Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Um livro por semana 50

«Angústia fragmentária» de Luísa Santos

A partir da memória de uma infância vivida em clima de repressão familiar («Não quero que te dês com rapazes. Uma menina deve dar-se apenas com meninas e da sua idade. Não me contraries nunca, eu sou o teu pai.») e de uma vocação contrariada («Pai, quero ser bailarina. Pai, porque não posso?») surge uma adolescência povoada pela solidão e pela morte desejada: «Sinto-me só, sem ninguém ao fim de quinze anos de existência. A solução é matar-me.» Muito tempo depois da crise dos quinze anos a problemática é a mesma «apenas algumas palavras mudaram» na relação da jovem (hoje mulher) com a sociedade: «Tudo é material. Primeiro são as notas e a competição desenfreada na Escola. Depois o casamento, institucionalização hipócrita da vida a dois e do juro bonificado. Na profissão rodeia-nos a falsidade, a inveja sobretudo. Vivemos mergulhados numa cultura de maledicência e ciúme doentio.» Depois de perguntar num fragmento «Porque estou sozinha?!» a autora responde noutro fragmento: «Tenho mais medo da solidão dos outros do que da minha. Conheço bem o meu deserto, aprendi a orientar-me nele e hoje anseio pelo seu silêncio.» Mais à frente constata noutro fragmento a mesma solidão: «Fui beber um café comigo ao fim da tarde». E por fim surge a moral desta história desenhada em fragmentos de angústia: «Nada mais ilusório do que pensarmos que podemos despojar-nos tão facilmente do baú das recordações.»

(Editora: Bico de Lacre, Capa: Roberto Medeiros, Foto: Henrique Coelho, Ilustrações: Artur Campos)

Vinte Linhas 301

«O Tigre Vadio» de Mário Beja Santos

Aqui está um livro (Círculo de Leitores – Temas e Debates) em que o subtítulo poderia perfeitamente substituir o título – «Diário da Guiné 1969-1970». O tigre vadio pode ser o nome de uma operação militar mas também uma projecção do autor do livro – este diário anota não só as patrulhas e as emboscadas mas também as músicas que ouvia e os livros que lia. Copland, Dvorak, Saint-Saens, Mendelssohn, Chopin, Bizet, Puccini, Verdi, Mahler, Bach, Brahms, Beethoven ou Wagner ao lado de Agatha Christie, Moravia, Redol, Aquilino, D.H. Lawrence, Dinis Machado, Zola, Hemingway, Fernando Pessoa, Mauriac ou Kafka. No meio de uma guerra sem saída e de uma natureza hostil, só a cultura poderia dar respostas às ansiedades do jovem alferes. Num mundo em desagregação só a música e a literatura explicavam em parte esse mesmo mundo. Notável a conversa que o autor teve com o deputado Pinto Leite pouco tempo antes de ele morrer num desastre de helicóptero no meio de um tornado: «A Guiné actual já não tem solução militar. Por favor, guarde para si, o próprio governador gostaria de chegar a um acordo com o Amílcar Cabral. Em Lisboa espero dizer frontalmente tudo ao presidente do Conselho. Tem que se chegar à paz». Tantos anos passados, quase quarenta anos depois, ainda há tanta coisa por dizer sobre a guerra da Guiné. Um aspecto curioso: tudo isto começou num blogue «Luís Graça e camaradas da Guiné» e se não fosse o empurrão do blogue o livro nunca teria existido – pelo menos nesta forma que acabou por tomar. São 440 páginas de memórias vivas que podem ser lidas como um romance – «Era uma vez um menino alferes que vivia há uma ano no mato profundo do leste da Guiné…»

Um livro por semana 93

«A árvore das palavras» de Teolinda Gersão

Sexta edição dum livro de 1997, esta árvore das palavras existe mesmo: «sentava-me debaixo da árvore do quintal e falava com o vento e as folhas. A árvore abanava os ramos e eu pensava: a árvore das palavras». O palco da acção é Lourenço Marques: «Tudo parece bem à superfície mas a cidade está podre e cheia de contágios. Ela foi construída sobre pântanos». É uma cidade de contrastes: «Nos negros não se pode confiar. Porque nos desejam mal e nos odeiam.» A divisão acontecia até nos correios onde «havia guichets para comprar selos para brancos e outros guichets iguais mas com o letreiro «não brancos» como se os selos não fossem iguais». A protagonista da história circula entre dois mundos: «Parecia tudo tão simples a quem estivesse de fora mas havia debaixo desse mundo ocioso e brilhante, um outro, escondido, feito de ódios, rivalidade, inveja, ciúme, havia os amantes, as amantes, as noites varadas na mesa de jogo, o álcool, os escândalos». Ela sabe que «bastava um nada para que a sua vida tivesse sido outra – ter respondido a outro anúncio, ter-lhe ido parara às mãos outra folha de jornal». Numa cidade dividida no espaço («Um dia a cidade de caniço vai invadir a de cimento») a protagonista sente-se dividida no sentimento («Havia os que subiam e os que andavam sempre para trás») mas esse falso equilíbrio vem a romper-se com a guerra: «Portugal era um país mal governado. Mal pensado. Lisboa não dialoga com os africanos». Para além da história da mulher que casa por anúncio de jornal, este livro inesquecível dá-nos o registo do tempo e do lugar, a memória e a filosofia de África onde a pressa não existe: «a verdadeira vida é vagarosa. São os mortos que têm pressa. E os loucos».

(Editora: Sextante, Capa: Susana Cruz/Henrique Cayatte)

Meditação para um quadro oferecido por Jorge Bretão

Trouxeste num quadro a luz da tua cidade

Eu só tenho para te dar o escuro de Lisboa

Nos dias em que anoitece sobre a verdade

E a raiva é uma nuvem que nos sobrevoa

Numa cidade cheia de prisões e hospitais

De eléctricos vagarosos com os atrelados

A vida era diferente dos bilhetes-postais

Era mais cinzenta e nós muito cansados

Anos depois veio um projecto de alegria

Na manhã de Abril hoje perdidas ilusões

Uma excelente promessa de democracia

E ficou reduzida a um ritual de eleições

Salva-nos o tempo; permanece o mistério

No usufruto duma manhã plena de festa

Os músicos que tocam frente ao Império

São afinal toda a felicidade que nos resta

Terceiro poema de Fortaleza

Há aqui uma âncora feita de pedra

Tosca maneira de segurar a jangada

Quando o pescador descansa e espera

É uma pequena caixa de madeira

Uma pirâmide frágil mas segura

Que faz as vezes da força do ferro

Entre pedra e água, entre vida e morte

Ostensiva recusa dum destino hostil

O peixe que vem do mar todos os dias

Vejo o museu do Estado nesta jangada

Não preciso de visitar as outras salas

A vida do Ceará está toda nesta pedra

Vinte Linhas 300

Será que Fernando Pessoa tem razão?

Fernando Pessoa é o mais avassalador de quantos polígrafos o século XX deu à literatura portuguesa. Em boa hora a editora «Bonecos Rebeldes» resolveu publicar uma recolha de Zetho Cunha Gonçalves que junta textos de ficção narrativa publicados em jornais e revistas pelo próprio Fernando Pessoa. «Contos, fábulas & outras ficções» é um livro irreverente e indisciplinador, um hino à liberdade e um libelo contra toda e qualquer forma de censura, prepotência, submissão e conformismo. Na página 83 deste livro aparece «A origem do conto do vigário» no qual Fernando Pessoa explica à sua maneira a origem da expressão «conto do vigário» como tendo a ver com as façanhas de um tal Manuel Peres Vigário, lavrador ribatejano que teria enrolado seus irmãos num negócio de vinho. Mas a versão que eu tenho como correcta sobre a expressão vem de Vasco Botelho do Amaral e tem a ver com o conto do vigário «lisboeta» digamos assim. O burlão diz ao papalvo que o vigário da sua freguesia lhe confiou uma grande quantia para entregar a alguém quantia essa que está no embrulho – chamado paco. A pessoa que vai na conversa entrega o dinheiro pedido, acreditando que dentro do embrulho estão as notas que largamente compensarão o dinheiro emprestado em troca. E assim «vai no embrulho» pois, aberto o dito, vê que dentro dele só havia papel de jornal inútil e não as notas que seduzem os incautos. Estaremos perante uma invenção, mais uma, de Fernando Pessoa que teria aproveitado a expressão «conto do vigário» para imaginar uma história que viria a publicar no jornal «Sol» em 30-10-1926? Quem tem razão – Vasco Botelho do Amaral ou Fernando Pessoa? Será que a razão está com os dois? Responda quem souber…

Vinte Linhas 299

Nova edição do «Levantado do chão» mas as gralhas continuam

Acaba de surgir nas montras da Baixa de Lisboa e de todo o país (presumo) uma nova edição do clássico «Levantado do chão» de José Saramago. Clássico no sentido de estarmos em 2008 e a primeira edição ser de 1980. Mas clássico também porque neste livro de 2008 as gralhas permanecem, tal como em 1980, na renovada edição da Portugália Editora. Tanto cuidado, tanto aparato gráfico e afinal repetem o mesmo erro crasso das anteriores edições. No texto citado de Almeida Garrett do capítulo III das «Viagens» lá aparece o erro «E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar às miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à penúria absoluta, para produzir um rico» Ora bem não é infância mas sim «infâmia», nem aliás faria sentido ser infância. Nem o Garrett escreveu isso, está aqui na página 19 das «Viagens» na edição que eu tenho. As outras gralhas também persistem. Falta a dedicatória a Isabel da Nóbrega e a dedicatória a todos os que o ajudaram a escrever o livro, dezasseis pessoas ao todo, habitante das aldeia do Lavre (Monte Lavre no livro) no concelho de Montemor o Novo.

O livro vem dentro de uma caixa, é tudo muito engraçado mas as gralhas permanecem. Foi Isabel da Nóbrega que em 1976 levou uma forguneta cheia de livros para a biblioteca da Cooperativa do Lavre. Gesto amigo e generoso. Como não havia telemóveis pediram uma criança que fosse a correr chamar Bernardino Barbas Pires para receber essa senhora que vinha de Lisboa com a forguneta cheia de livros… Foi aí que tudo começou. Felizmente as gralhas não apagam a memória real e verdadeira de quem não esquece.

Vinte Linhas 298

O desacordo ortográfico do jornal «Record»

Chego a Portugal numa manhã de cansaço no regresso da Bienal do Livro do Ceará. Lá conheci o editor Raimundo Gadelha e o autor da minha antologia Floriano Martins. Lá reencontrei dois grandes poetas que já conhecia de Lisboa – José Santiago Naud e Cláudio Willer. Descobri Edson Cruz, José Geraldo Neres, Paulo Bruscky, Sílvio Araújo, Célia Cruz e Carlos Emílio Lima, o mais simpático dos desalinhados. E todos os poetas da América Latina trazidos na mala cheia de livros e de amizade. Depois da maratona de sessões sobre a mestiçagem cultural, a edição de livros, a antropologia, a história e a literatura e o ensino do português e castelhano na América do Sul mas onde o acordo ortográfico não foi sequer referido, sinto-me agredido com um título do jornal «Record» – «Liedson perto do record de Travassos.» Mas Travassos com cedilha e não com dois esses. Tenho na minha frente a fotocópia do bilhete de identidade do senhor José António Barreto Travassos fornecido pelo seu filho António José. Lembrei-me logo do acordo ortográfico que justificou a saída de uma ministra indisponível para o assinar. Ela foi substituída por alguém que aceitou a imposição do acordo ortográfico. E lá fomos, cantando e rindo, levados, levados sim pelos brasileiros. Agora, recém-chegado do Brasil onde a única coisa que fizeram num livro meu foi substituir «prefácio» por prólogo, deparo com algo que não estava no programa. Travassos com cedilha. Mas se esta gente não consegue escrever bem um nome de um famosos jogador de futebol, o primeiro português a jogar na UEFA em 1956 então podemos esta descansados. O acordo ortográfico brasileiro nunca será aplicado em Portugal pelo menos no jornal «Record».

Balada da Terra da Luz

No Estado do Paraná

Onde riqueza prospera

Alguém deu o alvará

A uma editora severa

Erro crasso cometido

Numa escolar edição

O Piauí foi escondido

No mapa do Maranhão

Todo Nordeste ofendido

Em estranha provocação

Piauí foi desaparecido

No mapa do Maranhão

Desprezo pelo direito

Da natural afirmação

O Piauí foi desfeito

No lugar do Maranhão

Numa falta de respeito

Desastrada construção

O mapa estava mal feito

Tudo era do Maranhão

Por isso esta Bienal

É tão forte afirmação

Duma gente sem igual

Que reclama sua razão

Em corredores povoados

De alegria e de esperança

Nos olhos esbugalhados

De tanta e tanta criança

Poetas, cronistas, editores

E ensaístas mais diversos

Enchiam seus corredores

Com os sonhos dispersos

Bienal do Livro, Ceará

Ponto de encontro, paixão

Sinto que já sou de cá

Do lado do meu coração

Já sinto uma saudade

E tenho uma certeza

Meu coração em metade

Vai ficar em Fortaleza

Um livro por semana 92

«Quarteto para as próximas chuvas» de João Rui de Sousa

João Rui de Sousa, um dos mais importantes poetas portugueses, publica regularmente desde 1960. Este «Quarteto» é o seu 17º título de poesia editado.

Os poemas deste livro partem do lugar do Poeta: «O rosto. A escrita. A escrita / do rosto. O rosto da escrita. / Para além de tudo isso / sou um animal desaquietado / pela fragilidade dos cômoros / pela inclemência das chuvas / pelo fugidio dos pássaros / pelo inacessível das penedias / pelo íngreme e sinuosos dos caminhos / e, sobretudo, pelo sabor sempre inebriante / e sempre inesperado / da escrita e do rosto.»

Mas não deixam de chegar ao lugar do Mundo: «Os poetas são pontes / para numerosos recados. / Em certos momentos eles poderão crescer / bem por dentro das sua próprias prateleiras / e armários, no porão mais obscuro de um navio / muito íntimo; noutros instantes, todavia, / eles podem com palavras de alvor / e de resistência, ajudar a erguer as traves / de uma cidade aberta, de uma pátria livre.»

Entre o Poeta e o Mundo, a ameaça da Morte só pode ter resposta no Amor: «É bom que sejas tu e não a morte / o sumo do calor destas viagens: / as dos lábios mais rentes na cintura / as dos beijos que ardem nas espáduas. / É bom que sejas tu e não o vil ensejo / de alguém a destruir as nossas bodas: / colados bem na pele seremos deuses / e os anjos sorrirão porque não sabem».

Nega-se a Morte no acto de Nascer («Nascer é já galgar (ou destroçar) / esses muros que exortam à vitória da inércia / à rasoura da morte, à aridez do nada»), nega-se a Morte ma força da palavra: «Estreitos são, afinal, todos os caminhos. / Por eles terá de viajar a carne dos poemas. / Quase sempre as palavras serão sombras / de puras circunstâncias, acidentes fortuitos / pedaços de papel caídos na berma dos passeios… / Mas é por elas que se recortará o rosto do real.»

(Editora: Publicações Dom Quixote)

Um livro por semana 89

«Em Teoria (A Literatura)» de Manuel Frias Martins

Manuel Frias Martins, doutorado em «teoria da literatura», é vice-presidente da Associação Portuguesa dos Críticos Literários e professor da Faculdade de Letras de Lisboa. Este volume bilingue (português e inglês) recolhe reflexões recentes do autor sobre temas como a tradução, a definição de literatura ou os novos horizontes da teoria literária: «Independentemente das questões de valor estético, julgo que é à presença da ficcionalidade que se deve a identificação milenar da literatura. Neste sentido, sem ficção nunca houve nem haverá literatura. Apesar daquela universalidade, aquilo que é ou não autêntica literatura esteve, desde sempre, dependente de códigos epocais dominantes. Embora mutáveis, esses códigos marcaram e marcam fortemente a evolução literária ou o diálogo intra-literário entre diferentes gerações de escritores e leitores. Isto quer dizer que os dispositivos expressivos da literatura se modificam e se transformam em função das modificações e das transformações da sociedade humana. Tanto a ideia genérica que temos do nosso presente como as congeminações que hoje podemos fazer acerca do futuro podem ser epitomizadas no extraordinário horizonte de possibilidades abertas à humanidade pela informática e pela comunicação multimédia e interactiva. São múltiplos os sinais que nos dizem que o texto electrónico irá introduzir mutações importantes nos géneros literários e implacavelmente redefinir a escrita, a leitura e também a profissão literária.»

(Editora: Âmbar, Colecção: Referência)

anúncio com uma lágrima de crocodilo no canto do olho

Há tempos deixei aqui este comentário:

a susana tem andado soterrada debaixo do trabalho e demais assuntos que foi deixando pendurados enquanto andou algum tempo dependurada nos blogues. lê regularmente o aspirina, que eu sei, mas evita comentar para não prolongar suspensões. vai deixar o aspirina por não fazer sentido estar não estando, mas ainda não encontrou vagar para escrever a sua lacrimosa despedida.

A verdade é que tenho andado a procrastinar. Por nenhuma razão especial além da apontada acima, associada ao desejo de deixar uma mensagem significativa do prazer que experimentei neste lugar e em tão boa companhia.
Assim, concluo agora o processo: saí.

Um livro por semana 91

«Os Narcóticos» de Camilo Castelo Branco (volume 2)

Camilo Castelo Branco subintitula este seu livro (uma miscelânea) como «Notas bibliográficas, históricas, críticas e humorísticas» e avisa os leitores: «O leitor não se assuste. Pelo facto de chamar-se Narcóticos o meu livro, abstenha-se V. Exa. da pretensão egoísta de abrir a boca logo que abrir o livro e estirar-se de papo acima numa regalada modorra cheia de roncos assobiados em cromática infernal pelas trompas nasais. Não pretendo ser mais opiado e calmante que outro qualquer livro nacional. Estimo que adormeçam mas devagar, com os espreguiçamentos usuais nas duas Câmaras e etiquetados com frascos na grande farmácia do Diário das Cortes».

Camilo comenta a sub-literatura, os direitos de autor, discorda de Alexandre Herculano e afirma: «A literatura-mercadoria, a literatura-agiotagem tem na verdade progredido espantosamente». Mais à frente, sobre a poesia, proclama: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade».

As eleições de 1879 originam esta observação: «O Governo progressista de 1879 fez retroceder a liberdade do sufrágio a 1845, com a diferença que antepôs à violência da paulada o suborno das consciências com mais suaves pressões, exceptuando os dorsos que as sentiram duras».

A suspensão do «Boletim da Bibliografia Portuguesa» dirigida por Fernandes Tomás merece a Camilo este reparo: «A suspensão deste periódico é um dos sintomas da podridão que nos vai relaxando e acanalhando a um raso de desprezo das letras que não tem semelhante em parte do Mundo, onde, alguma hora, houvesse livros e civilização».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Gazeta 91

ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco

XCI – «Todas as casas tinham o milagre de D. Fuas Roupinho»

A recente publicação do livro «Canto de mar – uma antologia de poesia sobre a Nazaré», organizada por Alexandre Isaac e Mário Galego, com capa de Mário Botas e publicada pela «Biblioteca da Nazaré» na sua colecção «Bico da memória», veio trazer-me à memória as minhas primeiras idas à Nazaré. Embora haja uma distância entre nós e a famosa praia pois temos primeiro que passar por Alcobaça, a verdade é que sempre senti a Nazaré muito próxima. Desde logo em Santa Catarina todas as casas tinham na parede o milagre de D. Fuas Roupinho ao lado do Sagrado Coração de Jesus ou da Pomba do Espírito Santo. Eram imagens compradas nas feiras de Rio Maior ou de Alcobaça quando não eram vendidas pelas quinquilheiras que apareciam às vezes por Santa Catarina à porta das casas de raparigas casadoiras. Tal como apareciam os ourives com a caixinha do oiro na parte de trás da bicicleta. Hoje já não há enxovais embora continue a haver casamentos. Aliás o que hoje não existe é a paciência que levava as pessoas a costurarem durante as longas noites de Inverno o enxoval de um elemento da família. Mas vejamos o livro de poesia sobre a Nazaré. Para além dos poemas deste obscuro poeta que se assina ao fim da página, integram este «Canto de mar» poemas dos seguintes autores: Afonso Lopes Vieira, Alexandre Isaac, António Borges Coelho, António Feliciano de Castilho, António Jacinto Pascoal, António Osório, António Sales Macatrão, Augusto Oliveira Mendes, Aurelino Costa, Casimiro de Brito, Epifânio Souza, Henrique Manuel Bento Fialho, Jaime Rocha, Joaquim António Emídio, Jorge Reis Sá, Jorge Velhote, José Antunes Ribeiro, José Luís Peixoto, José Soares, Levi Condinho, Luís Paulo Meireles, m. parissy, Manuel de Arriaga, Mário Botas, Miguel Torga, Murilo Mendes, Nicolau Saião, Nuno Rebocho, Paulo Reis Mourão, Pedro Silva Sena, Rui Serafim e Ruy Ventura.

A minha memória da Nazaré que surge nesses poemas é a de um tempo adulto mas em criança tudo aquilo me parecia mágico. O Sítio, a Praia, as Festas, os Círios, o Elevador, as palavras cantadas das mulheres, a voz rouca dos velhos pescadores, o Rancho Tá Mar, as touradas nocturnas. Havia uma ligação às touradas pela simples razão que a Filarmónica Catarinense era convidada de vez em quando para abrilhantar as touradas das Festas da Nazaré e por isso a primeira tourada que vi foi uma nocturna. Era no tempo da grande rivalidade entre o Manuel dos Santos e o Diamantino Vizeu sem esquecer outros como o Amadeu dos Anjos e o José Trincheira além de outros dois ribatejanos (Mário Coelho e José Júlio) que eu viria a conhecer em Vila Franca de Xira. Lembro-me perfeitamente de uma das pessoas que tinha ido connosco da minha terra às Festas da Nazaré ter dito nessa noite: «Olha entrou agora o capinha!». Não se dizia toureiro nem novilheiro nem matador mas sim capinha. São todas essas memórias do tempo da Estrada de Macadame que aparecem convocadas no meu espírito a propósito da alegria que foi ver os meus poemas numa antologia de homenagem à Nazaré, sua paisagem e seu povoamento.

Para mim é algo especial eu ter poemas meus publicados num livro que integra poemas de Afonso Lopes Vieira e de Miguel Torga. Se como dizem «toda a literatura é uma homenagem à literatura» então a prova está aqui neste livro. Eu que comecei a gostar de ler poesia no Ciclo Preparatório com dez anos de idade percebo que o facto de os meus poemas estarem lado a lado com esses dois clássicos (e de todos os outros, obviamente) prova que a literatura é (mesmo) uma homenagem à literatura.

Vinte Linhas 297

Uma tarde no banco de Marta

Estamos no meio de Novembro mas o sol permanece como se fosse Verão.

Há nove espreguiçadeiras ocupadas, cinco pescadores com seis canas de pesca e o mar que parece um espelho gigante com o sol a bater-lhe em cheio. Efeitos do anticiclone dos Açores, dirá um especialista. Mas o que conta para estas dezenas de pessoas aqui à volta é o usufruto do esplendor do sol, a quase ausência de vento, o ruído feliz das ondas a lembrar os primeiros sons do álbum «Bom voyage» de Vangelis Papathanassiou.

No banco de Marta estendem-se os jornais do dia, a vitória de Obama, o escândalo do Banco Português de Negócios, a polémica das arbitragens em Portugal provando uma vez mais duas coisas: depois de 1983 ninguém acredita em ninguém no futebol português e os estádios só não estão completamente vazios porque a paixão clubista ainda não morreu.

As conversas chegam aqui perto da âncora deitada que parece um enorme travessão no meio da tarde: uma senhora tem o cabelo fraco e precisa de acertar as pontas, a outra tem a filha no estrangeiro e já não a vê há largos meses. Além disso não sabe o que há-de fazer para o jantar neste sábado de sol. De súbito um fotógrafo de meia-idade e um jovem operador de câmara aparecem nas rochas, por cima dos antigos viveiros dos restaurantes e dos hotéis da Ericeira. Fotografam e filmam um rapaz e uma rapariga que parecem noivos em despedida de solteiro ou em ensaios para as fotografias do casamento de amanhã. Assim como apareceram os quatro desaparecem velozmente para o lado da praia dos pescadores. Só o sol e as gaivotas permanecem frente ao espelho luminoso da massa líquida do Oceano em frente ao banco de Marta.

Vinte Linhas 296

Eu fui o enviado especial à Nazaré em 15-7-1997

Todo este vendaval à volta da péssima arbitragem de Bruno Paixão no jogo Sporting-Porto para a Taça de Portugal fez-me recordar o dia 15-7-1997 quando fui como enviado especial ao jogo decisivo Boavista-Sporting para atribuição do título de campeão nacional de juniores. O jogo disputou-se no estádio Municipal da Nazaré e o árbitro foi Bruno Paixão auxiliado por António Godinho e Francisco Mendes. Pelo Sporting alinharam: Nuno Santos, Travassos, Caneira, Valente, Orlando, Gomes, Kakinda, Assis, Gabriel, Vargas, Simão, Nuno Moreira, Alhandra e Paulo Costa. Os «leões» marcaram primeiro por Gabriel mas o Boavista na segunda parte e só com 10 jogadores deu a volta ao jogo. Segundo A BOLA de 16-7-1997 «o Boavista, em inferioridade numérica, apelou a todas as suas reservas físicas e anímicas, para operar a reviravolta. Com alguma sorte e a ajuda do árbitro que lhe perdoou uma grande penalidade aos 85 minutos (braço na bola de Nuno Gomes).» Repare-se que o jornal A BOLA foi fundado por Ribeiro dos Reis, um reputado especialista em arbitragem e trata sempre as arbitragem com luvas mas este itálico na palavra «ajuda» diz tudo sobre o caso: Simão Sabrosa fintou Sérgio Leite e o defesa Nuno Gomes desviou a bola com o braço mas o árbitro marcou, heroicamente, um pontapé de canto. Lá no alto da tribuna de honra Valentim Loureiro sorria. Cá em baixo o treinador boavisteiro Queiró dizia ao treinador dos «leões» Rui Palhares, mesmo ao meu lado, quando me preparava para recolher as suas palavras: «Pensava que eras tu a trazer o árbitro mas fomos nós!». Conclusão: as pessoas não mudam e quando por acaso mudam, mudam mas para pior…

Um livro por semana 88

«Música de viagem» de Cristino Cortes

Neste conjunto de 77 poemas, nesta «sinfonia poética» (como lhe chamou António Salvado) o autor revisita poemas de Pasolini, Francisco Sá de Miranda, Almeida Garrett, António Nobre, Guerra Junqueiro, Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Florbela Espanca, Miguel Torga, Alberto Pimenta, Cesário Verde, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Luís de Camões e Manuel Simões, em Veneza:

«Deusa vivendo da beleza própria e exterior, Veneza / A aumenta e mantém com seu perfume, invencível filtro / De amor atraindo o tempo e os deuses, os da música / Aérea e aquática fluindo em força da natureza».

Música de viagem porque viaja entre o «eu» e o «Mundo» mas também viagem ao lado de dentro da construção do poema:

«Em todo o sítio a encontro, nas viagens que abraço / Ou imagino, também entre as pregas da rotina / Desse fluir diário, qual face de vulgar esquina / Com ela vivo e decerto que bem pouco faço! / É uma inconsciência quase, específica forma / De respirar, um pressentimento, um vago aroma / Na atmosfera se evolando ou pressentindo, oh dona / De magia e mistério, sem fixar regra ou norma! / Ela é fado ou destino, uns dirão graça ou bênção / E outros, talvez, falha, falta ou maldição, depende / Da perspectiva, objectivos em que alguém se entende / – Estes anos em que por algo bate o coração… / Ando com ela, sou-lhe fiel, e não saberia / Fugir-lhe ou deixá-la, mistério, aragem esguia.»

(Edição: Papiro Editora, Capa: Ana Machado, Apresentação: António Salvado)

Um livro por semana 85


«Mataram o chefe de posto» de E. S. Tagino

Recém-chegado a Kimbali no interior de Moçambique, o alferes Ferreira compara as duas vivências depois de ser convidado a jantar com um casal: «Em Portugal tudo era acanhado, fechado, mesquinho. As pessoas espreitavam por detrás das cortinas. Comiam com a cabeça dentro da gaveta. Eram desconfiadas e maledicentes. Guardavam segredos que viravam boatos. Viviam e morriam enclausuradas, esfíngicas e indecifráveis. As mulheres não iam aos cafés nem sorriam a estranhos, das varandas das casas. As mulheres não andavam de vestidos claros. Na Metrópole as mulheres estavam recolhidas e só usavam vestidos pretos ou de cores escuras.» Em total oposição ao discurso político oficial, o chefe de posto explica com todas as letras que os militares portugueses não são bem aceites em Kimbali: «Você e os seus homens, como militares, desculpe a franqueza, não são nem nunca serão bem vindos a Kimbali. Esta é uma terra pacata que tem sabido desde sempre preservar a paz. A vossa chegada veio perturbar, perigosamente, o nosso quadro de serenidade e equilíbrio». O envolvimento geral em Moçambique é ainda mais complicado: «Em 21 de Julho de 1969 ocorre no Zambeze o maior desastre de toda a guerra colonial. Cento e um homens morrem afogados quando um batelão de transporte se afundou no rio. Com os militares perdeu-se também um número significativo de viaturas e diverso armamento que seguia para o norte de Moçambique. Exactamente no mesmo dia o General era nomeado Comandante do Exército de Moçambique. Esta extraordinária coincidência só podia profetizar um desastre ainda maior.» É neste teatro que se desenvolve a componente policial deste livro que recebeu o Prémio Cidade de Almada 2006. O moleque Formiga é o pregoeiro desse drama em que a morte e o amor se envolvem. A moral da história parece ser esta: a única resposta à morte é o amor porque só o amor constrói novas vidas, novas esperanças, novas apostas no futuro.

(Editora: Saída de Emergência Apoio: Câmaras Municipais de Almada e de Grândola)

Um livro por semana 86

«Tudo bem em Santarém e outros poemas menores» de Mário Rui Silvestre

A infância, sendo o tempo no qual nem as lágrimas nem os beijos têm preço, é o ponto de partida deste livro: «A casa às vezes enchia-se de gente / comigo no chão olhando em redor». Esta paisagem é povoada pelos heróis do «Mundo de aventuras»: «de lá guardarei as costas ao Zorro / que vai num galope pela pradaria / salvar dos bandidos o que resta da tarde». Nos intervalos da escola e da catequese, o pião e o berlinde: «azul e verde rubi sanguíneo / água marinha quartzo transparente / ametista irreal anil iridescente / os berlindes jogados no terreiro». Os ranchos da azeitona passam pela infância e ficam no poema («Finda a campanha / fazem a festa / da adiafa / regressam cantando / às suas terras / sempre tão pobres / como vieram») lado a lado com a poluição do Rio Alviela: «um cheiro a morte turva o dia / nojenta náusea paira sobre a vila / odor ao que o dinheiro corrupto exala / dos que à vida dos outros pouco ligam».

O poema-título não refere a infância mas o tempo do Liceu: «Terra dos Leões o clube de futebol regional / de vários campeões que gostávamos de imitar / nos jogos no campo da bola atrás de Santa Clara / um pouco depois das aulas e antes dos matraquilhos». Três autores povoam este espaço: Alexandre Herculano, Guilherme de Azevedo e Ruy Belo: «A melhor coisa que fez / a sua poesia aqui não jaz / pois vive inteira em quem a lê / glória ao autor que durma em paz». Um dos poemas acaba por desenhar o perfil do livro: «o desenho no caderno / linhas vivas num só plano / sangrento sol no poente / tens os olhos tens a mão / o desenho que principia / trémulo só no começo / o cigarro na sinistra / o fumo no olhar aceso». O caderno que o jovem pede à amada para não fechar é o livro que o adulto assina e não se fecha porque povoado de gente a amar e a morrer: «Vinte mil soldados miguelistas / agonizam de peste em Santarém / cercados por vinte mil soldados liberais / rotos famintos fartos de tanto sofrimento». O título é irónico: nem os poemas são menores nem está tudo bem em Santarém.

(Editora: Auctoris, Capa e design: Flávio Carlos Silvestre, Apoio: Fundação Comendador José Gonçalves Pereira)

Um livro por semana 90



«No vértice da noite» de Adalberto Alves

Nascido no Ocidente, Adalberto Alves desde sempre se deixou fascinar pelo Oriente. Não por acaso o título de um dos seus livros é «O meu coração é árabe».

O seu ponto de partida são as palavras: «há palavras / impossíveis de ser ditas / como corações / que nenhum peito comporta / são palavras sem nome / mudas / noites sem lua».

O seu ponto de chegada é o amor: «mesquinho é quem não soube amar / nem provou jamais a embriaguez do amor / ó tu que nunca amaste, como dás valor / ao ofuscante sol e à luz do luar?»

Pelo meio uma viagem pelos mitos do nosso tempo; sejam eles do mundo da literatura como Lorca («Granada são meninos mouros / que o absurdo crescente devora / buraco de sete balas acordadas / um touro triste brame e espanta / o bando das bandarilhas ilegítimas») ou do mundo do futebol como Matateu: «deste cor azul à alegria / que há na finta e cada golo tem / no campo ergueste alto cada dia / o nome português e de Belém / chegaste de um terra quente / e foste acabar em terra fria / vives agora no coração da gente / que contigo aos domingos renascia / há um desafio que nunca finda / há corações batendo em sobressalto / no coro que se ouve e que te chama / está o jogo no momento alto / prá frente Matateu! um golo ainda! / todo um estádio se ergue e te aclama.»

(Editora: Argusnauta, Capa: Figueiredo Sobral, Retrato do autor: Luís Veiga Leitão)