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Um livro por semana 87

«Breve tratado das artes da cópula» de Al-Sayed Al-Makhzoumi

Natural do Iémen, o autor foi um médico que tratou tanto homens como mulheres de Espanha até ao Noroeste da Índia, de Samarcanda até os países da Arábia e ao seu país natal. Dessa experiência de 65 anos de actividade clínica nasceu em 1725 o manuscrito deste actual clássico do erotismo. Vejamos um excerto sobre o beijo: «Na troca de carícias entre o homem e a mulher não há nada mais doce do que beijarem-se nos lábios e na boca. Os lábios e a boca dos homens e das mulheres são muito sensíveis ao toque entre ambos e muito prazer e excitação serão colhidos se isso for feito com bastante sofisticação e habilidade. As mulheres parecem ter bocas muito mais sensíveis do que os homens e retiram muito mais prazer do beijo. Isso pode explicar porque é que as mulheres gostam de demorar-se no beijo sem qualquer desejo aparente de cópula a não ser passado algum tempo depois, enquanto os homens tentam rapidamente e sentem um desejo urgente de copular após alguns poucos beijos preliminares. Realmente o beijo não os satisfaz no mesmo grau mas incentiva-os a outros desejos mais urgentes. As virgens, em especial, retiram do beijo toda a satisfação por que anseiam, pois nenhuma outra parte do corpo é estimulada. Contudo uma mulher experiente deseja ardentemente a cópula depois de estar satisfeita com os beijos. O beijo (Al Qqlab) começa com o toque entre os lábios do homem e da mulher. Os seus narizes devem encaixar-se perfeitamente de modo que os lábios se sobreponham em todo o seu comprimento. É altura de darem início aos movimentos dos lábios do homem sobre os da mulher e uma pequena quantidade de saliva pode ser passada pela língua dele para humedecer o contacto entre os lábios, que ficarão mais sensíveis, convertendo esse contacto num momento de maior prazer.»

(Editora: Padrões Culturais, Tradução: Carlos Adalto Souza, Capa: Mário Andrade, Prefácio: Isabel Afonso)

Vinte Linhas 284

Dinis Machado – «Sou do Sporting porque apertei a mão ao Jesus Correia!»

Neste dia triste da morte (civil) do escritor Dinis Machado gostaria de o lembrar não pelos livros mas por uma história povoada de ternura que ele me contou há muitos anos quando fomos à Escola Veiga Beirão falar de livros. Nascido no Beco do Carrasco, o Dinis fez a escola primária na Rua da Rosa e andou sempre aqui pelo Bairro Alto. Seu pai, o senhor Oliveira Machado, dono do restaurante «Farta Brutos», ex-árbitro de futebol e jornalista desportivo, levou o Dinis um dia à rua Jardim do Regedor para lhe mostrar a sala de taças do Sport Lisboa e Benfica. No fim da visita guiada o pai convidou o filho a inscrever-se como sócio do Benfica mas ele respondeu: «Pai, sou do Sporting porque apertei a mão ao Jesus Correia!» O porteiro teve uma frase definitiva: «Não há nada a fazer senhor Machado. Não nasceu para ser do Benfica, vai ser leão toda a vida!»

Nesse tempo não havia empresários nem sociedades anónimas desportivas, havia relatos da rádio, jornais desportivos três vezes por semana, rebuçados com bonecos da bola para fazer colecção. Havia menos fotografias mas mais tempo para as paixões. As emoções com as escolhas do nosso clube, essas são para toda a vida e até para além da vida. Morreu o Jesus Correia que apertou a mão ao Dinis Machado, morre o Dinis Machado que me chamava «poeta Lacerda» quando me telefonava para por a escrita em dia. Um dia fiz anos e ele ofereceu-me um soneto dos muitos que escreveu, sabia de cor mas nunca publicou. Eu queria oferecer-lhe um soneto em resposta mas já não vou a tempo. Eu, o «poeta Lacerda», alcunha que nunca saberei como nasceu no imenso sentido de humor do inesquecível Dinis Machado.

Um livro por semana 61

«Lisboa na rua» de Júlio César Machado

Além do clássico «Lisboa na rua» este volume inclui um divertido apêndice intitulado «O que havia de poetas por aquela época, é coisa incalculável» que conclui deste modo: «O destempero, a pieguice, a lamúria, produziram um efeito tão agradável que a chochice rimada tomou o lugar ao juízo, à arte e à moral.» «Lisboa na rua» é, como o título indica, uma radiografia feita de modo certeiro pelo nosso querido Machado: «Os rapazes finos de hoje passam dias sem ver o pai nem a mãe; ao princípio habituam as irmãs a ajudá-los a mentir, mais tarde nem isso. Os irmãos emprestam-se mutuamente dinheiro a juros; os pais especulam com as filhas em casamentos de perfeita lotaria social; as filhas habituam-se a enganá-los, vendo que eles as enganam e assim chegam mais facilmente a enganar os maridos. Tem tomado tudo uns jeitos de patuscada e de aventura. Não se vê por todos os lados senão um luxo frágil, egoísta, viajeiro.» A literatura do tempo (1874) também não escapa: «É raro por aí o rapazito literato que não seja condecorado com a Ordem de S. Tiago – e Camilo Castelo Branco não tem a Ordem de S. Tiago. Não são menos lidos os seus livros nem o seu nome é menos considerado. Talvez ele faça falta a S. Tiago mas S. Tiago de certeza não lhe faz falta a ele.» Nascido no Oeste, o autor escreve sobre Lisboa e a Província: «O rapaz de Lisboa saiu do colégio e não pensa senão em ter cavalos, beber muito, fazer desordens e ser ilustre no Chiado; o da Província ao ficar senhor de bens, trata logo de ver quais são os deveres que a sua riqueza lhe impõe. É acanhado mas por baixo do acanhamento há força, essa força é a superioridade da Província sobre Lisboa.»

(Editora: Frenesi, Ilustrações: Manuel Macedo, Assistência editorial: Telma Rodrigues)

Vinte Linhas 283

EUA – Lobo Antunes, Gregory Rabassa e o esplendor da ignorância

António Lobo Antunes esteve no Ateneu de Boston a conversar com o seu tradutor sobre «Que fazer quando tudo arde?» – «What can I do when everything´s on fire?» na versão americana. Instado sobre «que americanos lerão este livro» por João Céu e Silva, o tradutor Gregory Rabassa respondeu: «Os inteligentes sim, porque é difícil no estilo, nas ideias e no tema e os livros que se vendem cá são de quarta categoria. Os bons escritores estrangeiros raramente têm boa fama nos EUA.»

Agora que estamos a ferro e fogo com as eleições americanas vale a pena recordar as palavras de Jorge Luís Borges quando em 1978, recém regressado dos EUA, falou aos jornalistas em Buenos Aires: «Quase não se lê nos Estados Unidos. Aqui entra-se numa livraria e acham-se livros publicados há vinte, cinquenta anos. Lá, nos Estados Unidos os livros são, de facto, periódicos. Um best-seller é um livro do qual lá se vendem milhões de exemplares, porém ninguém o leva a sério, nem pressupõe que seja bom. Depois há o assunto da pornografia, os filmes pornográficos, a televisão. Aqui temos o hábito da biblioteca. Nos estados Unidos já não existe esse hábito. Fala-se de um livro de quatro anos atrás e ninguém se lembra dele…Falei com um senhor que ensinava História de Espanha; isto passou-se na Universidade de Michigan. Ele tinha chegado ao período das invasões napoleónicas. E naturalmente falou de Báilen, Wellington, o «dois de Maio», Saragoza, etc. Contudo ele notava no diálogo com os alunos que algo não ia bem. Perguntou-lhes o que se passava e responderam-lhe que ele estava a mencionar um nome que eles não podiam identificar. Esse nome era o de Napoleão.»

Um livro por semana 82

«Estórias de coisas» de José-Alberto Marques

José-Alberto Marques (Torres Novas, 1939) foi, a par de Mário Cesariny, Herberto Hélder e Natália Correia, um dos poetas revelados pela Contraponto. Este seu livro de 1971 foi apreendido pela PIDE. Deve ter sido pelo poema: Os presos «os presos penso eu que um chefe de cadeia divide / os presos em várias categorias: a) assassinos; b) ladrões; c) burlões; d) políticos; e) .. f).. g).. / não gosto de cadeias. já uma vez estive preso por / recitar poemas à noite e foi curioso porque / 6 meses antes eu era o delegado do procurador da / república interinamente e os guardas conheciam-me / muito bem. paguei 500$00 fui com o Rodrigues / não tenho a certeza mas creio que o chefe não / inutilizou os selos todos / não gostava de ser preso outra vez / já não recito poemas à noite / agora vou fazer um pedido aos nosso governantes: / acabem com os presos da alínea d)». Pode ter sido por As cidades: «as cidades conhecem-se pelo mercado / se os faxinas compram arroz / o tenente e o capitão estiveram na Índia e em Timor». Ou então Os polícias: «os polícias são assim homens com uma farda e não são militares / estão sempre à esquina e sempre longe dos acontecimentos / a propósito ontem soube /que ganhavam à volta de 2000$00 / e têm família quase todos». Há um registo lírico em As chuvas: «a chuva digamos que é água lágrimas brancas») ou em As árvores («um dia eu disse: as árvores são mulheres vestidas de ramos / ou disse: as mulheres são árvores coberta de cabelos») ou As janelas: «as janelas abertas são muito importantes / a gente vê passar as procissões, os carros / tenho recordações de janelas que só eu sei / as janelas fazem-me lembrar olhos e traições».

Esta edição coloca ao dispor dos leitores actuais um livro proibido em 1971 com, segundo ao autor do posfácio, «uma das mais altas realizações da lírica do nosso tempo.»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Posfácio: Zetho Cunha Gonçalves)

Um livro por semana 80

«Uma extensa mancha de sonhos» de Graça Pires

O título deste livro de poemas é uma homenagem a «El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha», a obra-prima de Cervantes. Graça Pires, vinte anos depois de ter recebido com «Poemas» o Prémio Revelação de Poesia da A.P.E., ergue do silêncio o desenho da voz de Dulcineia, a heroína do romance de Cervantes.

Começa a voz nas bocas do Mundo: «quase um peregrino / quase um nómada / quase um louco / Um homem deambulando / no rumo dos animais bravios / que povoavam sua mente. / Uma vasta mancha de sonhos / me perturbou para sempre».

Continua a voz no encontro impossível: «Foi secreto e breve o nosso encontro / Nenhum registo o mencionou / Vieste, lembro / como quem vem por uma noite: / ansioso e clandestino».

Conclui a voz na morte de D. Quixote: «Numa aldeia da Mancha / um homem recuperou a razão / e começou a morrer».

O gentil-homem camponês só morre quando o abade e o barbeiro queimam os seus livros de aventuras de cavalaria – o mesmo é dizer, a sua «extensa mancha de sonhos», que é, não por acaso, o título deste excelente livro de poemas.

(Editora: Labirinto, Capa: estúdio gráfico da Editora)

Um livro por semana 83

«Primeira antologia de micro-ficção portuguesa» de Rui Costa e André Sebastião

Como refere Henrique Fialho no prefácio «sob a capa de poema, poema em prosa, aforismo ou o que quer que seja, a micro-narrativa vai marcando presença na literatura portuguesa». Esta antologia inclui textos de 22 autores, alguns no registo do humor como Fernando Gomes: «Gostava de tinto e bebia verde. Adorava Cesário Verde e lia Guimarães Rosa. Apaixonou-se por Rosa e casou com Violeta. O daltonismo tem destas coisas. Até jura que tem sangue azul.» Ou então Rafael Miranda: «Os taxistas perguntam sempre se não tenho mais pequeno; as mulheres se não tenho maior.» Henrique Fialho tem uma história sobre jornais: «O jornalista barricou-se na primeira página do jornal onde trabalhava. Não queria nada para si, reivindicava apenas um pouco de jornalismo na capa.» Rui Almeida tem uma história sobre livros: «A colectânea de contos de Natal encontrava-se em excelente estado, o que era pouco habitual naquela banca de alfarrabista com livros a um euro (…) Ao fim da tarde, no autocarro, a caminho de casa tirou a colectânea da pasta, afagou a capa com estrelas em relevo, consultou o índice e logo constatou que as seis folhas relativas ao conto do escritor que tanto estimava haviam sido cuidadosamente retiradas.» Um dos mais insólitos é «Azul» de Rute Mota: «Quando sai, de manhã, ele fica a dormir. Ao fim da tarde, não é raro encontrá-lo a um canto do sofá, a cama ainda por fazer. Com as amigas mostrava-se de um indecoro insinuante, roçando a inconveniência. Com os amigos, tornava-se uma presença castradora, corpo de silêncio ou de insónia, subindo de debaixo do sofá ou da cama. Enquanto ela se lava, toda a atenção dele se concentra no fascínio do jorro tombando, no nível da água subindo. Ele sabe: só depois ela lhe servirá o prato e lhe poderá tocar o pulso com a humidade do focinho. (Num gato diz-se azul a cor que em tudo o resto se diz cinzenta)»

(Editora: Exodus, Prefácio: Henrique Fialho)

Vinte Linhas 282

Jacinto Baptista e António Valdemar também estão no falso centenário

Quando alguns comentadores tentam aqui no Blog vender a ideia de que o falso centenário do Sport Lisboa e Benfica é um assunto «menor» vem a propósito recordar o livro «Repórteres e reportagens de primeira página» de Jacinto Baptista e António Valdemar. Este trabalho, patrocinado pelo «Conselho de Imprensa», divide-se em dois volumes: 1901-1910 e 1910-1926. Na página 41 lá aparece «O primeiro Sporting-Benfica em 1907» e, pasme-se! dois reputados especialistas em História, dois homens que muito admiro (o primeiro com quem aprendi em 1978 tudo o que sei sobre jornalismo cultural e o segundo, felizmente ainda vivo, com quem muito aprendi sobre História da Arte) estes dois brilhantes jornalistas «emendaram» as fontes acrescentando um parêntesis recto (!) e as palavras «e Benfica» ao texto dos jornais «Diário de Notícias» e «O Século» do dia 2 de Dezembro de 1907. Na página 41 lá está a citação: «Realizaram-se ontem, no campo do Carcavelos, os desafios entre o Sporting Club de Portugal e o Sport Lisboa [e Benfica] e entre o Clube Internacional de Foot-ball e o Carcavelos Clube». Todos sabemos que não se emendam fontes em citação. As fontes são o que são; se a notícia refere «Sport Lisboa» é porque o Sport Lisboa e Benfica só viria a nascer em 13 de Setembro de 1908. Eu por acaso tenho o «D.N.» de 2-12-1907 em fotocópia mas não era preciso – o parêntesis recto diz tudo… Outra coisa menos intelectual mas igualmente grosseira foi uma reportagem de «A Bola» em 1 de Dezembro de 2007 sobre o «centenário do derby». O presidente do Sporting, desconhecedor da história do seu clube, esteve lá com o presidente do Benfica e tirou retratos. Só faltou mesmo o garrafão.

Um livro por semana 84

«Poemas da guerra» de José Niza

De 1969 a 1971 o autor integrou um batalhão militar em Angola. Ao chegar deparou-se com «O Carnaval em Zau Évua»: «Aqui o Carnaval é todo o ano/desde o içar da bandeira/ao cair do pano/trezentos soldados/mascarados/suam bem suados/bagas de suor de un confetti/amarelo verde e encarnado/que não é daqui/um clarim toca/várias vezes ao dia/Pavlov descobriu/que os reflexos condicionados/também serviam para os soldados/ eu vou estando/e não esqueço/adeus/até ao meu regresso». À sua volta uma onda de boatos: «Dói-me um dente / coitado tem um grande abcesso / ouvi dizer que era um tumor na cabeça / parece que já chamaram a família / a que horas é o funeral?» O alferes miliciano médico decide uma estratégia («Rir/é uma palavra capicua/que dá sorte/rir de tudo/até da morte») que envolve a música de J.S. Bach: «Amigo/séculos nos separam/e a tua música nos une/o tempo? /o que é o tempo/se a tua música vai existir/para além da tua vida/e da minha morte». Por fim despede-se de África já conhecida de viagens anteriores em 1958, 1960 e 1963: «Minha África Inútil/ sonho transformado em pesadelo/daqui te escrevo/ao pôr-do-sol/olhando este mar verde/sinfonia de capim em si bemol/daqui te escrevo/com a mágoa de te deixar assim/sozinha pobre sem futuro».

Lido em 2008 «Poemas da guerra» é um testemunho poético feito por alguém que viveu dois anos bem do lado de dentro dum certo tempo português: dos 12 mortos da «sua» guerra nenhum morreu em combate.

(Editora: O MIRANTE, Prefácio: Francisco Pinto Balsemão, Capa: José Nuno Niza)

Um livro por semana 62

«Diário da peste de Londres» de Daniel Defoe

Em 1665 terão morrido de peste mais de cem mil pessoas em Londres. Este livro reproduz o que Henry Foe, tio de Daniel Defoe, terá escrito durante esse tempo terrível. Regista-se o aparecimento de bruxos: «Todo este comércio se generalizou a tal ponto que era proverbial encontrarem-se dependuradas das portas tabuletas e letreiros assim concebidos: «Aqui mora um adivinho», «Aqui habita um astrólogo», «Aqui fazem-se horóscopos» e outras coisas do género.» O autor refere o que passou na sua casa: «Só tinha em casa uma velha governanta, uma criada, dois aprendizes e eu; e quando a peste principiou a crescer em volta de nós, sombrios eram os pensamentos que eu ruminava sobre a atitude que devia tomar e a maneira como agir». O medo dos habitantes de Londres levava-os ao desespero: «Havia mães que no delírio matavam os filhos e pessoas que morriam de dor ou muito simplesmente de medo ou de pânico sem qualquer infecção; e outras a quem o medo imbecilizava ou tornava insensíveis, quando as não lançava no desespero ou na demência ou ainda numa loucura atrabiliária». Um outro aspecto tem a ver com as actividades comerciais: «nenhum navio entrava ou saía do porto como antigamente e os marítimos, sem emprego, haviam caído na mais negra miséria. Com eles contavam-se os carpinteiros navais, calafates, cordoeiros, tanoeiros, veleiros, serralheiros de âncoras, poleeiros, escultores de madeira, armeiros e abastecedores de bordo.»

(Edição: Bonecos Rebeldes, Tradução: João Gaspar Simões, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Dica

Não sei se repararam, mas o acontecimento televisivo mais importante dos últimos (vá lá) dez anos está neste preciso momento a acontecer num horário que há muitos anos não dedicava a ver televisão. Não é apenas um acontecimento importante: é um autêntico milagre. Daqueles que emociona. Se o regresso à boa forma do Herman José era algo que já não fazia parte do meu universo de expectativas (para mais no reciclado formato de um saudoso concurso televisivo), que dizer ao facto (para mim, inegável) do maior génio do humor português estar a caminhar perigosamente para a sua mais leve, divertida, politicamente incorrecta, inteligente e paradoxalmente contida performance televisiva de sempre? A sério, vejam o programa. De 2.ª a 6.ª, por volta das 19h15. Na SIC.

Vinte Linhas 281

O centenário do Benfica passou quase despercebido

No passado dia 13 de Setembro aconteceu uma coisa só possível em Portugal. O Sport Lisboa e Benfica atingiu os cem anos de vida mas não houve quaisquer celebrações. Nem na TV nem nos jornais ditos desportivos que são três nem na rádio ouvi qualquer referência à efeméride. Só mesmo em Portugal é que é possível um clube festejar o centenário quatro anos antes da data. Sabemos todos, que o Sport Lisboa e Benfica festejou o centenário em Fevereiro de 2004 perante a silenciosa conivência dos jornais desportivos diários. Os mesmos jornais para quem é mais importante o joelho do jogador Mantorras do que a falência da SAD do Farense, o clube mais representativo do Algarve. A verdade em história só existe com documentos e o primeiro documento a referir-se ao Sport Lisboa e Benfica tem data de 13 de Setembro de 1908. Faz agora cem anos. Em 1904 foi fundado o Sport Lisboa cujo emblema tinha uma águia e uma bola; em 1906 foi fundado o Grupo Sport Benfica cujo emblema tinha a bola e a roda da bicicleta. O novo clube, nascido em 13 de Setembro de 1908, juntou no seu emblema a águia e a bola do Sport Lisboa e a roda da bicicleta do Grupo Sport Benfica. Esta monstruosa manipulação da história só não teve eco na página 9 do «Diário de Notícias» do passado dia 13 que, discretamente embora, chama a tenção para o facto ter sido em 1908 que surgiu o nome do Sport Lisboa e Benfica. Antes não havia nem esse nome nem esse emblema nem esses estatutos. Por isso não faz sentido festejar um centenário aos 96 anos. Mas num país com uma imprensa desportiva completamente narcotizada pelo medo das direcções de alguns clubes tudo é possível. Até o centenário do Benfica passar quase despercebido.

Um livro por semana 63

«Pranto por Vila Viçosa» de Rui Caeiro

Vila Viçosa é a personagem deste livro: «Na minha terra, doce, amarga e viçosa, na minha terra, digo, sobre a minha terra foi escrito este livro. A duzentos quilómetros dela.»
Numa viagem ao passado («estou diante do puro passado, realidade primeira, esteio de todos os meus presentes») o autor começa por recordar as classes sociais: «Na minha terra havia os burgueses, os pobres e os pobrezinhos. Não se podiam ver uns aos outros.»
O mundo dos homens nem sempre coincidia com o das mulheres («as mulheres iam à igreja, os homens à taberna») embora fosse sobre as mulheres que recaíam as tarefas de prover à subsistência: «Se havia pão, faziam açorda de poejos; se não havia pão, mera sopa de poejos.» Vila Viçosa é paisagem («o vento, o sol, a chuva, o calor, o frio, eram mais amáveis») mas também povoamento: «Na minha terra há muita gente. Mas eu cá aconselhava-os a todos a, na medida do possível, passarem mais despercebidos.»
Tudo começa numa casa: «Na minha terra há uma casa que não me pertence, eu é que pertenço a ela. Foi vendida a casa dos meus avós e – ó Álvaro de Campos – o que eu sou hoje é também terem vendido aquela casa…»
A memória do autor envolve não apenas o seu mundo («Na minha terra nasceu gente ilustre. Públia Hortênsia de Castro, Florbela Espanca, Henrique Pousão, Bento de Jesus Caraça.») mas o mundo à sua volta: «Havia um homem que chorava, sabe-se lá por quê e havia um garoto que saudava despreocupado o ar fresco da manhã, a praça vazia, a dor de um homem. Ao mesmo tempo que ia passeando a sua meninice e, não tendo mais remédio nem alternativa, olhava e aprendia.»

(Posfácio: Vítor Silva Tavares, Depositária: Livraria Letra Livre)

Um livro por semana 68

«Gramática Histórica» de Liberto Cruz

Trata-se de uma reedição revista e aumentada do livro original de 1971, uma edição semi-clandestina impressa no Funchal e assinada com o pseudónimo de Álvaro Neto. Dois aspectos tornam este livro exemplar: a publicação de «poemas concretos» como «Dolor Dollar», «Grelha Vocálica» ou «Homenagem a Winfredo Bonifácio» e de poemas dentro da nossa antiga linha do «escárnio e mal dizer». Como por exemplo este poema:
«governo permanente / povo doente / coragem ausente / ditadura vigente / castração evidente / nação indolente»
Ou então este: «Um gajo sem cunhas pediu uma Bolsa. / Nicles, claro! / Dizem que ficou com uma grande cachola. / Que artolas!»
Ou ainda este: «Em Portugal haver mocidade portuguesa / é um pleonasmo a evitar»
E ainda este: «A região é pobre. /O país não precisa de partidos. /O nosso povo é frugal.»
Sem esquecer este: «É um grande prazer estar entre esta gente calma, paciente, ordeira, resignada, crente, esta gente bem portuguesa.»
E por fim este poema síntese: «Um verdadeiro português contenta-se com um quarto de pão e uma sardinha assada.»
Vejamos também uma divertida incursão no tempo actual; no poema «S» português:
«Sertório / Sebastião / Saldanha /Sidónio / Salazar / Spínola / Sá-Carneiro / Soares / Sampaio / Santana / Sócrates». Para quem não conhece a edição de 1971 aqui está uma verdadeira descoberta; muito para além do título – está aqui um certo tempo português.

(Editora: Roma Editora, Prefácios: Haroldo de Campos e João Fernandes, Capa: J. Rogeiro)

Um livro por semana 76

«Do tempo sitiado» de Paulo Ferreira Borges

Paulo Ferreira Borges pertence à família dos poetas (como Vitorino Nemésio) para quem a Geografia vale mais do que a História. Pataias, Caldas da Rainha, Nazaré, Óbidos, Foz do Arelho, Salir do Porto, S. Martinho do Porto, Paredes da Vitória, Peniche, Vale Furado, Ilha da Berlenga, Alcobaça, Praia da Consolação, Leiria, S. Pedro de Muel, Praia da Légua e Santa Catarina – são os lugares dos poemas deste pequeno/grande livro.
De um lado temos a terra, veja-se poema da página 27: «As mães trazem cerejas numa cesta de vime / Nas noites de vésperas, os seus dedos / cheiram a pão-de-ló, a erva-doce, a canela, / a raspa de limão, e nos seus olhos vertiginosos / derrama-se uma cor de fogo escuro, semelhante / à do licor de ginja que dorme na paciência de vidro / das garrafas depois de incorporar as últimas pétalas de sol.» Do outro lado temos o mar, como na página 44: «As traineiras escoavam dos olhos / os seus nomes marejados. Amor de Mãe. / Celacanto. Estrela da Tarde. Nossa Senhora da Nazaré. / Três Irmãos. Xixão. Refrega. / E no rosto penitente de uma / sobrevivente de fainas e virações / incandescia-se de sal um epigrama / ou um lampejo: Olhos de Deus. / Claríssimos tons / na avidez das águas.»
Só um poeta no completo domínio da sua escrita pode assinar este poema: «As mulheres tinham varandas, pequenas cercanias / que se prolongavam dos olhos, da boca, do ventre / onde penteavam os seus longos cabelos pretos / e se punham a pensar, a tecer os filhos, a estender a roupa branca / com uma mola de madeira apertada nos dentes. / Nas varandas mais recônditas / as mulheres labiavam preces, terçavam promessas / intercediam, mediavam, nutriam as lamparinas / de azeite, até ao dia em que os filhos / regressavam das guerras ou de outras tormentas. / As mulheres tinham varandas. E quando morriam / era numa toda envidraçada / que dava para dentro dos seus corações.»

(Editora: Textiverso, Capa: Aguarela de Mário Botas, Patrocínio: Junta de Freguesia de Pataias)

Um livro por semana 79

«Lavagante» de José Cardoso Pires

No dia 1-5-1962 houve em Lisboa uma grande manifestação popular: muita pancadaria, tiros, mortos, feridos, correrias, cacetada brava, o carro da água e o da tinta azul que sujava tudo e marcava os manifestantes. É nesse tempo e nesse espaço que decorre a acção desta narrativa que tem o subtítulo de «encontro desabitado». Cecília («cabelo claro, busto pequeno, pernas e pés sólidos, uma fria altivez») encontra Daniel num café de estudantes e diz-lhe sem mais nem menos «Importa-se de me levar a casa?» acabando por «ficar uma hora dentro do carro a conversar». Os dois falam de si e do mundo: «Estamos em plena Idade Média com astronautas a voar por cima de nós». Nesse dia 1-5-1962 «enquanto Daniel tratava dos feridos e a cidade andava em guerra, Cecília, no seu quarto de mulher só, fumava cigarros atrás de cigarros». Daniel esteve preso 52 dias e foi libertado ao 53º dia com uma carta de Cecília que explica tudo: «Não me podes levar a mal. Perder-te! Vê tu ao que eu cheguei: perder-me para te salvar! Cheira a fado lamechas que tresanda mas que queres?». O PIDE a quem Cecília se entregou em troca da libertação de Daniel é o lavagante, o animal «de tenebrosa memória, paciente e obstinado que, depois de alimentar o safio e de o ver engordar vem, de garras afiadas, devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo».
Dez anos depois da morte (apenas civil) de José Cardoso Pires a publicação deste inédito surge num duplo registo: descoberta para o leitor actual e homenagem a um grande escritor português.

(Editora: Edições Nelson de Matos, Capa Paulo Condez, Ilustração: Sónia Oliveira, Fixação de texto: Ana Cardoso Pires)

Vinte Linhas 280

O quarto de João Garcia 

O quarto de João Garcia fica aqui no primeiro andar do nº 204 da Rua da Rosa, a mesma rua onde nasceu Camilo Castelo Branco. Escrevo e digo fica porque embora João Garcia já não viva naqueles metros quadrados nem já espere cartas de Margarida ao domingo (naquele tempo havia correio ao domingo…) a verdade é que está tudo na mesma como quando Vitorino Nemésio por aqui passou entre 1919 e 1921, ente a vida militar nas Janelas Verdes e as reportagens no jornal A Pátria. A capelista da Rua da Rosa nº 200 que entra no romance «Mau tempo no canal» na página em que se recorda a criadita que deixou molhar o jornal quando veio da capelista, pois a capelista também continua. Hoje já não vende só jornais, figurinos, cadernos, agulhas e carrinhos de linha mas relógios, bonecos, perfumes, brinquedos, bilhetes-postais e CDs. Isto além de ter uma máquina de fotocópias. Mudou de dono por trespasse e hoje tem ao balcão um simpático senhor indiano que regista as lotarias, as raspadinhas e o euro milhões. Os gatos do tempo de João Garcia, quando o jovem militar açoriano subia do Rossio cheio de cafés onde os boatos escaldavam tanto como a bica, os gatos deram lugar aos cães. O peixe frito que João Garcia via sempre nas portas da Rua da Atalaia desapareceu para sempre.

À noite, quando regresso a casa pelo Elevador da Glória e entro no Bairro Alto por aquele lado, olho sempre para o primeiro andar do nº 204 da Rua da Rosa. Então se está nevoeiro e choveu de mansinho ou se ouvi nesse dia um CD de Hélio Beirão com músicas da viola da terra, fico com a quase certeza que João Garcia continua ali no seu quarto à espera de uma carta de Margarida.

Um livro por semana 81

 

«A ressurreição da água» de Maria Antonieta Preto

Quatro anos depois de «Chovem cabelos na fotografia» Antonieta Preto regressa com «A ressurreição da água». Num espaço e num tempo plenos pelas novidades uniformizadoras (automóvel, TV, Internet, telemóvel, hipermercado) a autora constrói narrativas nas quais os protagonistas se defrontam com problemas essenciais e antigos. A falta de água por exemplo: «Era uma tristeza já a gente olhar para o campo. Lembro-me quando houve as últimas novenas. Pedimos água a cantar, enxurradas de força. Perdemos todas as criações: o nosso campo inteiro. Perdemos também as mulas e as cabras a pastarem. Perdemos as romãs nas romãzeiras. Perdemos as batatas, as favas, os alhos, as cebolas.» A água é a fonte da vida; a terra é o lugar da morte. A autora explica que «Antigamente os mortos não morriam» porque eles «iam vivos para dentro da terra.» Surge aqui uma dualidade: a narrativa e o Mundo: «Tenho os olhos cheios de estórias como os meus olhos estão cheios de mundo. Aquilo que se conta sonha-nos e transforma-nos e dá-nos um mundo dentro de outro mundo. O mundo nunca é verdadeiro sem todos os mundos dentro dele». Entre o Mundo e a Escrita a autora não pára de inventar («Invento todos os dias a vida que existe») criando novas realidades em si («criei um céu no meu quintal») e nos outros: «Às mulheres desta aldeia oiço dizer coisas esquisitas: que os seus homens não querem amá-las.» Contra a secura da terra e a aridez do Mundo só a alegria da água pode salvar e fazer a ressurreição das vidas perdidas: «A vida lá fora é insalubre. A vida lá fora é pantanosa. A vida lá fora é desperdiçada.»

 

(Editora: QuidNovi, Foto: Daniel Mordzinski, Notas: Paulo Barriga, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel Silva Ramos, Jorge Listopad e Miguel Real) 

Vinte Linhas 82

Dissertação sobre um nome

O teu primeiro nome tem, dentro de si, a força da Terra e a graça de Deus.

Ele é, sem dúvida, o nome feminino mais divulgado em todo o Ocidente. Tem a sua origem nas profundezas da língua hebraica mas não se ficou pela Bíblia e pelos Quatro Evangelhos. Está presente na Eneida de Virgílio, no teatro de Luigi Pirandello, nos romances de Tolstoi, nos contos de Pushkin e nas óperas de Mozart. Está junto à Terra e o seu som pronunciado resolve as hesitações nas encruzilhadas sombrias dos caminhos quotidianos. Digo o teu nome e tenho, no momento de o dizer, uma direcção e um sentido. Porque sinto, dentro do seu som, a força da Terra e a graça de Deus.

O teu segundo nome tem, dentro de si, a força da Água e da Natureza. Vem de uma origem duvidosa, envolta na neblina da lenda. Terá sido a primeira mulher, a que saiu do mar e deixou os homens da praia, entre atónitos e cheios de júbilo, aquela a quem chamaram mar yam – gota do mar. Como se essa mulher quisesse mostrar que só há vida na água porque vivemos com a água e morremos quando estamos dezassete dias longe da água. O mistério da vida e os milagres da existência têm uma raiz nessa mulher que saiu do mar e a quem os homens chamaram mar yam – gota do mar.

O teu nome, feito de dois nomes, é uma bandeira feliz, um estandarte de alegria, uma luz que não se apaga. O teu nome, feito de dois nomes, é o lugar ideal para ouvir o som da voz da terra e o murmúrio do mar, o apelo a ficar e o convite a todas as viagens.

O teu nome, feito de dois nomes, tem a dimensão sem medida dos sonhos e a música sem fim de todas as orquestras. O teu nome, feito de dois nomes, Ana Maria.

Vinte Linhas 275

Esta Lisboa que eu amo…

Cheguei a meio da tarde disposto a estrear condignamente a nova esplanada do Jardim de São Pedro de Alcântara bebendo um café e comendo um pastel de nata. Parece-me mais um miradouro do que um jardim mas isso é outra história. Nem reparei nos ocupantes das outras mesas. Mas, de súbito, uma voz levanta-se e ouve-se por sobre as outras. O seu registo, o seu timbre, a sua altura, tocam fundo dentro de mim e comovem-me. É Simone de Oliveira que conversa animadamente com três pessoas, dois jovens e um senhor de meia-idade. Jornalista desempregado que hoje sou, palpita-me que os três formam uma equipa de reportagem. Um deles exibe um computador portátil, o outro toma notas num bloco, o terceiro fala. O que me comove é ter descoberto o mesmo tom de uma canção que dava nome a uma revista que eu vi no Teatro Monumental. Já passaram quarenta anos e «Esta Lisboa que eu amo» continua hoje no meu ouvido e no meu coração. Eram as chamadas Revistas do Vasco Morgado com o Paulo Renato e o Carlos José Teixeira. Eu era um jovem, foi há quarenta anos e parece que foi ontem. A voz de Simone de Oliveira mantém aquele particular timbre e, mesmo sem cantar, falando apenas, vem lembrar-me as palavras da canção «Esta Lisboa que eu amo». Tenho 57 anos, vivo em Lisboa desde os 15 e, por isso, já passei mais anos em Lisboa do que na minha terra. Na esplanada do Jardim de São Pedro de Alcântara também eu me atrevo a proclamar o meu amor pela cidade de Lisboa. Olho em frente e vejo o Castelo, olho à direita e vejo o Tejo, sinto à esquerda o bulício das Avenidas Novas e atrevo-me a dizer baixinho como quem faz uma oração sem fórmula nem liturgia – Esta é a Lisboa que eu amo!