado de uma claque benfiquista atravessou o relvado e atingiu o peito do sócio sportinguista Rui Mendes destruindo-lhe a traqueia e provocando a sua morte imediata. Treze anos depois no Estádio do Algarve, na Final da Taça da Liga, foi o árbitro setubalense que atirou um «very light» ao peito do jogador Pedro Silva assinalando uma grande penalidade inexistente e expulsando o mesmo jogador. Como o adversário do Sporting não conseguiu o golo, o árbitro «chegou-se à frente» e resolveu a questão. No primeiro caso a FPF foi condenada a pagar uma indemnização pelo Tribunal de Oeiras e o autor material do disparo do «very light» foi preso e condenado mas depressa fugiu de uma prisão de alta segurança. No segundo caso o árbitro não vai ser castigado e o clube vencedor festejou a vitória como se a mesma fosse legítima. Não estranha num clube que celebrou o centenário no ano em que fez 96 anos e ostenta na camisola o símbolo de 31 campeonatos quando são apenas 28 uma vez que as Ligas de 1935 a 1938 foram torneios privados, particulares e onde os clubes entravam por convite; ao contrário do Campeonato de Portugal, único torneio de futebol em Portugal que atribuiu o título de campeão nacional entre 1921 e 1938. Na verdade foi a camisola do jogador Di Maria do Benfica a agitar-se (a papoila saltitante) que marcou a grande penalidade. Tal como o falso centenário em 2004, tal como os três campeonatos fantasma de um torneio que se realizava nos domingos livres entre as eliminatórias do Campeonato de Portugal. Este segundo caso «very light» é um vómito mais sobre este tão pobre futebol português.

Vinte Linhas 330

De como a ASAE me estragou o Dia do Pai ou «Não se pode exterminá-lo?»

Vinha eu embalado num dia quase feliz pois ainda pude almoçar com o meu pai no Dia do Pai e receber três beijinhos dos meus filhos (um deles por telefone) quando de súbito levei um murro no estômago e fiquei com o resto do dia estragado. Parei na Espinheira para um lanche que supunha agradável mas soube que a Associação Cultural e Recreativa de São Salvador / Espinheira foi multada pela ASAE em 4.500 euros por não ter livro de reclamações e por não ter o snooker aferido. É espantoso como aqueles «cérebros» são capazes de castigar assim os indefesos corpos gerentes da Associação. Um livro de reclamações tem justificação para um café que existe para ter lucro mas para uma associação que trabalha desde 1-5-1974 e está aberta desde as 8 da manhã às 11 da noite para apoiar os 180 habitantes das duas localidades é uma brutalidade monstruosa e desajustada para uma equipa de dirigentes que se preocupa em manter uma escola de karate e um espaço de ginástica de manutenção para a terceira idade. Podiam ao menos (se tivessem um pouco de bom-senso) avisar que, apesar de a Associação não ter fins lucrativos mas como único fim o bem-estar da população quase toda idosa, se tornava obrigatória (mesmo assim) a apresentação de um livro de reclamações. Mas não. Bom-senso eles não têm nem fazem ideia do que seja. Querem é passar a multa. Agora lá vai a Associação organizar uma noite de fados e guitarradas para angariar fundos para pagar a multa da ASAE. E eu pergunto: então e a Junta de Freguesia, a Câmara Municipal e o Governo Civil não podem fazer nada para ajudar a Associação? Eu revoltado digo como o Vanigen encadernador na peça de Karl Valentim: «E não se pode exterminá-lo?»

Um livro por semana 112

«O Marquês da Bacalhoa seguido de A execução do Rei Carlos» de António de Albuquerque

Esteve para se chamar «Enseada Azul» este hoje clássico da literatura de combate contra a Monarquia. Abre um dos capítulos com: «Achava-se ali, nesse à-vontade incomparável das praias, todo o vício elegante, vaidoso e snob da linda e vasta Enseada Azul e se à primeira vista parecia reinar entre os frequentadores da praia uma geral promiscuidade, era um completo engano. Havia profundas separações; barreiras vedando o acesso aos desconhecidos e aos possidónios».

Além do Rei, a Rainha é posta em causa, sendo-lhe atribuída uma ligação a uma das mulheres da corte a quem dirá: «Não sejas criança. Vai desembaraçar-te desse aparatoso vestido e volta depressa…anda. A ti adoro-te, bem o sabes, e ninguém incarna para mim o amor como a tua fragilidade voluptuosa, sincera e ardente». As relações entre as personagens e as figuras reais são evidentes: o Bacalhoa é D. Carlos, João Franco é João Nunes dos Santos, Mouzinho é o coronel Luna, Soveral é Álvaro Negrão.

Sobre «A execução do Rei Carlos», óbvio desenlace do livro anterior, escreve Paulo da Costa Domingos «Limpando os escolhos literários, subsiste na sua pungência original uma passagem da nossa história, das difíceis de se omitir a parte maldita».

Para fugir à polícia de João Franco os livros foram compostos numa «catraia» (pequena oficina) na Rua do Arco do Bandeira embora apareçam em 1908 e 1909 como sendo impressos em Bruxelas. António de Albuquerque era descendente de Afonso de Albuquerque e morreu em 1923 em Sintra depois de pedir perdão à Rainha e a Deus.

(Editora: Frenesi, Prefácio e Capa: Paulo da Costa Domingos, Assistência editorial: Telma Rodrigues, Caricatura: Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro)

Vinte Linhas 329

Mais de 9.000 livros perdidos na British Library

A notícia deixou-me, como é costume dizer-se na brincadeira, de olhos boquiabertos… Então aquela santa instituição chamada British Library deixou perder mais de 9.000 livros alguns deles perfeitamente insubstituíveis. Vejamos: um guia da cidade de Roma editado no século XVII, a edição de 1876 da «Alice no país das maravilhas» de Lewis Carrol, os «Cantos» («Canzoni») de 1911 de Ezra Pound, «O retrato de Dorian Gray» de Óscar Wilde na edição de 1891, uma carta astrológica de Moses Ben Maimon datada de 1555 e um livro de Wolfgang Musculus de 1556 intitulado «Sobre os cristãos». Todos os livros são mais que valiosíssimos e também impossíveis de substituir.

O mais engraçado é que isto não tem graça nenhuma. Corria o ano de 2006, o calendário marcava o dia 27 de Julho e estive uma manhã quase inteira a responder a uma bateria de perguntas antes de me concederem o cartão de leitor nº 631480 com validade até 27 de Agosto desse ano de 2006. Quiseram saber quem eu era, mostrei a carteira profissional de jornalista e expliquei que estava a ajudar o meu filho recolhendo elementos para a sua tese de mestrado sobre o Marquês de Alorna e o Estado da Índia. Depois obrigaram-me a indicar um parente em Londres com a sua profissão, o seu local de trabalho, a sua morada e o seu número de telefone. Senti-me incomodado por tanta pergunta, por tanta especial vasculhar na minha privacidade (até pediram o número do meu cartão de crédito torcendo nariz ao facto de ele ser apenas silver…) e duas horas depois lá me concediam o cartão. Fiquei irritado, fui tratado como um suspeito mas as exigências são só para alguns. Pelos vistos os tipos que roubaram aqueles livros todos não foram incomodados como eu.

Um livro por semana 111

«De Tempos a Tempos» de Júlio Conrado

Júlio Conrado (Olhão, 1936) é um autor multifacetado (romancista, contista, poeta, ensaísta, biógrafo, contista e tradutor) que publica regularmente desde 1963 e tem textos seus traduzidos em francês, alemão, inglês, húngaro e grego.

Este «De Tempos a Tempos» junta dois livros num volume: antologia pessoal e antologia crítica. Escreveram sobre a obra de Júlio Conrado (entre outros) os seguintes críticos: Ramiro Teixeira, Ernesto Rodrigues, Serafim Ferreira, Maria Estela Guedes, Annabela Rita, Manuel Villaverde Cabral, António Augusto Menano, José Fernando Tavares, Cristina Robalo Cordeiro, João Rui de Sousa, Maria Fernanda de Abreu, Fernando J. B. Martinho, Eugénio Lisboa, Liberto Cruz, Manuel Simões, António Cândido Franco, Urbano Tavares Rodrigues, João Gaspar Simões, Duarte Faria, Luís Miranda Rocha, Maria Alzira Seixo e Fernando Venâncio.

Duas cartas de Fernando Namora e de Eduardo Lourenço completam o volume que inclui uma entrevista conduzida por Luís Souta na qual Júlio Conrado afirma: «Considero-me um ficcionista. Se bom, se mau ou assim-assim, outros o dirão. Mas o ensaio e a crítica são áreas fascinantes que eu não julgo incompatíveis com a ficção e a prova é que, estando a publicar dois romances, anda por aí mais um livro de ensaios, Ao Sabor da Escrita. Não se trata de uma questão de jogo mas sim de interesse intelectual. Tenho sabido separar as águas quando critico a «concorrência». E sou dos que mais tempo na sua vida consagrou a divulgar, através da crítica e do jornalismo cultural, a obra alheia. Pouco devo aos meus contemporâneos. Eles sim, devem-me bastante».

(Edição: Roma Editora, Capa: David de Almeida, Organização: Annabela Rita)

Vinte Linhas 328

O vestido é a bandeira da Primavera

Na cidade não há amendoeiras em flor mas eu vejo no teu vestido de hoje o anunciar da Primavera. O escuro do fundo do tecido contrasta com o verde e o grenat das imagens sucessivas, redondas e repetidas na vertical. Parecem pétalas de flores que o vento agreste dispersa na tarde quente da cidade.

Vejo no teu vestido uma bandeira a anunciar a estação que se aproxima. Vejo nesta geometria de cores o anúncio da vida a ressurgir depois do longo Inverno que fez das albufeiras repletas grandes lagos interiores na nossa paisagem. Entretanto nasce uma certeza: as barragens vão ter longos meses de desafogo.

O teu vestido de fundo escuro com desenhos a verde e a grenat é um anúncio de leveza, de alegria, de movimento. Basta juntar o som da tua voz, basta fechar os olhos para ouvir nela, dentro dela, no seu volume, o rumor do rio que passa na tua terra e a força do vento que empurra as pedras da serra ali mesmo ao lado.

Basta juntar o vestido ao som da tua voz para termos a luz das amendoeiras em flor em plena cidade, entre eléctricos e ambulâncias, entre carros da polícia e autocarros.

Nos semáforos, nas escadas do Metro, no comboio suburbano, no fim de tarde que se desenha à tua volta o vestido continua a ser uma bandeira da estação que tu anuncias um pouco antes do tempo. A Primavera chegou no timbre e na altura da tua voz, no esplendor do sorriso, no ritmo dos teus passos afirmativos e impetuosos. Caminhas nos passeios da cidade com o mesmo ritmo com que atravessas as ruas da aldeia nos dias de festa. Caminhas como se já ali à frente houvesse uma encosta de amendoeiras em flor.

Um livro por semana 110

«Sidónio Pais – Ídolo e Mártir da República» de Rocha Martins

Rocha Martins (1879-1952) foi sempre um jornalista apaixonado pela História. Começou no Diário Popular, passou por A Vanguarda, Jornal da Noite, Ilustração Portuguesa e República. Fundou os semanários ABC em 1920 e Arquivo Nacional em 1932.

Neste seu livro, escrito entre Abril e Outubro de 1921, Rocha Martins faz a sua reconstituição do tempo entre a «revolução» de Dezembro de 1917 e 14 de Dezembro de 1918, dia em que o presidente Sidónio Pais foi morto a tiro por José Júlio Costa.

Sobre o fascínio exercido por Sidónio junto das mulheres escreve o autor: «Sidónio Pais conseguira, em poucos meses, captar o maior elemento de triunfo que existe: a Mulher. Não havia uma só que não adorasse o gesto nobre desse homem esbelto e, com o fetichismo da raça, com a paixão do instinto pelo seu futuro, não o julgasse um ser de eleição pronto a remediar todos os seus males. A correspondência recebida pelo Presidente da República tem o aspecto sacro de um livro de orações em favor da Pátria. A mulher é quem guarda o lar, quem o deseja tranquilo, alegre; é ela quem cuida dos filhos e por eles teme; a portuguesa, na sua maioria dona de casa, receando perder o esposo, sonhando sempre com melhores dias, encontra em Sidónio uma esperança e não queria desiludir-se. Era a eterna continuação da lenda medieval do príncipe matando o dragão para salvar a princesinha».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)