Vinte Linhas 269

As raposas de Charles Gounod

Quem apanha à meia-noite e cinquenta o último comboio de London Bridge para Lewisham já sabe que lá se forma uma enorme bicha nos táxis. É em Lewisham que termina o DLR, o metro das docas de Londres, pequenino e rápido, guiado por um computador. Seguindo para Blackheath Park encontra-se quase sempre uma raposa que se atravessa no caminho e foge dos máximos do automóvel. Os serviços de recolha de lixo já pediram os moradores para colocarem os sacos com fraldas em cima dos contentores e não ao lado dos mesmos. Chamo-lhe as raposas de Charles Gounod porque o célebre compositor francês viveu aqui durante cinco anos fugindo às confusões da guerra entre a França e a Prússia. Aqui, em concreto em Morden Road, que faz esquina com Blackheath Park no marco de correio da Royal Mail. Entre 1870 e 1875 Gounod andou por aqui ensaiar os maiores grupos corais de Londres. Demorava-se pela Charing Cross Road que ao tempo já era uma rua de livrarias e apanhava o comboio na estação dessa rua em direcção a Dartford. Saía em Blackheath Station e apanhava uma carruagem de aluguer até à sua Morden Road, entre o Paragon e Blackheath Park. Gosto de saber que o meu neto passa todas as terças feiras de manhã à porta da casa que foi de Charles Gounod a caminho da biblioteca municipal onde aprende a cantar e a mexer nos livros com respeito. Ele é pequenino e ainda não sabe que dentro de cada livro, dentro de cada história, poema ou peça de teatro, há muitas lágrimas e muito sangue pisado. Dentro de pouco tempo espero ouvi-lo cantarolar a «Ave Maria» de Gounod, maravilhosa variação a partir de um tema de «O cravo bem temperado» de Bach. Que por acaso era protestante.

11 thoughts on “Vinte Linhas 269”

  1. Gostei deste avô babado e desta história da raposa de Gounod, seu Zé. Dê-nos mais neste registo, mesmo com algum gabarolanço à mistura.

  2. As raposas comem fraldas e o Gounod parece ter sido o autor do Carnaval dos Animais, ou então era matreiro. E cuidado, a estação de CX é na Strand, não na rua de CX. Eu sei do que falo porque já lá apanhei o comboio duas vezes. E aquilo está mau de livrarias, fecharam várias nos últimos anos, de acordo com o cicerone da Abreu.

    Mas este postalito sempre é melhor que um poema à volta do holocausto de futebolistas com potassa e curvas perigosas. E diverte-te com uma visita à biblioteca municipal. Vais gostar de saber que todas elas deviam ser obrigadas por lei a ter um contentor à porta. Exactamente como as de Lisboa.

  3. Qualquer texto, ou fala, que diz “bicha” em vez de “fila”, tem a minha simpatia. Neste caso, também outras, em especial a imagem do sangue pisado.

  4. Não me lembrei dessa do “sangue pisado”, Valupi. Eu sabia que havia algo que me obrigou a falar da necessidade de contentores às portas das bibliotecas. E não te admires com as “bichas” em Londres, anda por lá muito compatriota do Pelé e o Zé, melhor que ninguém, sabe disso.

  5. O que interessa acima de tudo é ver este avô babado que, daqui a meia dúzia de anos , há-de apanhar ese mesmo combóio com o neto e há-de encontrar as palavras certas para nos relatar as suas emoções.
    Quem sabe se em Inglês, pois o neto há-de fazer questão que o avô também faça prosa ou verso na língua da sua terra natal.
    Boas férias, José do Carmo
    Joaquim

  6. Já agora que falaram em bichas e em filas devo dizer que uma fulana altamente suspeita tentou armar barraca em Lewisham dizendo a toda a gente que estava próximo dela na bicha dos táxis: «Don´t touch me, if you touch me I will fuck you!» Não chegou a haver nada porque ninguém lhe deu troco e as raparigas e mulheres presentes mandaram-na calar… Parvalhona…

  7. também eu gostei do texto, devem ter sido umas férias de avô babado e inspirado.

    essa senhora da bicha é a confirmação do que tenho dito. nem com revolução sexual se cria oportunidades para as mulheres, não venham cá dizer há por aí muito macho disponível. nem mesmo com anúncio público. a prova é que o jcfrancisco diz que «ninguém lhe deu troco».

  8. Bem Susana… tájavèr (como diz o outro) à uma da manhã em Lewisham, estoirados de um dia de trabalho, os gajos querem é apanhar o táxi e ir fazer ó-ó. Agora um passeio em Richmond, por exemplo, com os cafés mesmo em cima do Tamisa, já é diferente. É outro espaço e outro lugar. Tájavér?

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