Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Vinte Linhas 309

Não há nada melhor do que ver o nosso trabalho a ser menosprezado, ignorado e apagado

Esta primeira crónica de 2009 é, sem sombra de dúvida, uma peça diferente. Ano novo, vida nova. Em vez do pessimismo, o optimismo; em vez da tristeza, a alegria; em vez da morte, a vida. Não há nada melhor do que ver o nosso trabalho a ser menosprezado, ignorado e apagado. É uma sensação de felicidade, quase de júbilo. Ofereceram-me o livro «Sonata para 5 violinos» de Afonso de Melo, editado pela Prime Books. Na bibliografia, como não podia deixar de ser, lá aparece o livro «Glória e vida de três gigantes» mas como «Glória e vida de três grandes» e os autores em vez de três (António Simões, Homero Serpa e José do Carmo Francisco) aparecem apenas dois – António Simões e Homero Serpa. Corria o ano de 1994 quando, convidado por Vítor Serpa e António Simões, me lancei ao trabalho. Com o apoio de Ilídio Dinis (vice-presidente do SCP) e do coronel Cunha Bispo (director das instalações desportivas) entrei nas catacumbas do Estádio José Alvalade à procura de elementos para a história do Sporting Clube de Portugal. De lá saí com relatórios, contas, papéis diversos, memórias justificativas, documentos dos seccionistas. Coisas curiosas como por exemplo os ordenados dos jogadores de futebol nos tempos do amadorismo, o abaixo-assinado dos futebolistas leoninos a pedirem para o senhor Jean Luciano não ser despedido ou o castigo de alguns deles por falta de empenho num jogo de reservas contra o Alhandra num sábado à tarde. Na ficha técnica do livro editado por «A Bola» lá está o meu nome mas na bibliografia deste «Sonata para 5 violinos» o meu nome (e o meu trabalho) está rasurado. É uma sensação de alegria, quase de júbilo. Não há nada melhor.

Um livro por semana 33

«Pequenos elogios» de Joaquim António Emídio

Trata-se do 11º título deste autor (Chamusca, 1955) que se estreou em 1983 com «Os dias sonâmbulos». O ponto de partida do livro é a paisagem povoada da memória do amor:

«gosto do café sem açúcar mas peço-te / por favor um pouco da tua saliva / na minha chávena para aprender / a gostar do café muito doce.» O poeta viaja a partir do seu bilhete de identidade: «Sou um homem do campo / tenho as mãos grandes / e os dedos grossos / de amassar o pão para comer». O lugar da viagem pode ser Roma («depois de subir / uma das sete colinas de Roma / entrei numa igreja / e cheirei as flores de um casamento») ou pode ser a Chamusca: «Os rouxinóis já não cantam / nos salgueiros da maracha / venho de lá agora / pelo caminho das searas / onde o rio é mais livre / sem a lembrança das margens». Não é inocente a referência ao espaço entre terra e água como ponto de encontro para o amor: «vem comigo apanhar sol na cabeça / e ouvir os pássaros da vindimas / que trazem no bico as novidades da vila / e nas asas o cheiro a mosto das adegas». O amor não é uma abstracção e só existe quando os amantes estão perto da Terra: «Amo o teu rosto de lua azul / sonho com a tua saliva doce / de tantos beijos adiados / sou o confidente das ervas / que crescem à tua porta / o sol que entrou pela tua janela / sou eu a correr para ti de braços abertos / um dia vou amanhecer nos teus olhos / e florir nas tuas mãos». A escrita é uma viagem que tem referências: «quem me dera ter nascido / com o coração do Ruy Belo / e o sangue impróprio / do Jorge de Sena». Para o poeta «Os livros são crianças / a morrer de sono / comendo das nossas mãos / o pão e o sonho». Num terreno armadilhado pelo lugar-comum, eis um livro onde a voz própria do poeta se ergue, se articula e se projecta na memória do amor.

(Editora: Terra Branca, Impressão: Europress Lda.)

Um livro por semana 34

«O pastor das casas mortas» de Daniel de Sá

As aldeias também adoecem como as pessoas. Em politiquês corrente diz-se «desertificação» mas na verdade (e em português de lei) esta doença chama-se abandono. A Aldeia Nova da Serra tem 58 habitantes pelo censo de 1960 e Manuel Cordovão é o guardador das suas casas envelhecidas e das paixões que ficaram por viver. Sobre Graça Manuel escreve na sua agenda: «Agora pronto, acabou-se tudo, ela vai ser uma infeliz e eu também. Estranha forma a minha de felicidade! Sou feliz só por pensar que podia ter sido feliz.» Mais à frente é Olívia que afirma a Manuel: «Eu nunca vou gostar de ninguém como gosto de ti mesmo que eu saiba que tu nunca gostaste de mim como gostas da Graça.» Mas não é apenas das paixões da alma que esta novela trata; existem as paixões políticas como quando a luz eléctrica foi inaugurada na aldeia: «Se vossas excelências esperassem uns anitos nem precisavam de se incomodar com a gente, porque a gente já não estava lá.» Porque é grande o fosso entre a gente da Cidade e a gente da Serra: «Aqui na serra, aos dez ou doze anos, já sabemos tudo o que precisamos de saber. As raparigas sabem fazer queijo, os rapazes sabem guardar as ovelhas. Só isso.»

O protagonista acaba por casar com Teresa que tem um cancro e quer vir morrer à serra: Graça (que foi o primeiro amor) e o marido são as testemunhas na cerimónia da ermida. Nesta partida de sueca, metáfora do jogo da vida, entre as cartas do amor e da morte, as vazas duram mais tempo porque há um parceiro na América e a resposta demora duas semanas. E a moral da história surge límpida e incisiva na última página desta novela: «Mas a aldeia continuaria morta. Porque uma aldeia não são só as casas mas sobretudo as pessoas. E essas não queriam, ou não podiam voltar.»

(Editora: Ver Açor Lda., Grafismo: Hélder Segadães)

Um livro por semana 35

«A árvore seca» de Alexei Bueno

Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 1963) publica regularmente poesia desde 1984 além de ter editado diversas obras completas (poetas brasileiros e portugueses) e de ser um excelente tradutor de poesia – Poe, Longfellow, Mallarmé, Tasso e Leopardi, entre outros.

Par dar aos nossos leitores uma ideia da poesia deste autor vejamos este espantoso retrato do Brasil no poema «Speculum Patriae»:

Um povo feio, essencialmente feio, / Fora os meio imigrantes. Cada dia / Uma outra humilhação que se anuncia, / Um saque, um roubo, sem controle ou freio. / Uma horda de imbecis, de olho no alheio, / Cuja rapina é a única mestria / Pretensamente os donos da alegria / Da esperteza, da graça e Deus no meio. / Um pátio dos milagres dos devotos / De tudo, irracionais, analfabetos / A orar, a praguejar, a cumprir votos, / À espera do que os salve, em meio a insectos, / A matar-se, a banhar-se nos esgotos / Das praias sem iguais, entre os dejectos.

Trata-se de uma poesia que não teme chamar as coisas pelos seus nomes embora também não deixe de reflectir sobre a poesia (ela mesma) e os poetas. Como em «Fernando Pessoa»:

Venceste. O reino é teu. Torceste a sina. / Compraste a vida invicta com a outra vida. / sem ter sido, ela é a nossa. A sombra puída / Do teu corpo nos guia em cada esquina.

No posfácio Gil de Carvalho chama a atenção para o facto de Bueno ser «um poeta de várias culturas». O mesmo é dizer um poeta a descobrir pelos leitores portugueses. Com toda a urgência e para seu proveito intelectual. Porque nem só de pão vive o homem.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: José António Coelho, Posfácio: Gil de Carvalho)

Um livro por semana 96

«Chama de água» de Fernando Botto Semedo

A partir de uma citação de João Rui de Sousa («Azul é quando um homem se ultrapassa») e de uma dedicatória («para o avô Diogo»), organiza-se este volume de poemas.

O ponto de partida é a infância: «Na minha infância já escrevia poemas sem o saber: / era a minha surpresa perante tudo novo / a cada dia era o meu sonho, a minha dor / o meu afastamento da realidade como hoje».

O ponto de passagem é a alma: «A minha alma é um sol de lágrimas puras / bailando pelos campos de uma Primavera eterna / onde todos os seres mortos ressurgem, límpidos / aos olhos das papoilas brancas que existem / quebradas de dor em nuvens / de uma música simples e irreal / onde coloquei o meu primeiro poema, rasgado (…)»

O ponto de chegada é o amor: «Doem-me estes poemas tão pobres, tão humildes / eles são a minha mais pura alegria na casa / da dor e do absurdo e trazem sempre consigo / todas as namoradas que perdi quando caí / por todos os abismos pelos quais tento transpor-me»

Só assim poderá concluir: «Planto aqui um poema humílimo. / Sou o poeta feliz que desde sempre criança foi / em chama de água, em coração de vigília».

Depois de «Poemas simples» e «Poemas de um livro rasgado» de 2007, este «Chama de água» confirma a coerência dum trajecto poético iniciado em 1982 com «Ágoas Livres»

(Capa: Fernando Botto Semedo, Execução Gráfica: Gráfica 2000)

Um livro por semana 97



«Noites de Insónia – volume 1» de Camilo Castelo Branco

Trata-se de uma miscelânea literária («vou ao jazigo das minhas ilusões») dispersa numa série de livros entretanto reunidos em volume. A crítica («Morte de D. João»), a polémica (Teófilo Braga), a incursão na História (Egas Moniz), a novela («Aquela casa triste»), a opinião sobre os jornais: «A imprensa diária tem olheiros que superintendem em estupros, facadas, roubos e incestos mas a alçada destes espias não chega até ao esquife do defunto sem testamento». Mesmo nos lapsos, Camilo consegue fazer humor: «já escrevi a necrologia de um que, por sinal, estava vivo e nem sequer me agradeceu com um bilhete-de-visita, ser eu a única pessoa de Portugal que lhe ajuntou ao nome esquecido quatro palavras de saudade e dó». Sobre a situação política de 1874 vejamos esta nota: «A abstenção política é mais do que a morte: é a indiferença pelos males sociais, é a história deste torpe individualismo que nos corrompe, é a gangrena moral desta sociedade em dissolução, é a anasarca sintomática da lesão orgânica que despedaça a nossa existência, é o maior de todos os crimes porque é uma tranquilidade fictícia, comprada à custa dos legados que nós íamos entesourando para as gerações futuras. A democracia agoniza no século dezanove quando desabrochava e se abria em flor na árvore que nós todos plantámos, regada com o sangue precioso de tantos mártires, em nome dos quais deviam colher e adorar no futuro o fruto dos nossos trabalhos.» Mesmo na simples miscelânea, Camilo está presente com a sua força de grande escritor.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Um livro por semana 43

«Morreste-me» de José Luís Peixoto

Depois de ter sido editado no «D.N. Jovem» em 1996 e na Colectânea Jovens Criadores em 1998, este texto tem tido sucessivas edições em livro desde a primeira em 2000. A partir de uma vivência em ambiente de hospital («As mulheres falavam, os homens fumavam cigarros») surge a memória do filho a recordar o pai: «Dizia nunca esquecerei e hoje lembro-me». O texto oscila entre o diálogo com o pai («Se pudesse tinha-te protegido.») e a memória do filho: «Eu andava no primeiro ano da telescola e não pensava nas notas.» Na paisagem povoada pelo luto, a memória do afecto é uma agressão: «Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai, nunca esquecerei.» O texto é uma viagem («Vou. Avanço. Avanço e regresso. E cada quilómetro um mês e cada metro um dia. Avanço para o que fomos.») e a conclusão é uma visão inversa dos papéis – o pai é no texto o pequenino; o filho fala como se fosse o pai: «Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.» Este livro (comovente testemunho numa escrita prosopoética de rara beleza artesanal) é dedicado è memória do pai do escritor José Luís Peixoto – José João Serrano Peixoto.

(Editora: Temas e Debates, Capa: José Afonso Furtado)

Um livro por semana 95

«Fidel» por José Fernandes Fafe

José Fernandes Fafe (Porto, 1927) tem o perfil indicado para escrever um livro sobre Fidel. Foi embaixador de Portugal em Cuba de 1975 a 1977. Antes já tinha estado em Havana em 1963, 1969 e 1974. Voltará em 1996. Mas, antes de dissertar sobre Fidel, o autor recapitula a guerra da independência de Cuba (1868), um governo provisório em 1909 chefiado por um americano William Taft e o estranho aluguer de Guantánamo que só pode caducar quando os americanos quiserem.
Sobre Fidel são 200 páginas de texto entre o testemunho (muitas horas de convívio) e a investigação (muitas horas de livros lidos). Apenas umas linhas: «Um dia destes Fidel Castro morre. E, se pensarmos na vida que teve, bem o merece. Em criança andava sempre à pancada. Adolescente, aprendeu a disciplina dos Jesuítas. Na universidade foi um praxista de tiroteio entre bandos civis. Da atracção da aventura nunca se libertou. Compreende-se, é um afrodisíaco. O assalto ao quartel Moncada, a prisão, o exílio, o naufrágio do desembarque do Granma. Dois anos de guerra de guerrilhas. Depois, a revolução e, como dizia Heine, «uma revolução traz sempre violência, sangue, lama». O circo dos julgamentos de 1959 (de que sente remorsos? sentirá alguns?) A vitória de Girón. Ainda não haviam passado dois anos tangenciou a guerra nuclear… A implosão da URSS. Reconstruir tudo, outra vez. Mas este homem é um sísifo! Com a vida que teve bem merece um descanso. E, proporcional aos trabalhos e aos dias que levou, só a morte.»

(Editora: Círculo de Leitores – Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo)

Vinte Linhas 308

«O Século» de Lopes de Mendonça (O primeiro jornal socialista)

Lopes de Mendonça (1826-1865) figura no nosso século XIX ao lado de Garrett, Castilho e Herculano: historiador, poeta, jornalista, folhetinista, doutrinador, crítico e ensaísta. Mas também fundador e redactor anónimo de «O Século», um jornal de 11 números com 16 páginas cada, que se publicou entre 10 de Abril e 25 de Junho de 1848. Ernesto Rodrigues recupera-o para os leitores de hoje em 165 páginas de texto anotado.

Vejamos como Lopes de Mendonça escreve sobre a República em 1848: «A república não tem classes, não tem distinções, não tem interesses rivais: as lutas são as das ideias e a sua expressão é, tem de ser manifestada pela imprensa. Ás revoluções armadas hão-de suceder as reformas pacíficas; às paixões, os sentimentos; aos certames de partido, os combates de princípios. Alcançar-se-há esse ideal que debalde têm querido realizar as monarquias representativas? O sistema republicano acolherá no seu seio o princípio da perfectibilidade humana sem que ele ressurja de espaço a espaço tinto de sangue?»

Incansável jornalista e homem de ideias, Lopes de Mendonça responde à pergunta «O que quer o socialismo?» deste modo: «A fraternidade substituída ao individualismo: isto é, o indivíduo ligado pelos sentimentos e pelas instituições à sociedade: a associação em vez da concorrência, isto é um regime industrial que iguale as condições dos três agentes da produção, o capital, o talento e o trabalho».

A capa deste livro que vem revelar um novo aspecto na história das ideias do século XIX em Portugal reproduz um quadro do pintor Gaspar David Friedrich (Nuvens passageiras).

Um livro por semana 94

«Recuperar a claridade» de Joaquim Carvalho

O registo destes poemas oscila sempre entre a Natureza e a Arte. A Natureza está na página 102: «Oiço / o gaio / cantar nos pinheiros. / Num agitar de asas / a caruma cai / doura o chão / e acrescenta odor de resina / que / misturado no ar quente / me incita a mergulhar…» A Arte está na página 105: «Pintar-te é dar cor ao último pensamento / Desenhar-te é ser contorno da tua pele / Esculpir-te é encontrar teu espaço dentro de mim / Amar-te é darmos sentido ao último encontro.»

«Recuperar a claridade» é o título do poema da página 125: «O que outrora / era claro e transparente / adquiriu num ápice / a turbidez de um rio de lama. / Agora as nuvens escondem no avesso / o que resta da luz dos dias que já teve. / Por fora / a penumbra anuncia a tristeza que o espera / se não for capaz de impedir que a escuridão / se instale. / Há que ceifar rente a morte / e, com alegria, / recuperar a claridade / que as nuvens escondem.» E só existe uma maneira de cumprir esse programa, de recuperar a claridade. É pelo amor porque só o amor pode ser uma resposta para a morte. Como na página 184: «Sem vislumbre / sem procura / sem razão / sem tempo / Puro encontro… / leve… / sublime… / translúcida… / transparente… / Inevitável viagem / Inês é vela / Pedro é timoneiro / Lá dentro vamos todos nós / Vai Portugal inteiro!»

Um poema não é um amontoado de palavras, é um lugar mágico para estarmos todos juntos. No fim desta viagem de 191 páginas fica uma certeza: Só o amor responde à morte e só há uma medida para o amor – é amar sem medida.

(Pangeia Editores, Apresentação: Urbano Tavares Rodrigues, Nota: Rodrigues Vaz)

Vinte Linhas 307

Para eles Portugal acaba nas portagens de Sacavém

Acabo de ler o «Diário de Notícias» de hoje 28-12-2008 e na sua página 12, quarta coluna lá está «A autorização do Tribunal de Torres Vedras foi dada na sexta-feira…» Parece um caso isolado mas não é; ontem, dia 27-12-2008, na página 18 o ante título já anunciava: «O Tribunal de Torres Vedras adiou uma semana…»

Temos aqui um grande jornal a cometer dois erros grosseiros dois dias seguidos trocando Torres Novas por Torres Vedras como se tudo fosse a mesma coisa.

Entre 1997 e 2001 trabalhei na redacção do jornal semanário «O Mirante» (hoje o maior jornal regional português) e, sempre que surgia um caso parecido, ouvia a advertência: «Para eles Portugal acaba nas portagens de Sacavém». A frase era um lamento dirigido a mim (que não nasci em Lisboa) embora o destino final da chamada de atenção fosse alguém incógnito numa redacção de Lisboa. Nesse tempo ainda havia portagens em Sacavém coisa que hoje não acontece – passaram para Alverca. Mas o resto fica como estava – para muita gente Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. E o «seu» país, o seu pequeno país acaba mesmo nas portagens de Alverca.

Torres Vedras será o mesmo que Torres Novas mas não para quem lá vive, quem lá nasceu e lá estuda ou trabalha. Todos temos direito ao nosso nome e as cidades são como as pessoas – também se sentem feridas quando o seu nome aparece trocado. Depois de ter acabado de beber o meu café no Chiado (centro do centro) pensei logo no que poderia ter ouvido se tivesse continuado na redacção de «O Mirante». Apenas com uma diferença – já não existem portagens em Sacavém. Agora são em Alverca.

Vinte Linhas 305

Mário Nóbrega também foi «levado» na gralha

Na edição de hoje (26-12-2008) do jornal «A Bola» um texto assinado pelo jornalista Mário Nóbrega começa por referir-se ao mais recente livro de José Saramago e acaba por citar o «Levantado do chão». Jornalista culto, correcto e competente, Mário Nóbrega cita bem a propósito a frase de Almeida Garrett que está na página 7 do «Levantado do chão» e na página 19 da «Viagens»:

«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta para produzir um rico.» Lá está de novo a «infância» em vez de «infâmia». Agora num jornal que é lido por perto de um milhão de pessoas em todo o Mundo.

Contactado por telefone na sala de maquetagem do jornal onde trabalha, manteve um curto diálogo comigo e explicou-me que também no momento de passar a citação de A. Garrett para o seu texto hesitou longamente porque «infância» não lhe soava bem mas como aparecia em todos os livros de José Saramago que consultou e como não tinha à mão as «Viagens» de A. Garrett para desfazer as dúvidas, lá deixou seguir como estava.

O jornalismo é o esplendor do efémero e não se compadece com a calma e a ponderação. Nem os semanários escapam a essa febre. Perante a pressão do fecho das páginas que há pouco tempo eram feitas de granéis de chumbo e hoje seguem do ecran do jornalista para a gráfica por linha RDIS, não há (nunca há) tempo para grandes meditações nem para desfazer dúvidas. As gralhas também crescem e se multiplicam, como na Bíblia.

Fado menor para Marta (ouvindo Carlos do Carmo)

Uma coisa muito estranha

Sucedeu num Pavilhão

Marta ouviu em Espanha

O rumor desta canção

Aos mais diversos lugares

Chega esta melodia

Em Alcalá de Henares

Também faz companhia

Na Internet misturas

Canções com a poesia

Num Pavilhão às escuras

Lembrei a tua alegria

O Tejo aqui ao lado

Nasceu em Albarracin

Os acordes deste fado

São para não ter fim

Passou por nós a canoa

Ia a caminho da barra

Leva o som de Lisboa

Nas cordas da guitarra

Para tudo ser verdadeiro

Em Madrid, tua morada

Tu entras no cacilheiro

Que te leva até Almada

Não Almada mas Cacilhas

Companhia dos Vapores

Em teus olhos compartilhas

As canções destes cantores

E tudo fica em família

Nesta noite só de fado

Ouve-se a voz de Lucília

A voz de Carlos ao lado

O rio Tejo não termina

Permanece no estuário

A tua voz de menina

Regista som ao contrário

Vai reduzir a distância

Entre Espanha e Portugal

O fado ganha importância

Globalizado e geral

Um livro por semana 45

«Branco de Quintal» de F. Baião

A partir da história dum seu antepassado que nasceu no século XVII em Angola no quintal da casa do militar holandês de nome Van Cappel, o autor faz uma digressão pela História de Angola desde os tempos da Companhia das Índias Holandesas e de Salvador Correia de Sá até à actualidade do século XXI. Vejamos um excerto sobre o tempo de hoje: «O tão falado Homem Novo parece que é cada vez mais velho, arrastando-se de muletas, come o que lhe dão, sobretudo o milho estragado, o frango deteriorado e gripado, a carne das vacas loucas, bebe o leite com o prazo caducado, veste as roupa de fardo que a comunidade internacional envia generosamente. Toma medicamentos que já ninguém quer. Dorme com o lixo, acorda com a miséria. No entanto nem tudo é mau, fizeram-se algumas coisas boas, quanto mais não seja, a manutenção da unidade nacional e o alcance da Paz. Tentar corrigir muitos dos erros que se cometeram é um objectivo. A geração mais velha, a geração da luta contra o colonialismo, das matas, das prisões e da clandestinidade, da construção da independência, aquela que alcançou a paz e a tenta consolidar, já cumpriu o seu papel político e precisa passar o testemunho. Só se fala das coisas más, dizem alguns, mas o que se há-de fazer, dizem outros, as más são mais que muitas. A culpa foi da guerra, clamam outros, mas isso não justifica tudo, rebatem os inconformados. Ainda se ouve dizer que grande parte deles nada fazem, o que é mau, e nada deixam fazer, o que é péssimo mas atenção, muita atenção, a vítima nunca esquece o mal que lhe fazem. – Quem atira a pedra é quem se esquece mas quem levou a pedrada não se esquece.»

(Pangeia Editores/ Chá de Caxinde Edições, Capa: Luís Aires s/óleo de Jorge Gumbe, Prefácio: Francisco Soares, Apresentação: Rodrigues Vaz)

Vinte Linhas 304

Gosto mais da gatinha mas não diga nada à boneca

As botas que ontem calçaste lembram-me Vila Franca de Xira e os dias de festa na romaria da Senhora de Alcamé. Íamos nas carroças dos nossos vizinhos, havia farnel, missa campal, procissão, música e arraial entre o sol e o pó. A sede matava-se com vinho branco de Pegões mergulhado num cesto de vime na água fresca do braço dum esteiro do Tejo. Como nos livros de Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes. As «jeans» azuis dão à tua silhueta nos passeios da cidade o aspecto de menina do 12º ano mas já sei que a tua resposta adversativa é sempre a mesma: «Ai eu, por detrás Liceu, pela frente Museu». E o enorme sorriso que não termina.

Hoje apareceste de saia cinzenta e vejo nela não só o pedaço de tecido mas também uma bandeira, um pendão, um estandarte. O país és tu, a nação é o teu olhar, o território é o perímetro dos teus passos quando chegas à grande cidade voltando costas à cidade de cimento e ao comboio lento. Se o país é a soma da nação com o território então a tua bandeira representa um pequeno país a Norte deslocado no Sul, longe do azeite e das castanhas, do pão e do vinho, da luz das festas de Verão. Percebo agora melhor porque motivo em Itália se chama «paese» à aldeia natal de cada um. As nossas memórias são uma História particular a que todos temos direito, a nossa capela tem o valor de uma Catedral, a nossa escola o peso de uma Cidade Universitária, os nossos santos privativos a força dos Padroeiros Nacionais.

Hesito muito na escolha entre os teus «jeans» azuis e a tua saia cinzenta tal como a menina do livro da escola primária hesitava entre a gatinha e a boneca.

Um livro por semana 46



«A voz da Mãe» de Fernando Miguel Bernardes

Depois de «Escrito na cela», «Uma fortaleza da resistência» e «Docas secas», Fernando Miguel Bernardes recupera neste livro uma certa noção de história em testemunho: o cruzamento de uma história particular com a história mais geral do País no qual os sujeitos se movem. As histórias são pessoais e familiares mas o fito da narrativa é mais geral quando o narrador se dirige à Mãe, então morta: «Parecido contigo é o Francisco mas homem e pai de outra família que vai crescendo. Como tu curioso, à procura de uma explicação do mundo, como se uma razão houvesse do nascer e do viver, dos homens e dos bichos, da honradez e do perverso.» Uma das histórias tem a ver com a resistência ao fascismo: «arrombam e tombam e invadem e avançam e tu que te antepões à mulher a à criança, aqui param!, no quarto não entram! E em menos de um credo estás no chão, o menino a chorar pelo alarido que se gerou e a Sara pronto meu filho, não foi nada, e procura distrair-lhe a atenção, com ele nos braços cá e lá, e por ti angustiada.» É uma história de pessoas mas também da terra, da terra propriamente dita e do seu abandono: «Grande abandono grassa por aí. Triste sem dúvida mas a vida se concertará e quem vier há-de com certeza resolver este grave problema que a todos diz respeito. Um drama, pois quem o nega? mas de dramas nunca o ser humano se libertou nem libertará, assim o creio e sincera sou, duvido se ao mundo isso algum bem traria; das contradições é que nasce o novo…» Um livro no qual convivem histórias dos últimos cinquenta anos da nossa história pública recente e que, tal como afirma o autor do prefácio, «nos ajuda a manter viva a nossa memória colectiva».

(Editora: Occidentalis, Capa: sobre um óleo de Picasso, Prefácio: António Ventura)

Um livro por semana 48

«Primeira pessoa» de Pedro Mexia

Todo o cronista aspira a ultrapassar o efémero do jornal ou da revista e juntar as suas crónicas em livro. Antes publicadas na «Grande Reportagem», há neste conjunto de tudo um pouco. A começar pela crónica em si: «Os textos de quem escreve vêm do mesmo sítio das conversas dos conversadores ou das recordações dos anciãos: desse sótão no qual se empilham murmúrios, recortes, quinquilharia.» E passando pelo autor, ele mesmo, o próprio: «Um gordo não é exactamente um homem: é um bom amigo. Um bom tipo. Horrorizado, chego à conclusão de que quase todas as pessoas que me conhecem me acham confiável, compreensivo e relativamente inofensivo.» Entre a crónica e o autor surge o Mundo: «O nosso mundo compõe-se de três categorias: aqueles de quem gostamos, aqueles de quem não gostamos e aqueles de quem gostamos porque gostam de nós.» Nem tudo é bom; às vezes aparecem inimigos: «O inimigo, na sua cabeça, vê a outra pessoa como uma caricatura demoníaca, desprovida de méritos, de atenuantes, mesmo de humanidade. O inimigo espreita cada passo. Constrói em negativo, uma relação quase amorosa.» E, se estamos no Mundo, há nele lugares: «Há quem deteste o «Snob». Sei de duas ou três pessoas que dizem, enojadas: «Nem pensar, não quero ir a um lugar frequentado por jornalistas.» Não anuncio grande novidade se disser que são os jornalistas que dizem frases assim. Compreendo que as manchetes devem ser lidas de manhã, quando compramos os jornais na banca da esquina e não espiolhadas de véspera na maré das redacções que desaguam para um bife tardio e um copo reparador.»

(Editora: Casa das Letras, Capa: Neusa Dias, Foto: Pedro Loureiro, Prefácio: Francisco José Viegas)

Um livro por semana 49

«O nosso reino» de Valter Hugo Mãe

Por oposição ao reino de Deus («o seu reino não terá fim») este reino do narrador (Benjamim) é o reino dos Homens, uma vila de pescadores: «aos domingos, quando descíamos para a missa e o caminho até ao centro da vila se enchia de vizinhos, parecíamos todos felizes». Na vila estão o padre Filipe (que assustava), o senhor Luís (sacristão), o senhor Hegarty (que cantava) e o Carlos que veio da guerra: «em Angola tudo podia acontecer, porque os lugares eram ermos, esquecidos de tudo e de todos.» Havia também a Dona Darci («fugiu de Moçambique porque uma velha branca e misteriosa lhe rogou uma praga») e os tios de França: «eram dois, o rio João e o tio Saúl, mais velhos que a minha mãe e a minha tia Cândida, estavam em França como se estivessem mortos, excepto quando foi da herança». Benjamim queria ser santo («a vontade de me manter santo não me assistia perante todos da mesma forma, alguns conseguiam destruir-me por dentro a esperança de os salvar». Surge inesperado o «25 de Abril» na escola primária: «a professora Blandina explicou que ontem os senhores que mandavam no país foram mandados embora. Nessa altura muitas pessoas pensaram que as liberdades eram maiores, muito maiores, do que o esperado.» A professora queria motivar o narrador para a realidade: «parecia querer dizer que na minha vida tudo era mentira mas não era exactamente.» Entre verdade e mentira, entre morte e vida, vence a vida: «No dia seguinte a vila acordou cheia de milagres, as pessoa vieram à ruas , quem não andava corria, quem não via pintava de todas as cores, quem emudecera cantava como os pássaros e o sol abrira em pleno Inverno e não havia chuva nem frio».

(Editora: Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo sobre óleo de Cruzeiro Seixas)

Vinte Linhas 302

Furgonetas, gralhas e fotógrafos de Estaline

Retiro a moral da história dos recentes ataques de que fui alvo aqui no «aspirinab» como um mote explícito para continuar – apesar de tudo. Contei a história de ter visto no Chiado, na montra da Livraria Sá da Costa, uma edição especial do «Levantado do Chão», um livro com ilustrações de Armando Alves, um objecto estético especial dentro de uma caixa castanha que custa uma pipa de massa mas que tem uma gralha terrível: na citação da A. Garrett aparece a palavra «infância» onde deveria estar «infâmia» – isto a propósito de saber quantos pobres são precisos para fazer um rico. Logo saltaram uns espertalhões tentando desvalorizar o erro crasso cometido pelos editores e tentando fazer crer que o meu lapso (ter escrito mal a palavra furgoneta) podia fazer esquecer o grande lapso dos editores de uma obra tão especial. Isto é a demagogia em estado puro. Então o meu pequeno erro (tão pequeno que na rádio passou completamente despercebido) servia para anular o grande erro dos editores tão especiais de um livro tão especial. Também estes são aprendizes dos fotógrafos de Estaline, tentando apagar a verdade e fazendo buracos nas fotografias para que nos próximos anos lectivos os alunos já não vejam os retratos dos proscritos. Se bem se lembram os (e as) que leram esse texto, eu falava apenas de gralhas e não de infâmias – que é outra coisa. A infâmia está noutra página mas a mim naquele momento interessava-me discorrer sobre o facto de uma vasta equipa ter tido em mãos uma reedição de um livro de 1980 e de ninguém ter visto a palavra que distorce por completo a ideia de A. Garrett. A infâmia é outra coisa mas pelos vistos isso é uma situação que os fotógrafos de Estaline não são capazes de perceber.

Um livro por semana 51

«Contos de Médicos Portugueses»

São 25 contos de 25 autores: António Mendes Moreira, A. Bacelar Antunes, António Marques Leal, António Lourenço Faria, António Maurício Pecegueiro, Armando Oliveira Moreno, Carlos Cidrais, Carlos Manuel da Silva Arruda, Cláudio do Souto Plácido, João-Maria Nabais, Jorge Marinho, Jorge Tavares, José Dias Egipto, José Ferraz Alçada, José Pepo, Luís Carlos Bronze S. Carvalho, Luís Esperança Ferreira Lourenço, Maria Eduarda C.D.S., Maria João E.A.P. Vasconcelos, Maria Manuela de Mendonça, Mário J.F. Agualuza, O.F., Patrícia Matthioli Luís, Rui Afonso Cernadas e Salvador António S. e Q. Pereira Coelho. Sendo impossível abordar todos os contos, fazemos referência a um – «A estrelinha no céu» de Luís Carvalho. Trata-se duma narrativa na qual o choque entre duas culturas e duas concepções do Mundo se torna evidente. Num navio em viagem vemos de um lado o médico («No seu caso eu seguia em frente com a operação»), do outro lado o «Gerês» com a filha a sofrer dum tumor no cérebro: «Parece que andava a tratar a filha com um ervanário lá da terra.» A menina acabou por morrer e o médico ficou a saber do facto pela licença concedida pelo comandante ao «Gerês» para acompanhar o funeral da criança. Moral da história: «cada um tem o direito de gerir as suas angústias da maneira que lhe aprouver».

(Editora: CELOM, Capa: Carlos Rodrigues, Prefácio: Carlos Vieira Reis, Colaboração: SOPEAM, Apoio: MSD)