Um livro por semana 86

«Tudo bem em Santarém e outros poemas menores» de Mário Rui Silvestre

A infância, sendo o tempo no qual nem as lágrimas nem os beijos têm preço, é o ponto de partida deste livro: «A casa às vezes enchia-se de gente / comigo no chão olhando em redor». Esta paisagem é povoada pelos heróis do «Mundo de aventuras»: «de lá guardarei as costas ao Zorro / que vai num galope pela pradaria / salvar dos bandidos o que resta da tarde». Nos intervalos da escola e da catequese, o pião e o berlinde: «azul e verde rubi sanguíneo / água marinha quartzo transparente / ametista irreal anil iridescente / os berlindes jogados no terreiro». Os ranchos da azeitona passam pela infância e ficam no poema («Finda a campanha / fazem a festa / da adiafa / regressam cantando / às suas terras / sempre tão pobres / como vieram») lado a lado com a poluição do Rio Alviela: «um cheiro a morte turva o dia / nojenta náusea paira sobre a vila / odor ao que o dinheiro corrupto exala / dos que à vida dos outros pouco ligam».

O poema-título não refere a infância mas o tempo do Liceu: «Terra dos Leões o clube de futebol regional / de vários campeões que gostávamos de imitar / nos jogos no campo da bola atrás de Santa Clara / um pouco depois das aulas e antes dos matraquilhos». Três autores povoam este espaço: Alexandre Herculano, Guilherme de Azevedo e Ruy Belo: «A melhor coisa que fez / a sua poesia aqui não jaz / pois vive inteira em quem a lê / glória ao autor que durma em paz». Um dos poemas acaba por desenhar o perfil do livro: «o desenho no caderno / linhas vivas num só plano / sangrento sol no poente / tens os olhos tens a mão / o desenho que principia / trémulo só no começo / o cigarro na sinistra / o fumo no olhar aceso». O caderno que o jovem pede à amada para não fechar é o livro que o adulto assina e não se fecha porque povoado de gente a amar e a morrer: «Vinte mil soldados miguelistas / agonizam de peste em Santarém / cercados por vinte mil soldados liberais / rotos famintos fartos de tanto sofrimento». O título é irónico: nem os poemas são menores nem está tudo bem em Santarém.

(Editora: Auctoris, Capa e design: Flávio Carlos Silvestre, Apoio: Fundação Comendador José Gonçalves Pereira)

2 thoughts on “Um livro por semana 86”

  1. «nem os poemas são menores nem está tudo bem em Santarém.»

    Quanto aos poemas não emito opinião, pois, não os conheço.
    Em Santarém está tudo bem, obviamente, só assim se entende/compreende/aceita a disponibilidade do presidente forasteiro – Moita Flores – para opinar.
    Um concelho (um distrito) cujo presidente passa o tempo, muito tempo, a opinar na televisão tem de estar bem, senão o presidente estaria ao leme da fragata (gosto bastante desta imagem do timoneiro) procurando uma viagem segura e um atracamento consistente.

  2. Penso que a ideia é referir-se Santarém como lugar mais sentimental do que concreto. Foi assim que eu li o livro. Nem de perto nem de longe o conteúdo tem a ver com a chamada actualidade. Logo Moita Flores não tem a ver com isto mas a poesia é a liberdade livre e a maior liberdade é a dos leitores. O poeta morre para que o poema viva…

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