Gazeta 91

ESTRADA DE MACADAME – José do Carmo Francisco

XCI – «Todas as casas tinham o milagre de D. Fuas Roupinho»

A recente publicação do livro «Canto de mar – uma antologia de poesia sobre a Nazaré», organizada por Alexandre Isaac e Mário Galego, com capa de Mário Botas e publicada pela «Biblioteca da Nazaré» na sua colecção «Bico da memória», veio trazer-me à memória as minhas primeiras idas à Nazaré. Embora haja uma distância entre nós e a famosa praia pois temos primeiro que passar por Alcobaça, a verdade é que sempre senti a Nazaré muito próxima. Desde logo em Santa Catarina todas as casas tinham na parede o milagre de D. Fuas Roupinho ao lado do Sagrado Coração de Jesus ou da Pomba do Espírito Santo. Eram imagens compradas nas feiras de Rio Maior ou de Alcobaça quando não eram vendidas pelas quinquilheiras que apareciam às vezes por Santa Catarina à porta das casas de raparigas casadoiras. Tal como apareciam os ourives com a caixinha do oiro na parte de trás da bicicleta. Hoje já não há enxovais embora continue a haver casamentos. Aliás o que hoje não existe é a paciência que levava as pessoas a costurarem durante as longas noites de Inverno o enxoval de um elemento da família. Mas vejamos o livro de poesia sobre a Nazaré. Para além dos poemas deste obscuro poeta que se assina ao fim da página, integram este «Canto de mar» poemas dos seguintes autores: Afonso Lopes Vieira, Alexandre Isaac, António Borges Coelho, António Feliciano de Castilho, António Jacinto Pascoal, António Osório, António Sales Macatrão, Augusto Oliveira Mendes, Aurelino Costa, Casimiro de Brito, Epifânio Souza, Henrique Manuel Bento Fialho, Jaime Rocha, Joaquim António Emídio, Jorge Reis Sá, Jorge Velhote, José Antunes Ribeiro, José Luís Peixoto, José Soares, Levi Condinho, Luís Paulo Meireles, m. parissy, Manuel de Arriaga, Mário Botas, Miguel Torga, Murilo Mendes, Nicolau Saião, Nuno Rebocho, Paulo Reis Mourão, Pedro Silva Sena, Rui Serafim e Ruy Ventura.

A minha memória da Nazaré que surge nesses poemas é a de um tempo adulto mas em criança tudo aquilo me parecia mágico. O Sítio, a Praia, as Festas, os Círios, o Elevador, as palavras cantadas das mulheres, a voz rouca dos velhos pescadores, o Rancho Tá Mar, as touradas nocturnas. Havia uma ligação às touradas pela simples razão que a Filarmónica Catarinense era convidada de vez em quando para abrilhantar as touradas das Festas da Nazaré e por isso a primeira tourada que vi foi uma nocturna. Era no tempo da grande rivalidade entre o Manuel dos Santos e o Diamantino Vizeu sem esquecer outros como o Amadeu dos Anjos e o José Trincheira além de outros dois ribatejanos (Mário Coelho e José Júlio) que eu viria a conhecer em Vila Franca de Xira. Lembro-me perfeitamente de uma das pessoas que tinha ido connosco da minha terra às Festas da Nazaré ter dito nessa noite: «Olha entrou agora o capinha!». Não se dizia toureiro nem novilheiro nem matador mas sim capinha. São todas essas memórias do tempo da Estrada de Macadame que aparecem convocadas no meu espírito a propósito da alegria que foi ver os meus poemas numa antologia de homenagem à Nazaré, sua paisagem e seu povoamento.

Para mim é algo especial eu ter poemas meus publicados num livro que integra poemas de Afonso Lopes Vieira e de Miguel Torga. Se como dizem «toda a literatura é uma homenagem à literatura» então a prova está aqui neste livro. Eu que comecei a gostar de ler poesia no Ciclo Preparatório com dez anos de idade percebo que o facto de os meus poemas estarem lado a lado com esses dois clássicos (e de todos os outros, obviamente) prova que a literatura é (mesmo) uma homenagem à literatura.

6 thoughts on “Gazeta 91”

  1. Eu também gosto da Nazaré (e ainda ontém estive em Alcobaça, por onde v. ‘passa’) mas o que me chamou mais a atenção foi o que disse sobre os enxovais.
    É significativo e revelador (de uma mudança de costumes e mentalidades, acho eu) o desaparecimento dessa forma de aforro. Hoje compram-se as alfaias à cabeça e a crédito, e vai-se pagando, sendo que os prazos são maiores que o do próprio casamento, digo eu.
    Eu lembro-me bem de as raparigas comprarem roupas e utensílios para o enxoval, e o 1º campeonato de futebol de que me lembro (vagamente) é o Espanha 82.

  2. “… o facto de os meus poemas estarem lado a lado com esses dois clássicos (e de todos os outros, obviamente) prova que a literatura é (mesmo) uma homenagem à literatura.”

    Expõe lá isso por miúdos, ó vaidozote impenitente e incurável.

  3. A consagrada escritora Alice Vieira estará presente na próxima tertúlia Via Latina,

    a ter lugar na sexta-feira dia 21, pelas 21:30, na Galeria Matos Ferreira,

    à rua Luz Soriano, em Lisboa (Bairro Alto).

    Mais detalhes em vialatina.wordpress.com

  4. Sô Zé, pode perceber de futebol, mas não de touradas. Como é possível afirmar que «Não se dizia toureiro nem novilheiro nem matador, mas sim capinha»!? Você sabe o que é um capinha? Pois se não sabe, não escreva disparates, homem!
    O capinha faz parte da quadrilha dos peões de brega de qualquer toureiro, são os seus homens de confiança, que experimentam o toiro antes dele começar a lide. Capinhas são também os espontâneos que enfrentam os toiros em largadas. Nos Açores, as touradas à corda são feitas com os capinhas. Escrever sobre o que se desconhece é grave, mas continue a promover-se, que só lhe fica bem. «O facto de os meus poemas estarem lado a lado com esses dois clássicos». Os dois clássicos poetas teriam o mesmo parecer? Sô Zé, contenha-se nas postas de pescada que pode ter uma indigestão.

  5. Eu já tinha quinze anos, quando vim a Lisboa pela primeira vez. Vim de excursão e fiz assim uma volta redonda( deixe-me passar o pleonasmo):Lisboa, Nazaré, Fátima e Castelo Branco.
    Chegámos à Nazaré à noitinha; contudo,fiquei a recordar para sempre a marginal e o Sítio. E ainda uma cena de gritos na praia,na manhã seguinte, perante a iminêmcia de um naufrágio.
    Na Nazaré, vi o mar pela primeira vez.E ainda hoje gosto de ver o mar da Nazaré. Na verdade, não há amor como o primeiro.

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