Reconquista

As obras públicas financiaram os partidos e seus quadros, os quais ocuparam executivos e autarquias, e estas entidades desviaram, legal mas antipatrioticamente, o dinheiro dos contribuintes para as obras públicas. Ganharam os empresários e os políticos, fez-se a típica corrupção a coberto dos interesses de todos e que a todos envolve, que todos aceitam, incluindo as populações. Pelo meio, a política do betão e do alcatrão transformou a geografia das deslocações, acabando com o interior e aumentando a interioridade: 6% do território continental concentra 50% do seu poder de compra, 45% da população, 47% das empresas, 70% da facturação empresarial, 73% dos impostos do Estado e 78% do crédito bancário. É tempo, pois, de partir à reconquista.

As causas que levavam ao êxodo rural e provinciano acabaram. Já não há falta de meios de informação, de vias e transportes, serviços e comodidades. O que falta no outro lado do litoral são agentes económicos inovadores, empreendedores heróicos, pessoas decididas a criar riqueza para a comunidade. E está tudo pronto para eles chegarem e conquistarem as terras abandonadas ou profanadas, convertendo os locais à nova fé: a criatividade. Deverão ser os mais inteligentes a iniciar a reconquista, levando consigo os conhecimentos e a vontade para vencer a inércia e a descrença dos infiéis. Os mais inteligentes querem sair das cidades desoladamente opressivas, dos prédios promíscuos e feios, das relações humanas sem alma nem Graça. Os mais inteligentes sabem que têm de combater ou serão escravizados, destruídos. As armas serão os ideais de um novo urbanismo, nova ecologia, novo modelo de trabalho, nova forma de sustentação energética, novo espírito de comunhão com o mistério, uma integral e íntegra cidadania.

Viver em locais onde as deslocações são maioritariamente feitas a pé, ou em rede de transportes públicos eficaz e confortável. Trabalhar sem horário fixo em actividades de produção intelectual. Explorar os recursos da floresta, da agricultura e da paisagem de forma sustentada e multiplicadora dos bens naturais. Habitar em casas e escritórios que sejam mini-ecossistemas regeneradores e produtores de energia limpa. Ter um estilo de vida socialmente luxuriante e fisicamente activo em frequente, ou permanente, contacto com a Natureza. Recuperar a actualidade e perenidade do passado histórico e cultural dos locais e regiões. Educar para a confiança e para a partilha de recursos. Educar para a coragem. Ter a coragem de confiar no vizinho, no governante e no estranho. Lembrar que o tempo livre é o bem económico mais valioso, a perfeição da acção política. E ser a sempiterna procura de ti, amor que estás sempre a chegar. É isto que encontro quando olho para o interior.

19 thoughts on “Reconquista”

  1. Ó pá, tão lindo! Eu acho que este texto vai provocar uma debandada tão grande e tão rápida dos litoralenses para o interior, que Lisboa, amanhã, vai acordar como Nova Iorque naquele filme do Will Smith, A Lenda, com os bichos do jardim zoológico a pastar na Praça da Figueira e um único habitante, um palerma qualquer que não leu este post.

  2. Os gajos aí das cruzadas para o interior, nas expedições assinaladas nas setas verdes, vão tão depressa que se arriscam a bater com força com os cornos nas muralhas de Elvas e de Almeida! Aíôôôô

  3. Valupi,

    Há pelo menos duas maneiras de reagir a este teu post. Uma é pensar que para chegarmos à quase certa Distopia que nos ofereces, apesar das tuas elevadas intenções, não é preciso trabalhar tanto; outra é apanhar o eléctrico e ir ao templo mais próximo das Testemunhas de Jáovi e pedir aos senhores o que é que temos que fazer para aderir à causa.

    Quanto ao resto, é um bom manifesto, cheio de calor reconquistador. Impressiona-me o volume dos materiais que nos obrigas a digerir. Se o teu estilo não fosse tão próprio e inconfundível diria que és uma pessoa colectiva.

  4. Pedro, concordo contigo: é lindo. Mas a debandada que antevês é patológico optimismo. As minorias discretas são discretas.
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    SUBSTANTIA, estás certíssimo: não é preciso trabalhar tanto. É preciso é trabalhar melhor. Creio que a História exibe esse percurso.

  5. Do que eu gostei mesmo foi de ver a Covilhã no mapa. Mas por favor, não mandem pra cá mais gajos da província.

  6. isso acrescentado ao fim-de-semana de três dias deveria ser sujeito de uma petição na net. daquelas que todos assinamos mas nunca chegamos a saber que foi feito delas. aliás: que fizeram elas.
    mas é lindo e faz sonhar. e esse amor do fim honra o apelido que é nome próprio do autor.

    substantia, creio que farias melhor em dirigires-te à igreja maná.

  7. Este Val tem coisas que quase nos fazem verter uma lágrima de optimismo e confiança no futuro. És um mobilizador e um propagandista nato, pá. Porque é que o Sócrates não pega em ti e não vão à (re)conquista de Portugal? O país não precisa de mais merdosos do Restelo, descrentes e viciados em tricas neuróticas, que os há aos milhões. Precisa de gajos inflamados de inocência visionária coma ti, carago! Viva Trás os Montes corajoso, criativo, intelectual e ecossistémico! Viva!

  8. Foi isso que eu vi, quando há dez anos vim para o interior. Mas não é bem assim: o interior não quer viver em harmonia sustentada com o campo e os passarinhos; os políticos locais, pelo menos, fazem tudo o que podem para que os seus munícipes vivam como os oprimidos das cidades em prédios feios. Ou os líricos invadem isto depressa, ou estamos todos perdidos.

  9. meu irmão, se não te importas eu vou paara o outro lado dessas setas todas que quero um fado tropical, mas quanto ao resto acho bem

    Nik tenho uma coisa a confessar-te pá, meio envergonhado mas vá: lembras quando me cumeste aquele 111? Fiquei lixado, e andavas para lá a tecer hinos à Ibéria e eu de dragão alambazado. Eu agora depois do euro ando um vendido pá, gostei da vitória, gosto do Zapatero, nem falo do Casillas, acho a Letizia guapa e mais umas coisas – ando comovido com nuestros hermanos e depois olhando para o mapa vê-se bem que dos Pirinéus para cá isto é uma coisa conexa. Esta é tua.

    Ontem andei a brincar de Nick pelas ruas, as esquinas

  10. Rita, fica descansada. Só enviaremos pessoal da Avenida de Roma.
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    susana, o fim-de-semana de três dias também não deve demorar muito a chegar.
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    Nik, o Sócrates que mande um email, ou apareça a comentar, e logo se verá. Mas não creio que precise de ajuda.
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    Salgador, assimilação com Espanha? A Espanha não existe, homem.
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    V, eu sei. Tens toda a razão, e também por isso o poste. A verdade é a de que grande parte da mancha urbana da província é uma continuação da Damaia e Odivelas. Os centros e arredores das vilas estão a ficar todos iguais e todos desgraçados.
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    z, estás perdoado, então.

  11. Caro Valupi, por uma vez, o seu ângulo de análise é muito inferior e de sentido inverso (certeiro e inédito) ao que é habitual em si.

    A prosa é bela e fresca, comestível, um verdadeiro conto de fadas, normalidade em si.

    Mas a Reconquista deve ser feita ao contrário. É verdade meu caro, ora observe:
    Deve ser mais uma Expulsão ou Devolução às origens dos pobres citadinos à força.
    Os que não se libertam do leite materno. Os que são de lado nenhum.

    Os herdeiros de um passado nobre nas relações de vizinhança, com pais e avós aqui nascidos, os legítimos e característicos de qualquer bairro de Lisboa, Odivelas, Damaia, tinham a sua história feita de gente humilde e solidária. Que se prova na aceitação do outro, pela partilha, etc.

    Faça uma análise às origens dos servidores, e dos que se servem do Estado.

    Por mim, tenho para devolver, além do Isaltino de Oeiras, a manda chuva aqui de Odivelas, creio que é do Alentejo profundo, possivelmente do pulo do lobo.

  12. Caro santos, não duvido da falência da minha análise, neste como em qualquer outro texto. Mas duvido da tua solução. Devolver à origem seria perder tempo, outros viriam. O que está em causa é ocupar o espaço livre e reconquistar um mundo natural e humano impossível de viver na cidade (ou nas actuais cidades).

  13. Caro Valupi, não se trata de falência geral e absoluta de todo o texto, bem pelo contrário. Também não creio que lhe tenha proposto qualquer solução radical.

    Ao seu texto falta práxis para lhe dar consistência, questione quem tentou instalar-se nesse “espaço”. O que encontrará nesse “interior” é uma realidade muito triste, falo do concreto e não do imaginário. Os locais ou o vêem como negócio de oportunidade ou como explorador e oportunista, por vezes reclamam direitos que não obtiveram em partilhas, etc.

    O que se passa então? Dos jornais desta semana – cerca de 100 famílias africanas que viviam em barracas no trajecto da expansão da CRIL resolveram os seus problemas.

    Os políticos da nossa terra como sempre, colocaram na solução, dinheiro e mais dinheiro, mais de 90 famílias optaram pela indemnização, mais ou menos 50,000 euro´s. Análise possível: de um lado um lavar de mãos, do outro às urtigas os laços de comunidade que reivindicavam no início das negociações.

    É legítimo, dirá, não creio. Casos semelhantes se passam com os antigos bairros sociais, depois da posse o brutal negócio, que de pobre já nada tem.

    È sempre um prazer ler os seus textos. “Lembrar que o tempo livre é um bem económico valioso”, é uma pérola que lhe agradeço. É a minha práxis.

  14. Caro santos, o meu texto não passa de um devaneio irresponsável para consumo inconsequente, é assim que entendo a (minha) escrita na blogosfera. Mas a sua bondade mantém-se: apontar para o interior e dizer que há ali um conjunto de oportunidades para criação de riqueza e realização pessoal. Isso é inegável, para mim, tais como inegáveis são as dificuldades de tal empresa.

    Quanto a quem se tentou instalar no espaço, há de tudo. Os casos mais interessantes, para a minha tese, são os de cidadãos estrangeiros da Europa – alemães, holandeses, belgas, franceses, ingleses – que vieram para o mais recôndito interior, ou para zonas rurais ainda intactas, e encontraram nesses locais o seu paraíso. Um paraíso feito de trabalho, de recuperação das tradições locais em muitos casos ao abandono pelos próprios habitantes nativos. O que importa realçar, no exemplo dessas pessoas, é o facto de elas chegarem com um grau de educação e civilização muito superior ao dos portugueses que não cuidam do que têm. E não cuidam porque não sabem cuidar, pois as oportunidades estão à sua frente e debaixo dos pés. É disto que falo, porque é isto que vejo.

  15. nem fui ler a resposta , se é que tive , ao meu último comentário. espero que não esteja tão zangado comigo como eu mereço. mas , de todos os seus postais este é aquele com quem mais eu me identifico. com net , tv cabo , telemóvel , e boas vias de comunicação já não existem impedimentos de maior para uma reocupação do interior .é preciso uma marcha para o equilibrio. litorilizaçao e bicéfalia urbanas não foram favoráveis a Portugal. a desvalorização do rural também não. evidentemente que não quero tomar duche de água fria no inverno , sabendo que posso tomar quente. mas sabendo que posso viver na terra ,o meu habitat natural , passo bem sem alcatrão. há que fazer escolhas , genéro saco plástico descartável ou saco de pano reutilizável. mas saco. é uma questão de consciencialização de desperdicio do efémero.

    ps) convinha era que não fossem fechando serviços como os de saúde ou educação no interior . de velhota , morando por amor , a mim ou á terra ou a ele ,em trás do sol posto para ver o nascer do sol e cheirar as manhãs , gostava de saber que há um hospital a menos de 30 km ou coisa parecida. ou de ter escola perto pros netos.

  16. c, se mereces que estejam zangados contigo, tu lá saberás. Daqui deste lado, escapou-nos a maldade.

    Quanto ao que dizes, não posso concordar mais. E se ocorresse uma migração para o interior, ainda mais e melhores serviços iriam aparecer por força da demografia. Mas desconfio que o tema das distâncias aos hospitais é uma falsa questão. Durante milhares e milhares de anos, nem sequer hospitais ou médicos existiam. As pessoas protestam no meio da abundância, e perdem o discernimento.

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