Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Vinte Linhas 316

Uma cidade de futebol ou Os fotógrafos de Estaline não se cansam

Descobri o livro intitulado «Uma cidade de futebol», edição Assírio & Alvim/Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa. Embora refira os autores dos textos (Paulo Catrica, Nuno Domingos, Miguel Amado e José de Monterroso Teixeira) nada diz sobre o autor das legendas. Vê-se logo o BI do dito na página 34 «Equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica 1906/1907» Repete o erro na página 35. Fundado em 13 de Setembro de 1908, o Sport Lisboa e Benfica não existia em 1906, nenhum documento anterior a 1908 refere o Sport Lisboa e Benfica. Está na massa do sangue dos fotógrafos de Estaline a permanente reescrita da história do desporto em Portugal. Em 2002 dois nortenhos lançaram o livro «A paixão do Povo» e embora «historiadores» lá caíram no mesmo erro de rasurar a verdade histórica. João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro ousam escrever «decidiu bem quem decidiu pela data oficial…» ou seja, decidiu bem quem trocou 1908 por 1904. Nas tabelas do campeonato de Lisboa de 1906/7 lá aparece Sport Lisboa e Benfica em vez de Sport Lisboa. Depois em 1981/2 o Sporting ganhou a Taça de Portugal por 4-0 ao Braga mas no livro aparece 2-1. A seguir ao referem-se ao livro «Glória e Vida de Três Gigantes» e omitem o meu nome que está na ficha técnica ao lado de António Simões e Homero Serpa. Depois há um livro de Álvaro Magalhães («História natural do futebol») também da Assírio & Alvim (já é sina) que cita um poema da escritora Ivone Chinita (minha amiga falecida em 1983) que integra um livro por mim organizado e editado em 1989 («O desporto na poesia portuguesa») mas sem citar a origem quase como se tivesse andado com ela na costura em Grândola. Para concluir: fotógrafos de Estaline, já chega!

Um livro por semana 101

«Contos, fábulas & outras ficções» de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é o mais avassalador de quantos polígrafos o século XX deu à literatura portuguesa. Em boa hora a editora «Bonecos Rebeldes» resolveu publicar uma recolha de Zetho Cunha Gonçalves que junta textos de ficção narrativa publicados em jornais e revistas pelo próprio Fernando Pessoa. «Contos, fábulas & outras ficções» é um livro irreverente e indisciplinador, um hino à liberdade e um libelo contra toda e qualquer forma de censura, prepotência, submissão e conformismo. Na página 83 deste livro aparece «A origem do conto do vigário» no qual Fernando Pessoa explica à sua maneira a origem da expressão «conto do vigário» como tendo a ver com as façanhas de um tal Manuel Peres Vigário, lavrador ribatejano que teria enrolado seus irmãos num negócio de vinho. Mas a versão que eu tenho como correcta sobre a expressão vem de Vasco Botelho do Amaral e tem a ver com o conto do vigário «lisboeta» digamos assim. O burlão diz ao papalvo que o vigário da sua freguesia lhe confiou uma grande quantia para entregar a alguém quantia essa que está no embrulho – chamado paco. A pessoa que vai na conversa entrega o dinheiro pedido, acreditando que dentro do embrulho estão as notas que largamente compensarão o dinheiro emprestado em troca. E assim «vai no embrulho» pois, aberto o dito, vê que dentro dele só havia papel de jornal inútil e não as notas que seduzem os incautos. Estaremos perante uma invenção, mais uma, de Fernando Pessoa que teria aproveitado a expressão «conto do vigário» para imaginar uma história que viria a publicar no jornal «Sol» em 30-10-1926? Quem tem razão – Vasco Botelho do Amaral ou Fernando Pessoa? Será que a razão está com os dois? Responda quem souber…

(Editora: Bonecos Rebeldes, Organização, prefácio e notas: Zetho Cunha Gonçalves, Capa: Fernando Martins, Foto: Teresa Gonçalves)

Vinte Linhas 315

Dos selos da Lituânia às ruas presas às rodas

Fazer parte de um júri de um prémio literário tem destas consequências: nem sempre o original que nós mais valorizamos vence o concurso. E havendo três membros do júri basta os outros dois se juntarem numa opinião convergente para o (digamos) nosso original perder por 2-1. De qualquer modo a qualidade vem sempre ao de cima e, mais tarde ou mais cedo, o original (digamos) não vencedor acaba por ser publicado, saindo do silêncio das gavetas para o bulício das ruas.

Foi isto que aconteceu comigo em dois anos seguidos. Num concurso de livros de poemas gostei muito (mesmo muito) de um original com um título muito curioso – «Os selos da Lituânia». Na altura não sabia nem podia saber que o seu autor era Amadeu Baptista. Hoje sei que esse belíssimo livro já foi publicado apesar de não ter recebido o (digamos) meu prémio. O ano passado noutro concurso, agora de ficção narrativa, fiquei encantado com uma história de um taxista do Porto, exemplarmente escrita, com um ritmo e uma riqueza vocabular imensa, uma destreza absoluta na organização narrativa. Chamava-se o livro «As ruas presas às rodas». Hoje fiquei a saber que o seu autor é António Rebordão Navarro. Fiquei descansado porque a minha intuição não me traiu – uma vez mais. Acertei na qualidade deste livro em prosa como tinha acertado nos poemas do original «Os selos da Lituânia». A vida é feita destas coisas: derrotas e vitórias. Às vezes meias-derrotas e meias-vitórias que é assim que eu defino estes acidentes de percurso. O importante é cada um ser igual a si próprio. Coerente, justo, correcto. Não atropelar os direitos dos outros. Assim ganha sempre mesmo quando perde.

Um livro por semana 100



«Uma memória de Pereiros» de Joaquim do Nascimento

São 14 crónicas de revisitação («Nasci nos Pereiros e ali vivi até aos doze anos») e daí o subtítulo – «Quotidianos de uma aldeia do Alto Douro – 1930-1980». A geografia sentimental é vasta: «A fonte da aldeia, a azenha ou lagar do azeite e o forno, tal como a igreja, as capelas, o cemitério, as tabernas, ou sotos quando vendiam tecidos, a escola do Combro e as salas de aula que precederam esta, se alguém ainda as conseguir identificar, os velhos caminhos, o rio e os seus açudes e pontes, o moinho da tia Elisa, a caminho de Valongo mas ainda do lado de cá do rio, tudo isto constitui a memória colectiva do povo dos Pereiros». Tudo começa na paisagem («As árvores da minha terra são os sobreiros, embora uma ou outra oliveira de tronco carcomido pelos anos possa figurar em segundo lugar») e acaba no povoamento: «Nos Pereiros, ao pedreiro, ao carpinteiro, ao ferreiro, ao ferrador, ao sapateiro chamava-se artista». Fiquemos pela crónica sobre a carreira: «Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias e nos ligava pela EN 222 à Vila, ao Comboio e ao Mundo. A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava todas as manhãs, pelas oito e trinta minutos a caminho do Pinhão e regressava às quatro e meia da tarde. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira constituía a actividade social mais importante da gente da Vila e não vestir a melhor roupa para solenizar esse momento podia desqualificar um cidadão. Nesse curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas, comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras, bisbilhotando quem tinha chegado e imaginando o destino de quem seguia».

(Editora: Padrões Culturais, Capa: Mário Andrade, Apoio: Associação Amigos de Pereiros)

Vinte Linhas 314

Ruslam Botiev dá um «bom dia a Portugal»

Esta chuva que parece não ter fim é trazida por uma frente polar fria que nenhum anticiclone açoriano detém. Pode encher barragens mas prejudica a vida de muita gente. O meu amigo Ruslam Botiev, artista plástico mongol apaixonado por Lisboa, costuma fazer do passeio ao lado da porta da Basílica dos Mártires o seu atelier-exposição. Esta chuva só o prejudica a ele e aos seus quadros de pequeno formato. Um destes dias tenho que lhe dizer que os seus desenhos sobre Lisboa, suas ruas e suas gentes, seus transportes públicos e suas estátuas, seus telhados e seus gatos, me faz recordar o traço de Nuno San Payo. Parece-me óbvio que Ruslam Botiev, o sorridente artista plástico que veio da Mongólia, só por mero acaso poderá ter ouvido sequer falar dos desenhos de Nuno San Payo que integram um álbum intitulado «Calendário de Lisboa», editado em 1948 pela Livraria Popular de Francisco Franco. Ruslam Botiev entra todos os dias em Lisboa pelo comboio da ponte 25 de Abril. E, porque gosta da cidade dos alfacinhas apesar de ser natural da Mongólia, chamou «bom dia a Portugal» a uma série de desenhos seus feitos sobre Lisboa. Depois de ter vivido em Murça onde trabalhou sob diversas formas a figura da «porca de Murça», Ruslam Botiev veio para Lisboa e veio para ficar na Rua Garrett. Quando a tempestade passar, quando o sol chegar com a sua força contra a frente polar fria, eu hei-de oferecer ao meu amigo Ruslam Botiev uma reprodução da série «calendário de Lisboa» de Nuno San Payo provando nas parecenças do traço com a sua série «bom dia a Portugal» porque quando se ama uma cidade todos os desenhos de todos os artistas acabam por ser, afinal e no fim de contas, muito parecidos entre si.

Vinte Linhas 313

O exclusivo do Benfica em troca de uma noticia censurada

No passado dia 28 pelas 13 horas um jornalista do Diário de Noticias contactou o presidente do Getafe, Angel Torres por causa da contratação do guarda-redes Stojkovic. Durante a conversa (e sem ninguém lhe perguntar) o dirigente espanhol adiantou que Quique Flores lhe tinha dito o melhor possível de Quim guarda-redes do Benfica confirmando não ter problemas em prescindir dele pois tinha três jogadores de qualidade semelhante para o lugar. Alguém do Benfica, durante a tarde tentou desmentir que Quique Flores tivesse falado com o dirigente do Getafe sobre Quim. Já durante a noite um elemento do Benfica contactou o jornalista propondo a retirada da notícia por troca com um exclusivo mas sem revelar qual. No dia seguinte uma rádio conotada com o Benfica colocou no ar declarações do presidente do Getafe a confirmar que Quim lhe foi oferecido mas a desmentir, numa frase inacabada, ter falado com Quique Flores. Acto contínuo o site do Benfica emitia um comunicado em que o clube dizia estranhar as declarações proferida ao Diário de Notícias. A pesada máquina do Benfica funcionou mais uma vez. Como já tinha funcionado no falso centenário de 2004 e na paranóia das Ligas de 1935 a 1938 – como se o Campeonato de Portugal tivesse sido apagado da História do Futebol Português. Lembrei-me logo de uma cena do Eusébio que no meio da confusão dos festejos num dos campeonatos dos anos 60 agrediu um pobre adepto que só queria festejar. Pois no dia seguinte lá estava a «boa imprensa» no hospital a registar a entrega de uma camisola e de uma bola autografada. Isto já foi há 40 anos mas aquela gente não se cansa de tentar reescrever a história. Uma vez mais.

Breve canção para «A balada das baleias»

Tantas bocas à espera

Da riqueza da baleia

Na lancha da Primavera

Não tememos maré-cheia

Os velhos lobos-do-mar

Sentados na nostalgia

Já nada podem pescar

Quando chega o fim do dia

Botes, lanchas e vapores

Na Vigia da Queimada

As vozes dos trancadores

São tempestade poupada

Quando o mar é labirinto

Quando saudade é memória

Tudo aquilo que eu sinto

Faz nascer a nova história

Aqui no centro do Mundo

Casa dos botes, meu lar

Sentimento mais profundo

Tem a fundura do mar

Com chapéu ou em cabelo

Há nestes homens cansados

As muralhas dum castelo

Batido por todos os lados

Mulheres são como sereias

Lanchas com nome escrito

Fazem as horas mais cheias

Quando se pesca em conflito

As Filarmónicas perdidas

Chegam o som junto ao cais

No mapa das nossas vidas

Há baleias de nunca mais

__

(nota: A Balada das Baleias é um livro de Sérgio Ávila, Ermelindo Ávila e Sidónio Bettencourt, da Ver Açor Editores)

Um livro por semana 24

«A sagração da Primavera» de Aurélio Lopes

Depois de «Devoção e poder nas Festas do Espírito Santo» em 2004, o antropólogo Aurélio Lopes (natural dos Cunqueiros) volta a publicar um trabalho de grande fôlego: perto de 300 páginas nas quais pretende «levantar pistas de investigação para a compreensão das raízes remotas de muitas das nossas tradições primaveris, ainda existentes ou de recente desaparecimento.»

Organizado entre o Domingo de Ramos e o São João, este estudo incide também sobre o 1º de Maio e o Dia da Espiga. E começa por responder a três perguntas: «Porquê, ainda hoje, um pouco por todo o país, se enchem, nestes tempos, as igrejas de flores e ramagens e, em tempos passados, de andorinhas? Porque se apanham giestas (maias) e com elas se enfeitam e protegem habitações, animais e pessoas? Porque persistem práticas como o colher da espiga nos nossos campos, bosques ou searas?»

Ainda hoje em muitas povoações portuguesas se usa colocar maias (ramos de flores, cruzes e coroas) nas portas das casas e dos currais mas, explica o autor, «maias ou maios são igualmente as efígies ou as crianças que neste dia são adornados e coroados com flores, e também a árvore (árvore de maio) em redor da qual se dança e canta. Maias são ainda as mais comuns das flores silvestres da época, as giestas e, até, no norte transmontano, os cânticos (cantar as maias) que presidiam, em tempos idos, à solicitação de dádivas. Maio é o tempo que decorre, as personificações que o corporizam, as subversões daí emanantes e as conexões florais que aí se interligam em fecunda simbiose.»

(Editora: Edições Cosmos, Capa: Brian Sroud, Apoio: Câmara Municipal de Santarém)

Um livro por semana 25

«Salir d´Outrora» de Carlos Marques Querido

Já foram recenseados nesta coluna diversos livros sobre reis portugueses. Mas isso é (como diz o Povo) outra história. Este livro trata da História daquela gente que não deixa de ser importante só porque não é conhecida. Estas crónicas, antes publicadas nas páginas da «Gazeta das Caldas», tratam duma memória qualificada de Salir de Matos mas também de Santa Catarina, Alvorninha, Benedita e Carvalhal Benfeito, povoações que ao longo de quase setecentos anos tiveram verdadeiras «guerras» com o Mosteiro de Alcobaça. O autor baseia as crónicas em documentos (Torre do Tombo, Biblioteca Nacional, Cartórios Paroquiais, Arquivos Municipais) porque sem documentos não há história mas sim lenda e este não é um livro de lendas. Nestas páginas desfilam figuras de destaque como o arquitecto de Salir de Matos, o conjurado do Carvalhal e o morgado do Formigal (século XVII) ou o deputado do Carvalhal e o Bispo de Santa Catarina (século XIX). Mas não só. Também as pessoas humildes que vivem e trabalham nas vilas dos coutos de Alcobaça são protagonistas. Eles e os seus problemas a propósito de águas e açudes, cadeias e pelourinhos, azenhas, lagares ou moinhos. E do relego – espécie de monopólio da venda do vinho. São terríveis as páginas sobre as vítimas da Inquisição em Salir de Matos: Duarte Lopes, Simão Luís, Francisco Álvares e Violante Gomes sofrem terríveis perseguições até à morte. Tal como são terríveis as páginas da vida de Maria da Purificação, uma jovem mulher casada com um homem mais velho que lhe dava jóias e vestidos mas não lhe dava aquilo que ela queria – usufruir da intensa vida social de Lisboa, muito mais intensa que os Casais da Ponte, onde tinha sido criada.

(Editora: PH – Estudos e Documentos, Grafismo: Inês Querido, Prefácio: Iria Gonçalves, Introdução: Nicolau Borges
)

Vinte Linhas 312

«Se não acreditam no futebol, não vão ao futebol» – frase de um pobre homem que não percebe nada disto

Vítor Pereira, presidente da comissão de arbitragem da Liga de Futebol, proferiu esta frase que foi considerada uma das frases da semana que passou. Para quem, como eu, andou pelos jornais desportivos de 1979 a 2006 e fez entre 1997 e 2006 reportagens pelo País de Braga a Faro, Madeira, Açores e Itália, a frase não faz qualquer sentido. As pessoas não acreditam no futebol mas continuam a ir ao futebol por uma única razão – a sua paixão clubista. É a sensação de pertença, é a felicidade passageira de estar noventa minutos num estádio com um filho, com um neto ou com um amigo. Desde 1983 em particular que a verdade desportiva não existe pois surgiu na cidade do Porto uma nova norma – «é preciso ganhar sempre, custe o que custar e doa a quem doer».

No meu caso concreto continuo a ir ao futebol porque ainda me revejo mo emblema do meu clube, na bandeira, no cachecol, na memória afectiva do passado e do futuro. Lembro Dinis Machado que, levado à sede do Benfica no Jardim do Regedor para ver a sala de troféus, respondeu ao pai: «Não posso ser do Benfica porque já apertei a mão ao Jesus Correia!». Não posso esquecer o meu neto a passear junto do Observatório de Greenwich em Londres com uma camisola branca onde está escrito a verde «Sporting since 1906». E quando digo que tenho lugar cativo é porque de 15 em 15 dias estou cativo de me encontrar com o meu filho nas bancadas do estádio José Alvalade. Um pobre homem como Vítor Pereira nunca poderá compreender isto. As pessoas não acreditam no futebol português mas ainda vão aos estádios enquanto sentirem a força da sua paixão clubista. O resto é conversa da treta e concerto de apitos de latão velho.

Canção breve para «Canção para Carlos Paredes» de Luísa Amaro

Vem a melodia precisa

Em escala de Primavera

Que surpresa de Luísa

Ouvido que não espera

Quando era só companhia

Da guitarra grande a voar

Apenas olhava e ouvia

Na vertical do meu lugar

De «Devaneios flutuantes»

Ao «Jogral» já encantado

Juntando mundos distantes

Num som puro, imaculado

São raízes, são razões

Dum rio que vem dizer

A letra destas canções

Na pronúncia de mulher

Com Luísa de surpresa

Som numa nave central

A guitarra portuguesa

Faz da igreja a catedral

Tal como numa oração

Junta mundos dispersos

Para fazer uma canção

Já não precisa de versos

Basta-lhe ritmo, vertigem

Duma escala musical

Para chegar à origem

Do som que é Portugal

Um livro por semana 26



«A mulata do engenheiro» de Inácio Rebelo de Andrade

Poderia chamar-se «O futuro não estava lá» porque esta narrativa de 315 páginas tem essa conclusão: trata-se de um logro, uma ilusão, uma mentira. Carolina, menina nascida em Angola, filha de um branco e de uma negra, andava de olhos abertos mas não via. No Colégio de Nova Lisboa as criadas e as serventes eram negras; as professoras eram brancas. Na missa dominical os brancos ficavam nas filas da frente e os negros nas filas de trás. Na estação de comboios a caminho da fronteira com o Catanga (ao tempo belga) via as carruagens com bancos estofados para os passageiros brancos e bancos de ripas para os negros. Nem uma prolongada estadia em Lisboa onde frequentou a Universidade e onde conheceu o marido afastou da sua mente a ingenuidade de pensar que em Angola era possível uma convivência cordial entre brancos e negros. Foi preciso um empregado do Clube da Companhia de Caminhos-de-ferro de Benguela adverti-la de modo brutal para descobrir essa verdade: «A senhora não pode nadar aqui. Esta piscina é só para brancos. Faça o favor de sair!» O episódio da piscina provoca na protagonista uma amarga reflexão: «Tão segura das suas certezas, com tantas leituras, com tantos estudos, porque ignorara até esse dia que na sua terra, onde nascera meio-branca, meio-negra, os brancos mandavam porque eram brancos e os negros obedeciam porque eram negros?» Obrigada a regressar a Lisboa por não suportar o ambiente hostil da sua terra, Carolina percebe que está condenada a viver entre duas terras, entre dois mundos, entre dois universos. Viaja no paquete Príncipe Perfeito em Novembro de 1959 do Lobita para Lisboa mas sabe que o seu futuro não está em Lisboa tal como não estava em Angola.

(Editora: Novo Imbondeiro, Capa: Francisco Amorim)

Um livro por semana 27

«Porto – da história e da lenda» de Germano Silva

Há neste livro mais história do que lenda: a formação e a prática de quarenta anos de jornalismo (Jornal de Notícias) levam Germano Silva para a procura de documentos escritos. Por exemplo este retrato do Porto em 1549 dum tal Confalonieri, secretário do Núncio Apostólico a caminho de Santiago de Compostela: «A cidade é pequena, muito linda, com muitas hortas, fontes e tem dois mil fogos. Está cercada de muros, abundam nela os panos de linho a bom preço. O fio é branco e finíssimo. São os mais famosos do reino. Os ares são saudáveis e os víveres baratos. Existem muitos mosteiros. A catedral é muito antiga embora mão seja muito grande. Há muito pescado barato. Tudo é fresco, alegre e florido.» Desfazendo um equívoco sobre o santo mais popular do Porto, o autor explica: «Noutros tempos chegaram a fazer-se no Porto grandes festas ao Santo António. Na desaparecida Capelas de São Roque, por exemplo, que ficava à entrada da Rua do Souto e que foi demolida aquando da abertura da Rua Mouzinho da Silveira, havia grandes festejos públicos. Os rapazes solteiros das redondezas eram os mordomos das festas. O Santo António tinha festa também na Capela da Lada, à Ribeira, e no seu dia as tabernas e estalagens do Souto e dos Pelames, e as estalagens de boas tarimbas e excelentes acomodações para pessoa assim como cavalgaduras, iluminavam os nichos do santo protector dos seus negócios.» Quanto às lendas temos a que diz respeito ao facto de Almeida Garrett nunca ter sido eleito deputado pela sua cidade. Segundo Camilo tal deveu-se ao facto de o grande romântico ter chamado ao Porto «grande aldeão». O meu voto tu não levas! – terá dito o Porto mas esse é um assunto de lenda; não de história.

(Editora: Casa das Letras, Capa: Neuza Dias, Prefácio: Geraldo Coelho Dias)

Vinte Linhas 311

Barretes verdes há muitos, seu palerma…

Amália Rodrigues está na ordem do dia. Por causa do filme que já vi por aí classificado como o pior (?) filme português de todos os tempos (as opiniões são livres) mas também por causa do livro – uma «Fotobiografia» editada pelo Círculo de Leitores.

Hoje vive-se tudo numa pressa. Presumo que os livros (em geral) também sofrem desse problema. Uma foto de Amália Rodrigues em Alcochete no ano de 1949 no Aposento do Barrete Verde surge com a seguinte legenda: «nas festas do Barrete Encarnado (em Alcochete) em Setembro de 1949». Ora bem – todos nós sabemos que o que é de facto Encarnado é o Colete e esse é de Vila Franca de Xira. Barrete é verde; colete é encarnado. Ponto final.

Outro dia vi num outro livro sobre o século XX português numa legenda um erro na identificação de uma corporação de Bombeiros de Lisboa: os Voluntários da Ajuda cuja sede é na Praça da Alegria apareciam referidos como sendo do Bairro da Ajuda. Lapso talvez originado no seu nome que nada tem a ver com geografia mas com atitude.

Lembro-me também de um catálogo de um alfarrabista que se referia ao Zé do Telhado como João do Telhado. Alguém lhe chamou a atenção para o evidente lapso e a resposta veio fulminante: «Isso é a mesma coisa…»

Fala-se muito em raças em vias de extinção mas fala-se pouco nos revisores de imprensa. Será que já estão todos extintos, afastados, reformados, dispensados e ignorados? Será verdade que isto não passa de um sinal dos tempos? Será que eu estou a ver mal e os outros é que são senhores da razão? O barrete é mesmo encarnado?

Um livro por semana 29

«Termo de Óbidos» de João Miguel Fernandes Jorge

A partir do Bombarral o espaço dos poemas inclui Sobral, Delgada, Adão Lobo, Pêro Moniz, Salgueiro, Casalinho, A-dos-Ruivos, Columbeira, Barrocalvo, Carvalhal, Óbidos, Rio Maior, Caldas da Rainha: «Voltei ao café onde me levavam quando rapaz. /E onde entrei algumas vezes quando ia às Caldas. /Na parede o unicórnio, o cavalo alado, um terceiro espécime mais pequeno que certa aura ilumina bailado em ouro de gentileza /sobre azul que fôra turquesa e o restauro tornou azul ganga.» O ponto de partida é a memória mas não apenas pessoal («Já passaram tantas coisas pelas nossas mãos e imagens que foram dor e alegria já se foram além para a distância da tela povoada de noite») mas também aberta à História: «Nem se fala sequer de um drama esquecido – pústula de que nos envergonhamos – os que morreram / e chegavam dentro de um caixão / nem mereceram o nome a letra de ouro / no átrio do município ou a negro / na mais sombria parede da igreja paroquial». A taberna, por exemplo, pode ser a doce memória da infância («D. Beatriz tirava de dentro de um balde mergulhado no poço / a laranjada que eu bebia em dia de muito verão») mas também o fascismo (a taberna na política): «As tascas vendiam o negro vinho ofereciam a quem passava o cheiro húmido moldado em serradura. / Tinham um ar soturno esses senhores, sei hoje homens do regime». A memória viaja entre a paisagem («O meu pai levou-me à lagoa de Óbidos e tentou mesmo as salinas de Rio Maior») e o povoamento sentimental da paisagem em «E eu ia com meu pai»: «ensinou-me o bem e o mal, a recordação e o esquecimento». O único poema fora desta geografia, memória do Liceu Passos Manuel (Lisboa), é chave do livro: «o passado tem feridas que nunca vão sarar e se as recordo, estou a esfregá-las com sal.»

(Editora: Relógio d´ Água, Capa: sobre desenho de João Cruz Rosa)

Um livro por semana 30

«Antecedentes criminais» de Amadeu Baptista

Autor que se estreou em 1982 (com «As passagens secretas») Amadeu Baptista celebra em 2007 25 anos de vida literária com esta antologia pessoal. Não é fácil noticiar 263 páginas de um livro com um quarto de século de trabalho literário. Vejamos dois dos aspectos. O poeta regista o seu mundo pessoal no poema da página 10:

«Até que um dia, já adolescente / Descobri o poder da poesia que, a par com o mar / aprendi a fitar com imprudência por serem / revoltosas essas águas em que o dia / e a noite se confundem. Era essa imprudência / o desassombro de ouvir o longínquo e o genesíaco / com homens e mulheres a recortarem-se / da imensidão dos tempos, a cantar a dolência / e o sublime, a invectivar o mistério e a ampliar / o enigma que há entre os enigmas ou o surto / de sentidos que, num sopro, agrega ao infinito / o infinito, para que haja mais infinito no sentido.»

Mas regista também o Mundo e a História como em «Kefiah»:

«Sobrevivemos acossados, o mar como única fronteira, deserto / e reminiscência do labor da alegria, soldados entrincheirados / esperando a bandeira neutral da morte, o retorno às origens / o sal do sangue, as costas voltadas para a fosforescência da pureza / uma tristeza de matizes carregados pelo vínculo de uma cumplicidade / espoliada e incorrespondida. / Sobrevivemos na rebelião transfigurada, adubo e excremento dos que / sangram, energia debilitada esperando que alguém chegue, partilhe / do nosso pão, durma na nossa cama / e dê um passo em frente, em direcção à nossa sede apaziguada e pelo vinagre / a ferida aberta de onde jorra sangue e água purificadora, a coroa / de espinhos perfurando-nos as têmporas, o chicote / queimando-nos o dorso arquejante»

(Editora: Edições Quasi, Apoio: Câmara Municipal de Almada)

Vinte Linhas 310

A maior crise talvez seja a das consciências (penso eu…)

Ainda não tomei o peso daquilo a que chamam «crise». Empregado bancário entre 1966 e 1996, tornei-me jornalista com carteira profissional em 1997 e fui despedido em Novembro de 2006 do único jornal cuja redacção integrava. Tenho a casa paga e o carro também. Como fui delegado sindical desde 1972, tenho uma reforma muito pequenina mas vou-me aguentando. Quando era criança e os circuitos comerciais do mundo estavam ainda estoirados pela guerra de 39-45, lembro-me bem de esperar que a galinha pusesse mais um ovo para fazer uma dúzia que se trocava na mercearia do senhor Ernesto por meio quilo de arroz, de açúcar, de massa, de sabão ou por «duzentas» de café. Isso sim eram tempos difíceis quando as mulheres faziam milagres para inventar todos os dias uma ementa com aquilo que a terra dava. Outro dia fui com a minha filha mais velha tirar umas fotografias para o bilhete de identidade do meu neto. Entrámos numa loja de fotografias e dissemos ao que íamos. Impassível, como se nada fosse com ele, o homenzinho do balcão não nos disse que agora as fotografias para o bilhete de identidade (tal como as do passaporte) são tiradas numa máquina electrónica que existe nos serviços. Qual quê! Isso dava muito trabalho. Lá pagámos oito euros e tirámos as fotografias que não servem para nada. Em vez de ser honesto e de dizer a verdade preferiu fingir a aceitar a nossa inocência. Preferiu confundir a esclarecer. Para mim isto é mesmo uma crise mas uma crise de consciências – neste caso de falta dela. Ganhou oito euros e perdeu o quê? Pelo menos perdeu um cliente. Não me sinto com vontade de lá voltar. Posso estar errado na minha conclusão mas parece-me que a maior crise é essa, a da consciência.

Um livro por semana 98

«Tarde Azul» – Poemas de Amor de Saúl Dias e Desenhos de Julio

Júlio Maria dos Reis Pereira (1902-1983) está presente nesta antologia numa dupla inscrição: o poeta Saúl Dias e o pintor Julio. Poeta do Amor e do Encontro, os seus poemas são um ponto alto no lirismo português: «Só porque me sorriste / nessa tarde / o sol inundou a cidade. / E no meio do asfalto / entre o rumor dos táxis / surgiram de repente / árvores agrestes cheias de flores e pássaros. / E eu senti-me como se ouvisse / tangido lá da infância / um roque de novena / ou percorresse, alheado e sozinho / num dia de Verão entre zumbir de insectos/ um caminho de aldeia».

Mas também Poeta da consciência da sua própria escrita, como poeta moderno que é: «Versos / escrevem-se / depois de ter sofrido. / O coração / dita-os apressadamente. / E a mão tremente / quer fixar no papel os sons dispersos…/ É só com sangue que se escrevem versos.» Dessa relação entre poema e poeta, entre canção e reflexão, nasce uma ideia para todo o sempre: «O Poeta morre / mas não cessa de escrever. / Enquanto escreve / vive / ressuscitando fugidias horas / mudadas em auroras… / Uma pequenina flor / pisada por quem passa / é agora / um milagre de cor / uma negaça / de mil desejos… / E os beijos / que nunca foram dados / tornados tão reais…»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Organização: Maria João Fernandes e Gonçalo Salvado, Capa: Fernando Martins, Apoio: Círculo Católico de Operários e Câmara Municipal de Vila do Conde)

Palestina

Não são donos sequer da sombra

Que no chão projectam ao passar.

Tudo ou quase tudo lhes foi tirado

A terra, os ribeiros, as ovelhas dispersas pela terra

Os títulos de posse das pequenas quintas.

Tudo ou quase tudo

Menos o futuro amarrotado num bolso

Menos a esperança, menos o olhar.

__

(in «Leme de Luz» Edição Sol XXX Poesia 1993)

Um livro por semana 32

«Cartas de Marear» de Mário Machado Fraião

Este livro de crónicas trata de uma viagem no tempo português dos anos 50 e 60 em duas cidades: Horta e Lisboa. Na Horta os filmes vistos no Salão do Sporting Clube da Horta vinham revelar um mundo «vasto e variado onde havia muito mais na vida que frequentar as aulas, regressar a casa no cortejo dos alunos do Liceu, vestir o fato aos domingos, pentear o cabelo, escovar os sapatos, espera as meninas depois da missa.» Já em Lisboa o autor vem encontrar cafés não iguais ao Internacional ou ao Volga mas onde era ainda possível «trocar ideias, impressões, experiências, contar anedotas, comentar estreias, novas publicações, jornais, discutir, conspirar, escrever poemas e manifestos». Mas escrever sobre a «maior cidade pequena do Mundo» como lhe chamou Pedro da Silveira, é também lembrar os mestres e maquinistas dos barcos do Canal que arriscaram as suas vidas para salvar outras vidas, doentes em perigo, mulheres em trabalho de parto: Mestre Guilherme, mestre Alfredo Saca, mestre Augusto Pau de Lérias, mestre Simão. Há aqui memórias de livros e autores, etapas de uma outra viagem de Mário Fraião: Jorge de Sena, Fernando Arrabal, Gonzalo Torrente Ballester, Teixeira de Sousa, Francisco Coloane, Vitorino Nemésio, Raul Brandão, Carlos Faria, José Martins Garcia, Rui Duarte Rodrigues, Almeida Garrett, Pedro da Silveira. Mas sempre, acima de tudo e para além de tudo, o fascínio das viagens: «Pedaços de nós mesmos que sugerem o dia de São Vapor nas ilhas pequenas, as partidas na doca da Horta, as despedidas, mulheres a chorar, um caixeiro viajante a contar anedotas, os bagageiros transportando as malas e os sacos de viagem pelas escadas íngremes e muito estreitas, os diversos sinais de aviso aos passageiros, a espumas das hélices. O apito final. Largaram-se os cabos, «adeus, adeus», soltam-se os lenços, chapéus e cachecóis. Alguns vão a Lisboa tratar de assuntos particulares. Outros, talvez, não voltam nunca mais.» Um livro para ler e devorar, tal a paixão quer percorre as suas páginas.

(Fotos: Júlio Vitorino da Silveira, Edição: Albagrafe Lda., Foto do autor: Renato Monteiro)