Um livro por semana 26



«A mulata do engenheiro» de Inácio Rebelo de Andrade

Poderia chamar-se «O futuro não estava lá» porque esta narrativa de 315 páginas tem essa conclusão: trata-se de um logro, uma ilusão, uma mentira. Carolina, menina nascida em Angola, filha de um branco e de uma negra, andava de olhos abertos mas não via. No Colégio de Nova Lisboa as criadas e as serventes eram negras; as professoras eram brancas. Na missa dominical os brancos ficavam nas filas da frente e os negros nas filas de trás. Na estação de comboios a caminho da fronteira com o Catanga (ao tempo belga) via as carruagens com bancos estofados para os passageiros brancos e bancos de ripas para os negros. Nem uma prolongada estadia em Lisboa onde frequentou a Universidade e onde conheceu o marido afastou da sua mente a ingenuidade de pensar que em Angola era possível uma convivência cordial entre brancos e negros. Foi preciso um empregado do Clube da Companhia de Caminhos-de-ferro de Benguela adverti-la de modo brutal para descobrir essa verdade: «A senhora não pode nadar aqui. Esta piscina é só para brancos. Faça o favor de sair!» O episódio da piscina provoca na protagonista uma amarga reflexão: «Tão segura das suas certezas, com tantas leituras, com tantos estudos, porque ignorara até esse dia que na sua terra, onde nascera meio-branca, meio-negra, os brancos mandavam porque eram brancos e os negros obedeciam porque eram negros?» Obrigada a regressar a Lisboa por não suportar o ambiente hostil da sua terra, Carolina percebe que está condenada a viver entre duas terras, entre dois mundos, entre dois universos. Viaja no paquete Príncipe Perfeito em Novembro de 1959 do Lobita para Lisboa mas sabe que o seu futuro não está em Lisboa tal como não estava em Angola.

(Editora: Novo Imbondeiro, Capa: Francisco Amorim)

2 thoughts on “Um livro por semana 26”

  1. as taras da segregação, da cor, do sexo, da religião, p.e.,
    geram dramas pessoais mui dificeis de contornar…

    Também por isso,

    a eleição de Obama, 40 anos depois de medidas de “segregação positiva” – a expressão não é esta, mas a ideia é-o…-,

    é uma situação a estudar, nas origens e processos,

    e tentar aplicar no mundo vario, onde taras destas persistem,

    infelizmente agudizadas pela “não visão” evangelizadora do famigerado Bush.

    Abraço

  2. Peço desculpa mas na penúltima linha não é Lobita mas sim Lobito, o nome do Porto de embarque. Erros meus…

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