Um livro por semana 85


«Mataram o chefe de posto» de E. S. Tagino

Recém-chegado a Kimbali no interior de Moçambique, o alferes Ferreira compara as duas vivências depois de ser convidado a jantar com um casal: «Em Portugal tudo era acanhado, fechado, mesquinho. As pessoas espreitavam por detrás das cortinas. Comiam com a cabeça dentro da gaveta. Eram desconfiadas e maledicentes. Guardavam segredos que viravam boatos. Viviam e morriam enclausuradas, esfíngicas e indecifráveis. As mulheres não iam aos cafés nem sorriam a estranhos, das varandas das casas. As mulheres não andavam de vestidos claros. Na Metrópole as mulheres estavam recolhidas e só usavam vestidos pretos ou de cores escuras.» Em total oposição ao discurso político oficial, o chefe de posto explica com todas as letras que os militares portugueses não são bem aceites em Kimbali: «Você e os seus homens, como militares, desculpe a franqueza, não são nem nunca serão bem vindos a Kimbali. Esta é uma terra pacata que tem sabido desde sempre preservar a paz. A vossa chegada veio perturbar, perigosamente, o nosso quadro de serenidade e equilíbrio». O envolvimento geral em Moçambique é ainda mais complicado: «Em 21 de Julho de 1969 ocorre no Zambeze o maior desastre de toda a guerra colonial. Cento e um homens morrem afogados quando um batelão de transporte se afundou no rio. Com os militares perdeu-se também um número significativo de viaturas e diverso armamento que seguia para o norte de Moçambique. Exactamente no mesmo dia o General era nomeado Comandante do Exército de Moçambique. Esta extraordinária coincidência só podia profetizar um desastre ainda maior.» É neste teatro que se desenvolve a componente policial deste livro que recebeu o Prémio Cidade de Almada 2006. O moleque Formiga é o pregoeiro desse drama em que a morte e o amor se envolvem. A moral da história parece ser esta: a única resposta à morte é o amor porque só o amor constrói novas vidas, novas esperanças, novas apostas no futuro.

(Editora: Saída de Emergência Apoio: Câmaras Municipais de Almada e de Grândola)

7 thoughts on “Um livro por semana 85”

  1. Suponho que a seguir virá o

    «Breve tratado das artes da cópula» de Al-Sayed Al-Makhzoumi

    Natural do Iémen, o autor foi um médico que tratou tanto homens como mulheres de Espanha até ao Noroeste da Índia, de Samarcanda até os países da Arábia e ao seu país natal. Dessa experiência de 65 anos de actividade clínica nasceu em 1725 o manuscrito deste actual clássico do erotismo. Vejamos um excerto sobre o beijo: «Na troca de carícias entre o homem e a mulher não há nada mais doce do que beijarem-se nos lábios e na boca. Os lábios e a boca dos homens e das mulheres são muito sensíveis ao toque entre ambos e muito prazer e excitação serão colhidos se isso for feito com bastante sofisticação e habilidade. As mulheres parecem ter bocas muito mais sensíveis do que os homens e retiram muito mais prazer do beijo. Isso pode explicar porque é que as mulheres gostam de demorar-se no beijo sem qualquer desejo aparente de cópula a não ser passado algum tempo depois, enquanto os homens tentam rapidamente e sentem um desejo urgente de copular após alguns poucos beijos preliminares. Realmente o beijo não os satisfaz no mesmo grau mas incentiva-os a outros desejos mais urgentes. As virgens, em especial, retiram do beijo toda a satisfação por que anseiam, pois nenhuma outra parte do corpo é estimulada. Contudo uma mulher experiente deseja ardentemente a cópula depois de estar satisfeita com os beijos. O beijo (Al Qqlab) começa com o toque entre os lábios do homem e da mulher. Os seus narizes devem encaixar-se perfeitamente de modo que os lábios se sobreponham em todo o seu comprimento. É altura de darem início aos movimentos dos lábios do homem sobre os da mulher e uma pequena quantidade de saliva pode ser passada pela língua dele para humedecer o contacto entre os lábios, que ficarão mais sensíveis, convertendo esse contacto num momento de maior prazer.»

    (Editora: Padrões Culturais, Tradução: Carlos Adalto Souza, Capa: Mário Andrade, Prefácio: Isabel Afonso)

    José do Carmo Francisco

  2. este apetecia-me ler, não sei se consigo porque há sempre tanta coisa para ler, e depois esqueço-me, mas apetecia-me sim, Mozambique

    claro que é só no amor que se entrevê a eternidade, melhor ainda quando se passa do amor de alguém para a compaixão, o amor universal, só esse é indestrutível,

    mas eu ainda recaio muito na polarização, enfim vai-se treinando e logo se vê

  3. É pá. Já expliquei que a ordem não tem nada a ver com os números. Como tudo na vida é aleatória. Como tenho textos prontos a publicar vou avançando com eles mas não ligues aos números, liga se puderes ao conteúdo. O resto é conversa da treta. OK?

  4. Fiz a guerra em Moçambique e, no Norte, também havia um chefe de posto que por ali ficou, mesmo depois de a população ter fugido toda.
    Ele, nós, e um putativo cunhado seu , que a mulher, dizia ele, tinha-a posto a bom recato, em Nampula, mais segura das balas, mais exposta a outros ataques, tenho eu a certeza.
    Num dia qualquer de festa ou de fome, já não sei bem, comemos-lhe o último cabrito e só depois é que comecámos a matar nos corvos que pousavam nas árvores do seu posto administrativo primeiro para os afugentar, que dão agoiro, depois para os cozinhar que a fome tamém é negra e os gajos estavam gordos que nem galinhas do mato.
    É um pouco por isso que as minhas memórias de guerra se hão-de chamar ” Os Corvos do Unango e Seis Aerogramas de Amor” mas não mato o chefe de posto, coitado dele.
    Obrigado
    Jnascimento

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.