Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Um livro por semana 52

«O calcanhar d´Aquiles» de Rafael Bordalo Pinheiro

Tem data de 1870 a 1ª edição deste álbum de caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro que, como refere Manuel de Sousa Pinto em 1915, representa o primeiro documento notável da caricatura portuguesa num tempo em que esta forma de arte era ainda em Portugal «raquítica e balbuciante». Tudo terá começado nas páginas do jornal «Revolução de Setembro» com a publicação de quatro sonetos mostrando o calcanhar de Aquiles de várias figuras das letras daquele tempo: Luís de Campos, Ramalho Ortigão, Manuel Roussado e Eduardo Vidal. Clemente dos Santos convidou Rafael Bordalo Pinheiro a conceber desenhos capazes de «pôr em evidência a parte vulnerável ou grotesca de cada cidadão caricaturado». É assim que surgem (entre outros) as figuras de Manuel de Arriaga, João de Deus, Alexandre Herculano, Mendes Leal, Pinheiro Chagas, Júlio César Machado, Bulhão Pato, Camilo Castelo Branco e António Feliciano de Castilho. Além de repetir o álbum de 1870 esta edição actual inclui vários desenhos preparatórios e esboços que estão no Museu de Rafael Bordalo Pinheiro. Como afirma Teixeira de Vasconcelos toda a caricatura tem uma filosofia: quando Pinheiro Chagas aparece travestido de Morgadinha de Valflor recebendo apenas coroas de flores enquanto o empresário recebe muito dinheiro, está indicada na caricatura a mesquinha proporção entre o modesto prémio dos homens de letras e os lucros avultados dos teatros. Ontem como hoje…

(Editora: Frenesi, Paginação: Paulo da Costa Domingos, Assistência editorial: Telma Rodrigues)

Vinte Linhas 295

O «pão-por-Deus» num dia de sol na Ericeira

Pois é, Marta. Ainda há terras portuguesas onde a tradição não se perdeu. No meu tempo de criança ia, quase sempre debaixo de chuva, com um saquinho de pano, pedir o «pão-por-Deus» a todas as casas da sede de freguesia entre os dois Paços que são pequenas capelas a marcar o fim da terra. Já nesse tempo toda a regra tinha excepção: do lado de cá íamos longe até à casa da tia Laura que tinha para nós as melhores nozes e do lado de lá íamos sempre à casa do tio Zé Ivo que tinha as melhores batatas-doces assadas.

A minha filha mais velha ainda andou no «pão-por-Deus», na minha terra tinha ela quatro anos. Aqui na Ericeira gostei de ver os miúdos mais pequeninos a entrarem nas lojas e nos cafés a pedirem «pão-por-Deus». Até a Junta de Freguesia colocou um empregado a oferecer bolachas e chocolates aos pequeninos no largo do Jogo da Bola. A mim, no T Zero, apareceram três miúdos tinha eu chegado há minutos e felizmente tinha nozes na mesa da cozinha. Lá me desenrasquei com o «pão-por-Deus». Nem tudo é igual. Aqui na Ericeira os miúdos pedem no dia 1 nas terras à volta e no dia 2 dentro da terra. Foi por serem tantos que o carro da Junta de Freguesia teve que ir buscar «reforços». Nada que uma chamada de telemóvel não resolva. Num mundo tão hostil onde o habitual é virem sacar o nosso dinheiro para pagar os desvarios dos outros, esta oferta de «pão-por-Deus» surge como um oásis de alegria convocada e reunida por uma tradição. Os olhos das crianças não mentem. E eu fiquei comovido pois até me parecia que o meu neto também andava por aqui, neste grupo que acaba de entrar no café Central a pedir «pão-por-Deus» com um saco meio-cheio de nozes, passas, figos secos e bolos com erva-doce.

Vinte Linhas 294

Os «Narcóticos» de Camilo num banco frente ao mar da Ericeira

Leio o volume II dos «Narcóticos» de Camilo Castelo Branco (Bonecos Rebeldes) no banco de Marta (blog laberintodepapel) frente ao mar da Ericeira. O sol de Outono ilumina as páginas: «O leitor não se assuste. Pelo facto de chamar-se Narcóticos o meu livro, abstenha-se V. Exa. da pretensão egoísta de abrir a boca logo que abrir o livro e estirar-se de papo acima numa regalada modorra cheia de roncos assobiados em cromática infernal pelas trompas nasais. Não pretendo ser mais opiado e calmante que outro qualquer livro nacional. Estimo que adormeçam mas devagar, com os espreguiçamentos usuais nas duas Câmaras e etiquetados com frascos na grande farmácia do Diário das Cortes». Camilo comenta os direitos de autor, discorda de Alexandre Herculano e afirma: «A literatura-mercadoria, a literatura-agiotagem tem na verdade progredido espantosamente». Mais à frente, sobre a poesia, proclama: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». As eleições de 1879 originam esta observação: «O Governo progressista de 1879 fez retroceder a liberdade do sufrágio a 1845, com a diferença que antepôs à violência da paulada o suborno das consciências com mais suaves pressões, exceptuando os dorsos que as sentiram duras». A suspensão do «Boletim da Bibliografia Portuguesa» dirigida por Fernandes Tomás merece a Camilo este reparo: «A suspensão deste periódico é um dos sintomas da podridão que nos vai relaxando e acanalhando a um raso de desprezo das letras que não tem semelhante em parte do Mundo, onde, alguma hora, houvesse livros e civilização».

A Anabela trouxe das Caves de Gaia um Ramos Pinto de lei. Com ele, com as castanhas e os sonhos de abóbora da esplanada de Santa Marta poderíamos fazer um pão-por-Deus. Marta, se não sabes o que é um pão-por-Deus eu explico na próxima crónica.

Vinte Linhas 293

«Mata – um falar peculiar e outras curiosidades» ou uma monografia em 2008

Houve tempos em que as localidades portuguesas aspiravam a ter uma Monografia. José Cardoso Pires fez da Monografia da Gafeira personagem do seu romance «O Delfim». Este livro de Manuel Barata, publicado por Edições Alecrim poderia ser a «Monografia da Mata». Existe na Mata (Castelo Branco) um falar peculiar. Esse é o ponto de partida. Na Mata diz-se acajadar por guardar, apalamado por adoentado, arrezoar por murmurar, assedento por mau-olhado, baldão por desleixado, banquinha por mesa-de-cabeceira ou burra por picota. Seguem-se algumas expressões populares (como sardinha no ar em vez de levar um estalo) e as alcunhas, os ofícios e as profissões do campo. Depois surgem os lagares de azeite, as mercearias, as tabernas, os cafés, as forjas, as oficinas., os sapateiros, os alfaiates, os barbeiros, os talhos, as serrações, os moleiros. Noutro capítulo recorda-se a festa do casamento que incluía o cortejo, os rebuçados, o copo de água e a terrina de sopa para as crianças. Segue-se a memória das casas: «uma porta de entrada e um corredor, no início deste uma porta que dava acesso a uma salinha e esta dava comunicação a dois quartos, um destinado ao casal e o outro aos filhos e/ou às filhas.» Também a memória das festas e procissões, danças e cavalhadas. Por fim os jogos e a culinária, o posto da GNR, a prática religiosa e a difícil sociabilidade dos seus habitantes: «A Mata esteve isolada durante séculos. A construção da actual estrada, que liga a povoação à EN 240 ocorreu já nos anos cinquenta. A anterior ligação era de terra batida. A Castelo Branco ia-se ao médico quando a coisa não passava com os remédios caseiros e rezas ou para tratar de assuntos importantes».

Um livro por semana 53

«Poemas de um livro rasgado» de Fernando Botto Semedo

Depois de «Transparências» em 2006 e «Poemas simples» em 2007, Fernando Botto Semedo surge com este «Poemas de um livro rasgado». Uma vez mais a busca da infância: «Poemas escritos por abismos sem fim / na minha alma, através da luz das minhas / lágrimas, buscando a infância velha». Só que, a juntar às lágrimas do poeta, existem as lágrimas de Deus: «Poemas do meu desgastado rosto / poemas levantando voo pela minha infância / cheia de lágrimas de Deus». Entre o precário da vida e o inevitável da morte, a única resposta é o amor: «A primavera das palavras teria chegado / com o teu rosto de uma inacessível beleza / ó vestal desconhecida que bailas sem corpo / nos confins do meu sangue gasto.» Noutro poema se faz essa visita ao passado («Na minha infância as palavras eram queimadas») para, logo a seguir, um outro poema proclamar o amor: «Ó música que oiço cantando no interior / de um sol íntimo da minha alma emparedada / ó rostos inclinados para o fim – ó meu amor / para sempre alienado no tempo!» Perante um mundo hostil («asfixiando o rosto de um Deus da patinagem artística / da televisão por cabo, entre o ardor dos / anjos do vazio e as lágrimas de todas as crianças») o paraíso perdido do poeta está na infância guardada em molduras de prata: «Via as fotografias coloridas da sua infância / espalhadas por molduras de prata líquida / na casa da alegria fictícia – ó sangue / das lágrimas de uma primavera soterrada / num campo infinito da arqueologia de Deus.»

(Capa: Fernando Botto Semedo, Impressão: Gráfica 2000)

Um livro por semana 54

«A Terceira Atlântida» de Fernanda Durão Ferreira

Este livro começa em 26-7-1880 quando o súbdito britânico Gordon Mason, viajando de Southamptom para o Rio de Janeiro, em escala técnica na Ilha Terceira, assiste a uma tourada na Vila Nova com o imediato do navio «Santa Helena». Depois da tourada o lanche, depois do lanche a conversa e, chegada a noite, o amigo terceirense do imediato do navio emprestou dois cavalos e cedeu um criado para os acompanhar até Angra do Heroísmo. No caminho encontraram dez homens da «Justiça da Noite» que se dedicavam a derrubar um muro e um portão com marretas e cordas. Passado o susto inicial, com a preciosa ajuda do criado, o viajante (e o imediato) seguiram viagem e, já a caminho do Rio de Janeiro, ouviu a bordo um professor de História afirmar: «Esses e outros costumes são quase tão antigos como a própria Ilha. Ilha que há muitos, muitos séculos tinha um outro nome e possuía outra cultura.» As touradas à corda são hoje uma prática igual à que foi descrita por Platão com os dez pastores a serem a memória dos dez reis da Atlântida. A «Justiça da Noite» que funcionou até à segunda metade do século XX é a memória da justiça dos dez reis da Atlântida pois nesse tempo, como escreveu Platão, «o rei não era senhor de condenar à morte sem o assentimento de mais de metade dos dez reis.» O próprio rei D. Afonso V, numa carta de mercê ao cavaleiro Fernão Teles em 10-11-1475, escreve o seguinte: «Faço mercê de quaisquer ilhas que achar, ilhas despovoadas, ilhas povoadas e ilhas povoadas que ao presente não são navegadas nem achadas nem tratadas por meus naturais.» Como se percebe pelas citações, este livro tem muito que se lhe diga sobre as raízes da tradição Atlante nos Açores mas ficamos por aqui lembrando Vitorino Nemésio que escreveu um dia: «A Geografia para nós vale tanto como a História».

(Editora: Zéfiro, Prefácio: José Fonseca e Costa, Grafismo: Sofia Vaz Ribeiro)

Vinte Linhas 292

«A Batalha das Lágrimas» que só agora começou

Pode parecer insólito mas gostaria de sugerir a leitura de uma livro que ainda não acabei de ler. Ainda vou na página 63 mas pareceu-me importante abrir uma excepção. O livro é «A batalha das lágrimas» de Joana Ruas, edição Calendário das Letras. Estou fascinado com este livro. Trata-se de um romance que conta as histórias da História e cujo pano de fundo é a vida em Timor entre 1870 e 1910, em pleno Ultimato britânico. Nesse tempo o governador repetia muitas vezes: «Estou aqui para governar e governar é submeter!».

Um viajante recém-chegado define assim o território: «Timor não tem uma biblioteca, nem um grémio, nem um teatro, nem um bilhar, nem uma orquestra, nem um meio qualquer de distracção do espírito». Resta fazer política: «Fazer política aqui reduz-se a discutir se se é pelo governador ou contar o governador». A diversidade religiosa é complicada: «Há quatro religiões aqui: a animista, a católica, a islâmica e a budista. E há a considerar a pressão do calvinismo a partir do Timor Ocidental».

A autora explica o que entende por povo de Timor: «Esta sociedade incaracterística, sem tradições definidas, invadida e perturbada pela massa de estrangeiros que a explora e abandona, continha muitas raças sem que houvesse um povo».

Poderia chamar-se este livro «O governador e a rainha» mas não. Primeiro esqueceria o papel de João Maurício, o brasileiro que liga habilmente os diversos fios da narrativa. Depois não poderia esquecer que «A batalha das lágrimas» é o nome que ficou para sempre nos relatórios escritos dos militares portugueses e na memória dos habitantes de Timor. O recado está dado: espreitem este livro, amigos e amigas. É um acontecimento…

Um livro por semana 55


«Cal» de José Luís Peixoto

A cal que dá título ao livro pode ser a cal da vida («a casa é caiada ano sim, ano não») ou a cal da morte, a do caixão dos mortos. Vida e morte, amor e ódio, vazio e esperança – são estes os limites das narrativas, dos poemas e da peça de teatro que integram este volume. As crianças correm pelas ruas da vila: «O céu das hortas é maior que o mundo: / a vila apresenta ruas calcetadas para / homens de sapatinho fino, mulheres / sozinhas e cachopos: eh, cachopo de má raça. / Vamos aos figos e passamos a vida: / a vila às vezes é desenhada por esta aragem que é o lápis de um carpinteiro.» Os velhos recusam a velhice («sentia-se tão velha como se tivesse nascido no primeiro dia do mundo») e às vencem conseguem vencer o tempo: «Nem o homem nem Ana tinham um único cabelo branco.» Também recusam a realidade servida pela televisão: «só mostram este homem a falar, bem podiam mostrar uma praia ou um casamento.» Também recusam a solidão e o vazio: «Porque chora vossemecê Ti Carlota? Já não presto para nada. Não diga isso, Ti Carlota, a gente gosta muito de si.» A peça de teatro tem cinco protagonistas, todos com mais de 70 anos. A partir da solidão da aldeia («às vezes até me parece que isto tudo é uma espécie de sonho») chegam à esperança: «Tanto que eu esperei por isto, meu amor bendito. Agora podemos descansar, temos a vida toda à nossa frente.» O autor não precisou de chegar aos 80 anos para entender a sabedoria da vida que interessa, a do amor: «Em natais, festas de aniversário com pão-de-ló ou em casamentos, as mulheres de 80 anos reúnem uma assembleia de afilhadas solteiras e explicam-lhes que a vida é transparente e que o passado, fechado em armários que rangem durante a noite, brilha às vezes, como as pratas dos chocolates que entregam nas mãos das crianças.»

(Editora: Bertrand, Capa: Vera Braga)

Vinte Linhas 291

Jorge Bretão – o sacerdote da liturgia da memória

Os telemóveis não paravam de avisar na quinta-feira cheia de sol: morreu o Jorge Bretão. Assim de repente, esta notícia. Ele, jornalista sem jornal e poeta sem livro publicado, deixava de contar histórias e entrava para a história. Açoriano e Terceirense apaixonado, fez parte de duas das mais curiosas tertúlias de Lisboa. Uma semanal na Sociedade de Geografia e outra mensal com Dulce Matos na Valenciana em Campolide.

Almoçar ou jantar com o Jorge era ter direito a todas as memórias. Ele era um sacerdote que as celebrava com fervor. Podia ser uma viagem a Buenos Aires, uma tourada em Vila Nova, um certo teatro de Viena ou uma ilha de Veneza onde as mulheres ficam a repetir nas rendas o quadrado branco das redes dos pescadores da laguna. Ou podia ser uma procissão, um tremor de terra, um império do Espírito Santo (Glória ao Divino!) ou um grupo de músicos a tocar o pezinho dos bezerros. Ou ainda uma história da Universidade de Coimbra, uma aventura em Cabinda no serviço militar ou a paixão pelo Belenenses, o único clube que tem a Cruz de Cristo no emblema.

Natália Correia escreveu um dia estes versos definitivos: «Nasce-se em Setúbal / Nasce-se em Pequim / Eu sou dos Açores / Mas não é assim / A gente só nasce / Quando somos nós / que temos as dores». Se é assim para a vida, talvez para a morte seja a mesma coisa. Assim, por exemplo: «A gente só morre / quando são os outros / que nos esquecem».

Se morreu o poeta sem livro e o jornalista sem jornal, o amigo não morre e continua na memória activa dos seus companheiros. Todas as segundas-feiras e nas últimas quartas-feiras de cada mês, na mesa do encontro, altar pequeno onde se celebra a memória.

Um livro por semana 56

«Se me comovesse o amor» de Francisco José Viegas

Neste décimo livro de poemas, Francisco José Viegas (Foz Côa, 1962) retoma a melancolia e as viagens. Não apenas as viagens na geografia (Buenos Aires, Paris, Israel, Frankfurt, Antuérpia, Caracas) mas também a viagem que toda a vida acaba por ser: «Se me comovesse o amor como me comove / a morte dos que amei, eu viveria feliz.» A morte está sempre presente. Seja de uma tia («Ela despedia-se da vida, era a Páscoa. Melhor: as urzes / floridas ainda, sobrevivendo – um vento, as matérias / do medo, colinas de pinheiros, alegorias, orações») seja de um amigo: «São as mais estranhas árvores, as que descem até às raízes; / pela última vez se visitam, antes que venha uma nuvem / ou que os animais te despertem a meio da noite.» O poema responde a uma pergunta: «Os pais dos teus pais, os filhos dos teus filhos / é isto uma família? O que separa o futuro daquele lugar / onde os teus mortos repousam? Avós adormeceram, / abandonados em campas coberta de terra e xisto». Mas também discute a sua própria natureza: «Alguém lê o que escreves, triste consolação / pálida alegria caindo sobre a tarde das coisas. / Cada palavra é um resumo – e, em cada palavra, quanto deixas de teu?» Entre a fragilidade do amor e a certeza da morte, a literatura pode ser uma salvação: «Séculos de literatura fizeram de nós apenas isso / passageiros obedientes, leitores compulsivos / geógrafos errantes que desconhecem os nomes / entre as montanhas, o que fica no meio das árvores. / Não vale muito. A vida interrompe as páginas dos livros / como entende, transporta nuvens espessas / ignora os pardais nas margens dos bosques.»

(Editora: Quasi – Famalicão, Foto: Steve Woods)

Vinte Linhas 290

A Algéria da «Visão» ou «os computadores já fazem esse trabalho…»

Quando há alguns anos os revisores começaram a ser dispensados pelas administrações dos jornais, ficou célebre um engenheiro que explicou: «Não é preciso revisor. Os computadores já fazem esse trabalho…»

A página 73 da Revista «Visão» desta semana apresenta um trabalho jornalístico assinado por Clara Teixeira e João Paulo Vieira o qual, numa caixa intitulada «Onde está o dinheiro», se refere à Argélia como se fosse Algéria. Claro que todos sabemos que em França se diz e se escreve Algerie e que os nosso simpáticos emigrantes dizem os algerianos tal como dizem (por lapso mais que óbvio) os romanos em vez de os romenos. É tudo uma questão de som.

Fazem lembrar um daqueles emigrantes portugueses do princípio (anos cinquenta) quando chegou de férias à sua terra e disse aos primos como era a França: «Oh Primo! Trabalha-se muito, ganha-se bem mas vai quase tudo para as ampolas». Só muitos anos depois é que a malta da aldeia descobriu que ele queria dizer impostos mas julgava que era só dar um arzinho português – ouvia dizer les ampô dizia as ampolas.

O engenheiro não tem razão nem nunca vai ter razão. Os computadores poderão ter programas para corrigir erros de ortografia no Word mas só o espírito e a vivacidade de um ser humano atento pode descobrir um problema de sentido. Algéria não faz sentido naquele texto porque a palavra portuguesa é Argélia. A capital é Argel e não Alger como dizem os franceses. Aqui não era um erro de ortografia. Era algo mais. Algo que não cabe em nenhum computador nem na cabeça de nenhum engenheiro administrador de jornais.

Vinte Linhas 289

Postal da Ericeira para Marta em Madrid

Está um sol esplendoroso e quente, aqui na Ericeira. Em Lisboa chove e em Sete Rios caiu uma tromba de água. Do limite da esplanada vejo o teu banco. Passou a ser designado como o teu banco quando o descobri no teu Blog. Continua a chover em Lisboa segundo me informam os telemóveis em cima da mesa. O empregado brasileiro serve-me um carioca de limão e continua a achar graça às palavras do preçário. Tal como eu, na revisão de um livro para diabéticos, achei graça a um bolo brasileiro que se chama «pé de moleque». Tal como duas italianas acharam insólito ouvir dizer em voz alta no bar da Faculdade de Arquitectura da Universidade Lusíada na Junqueira esta frase: «Duas italianas para este senhor!»

Está um sol esplendoroso e quente. Também pelo inesperado sol de Outubro, as crianças encheram o parque infantil de Santa Marta. Ao lado o carro do Noddy continua a atrair os mais pequenos e as moedas não páram de cair. Um eléctrico pequenino tem nas bandeiras um destino curioso que eles ainda não percebem. Neverland. Terra do Nunca. Talvez seja esta mesa de esplanada onde tento juntar a imagem do teu banco, o sol que faz do mar um imenso espelho e as gaivotas que atravessam a esplanada para virem descansar no lugar onde ficavam as antigas balizas do hóquei em patins. A âncora deitada que separa o teu banco das rochas, onde um grupo de idosos apanha sol e iodo, forma um gigantesco travessão. As gaivotas não páram e vão espreitar de novo a luz branca das ondas contras as rochas. Parecem vírgulas inesperadas e sonoras na organização das linhas deste postal da Ericeira para ti. O travessão da âncora, a vírgula das gaivotas, o banco à tua espera.

Um livro por semana 57

«Os Narcóticos» (volume 1) de Camilo Castelo Branco

A partir de dois livros de Fernando Palha editados em 1882, Camilo Castelo Branco revisita alguns episódios da História de Portugal. O título «Narcóticos» tem a ver com as tentativas de envenenamento de D. João II, diversas desde 1491 até à morte. Camilo recorda o rei («homicida traiçoeiro, implacável destruidor dos seus parentes, o primeiro que em Portugal queimou hebreus expulsos de Castela, promotor do extermínio de oitenta vítimas ilustres, a veneno e a punhal»), não se mostra surpreendido pela incorrupção do seu cadáver («faltava a ponta do nariz o que não quer dizer nada em matéria de santidade») e avança com uma explicação: «emprega-se o sublimado corrosivo e o cloreto de zinco para embalsamar cadáveres humanos por possuírem essas substâncias as propriedades conservadoras do arsénico.» Camilo aproxima a actualidade europeia (1882) ao passado português (1536) no que respeita ao problema judaico: «O mesmo era matar judeus não processados, como em tempo de D. João II, ou desterrá-los roubados nos bens e nos filhos como em tempo de D. Manuel, ou rebanhá-los em massa e lavá-los daí processionalmente aos suplícios públicos das praças.» Completam o volume a novela «O senhor ministro» e os textos «A viúva do poeta Ovídio», «Silva Pinto e a sua obra», «Ideias de D. João VI» e «Camões e os sapateiros» Na novela, Amália ouve do tio padre esta frase sobre os sonhos de literato do seu herói: «os melhores poetas de Portugal mendigaram mas os que eram pobres tiveram o bom juízo de não casarem – Camões, Bocage, Tolentino, etc.»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Vinte Linhas 288

Marcelo Rebelo de Sousa está comigo nos «atirados ao chão»!

Na aeronave «Luís de Camões» da TAP num voo recente Lisboa-Paris lembrei-me do «Aspirinab». Muito. É fácil perceber porquê. Foi-me oferecido o jornal semanário «Sol» que na sua edição de 4-10-2008 publica um texto de Marcelo Rebelo de Sousa na página 55 no qual o «professor» explica a sua versão dos «levantados» e «atirados» ao chão: «Saramago – Mas há coisas que não entendo. Como pôde mudar em edição posterior a dedicatória feita numa primeira edição. É como apagar alguém de uma fotografia antiga!» Para mim foi muito reconfortante ver que o professor Martelo dos bonecos e o professor da Faculdade de Direito (Marcelo Rebelo de Sousa) concorda comigo na tese de que aquela dedicatória àquelas pessoas do Lavre nunca podia ter sido apagada – com espanhola ou sem espanhola. Porque contém no seu articulado a génese da sua impossível desaparição. Quando eu escrevi que o Nobel tinha feito o mesmo que os fotógrafos de Estaline houve mosquitos por cordas mas a verdade é que o professor Marcelo Rebelo de Sousa lembra os processos de Estaline ao referir expressamente «apagar alguém de uma fotografia antiga». Valeu a pena esperar. Quando reproduzi parcialmente uma carta de um dos «atirados» ao chão houve um comentador do «aspirinab» que viu uma coisa que não estava lá. Quando o senhor em causa afirma «também eu reparei» isso significa que além de mim e de muitas outras pessoas (nomeadamente familiares das pessoas que contaram ao autor as histórias do livro) ele também já tinha reparado. Mas não – o comentador viu nisso o contrário; que ele não teria reparado se eu não lhe tivesse escrito. Mentira. Agora com o Marcelo Rebelo de Sousa é caso para dizer que valeu a pena…

Vinte Linhas 287

A francesinha torceu o pé no domingo de manhã

Num destes domingos de sol inesperado nos arredores de Paris, a francesinha torceu o pé. Bastou perceber que o pai (português) estava a bater à porta do quintal com os tios de Lisboa para, alvoroçada pela surpresa, surpreendida pela ousadia do pai, ter torcido o pé. Afinal o pai (português) estava só a mostrar uma parte dos arredores de Paris onde vive a canalha de Sarkosy (marroquinos, senegaleses, tunisinos, argelinos) e, como estava muito perto, foi mostrar a pequena moradia da filha aos tios de Lisboa.

Há trinta anos a avó da francesinha ficou muito surpreendida quando o pai (português) recusou de modo firme a hipótese (para ela óbvia) de passar a ser cidadão francês. Ele, cidadão de um país com fronteiras definidas muito antes da França que, ao tempo, era apenas um amontoado de ducados e condados. Mas para ela não era o genro nem o pai dos seus netos; era o estrangeiro. Há quinze anos a mãe da francesinha acusou o pai (português) de estar a assediar uns pequenos ladrões de bicicletas vizinhos quando ele apenas tentava recuperar as três bicicletas que os pequenos ladrões tinham roubado aos seus três filhos. Mas para ela não era o marido nem o pai dos seus filhos; era o estrangeiro. Neste domingo a francesinha torceu o pé porque se surpreendeu e alvoroçou num domingo de manhã cheio de sol ao ver o pai com os tios de Lisboa a bater ao ferrolho da porta do quintal. Mas para ela não era o pai, aquele em cuja casa os seus filhos ficam todos os dias; era o estrangeiro.

A ligadura que envolve todas estas pequenas histórias tem um nome (chauvinismo) e uma raiz comum: a maldade humana que, como sabemos, é infinita.

Um livro por semana 58

«A história da PIDE» de Irene Flunser Pimentel

Este trabalho é dedicado a Maria Ângela Vidal e Campos e Maria Fernanda de Paiva Tomás, as duas mulheres que, durante mais tempo permaneceram presas pela polícia política. A PIDE foi criada em 1945 no seguimento da actividade da PVDE (fundada em 1933) e deu origem em 1969 à DGS – três nomes para uma mesma sinistra tarefa: destruir a oposição organizada contra o Estado Novo. Este trabalho de 575 páginas desvenda o que foi a PIDE, a sua estrutura e os seus métodos: vigilância, captura, interrogatório, investigação e instrução de processos. Vejamos em breve nota o que no livro consta sobre o Padre Felicidade Alves: «Em 1965 a PIDE informou Salazar de que, na sua homilia proferida na Igreja dos Jerónimos, em 17 de Janeiro, o reverendo José Felicidade Alves defendera a teoria evolucionista, terminando com uma crítica às relações entre o Estado e a Igreja em Portugal. Disse ainda a PIDE que tinha sido feita a gravação integral desta homilia, prometendo que continuaria a gravar as missas desse sacerdote. Diferentemente do caso do bispo do Porto, em que Salazar se envolveu directamente mas em que o papel ambíguo de Cerejeira foi sobretudo de silêncio, o caso do padre Felicidade Alves teve a intervenção deste último, que acabou por emitir sobre ele o decreto de remoção e de suspensão a divinis das funções sacerdotais. No entanto o padre Felicidade Alves contou mais tarde que apenas começou a ser alvo da repressão da PIDE/DGS durante o governo de Marcelo Caetano.»

(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo)

Vinte Linhas 286

Amália Rodrigues – saiu a 1ª das fotobiografias do século XX

Para quem esteve no serviço militar no fim dos anos 60, Amália Rodrigues (1920-1999) ficou nesse tempo conhecida por dois factos: o disco «Natal 1970» do Movimento Nacional Feminino no qual aparece ao lado dos Parodiantes de Lisboa (Patilhas e Ventoinha) e de Cecília Supico Pinto a dizer que «gostava de descascar batatas» para os nossos soldados em África e os célebres versos que mandou com um ramo de flores a Salazar quando este caiu da cadeira em 1968 – «Ponha-se-me bom depressa / Meu querido presidente / Depressa, que essa cabeça / Não merece estar doente».

Mas existe um outro lado da questão: segundo um informador da PVDE, Amália em 1939 fazia parte de uma denominada Organização Comunista do Fado na qual «a cantadeira Amália Rodrigues que fala inglês francês e espanhol, é quem, no Retiro da Severa, fala aos estrangeiros». Segundo esse relatório «Amália e o embarcadiço poliglota Alfredo Simões» desempenhariam um papel importante «pela sua cultura de línguas» …

Além do texto que revisita e situa historicamente várias biografias anteriores, algumas fotografias raras e mesmo inéditas (entre as quais uma de Amália com quinze anos na Marcha de Alcântara ao lado de sua irmã Celeste no ano de 1935) dão a este livro um novo motivo de grande interesse quando parecia que tudo afinal já estava dito e escrito sobre o tema Amália Rodrigues.

(Edição: Círculo de Leitores, Texto: Cristina Faria, Pesquisa: Margarida Belém, Genealogia: Lourenço Matos, Design: Rochinha Diogo, Direcção: Joaquim Vieira)

O Nobel que se Clézio, que o PEN é que está a dar

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O Daniel Jonas acaba de ganhar o prémio literário do PEN Clube na categoria de poesia (ex-aequo com Segredos do Reino Animal de Helder Moura Pereira) pelo magnífico Sonótono (Cotovia, 2007). A efemeridade é particularmente importante porque estamos a falar de um livro que foi profundamente ignorado ou incompreendido por uma crítica que, salvas algumas honrosas excepções, vive do compadrio, da preguiça e de obsessões pseudo-elitistas e mereológico-geracionais. Que o prémio sirva pelo menos para atrair mais leitores à obra profundamente original do Daniel e que consiga sacar ainda hoje da net o terceiro CD do Tell Tale Signs, o oitavo volume das Bootleg Sessions do Dylan, são os meus mais profundos desejos para o que resta deste tão surpreendente ano. Parabéns, Daniel: já podes deixar de lado a tua carreira gastronómica.

Um livro por semana 60

«Portugal no Mercure de France» de Philéas Lebesgue

Com tradução e coordenação de Madalena Carretero Cruz e Liberto Cruz, este volume de 707 páginas regista as intervenções do grande lusófilo Philéas Lebesgue que, entre 1896 e 1951, escreveu na revista Mercure de France sobre livros e autores portugueses. A revista incluía rubricas tão diversas como História, Arqueologia, Literatura, Museus, Questões Coloniais, Militares e Marítimas, Medicina, Teatro e Viagens. Philéas Lebesgue, que colaborou com mais de 1.600 artigos em 232 revistas europeias, tinha um conhecimento profundo da nossa literatura e podia garantir: «Uma literatura que possui mestres do estilo e do pensamento como Raul Brandão e Teixeira Gomes, romancistas jovens e vigorosos do valor de Aquilino Ribeiro, ensaístas e filósofos como António Sérgio e Raul Proença, historiadores como Jaime Cortesão, pode marchar de par com não importa qualquer outra no mundo.» Conhecia também o Povo e podia afirmar que «Se Portugal pôde ficar um povo culto, mau grado o número considerável de iletrados, deve-o ao seu admirável folclore lírico sobre o qual os novos poetas quiseram enxertar a sua inspiração.» No regicídio de Fevereiro de 1908 escreveu: «Portugal é tão pequeno, tão à parte, que não nos convencemos das repercussões europeias accionadas pelas suas próprias convulsões.» Fiquemos por fim com a sua ideia de saudade: «A saudade portuguesa é ao mesmo tempo desejo e recordação, aspiração e queixume. Está tão voltada para o passado como para o futuro.»

(Edição: Roma Editora, prefácio: Jean-Michel Massa, Capa: Albuquerque & Bate)

Vinte Linhas 285

«Uma memória de Pereiros» de Joaquim do Nascimento

São 14 crónicas de revisitação («Nasci nos Pereiros e ali vivi até aos doze anos») e daí o subtítulo – «Quotidianos de uma aldeia do Alto Douro – 1930-1980». A geografia sentimental é vasta: «A fonte da aldeia, a azenha ou lagar do azeite e o forno, tal como a igreja, as capelas, o cemitério, as tabernas, ou sotos quando vendiam tecidos, a escola do Combro e as salas de aula que precederam esta, se alguém ainda as conseguir identificar, os velhos caminhos, o rio e os seus açudes e pontes, o moinho da tia Elisa, a caminho de Valongo mas ainda do lado de cá do rio, tudo isto constitui a memória colectiva do povo dos Pereiros». Tudo começa na paisagem («As árvores da minha terra são os sobreiros, embora uma ou outra oliveira de tronco carcomido pelos anos possa figurar em segundo lugar») e acaba no povoamento: «Nos Pereiros, ao pedreiro, ao carpinteiro, ao ferreiro, ao ferrador, ao sapateiro chamava-se artista». Fiquemos pela crónica sobre a carreira: «Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias e nos ligava pela EN 222 à Vila, ao Comboio e ao Mundo. A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava todas as manhãs, pelas oito e trinta minutos a caminho do Pinhão e regressava às quatro e meia da tarde. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira constituía a actividade social mais importante da gente da Vila e não vestir a melhor roupa para solenizar esse momento podia desqualificar um cidadão. Nesse curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas, comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras, bisbilhotando quem tinha chegado e imaginando o destino de quem seguia, assim alimentando o seu imaginário de moradores desta pequena Vila do interior, onde nada se passava desde os tempos do senhor Marquês de Pombal e da criação da Real Companhia Velha».

(Editora: Padrões Culturais, Capa: Mário Andrade, Apoio: Associação Amigos de Pereiros)