Vinte Linhas 315

Dos selos da Lituânia às ruas presas às rodas

Fazer parte de um júri de um prémio literário tem destas consequências: nem sempre o original que nós mais valorizamos vence o concurso. E havendo três membros do júri basta os outros dois se juntarem numa opinião convergente para o (digamos) nosso original perder por 2-1. De qualquer modo a qualidade vem sempre ao de cima e, mais tarde ou mais cedo, o original (digamos) não vencedor acaba por ser publicado, saindo do silêncio das gavetas para o bulício das ruas.

Foi isto que aconteceu comigo em dois anos seguidos. Num concurso de livros de poemas gostei muito (mesmo muito) de um original com um título muito curioso – «Os selos da Lituânia». Na altura não sabia nem podia saber que o seu autor era Amadeu Baptista. Hoje sei que esse belíssimo livro já foi publicado apesar de não ter recebido o (digamos) meu prémio. O ano passado noutro concurso, agora de ficção narrativa, fiquei encantado com uma história de um taxista do Porto, exemplarmente escrita, com um ritmo e uma riqueza vocabular imensa, uma destreza absoluta na organização narrativa. Chamava-se o livro «As ruas presas às rodas». Hoje fiquei a saber que o seu autor é António Rebordão Navarro. Fiquei descansado porque a minha intuição não me traiu – uma vez mais. Acertei na qualidade deste livro em prosa como tinha acertado nos poemas do original «Os selos da Lituânia». A vida é feita destas coisas: derrotas e vitórias. Às vezes meias-derrotas e meias-vitórias que é assim que eu defino estes acidentes de percurso. O importante é cada um ser igual a si próprio. Coerente, justo, correcto. Não atropelar os direitos dos outros. Assim ganha sempre mesmo quando perde.

2 thoughts on “Vinte Linhas 315”

  1. Pois pois, isso ainda me dá mais ânimo para dizer que fiquei feliz ao saber estas duas novidades. Já agora dizer que soube do António Rebordão Navarro pela revista da SPA Sociedade Portuguesa de Autores. Por acaso tem um erro – o nome do livro aparece como «As luas presas às rodas» em vez de «As ruas presas às rodas». No caso do original «Os selos da Lituânia» (que belo título!) ainda por cima o Edmundo de Bettencourt é um alto poeta. Foi direito por linhas tortas…

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