Vinte Linhas 268

Uma Vespa de 1955 em Brighton

Primeiro ouvia-se uma música suave numa praceta. O som brasileiro de João Gilberto em Brighton com saxofone tenor, contrabaixo, fliscorne, viola baixo e voz. Gente do mundo comia a ementa internacional – pizzas, saladas, massas, lasanhas. A moça abandona o grupo e pede, num chapéu, uns trocos para a banda. Acabados de chegar, contribuímos seguindo o princípio de Fausto Bordalo Dias – aos músicos dá-se sempre. Mais à frente, na praia de seixos grandes como ovos, um carrossel antigo e parado faz-se ouvir em músicas do meu tempo de menino ao domingo à tarde antes das transmissões desportivas dos anos 50 e 60: as eternas marchas de John Philiph de Sousa como «American Patrol», «Washington Post» ou «Stars and Stripes for Ever». Na galeria de pintores locais, entre «provas de artista» e «gravuras» com e sem «passepartout», uma colecção de caderninhos de apontamentos tem na capa a célebre «Vespa» de 1955. Com esse caderno vem toda a memória de uma música de liberdade. Por toda a Europa, a partir de Itália, a gente nova que não podia ter um automóvel, comprava uma «Vespa» a prestações. Mesmo com o contratempo das chuvas no Inverno, havia uma música de liberdade nessas «Vespas» do meu tempo de menino. Tu nasceste em 1955, como a famosa «Vespa» e sabes bem o que quer dizer «cinturinha de vespa». Fazia as delícias das modistas e das costureiras. Poupavam-se os saiotes para «armar» saias e vestidos. Entre o pó e o sol das tardes de Verão, os vestidos de tafetá brilhavam como relâmpagos no arraial. E não havia fotógrafos para registar o momento. Apenas o coração. Como vês trouxe de Brighton muito mais do que uma «Vespa» e uma rapariga de perfil em cinturinha de vespa…

8 thoughts on “Vinte Linhas 268”

  1. 1 – Essa tua “uma rapariga de perfil em cinturinha de vespa…” deve ser coisa bem estranha. Sem dúvida preferiria a bem-amada de Juca Chaves com a bundinha para a frente e um só seio nas costas.
    2- O português ou brasileiro que primeiro traduziu Flugelhorn por Fliscorne deve ter sido um “in flis”.

  2. Bundinha para a frente, inda vá. Um só seio nas costas, Zeca? Pruquê, rapais? Ispilica que eu não estou entendendo.

  3. O Juca explica: uma mocinha dessas pode parecer esquisita mas para acompanhar numa dança é excepcional.

  4. Concordo com o Valupi, bom postal. Mas não sei se ele estaria no gozo com o seu “tocante”. Marcha militares antes de relatos de futebol? Essa era mesmo à Salazar! Capaz de andar a preparar os ferrenhos por futebol para uns tirinhos em África. Homem de visão, esse saudoso fascista…

    1955 foi um bom ano, mas teria sido o ano em que a “Vespa” nasceu? Confirma, hoje é dia de se aprender. Assim que li, lembrei-me logo das “Férias em Roma”. Estranho o Valupi não ter reparado nisso.

    E essa do Philiph escapou ao Zeca. Éfes a mais, acho eu.

  5. Substancia, “Philiph” pode ser copos mas deve ser gralha.
    A Vespa é de 1946, “Férias em Roma” é de 1952, jcf refere-se à famosa Vespa 150 GS de 1955 com motor de 150 cc, um luxo apaneleirado.

  6. Em 1973 ainda fui ao Cascais Jazz com uma rapariga numa dessas Vespas e olha que não era nada apaneleirado, não senhor… Safa!

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