Vinte Linhas 297

Uma tarde no banco de Marta

Estamos no meio de Novembro mas o sol permanece como se fosse Verão.

Há nove espreguiçadeiras ocupadas, cinco pescadores com seis canas de pesca e o mar que parece um espelho gigante com o sol a bater-lhe em cheio. Efeitos do anticiclone dos Açores, dirá um especialista. Mas o que conta para estas dezenas de pessoas aqui à volta é o usufruto do esplendor do sol, a quase ausência de vento, o ruído feliz das ondas a lembrar os primeiros sons do álbum «Bom voyage» de Vangelis Papathanassiou.

No banco de Marta estendem-se os jornais do dia, a vitória de Obama, o escândalo do Banco Português de Negócios, a polémica das arbitragens em Portugal provando uma vez mais duas coisas: depois de 1983 ninguém acredita em ninguém no futebol português e os estádios só não estão completamente vazios porque a paixão clubista ainda não morreu.

As conversas chegam aqui perto da âncora deitada que parece um enorme travessão no meio da tarde: uma senhora tem o cabelo fraco e precisa de acertar as pontas, a outra tem a filha no estrangeiro e já não a vê há largos meses. Além disso não sabe o que há-de fazer para o jantar neste sábado de sol. De súbito um fotógrafo de meia-idade e um jovem operador de câmara aparecem nas rochas, por cima dos antigos viveiros dos restaurantes e dos hotéis da Ericeira. Fotografam e filmam um rapaz e uma rapariga que parecem noivos em despedida de solteiro ou em ensaios para as fotografias do casamento de amanhã. Assim como apareceram os quatro desaparecem velozmente para o lado da praia dos pescadores. Só o sol e as gaivotas permanecem frente ao espelho luminoso da massa líquida do Oceano em frente ao banco de Marta.

4 thoughts on “Vinte Linhas 297”

  1. Se o EU estivesse aqui, decerto que repararia no teu erro de palmatória do “Bom Voyage”, sem sequer pensar que poderás estar a passar uma rasteira com pé Valupiano. Eu prefiro arriscar que te enganaste nas notícias que aí leste nos jornais. Emenda isso para “o escândalo de Obama e a vitória do Banco Português de Negócios”.

    O postal está uma delícia, como muitos outros antes desse, nem parece desbarrigado pela pena dum jornalista vocacionalmente desportivo. Até eu sinto um acréscimo de produção endógena de vitamina com esse sol a entrar-me pelos olhos.

  2. Agora era mais importante a “chuva no nabal,” ou já esqueceram como a água, que é o sangue da terra, faz falta à vida ?
    Mas os poetas estão autorizados a esquecer as coisas “comezinhas” ( é o termo !) de cada dia.
    Boa viagem José do Carmo.
    JNascimento

  3. Cem por sento de acordo! Fiz erro pois o título é bem BON VOYAGE mas no que diz respeito ao resto não é bem assim – desde 1978 tenho feito jornalismo cultural, comecei no Diário Popular e estou de novo na «Ler» depois de breve interregno. Não tens lido a «Ler» ?

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