Vinte Linhas 275

Esta Lisboa que eu amo…

Cheguei a meio da tarde disposto a estrear condignamente a nova esplanada do Jardim de São Pedro de Alcântara bebendo um café e comendo um pastel de nata. Parece-me mais um miradouro do que um jardim mas isso é outra história. Nem reparei nos ocupantes das outras mesas. Mas, de súbito, uma voz levanta-se e ouve-se por sobre as outras. O seu registo, o seu timbre, a sua altura, tocam fundo dentro de mim e comovem-me. É Simone de Oliveira que conversa animadamente com três pessoas, dois jovens e um senhor de meia-idade. Jornalista desempregado que hoje sou, palpita-me que os três formam uma equipa de reportagem. Um deles exibe um computador portátil, o outro toma notas num bloco, o terceiro fala. O que me comove é ter descoberto o mesmo tom de uma canção que dava nome a uma revista que eu vi no Teatro Monumental. Já passaram quarenta anos e «Esta Lisboa que eu amo» continua hoje no meu ouvido e no meu coração. Eram as chamadas Revistas do Vasco Morgado com o Paulo Renato e o Carlos José Teixeira. Eu era um jovem, foi há quarenta anos e parece que foi ontem. A voz de Simone de Oliveira mantém aquele particular timbre e, mesmo sem cantar, falando apenas, vem lembrar-me as palavras da canção «Esta Lisboa que eu amo». Tenho 57 anos, vivo em Lisboa desde os 15 e, por isso, já passei mais anos em Lisboa do que na minha terra. Na esplanada do Jardim de São Pedro de Alcântara também eu me atrevo a proclamar o meu amor pela cidade de Lisboa. Olho em frente e vejo o Castelo, olho à direita e vejo o Tejo, sinto à esquerda o bulício das Avenidas Novas e atrevo-me a dizer baixinho como quem faz uma oração sem fórmula nem liturgia – Esta é a Lisboa que eu amo!

8 thoughts on “Vinte Linhas 275”

  1. zé,
    duas coisas, rápidas.
    1. Também é meu, esse rifão. É uma das senhas de inúmeras tertúlias de copofónicos onde me vejo obrigado a participar: «Esta Lisboa que eu amo, tem um bar em cada esquina…»
    2. vou ser zé do carmo e babar nos meus galões, toma lá este que é meu. Porquê? Porque se chama «Esta Lisboa que eu amo» e é dos que mais gostei de parir.
    http://setevidascomoosgatos.blogs.sapo.pt/1676889.html

    E toma lá abraço, também.

  2. Há quarenta anos eu amava esta Liboa através das vozes de Amália, Lucília do Carmo, Hermínia, Toni de Matos, Francisco José, etc, etc…, e desfolhava juventude também ao ouvir a voz de Simone. Tudo rádio difundido, pois a televisão nesta altura era um sonho nos Açores. Nem conhecia Lisboa, mas imaginava, com a fertilidade própria de criança, esta linda Lisboa que eu hoje bem conheço e, assim mesmo, ainda também amo.
    Afinal, se anularmos as diferenças que ela tem com as diferenças que adquirimos, o saldo não ficará assim tão negativo. Vamos com fé.
    Abraço

  3. Zèzito,

    Excelente petinga, mas nada que se compare ao carapau prateado do Rui, aliás muito mais informativo nisto de saudosas Lisboas do que quando se põe a escrever sobre o caracter político e mensagem do candidato Obama. Opiniões.

    Já agora aproveito para te dizer que andares a comer pasteis de açucar e potássio com o Tejo à tua direita e o Castelo em frente não me parece boa ideia, mais a mais com essa mania (pensa em sintomas quando moves uma perna sem saber porquê, e mais ainda porque sofres de diabelhos) de andares às voltas por Lisboa, em peregrinações de confirmação do teu amor pela cidade.

    Acho que farias bem googlares “alzheimers and wandering”. Passa revista a isso. Não te garanto tanto prazer como o que tiveste no Monumental, aos dezassete anos, ainda a cheirares às alfazemas da província.

  4. Caro RVN não con sigo entrar no dito cujo, agora. Vou tentar mais tarde. Alfredo Gago da Câmara se é a pessoa que eu julgo é um excelente guitarrista e está aqui comigo num CD ao lado do CD de Hélio Beirão, viola regional terceirense. Gostei deste encontro; os bons encontros dão sempre bons resultados.

  5. zé,
    faz isso, se não consegues entrar lá onde querias: tenta mais tarde. Mas anima-te, homem! O mundo não acabou! Há mais na vida que o sexo.
    abraço-te, compungido.

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