Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Rui de Brito

É já nos próximos dias 4 a 7 de Setembro que terá lugar, na Póvoa de Varzim, a segunda edição deste belo e importantíssimo evento que é o ViMus, o único festival internacional de vídeos musicais organizado no nosso país. Por isso, babem-se com o programa deste ano e vejam lá se conseguem dar um salto a essa bela cidade. As entradas são livres.

Tal como o ano passado, a organização (que tem uma certa dificuldade em aprender com os erros que cometeu no passado), voltou a convidar-me para escrever um texto sobre um realizador português. Depois de José Pinheiro, o cristo deste ano é Rui de Brito. Espero que gostem, não propriamente do texto (apesar da imensa trabalheira que me deu inserir tanto link), mas da viagem que lá proponho pela obra desta cabal demonstração de que não faltam imensos talentos no nosso país (ler esta última frase à la Sócrates). Aí vai aço.

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Vinte Linhas 278

«Uma onda muito acima da ficção» no mais recente livro de José Mário Silva

Quando nos anos 80 Ernesto Rodrigues traduziu os «contos de um minuto» de Istvan Örkeni a recepção ao livro foi positiva mas a expressão contos de um minuto não ganhou popularidade em Portugal. «Efeito borboleta e outras histórias» de José Mário Silva (Editora Oficina do Livro) é um conjunto de histórias muito breves cujo ponto de partida é a definição de efeito borboleta: «se uma borboleta bater as asas, algures na Amazónia, pode provocar um tornado no Texas». Aqui se percebe que o amor é difícil: «Meu amor, Esta é provavelmente a última carta que te escrevo. Os meus netos venderão os móveis, deitarão fora o espelho e lerão, talvez com a indiferença de quem nada compreende, estas centenas de cartas que nunca te enviei.» Aqui se percebe que a morte é inevitável: «São sete da tarde. Alberto está na sua área, agitando o braço em semicírculo enquanto espera que algum automobilista se decida a estacionar. Depois de pedir ajuda a uma velhinha num 2CV preto vem a resposta com três notas de 50 euros – Meu filho, toma lá isto mas olha que nunca mais te quero ver nesta vida que levas, ouviste? – mas olhando melhor Alberto descobre uma gadanha no banco traseiro do 2CV. Aqui se aprende que nem sempre a literatura nos salva: «Quando A. M. Sousa publicou o seu primeiro romance aos 31 anos em 2014, a literatura portuguesa levou, nas palavras do crítico José Maurício Palhavã, um choque eléctrico fulminante. Ninguém esperava aquilo. Depois deu-se o previsível colapso. Cenas lamentáveis num talk show. O internamento numa clínica psiquiátrica. A longa travessia do deserto. O culto do silêncio. A vida austera num quarto sem nada. A pose do eremita.» Aqui se descobre o espanto de quem quer escrever um conto e leva com um tsunami em directo no ecran da televisão: «Alguém ligou a TV. Era domingo, manhã radiosa. E no outro lado do mundo uma onda erguia-se muito acima da ficção.»

Sobre «Os males da existência» de António Sousa Homem

«Toda a literatura é uma homenagem à literatura» – este pode ser o ponto de partida para a abordagem deste livro (Editora Bertrand) que recolhe as crónicas assinadas por António Sousa Homem na Revista Notícias Sábado. Na crónica «O romance de uma vida» o autor explica que o seu pai «tinha pelo romance um desprezo discreto» porque tinha lido os nove volumes de «The life and opinions of Tristram Shandy, Gentleman» de Lawrence Sterne. Sendo António Sousa Homem «um botânico amador e um coleccionador de hibiscos» nunca poderia escrever um romance porque lhe falta o «temperamento trágico». Estas crónicas são (também) uma homenagem a esse antepassado remoto. Tristram Shandy tinha o pai Walter, a mãe, o tio Toby, o criado Trim, o Dr. Slop e o reverendo Yorick. Aqui temos o velho Dr. Homem, o pai, a sobrinha Maria Luísa, a empregada D. Elaine, a tia Benedita, o tio Alberto. Não vale a pena perder tempo a escrever um romance quando se pode desdobrar esse romance em capítulos semanais – as crónicas. O autor viveu numa casa com um retrato de D. Miguel na parede, teve um avô que simpatizava com o Dr. Brito Camacho e tem uma sobrinha que vota no Bloco de Esquerda. Retrata-se («Eu sou um velho minhoto«) e retrata o mundo: «O mundo pertence aos bravos que fintam a histórias e triunfam episodicamente; simplesmente, não sabem que a vida é apenas um episódio». O seu mundo começa na província: «A nossa pobre província era apenas pobre e insatisfeita; simplesmente, não o sabia e também não sabia como era ignorante, preguiçosa e emproada.» Chega de citações para recomendar um bom romance que não se anuncia como tal mas que, mesmo assim, não deixa de o ser.

«O cavaleiro da Ilha do Corvo» de Joaquim Fernandes

O ponto de partida deste livro (editado pelo Círculo de Leitores) é o episódio do desaparecimento dos restos da estátua do cavaleiro da Ilha do Corvo que o rei D. Manuel I mandou arrumar nos roupeiros da sua antecâmara em Almeirim no ano de 1519. E uma pergunta do rei venturoso: «Que teria a sua minúscula ilha de especial para albergar tão misterioso aviso em forma de estátua equestre?»
Dois jovens investigadores (Michael, americano e Lúcia, portuguesa) lutam contra uma seita (Os Cristoforos) para descobrirem a verdade sobre o cavaleiro da Ilha do Corvo: «A História está traçada desde há muito. Os livros já escritos vão continuar a ser lei e assim deverá continuar.»
Há perseguições nas estradas de Sintra, agressões a um cientista belga, mortes misteriosas de pessoas que tentaram ajudar os dois jovens investigadores, o suicídio de um responsável da Torre do Tombo no Padrão dos Descobrimentos e tudo isto acontece para que nada mude: «Impedir que os «povos sem Cristo» tomassem na História o lugar de pioneiros na descoberta do Novo Mundo. Preservar a todo o custo a imagem de Cristóvão Colombo como primeiro descobridor da América. Defender a ideia da primazia absoluta das viagens marítimas portuguesas no Atlântico. Uma das pistas mais curiosas é a descoberta de moedas cartaginesas na Ilha do Corvo no século XVIII. Como a data das moedas é entre 330 e 320 anos antes de Cristo, o mesmo é dizer século IV antes da era cristã, é mais um argumento a favor da ideia de que as ilhas portuguesas do Oceano Atlântico não foram descobertas pelos Portugueses mas apenas redescobertas.

(lido aos microfones da RDP Antena Um Açores em 18-7-2008 às 12 horas tempo de Lisboa)

Vinte Linhas 272

«A cunhada do Pintor» no Museu do Prado

O Museu do Prado encheu-se de retratos antigos na exposição «El retrato del Renacimiento». Um dos mais famosos é o retrato feminino de Bernardino Lucinio. O dito quadro, também conhecido por «A cunhada do Pintor», dá-nos a beleza em esplendor de uma mulher com um livro na mão. Este pormenor (com um livro na mão) lembra-me uma mulher que à hora a que escrevo, algures entre as estações de Nuevos Ministérios e de Barajas Terminal 4, deve estar a fechar a porta da sua livraria em Lisboa. Isto porque em Lisboa os relógios marcam menos uma hora. Mais ao lado está o retrato de Katharina Fürleger de Dürer e um Tintoretto com a imagem de Verónica Franco, a mais bela mulher que viveu em Veneza entre 1546 e 1591. E também Rubens com Brígida Spínola Dória sem esquecer Franz Pourbus com a bela Margarida Gonzaga. Em todos estes quadros há o projecto alcançado de vencer o tempo. Quase quinhentos anos depois de terem sido pintados, permanece nestes óleos uma beleza que não morre. Morreram os modelos mas o produto do trabalho dos artistas chega intacto até nós. No meu caso sem necessidade de pagar – os porteiros do Museu do Prado aceitaram a carteira profissional e, com um sorriso, entregaram-me um bilhete a zeros. Não são como os do Jardim Botânico que me obrigaram a pagar 2 euros. Quis juntar Arte e Natureza no mesmo dia. Além de uma temperatura agradável lá descobri uma rua dedicada ao nosso Avelar Brotero. Quando saí do Jardim Botânico a caminho da estação de Atocha ainda trazia no olhar o esplendor da beleza das mulheres da Renascença misturado com a memória da beleza de uma mulher que, a essa mesma hora, pegava num livro e fechava a porta da sua livraria em Lisboa.

ciência em tempos de bolsas

Em Espanha há um senhor que foi galardoado com um prestigioso prémio de investigação. A parte engraçada é que esse senhor, quando recebeu o prémio, ja tinha desistido da investigação e optado por dar aulas no secundário, ter uma vida pessoal e até mesmo fazer um filho.
Em Portugal, para fazer investigação, há que ter uma bolsa, e andar a saltar de Bê em Bê: começa-se com umas 3 BI, segue-se para uma BM, uma BD, um par de BPDs, e eventualmente, se correr bem, ser um cientista dois-mil-e-tais. Em Espanha, para além de bolsas (e diga-se em abono do país que há muitas mais entidades a dar bolsas), há mais algumas maneiras (contratos temporais e afins) que permitem mais alguma versatilidade na ciência, permitindo a pessoas que ainda não publicaram ou que tiveram piores notas fazer ainda assim ciência. Tanto estes contratos como as variadas bolsas são temporais. Tanto num país como noutro cada par de anos há que concorrer à próxima bolsa, nunca sabendo se esta vai ou não ser conseguida, até ao dia em que um cientista, acabadinho de fazer 40 anos, descobre que as BICs não são “bolsas para investigadores cotas”, e descobre que está desempregado.
Por isso é que o dito senhor que ganhou o prémio já não fazia investigação. Há quem prefira ter estabilidade laboral e financeira, até mesmo filhos, a trabalhar por amor à camisola. Os cérebros não fogem todos para o estrangeiro, muitos, mesmo que tenham capacidade de fazer ciência da mais galardoada qualidade, preferem ter uma vida.
Diz o senhor que ganhou o prémio que até gostava de voltar a investigar.
Se ganhasse a lotaria.

 

http://www.elpais.com/articulo/sociedad/cerebro/volvera/investigar/elpepisoc/20080720elpepisoc_3/Tes

Vinte linhas 81

A última aguardente do Tio Nascimento

Bebo devagar um cálice de aguardente branca e muito leve, puríssima e macia, tal como saiu do alambique no passado mês de Setembro. É uma aguardente que não pesa no estômago e que torna as digestões mais suaves. Mas não a posso gastar muito depressa porque esta aguardente é uma memória viva do meu Tio Nascimento e da sua Atalaia do Ruivo, paisagem perfeita entre sol e pó, entre pedras e pinheiros, entre água e vento. Lugar mágico onde a terra quase se junta ao céu numa espécie de oração sem palavras. Dois dias antes de morrer com o coração cansado e incapaz de trabalhar mais, este homem que foi, em novo, ceifar todas as searas do Alentejo e das regiões espanholas fronteiriças, estava possuído de um vigor inesperado e obrigou os filhos e as noras a trabalharem ainda mais para irem entregar o bagaço e o folhelho da uva a um certo alambique para os lados da Serra das Corgas. Depois foi fazer uma festa ao burro e enxotar as galinhas antes de olhar as cabras. Entretanto morreu na grande cidade um dia antes de fazer a grande intervenção cirúrgica que lhe poderia ter prolongado a vida caso corresse bem. Mas não correu. Hoje este gesto de beber um cálice de aguardente tem para mim o valor de um regresso. Esta bebida guardou a paisagem povoada pelo Tio Nascimento entre o seu lugar de sempre, a sua casa dos ventos onde se vê ao longe um bocado de Espanha e, mais perto, a terra das cerejeiras em flor. Essa paisagem povoada onde o corpo do Tio Nascimento descansa no cemitério da Sobreira Formosa mas onde o espírito circula no sabor macio e puro, leve e branco desta aguardente que não pesa no estômago. Porque incorpora a memória destilada de um homem cheio de humanidade.

Vinte Linhas 79

Viagem com Ana Maria

De repente falámos de Veneza e as carruagens do Metropolitano sofreram nos meus olhos uma metamorfose, as estações ficaram inundadas e os seus nomes passaram a ser gritados em italiano pelo marinheiro fazendo sinal com o braço ao capitão para que a demora em cada paragem seja curta. Estamos num vaporetto prestes a chegar à Praça de São Marcos inundada de pombos e de japoneses com máquinas fotográficas da última geração. Á esquerda o grande areal do Lido com as mesmas pequenas casas de madeira usadas nas filmagens de «Morte em Veneza». Todos os anos as pintam no princípio da época balnear. E porque são muito caras há quem viva em Veneza e as alugue para usar de manhã subalugando a amigos à tarde. Vejo nos teus olhos a imensidão do Mar Adriático sem ondas e apenas sacudido ao de leve pela passagem de um petroleiro a caminho do Sul. Vem de Trieste, do outro lado do Golfo. Oiço na tua voz as sílabas perdidas de todas as minhas viagens. Um voo nocturno para Milão, uma viagem de autocarro até Bolonha, uma viagem de comboio até Veneza. No bulício da estação de comboios de Santa Lúcia descubro a tua voz límpida, terna e alta como num passeio da Rua do Ouro em 1969. Ao fundo está não a Ponte de Rialto mas o Cais das Colunas e os cacilheiros lentos cruzando um rio triste onde chegam aerogramas amarelos com notícias de emboscadas e de feridos evacuados de helicóptero. Os aerogramas estão todos amarrotados nos bolsos dos casacos dos passageiros. Tenho de novo dezoito anos na tua voz porque a memória não mente. Entre a emoção e a verdade a memória escolhe sempre a emoção que é, também, todos o sabemos, uma forma de verdade.

petite apocalypse doméstique

je suis la grande prostituée de babylone.
c’est moi qui se vend pour tes hanches,
celui qui craint tes regards. le serpent
emplumé guette de sa tranchée,
mais aussitôt, blâmé par la colombe,
retourne à la déesse qui l’a conçu : nin.ti.
parfois je suis ce que je suis lorsque je ne
suis ce que je suis. il me manque un peu plus
de discipline pour être canonisé. tu me dis
que tu es moi. il faut que je fouette mes vers.
et tu ne les veux pas fouettés, tu veux
qu’ils soient pécheurs, la bête au chiffre imparfait.
mais tu ne comprends rien. tu ne comprends
que c’est moi la bête e que le combat est terrible
de sortilèges : je ne suis ce que je suis, mais un
dragon, la fille de joie, quelquefois un fou.

Poema de Daniel Jonas (O Corpo Está Com O Rei, AEFLUP, 1997)
Tradução de João Pedro da Costa

Balada da casa da Ericeira

A casa que não é minha
Mas onde me sinto bem
Os galos de manhãzinha
Não deixam dormir ninguém

O vento traz a frescura
Que bate à porta do Verão
Uma varanda segura
Longe da maior confusão

A janela dá para o mar
O pinheiro serve de espelho
Que reflecte a luz do lugar
No moinho branco e velho

Caldeirada de paciência
Faz refeição de alegria
Entre a arte e a ciência
Esplendor de gastronomia
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Voix

c’est une voix de velours celle qui te dit que tu pourrais rester
si un oiseau habite sa bouche
ou si un barbiturique a choisi d’y vivre, je ne sais dire
mais la voix qui meurt dans ta voix
n’a faim d’aucune autre
et elle ne veut que ta bouche
rien que ta bouche

c’est une voix qui coule comme une fiole
qui ne chante qu’une fois et puis meurt
et en mourant laisse un trottoir mouillé
et une maison abandonnée et en mourant
laisse un trottoir et une ville perdue
une voix qui en mourant
sort entièrement

c’est une voix celle qui te demande maigre et affaiblie
qui se dépouille des mots après la pluie
qui fait ses adieux de la pluie après les mots
une voix qui part pour mourir
comme un chat dans les banlieues de la nuit
après s’être donnée entièrement
à ce qu’elle t’a dit.

Poema de Daniel Jonas (Moça Formosa, Lençóis de Veludo, CCA, 2002)
Tradução de João Pedro da Costa

Vinte Linhas 270

Os 14 dias de Barbara Hepworth

No dia em que eu nasci o filho de Barbara Hepworth alistou-se na RAF. No dia em que eu fiz dois anos o filho de Barbara Hepworth desapareceu com o avião que pilotava nos céus da Tailândia, ao serviço da RAF. Isto é apenas uma curiosidade de datas mas um dos pontos mais interessante na vida desta escultora (1903-1975) famosa pelas suas esculturas respirando formas de grande pureza e ligando de modo feliz Natureza e Arte, é a história dos 14 dias. Chamo eu história dos 14 dias a esta história. Vejamos. Corria o ano de 1926 quando a então jovem artista se deslocou de Florença a Carrara para aprender «in loco» a trabalhar o mármore e a deslocar grandes pesos. Casada há pouco tempo com o pintor John Skeaping, o dinheiro não abundava («cheguei a Florença com apenas 9 libras no bolso» – recordou mais tarde) e por isso alugou um pequeno estúdio. Nele mostrou ao público os seus primeiros trabalhos de escultura e nele esperou 14 dias mas ninguém apareceu. Mesmo no fim do dia apareceu um senhor, cujo nome era Eumorfopoulos e que, depois de lhe adquirir seis peças, se tornou seu amigo. A amizade entre os dois só terminou com a morte do senhor Eumorfopoulos durante a segunda guerra mundial.
Todos nós precisamos destes exemplos. Mesmo numa escala muito modesta («pequenos e médios comerciantes, pequenos e médios industrias, pequenos e médios escritores» – diz uma amigo meu, com piada) esta perspectiva de estar 14 dias à espera de um visitante numa exposição de escultura em 1926 e mesmo assim nunca desistir é um exemplo meritório. Os 14 dias de Barbara Hepworth podem ser lidos assim: o poema, o conto, o romance, a peça de teatro, o óleo, a escultura podem esperar 14 dias que aparecerá sempre um senhor Eumorfopoulos disposto a compara seis peças e ao mesmo tempo ajudando à sua divulgação pela Europa e pelo Mundo.

Vinte Linhas 269

As raposas de Charles Gounod

Quem apanha à meia-noite e cinquenta o último comboio de London Bridge para Lewisham já sabe que lá se forma uma enorme bicha nos táxis. É em Lewisham que termina o DLR, o metro das docas de Londres, pequenino e rápido, guiado por um computador. Seguindo para Blackheath Park encontra-se quase sempre uma raposa que se atravessa no caminho e foge dos máximos do automóvel. Os serviços de recolha de lixo já pediram os moradores para colocarem os sacos com fraldas em cima dos contentores e não ao lado dos mesmos. Chamo-lhe as raposas de Charles Gounod porque o célebre compositor francês viveu aqui durante cinco anos fugindo às confusões da guerra entre a França e a Prússia. Aqui, em concreto em Morden Road, que faz esquina com Blackheath Park no marco de correio da Royal Mail. Entre 1870 e 1875 Gounod andou por aqui ensaiar os maiores grupos corais de Londres. Demorava-se pela Charing Cross Road que ao tempo já era uma rua de livrarias e apanhava o comboio na estação dessa rua em direcção a Dartford. Saía em Blackheath Station e apanhava uma carruagem de aluguer até à sua Morden Road, entre o Paragon e Blackheath Park. Gosto de saber que o meu neto passa todas as terças feiras de manhã à porta da casa que foi de Charles Gounod a caminho da biblioteca municipal onde aprende a cantar e a mexer nos livros com respeito. Ele é pequenino e ainda não sabe que dentro de cada livro, dentro de cada história, poema ou peça de teatro, há muitas lágrimas e muito sangue pisado. Dentro de pouco tempo espero ouvi-lo cantarolar a «Ave Maria» de Gounod, maravilhosa variação a partir de um tema de «O cravo bem temperado» de Bach. Que por acaso era protestante.

MARGARIDA REBELO PINTO NÃO É DESTE PAIS

Não sei se o título desta pequena crónica é verdade para alguém. Para mim é
quase. Tirando o impiedoso retrato que Mário Ventura Henriques fez da
criatura num dos seus livros, pouco conheço desta figura da chamada
literatura «light». Mas li no sábado pp. no Diário de Notícias o aviso de
que MRB vai lançar um livro com o título igual ao livro de Joaquim Pessoa
«Português Suave». Nem a autora nem a editora nem a entidade que lhe
atribuíu o «ISBN» perceberam que já existe em Portugal um livro com o mesmo
título. Essa editora chama-se Moraes, a colecção «Círculo de Poesia» O
desenho da capa é do José Escada. Sei do que falo; tenho dois livros nessa
colecção. Talvez a explicação esteja na expressão literatura light. Se a
coca cola light é coca cola quase sem coca cola, então literatura light é
literatura quase sem literatura. Decididamente MRP não é deste país. Do
país de Joaquim Pessoa, do país de Ruy Belo e de Jorge de Sena, do país de
Sophia e Vitorino Nemésio, do país de Pedro Tamen e de João Rui de Sousa,
do país de Cristovam Pavia e João Miguel Fernandes Jorge, do país de
Joaquim Manuel Magalhães e Alexandre O´Neil, do país de David
Mourão-Ferreira e Alexandre Vargas, do país de Fiama Hasse Pais Brandão.
Não, não é deste país, do nosso país.

Vinte Linhas 268

Uma Vespa de 1955 em Brighton

Primeiro ouvia-se uma música suave numa praceta. O som brasileiro de João Gilberto em Brighton com saxofone tenor, contrabaixo, fliscorne, viola baixo e voz. Gente do mundo comia a ementa internacional – pizzas, saladas, massas, lasanhas. A moça abandona o grupo e pede, num chapéu, uns trocos para a banda. Acabados de chegar, contribuímos seguindo o princípio de Fausto Bordalo Dias – aos músicos dá-se sempre. Mais à frente, na praia de seixos grandes como ovos, um carrossel antigo e parado faz-se ouvir em músicas do meu tempo de menino ao domingo à tarde antes das transmissões desportivas dos anos 50 e 60: as eternas marchas de John Philiph de Sousa como «American Patrol», «Washington Post» ou «Stars and Stripes for Ever». Na galeria de pintores locais, entre «provas de artista» e «gravuras» com e sem «passepartout», uma colecção de caderninhos de apontamentos tem na capa a célebre «Vespa» de 1955. Com esse caderno vem toda a memória de uma música de liberdade. Por toda a Europa, a partir de Itália, a gente nova que não podia ter um automóvel, comprava uma «Vespa» a prestações. Mesmo com o contratempo das chuvas no Inverno, havia uma música de liberdade nessas «Vespas» do meu tempo de menino. Tu nasceste em 1955, como a famosa «Vespa» e sabes bem o que quer dizer «cinturinha de vespa». Fazia as delícias das modistas e das costureiras. Poupavam-se os saiotes para «armar» saias e vestidos. Entre o pó e o sol das tardes de Verão, os vestidos de tafetá brilhavam como relâmpagos no arraial. E não havia fotógrafos para registar o momento. Apenas o coração. Como vês trouxe de Brighton muito mais do que uma «Vespa» e uma rapariga de perfil em cinturinha de vespa…

o balido dos inocentes

A mão pousava os dedos espalmados na beira do balcão, com o braço a sustentar o peso do corpo em fuga ligeira à ortogonalidade. Está tudo sempre a cascar nos militares, mas queria ver se viesse a guerra. Quando é a guerra, aí já nos querem. Aí é que ficam a saber o horror da guerra, não é como imaginam. Olhe, digo-lhe: o meu amigo se houvesse guerra até me confiava a sua mulher para eu dormir com ela! Nas bochechas do rapaz, de uns vinte anos, vê-se um esforço de contenção que obriga a substituição do riso por um esgar de cortesia.
O homem na reserva debruça-se para a frente, olha de esguelha para mim e levanta o tom de voz. E a corrupção? Andam todos a meter dinheiro ao bolso, mas quando são os militares cai tudo em cima. Nós que somos os primeiros a castigar os nossos, nós que temos uma ética! Agora os políticos, e as estrelas, anda tudo à solta. O único que foi dentro foi o Vale e Azevedo. É sempre assim: os grandes safam-se, quem vai dentro é a lana caprina.

Memória justificativa do livro «The Busby Years»

(a Francisco José Viegas, autor de «Morte no Estádio»)

A morte será também um fuso horário
Um meridiano de silêncio e de escuridão
Entre a água do rio e a madeira do bosque
Todos trazemos uma bagagem de mortos
Este livro evoca os jogadores do M. United
Perdidos num desastre aéreo em Munique

Há a nossa memória de Pavão nas Antas
No jogo treze e no minuto treze a morrer
Em Coimbra, Néne perdido num desastre
Quando o mini não desfez a curva grande
Em Lisboa Toni Kakinda a forte esperança
Da equipa de Caneira e de Simão Sabrosa
Antes Pepe em Belém de vinte e três anos
Com a mãe a trocar bicarbonato por potassa

Nunca se fala nos jornalistas também mortos
Os enviados especiais a esse lugar de morte
De onde já não é possível escrever notícias
Morreram todos assim no seu fato completo
Caneta de tinta permanente e bloco de notas
Cachimbo e todos eles de chapéu à Borsalino
Mas tirando as suas famílias e alguns colegas
Pouca gente recordará hoje os seus nomes
Continuar a lerMemória justificativa do livro «The Busby Years»

eu cá não dou um tostanito

No exame nacional de língua portuguesa, o meu filho não soube responder apenas à pergunta nº 7. Tive pena, porque o texto a que se refere* é belo e esperaria que ele tivesse sido capaz de uma qualquer interpretação do excerto apresentado, solicitação enunciada pela pergunta. Há tempos encontrei um apontamento dele, do ano passado, que rezava:

Eu acho que neste texto o autor brincou com a palavra «preciso», pois é preciso navegar para pescar no alto-mar, para haver peixe no mercado [ah, a actualidade desta frase…], para descobrir novas terras e para se viajar por mar para outros países. Além do mais se uma pessoa quer navegar tem que ser precisa, senão embate contra as rochas. Na minha opinião o verso «Navegar é preciso» é um verso interessante e bom e por isso concordo com ele. Já não concordo com o verso «Viver não é preciso», pois não há morte sem vida e o mundo seria uma desolação. Eu acho que este verso também tem um segundo significado, pois há pessoas que não fazem nada se não viver e outras que fazem tudo excepto viver. Por isso, apesar de não concordar com ele, acho que é um bom verso e merece ser explorado.

O puto tem indubitável paleio. Não entendo porque não terá ele sido capaz de engendrar uma resposta, por manhosa que fosse. E vós, mesmo de graça, quereis tentar?

7. No final do texto, o autor declara: «Sorrir assim, mesmo sem olhos que nos recebam, é o verbo mais transitivo de todas as gramáticas. Pessoal e rigorosamente transmissível. O ponto está em haver quem o conjugue.»

*Encontrei aqui o texto, embora não na versão mais extensa (e também não integral) que surge no enunciado de exame.

valhacoito

Andava eu à procura de uma palavrinha que rimasse com oito (não encontrei, tive de inventar uma), quando me deparei com a seguinte palavra:
valhacoito
de valer + coito
s. m.,
abrigo;
protecção;
defesa;
asilo.
Eu na verdade quando tinha 15 anos, e até ter prái 18, fazia-me bastante falta um valhacoito. À falta de valhacoito mais conveniente, tive que me valer de matas e cemitérios. O carro é o valhacoito clássico mas o travão de mão faz-me nódoas negras. Um amigo meu usa a casa dos pais como valhacoito, mas às vezes chega gente e é um valhacoito interrompido. Agora de valhacoito estou bem servida, pena é não lhe dar uso.

Sanjoaninas

Foi um destes sao Joões
P’rái em noventa e oito
Que baixei os meus padrões
E comi esse alcagoito

Este ano, ó meu santinho
A ver se me fazes o jeito
E arranja-me lá um mocinho
Que não tenha tanto defeito

É verdade ó São João
Eu sozinha não consigo
Dá-me la um empurrão
P’ra acabar com este castigo

Se nao for no São João
Que é do ano a maior noite
Não viro as costas ao colchão
Nem que vá lá de açoite