Vinte Linhas 272

«A cunhada do Pintor» no Museu do Prado

O Museu do Prado encheu-se de retratos antigos na exposição «El retrato del Renacimiento». Um dos mais famosos é o retrato feminino de Bernardino Lucinio. O dito quadro, também conhecido por «A cunhada do Pintor», dá-nos a beleza em esplendor de uma mulher com um livro na mão. Este pormenor (com um livro na mão) lembra-me uma mulher que à hora a que escrevo, algures entre as estações de Nuevos Ministérios e de Barajas Terminal 4, deve estar a fechar a porta da sua livraria em Lisboa. Isto porque em Lisboa os relógios marcam menos uma hora. Mais ao lado está o retrato de Katharina Fürleger de Dürer e um Tintoretto com a imagem de Verónica Franco, a mais bela mulher que viveu em Veneza entre 1546 e 1591. E também Rubens com Brígida Spínola Dória sem esquecer Franz Pourbus com a bela Margarida Gonzaga. Em todos estes quadros há o projecto alcançado de vencer o tempo. Quase quinhentos anos depois de terem sido pintados, permanece nestes óleos uma beleza que não morre. Morreram os modelos mas o produto do trabalho dos artistas chega intacto até nós. No meu caso sem necessidade de pagar – os porteiros do Museu do Prado aceitaram a carteira profissional e, com um sorriso, entregaram-me um bilhete a zeros. Não são como os do Jardim Botânico que me obrigaram a pagar 2 euros. Quis juntar Arte e Natureza no mesmo dia. Além de uma temperatura agradável lá descobri uma rua dedicada ao nosso Avelar Brotero. Quando saí do Jardim Botânico a caminho da estação de Atocha ainda trazia no olhar o esplendor da beleza das mulheres da Renascença misturado com a memória da beleza de uma mulher que, a essa mesma hora, pegava num livro e fechava a porta da sua livraria em Lisboa.

6 thoughts on “Vinte Linhas 272”

  1. E, ao referir Avelar Brotero (o Félix, visita lá de casa), fez-me lembrar “O que diz Molero”, e fez-me lembrar o Diniz Machado, aliás o Dennis McShade que, quarenta anos volvidos viu a Assírio Alvim reeditar-lhe o enorme “Mão Direita do Diabo”.

    (E, ao referir Rubens, fez-me lembrar o filho e o sobrinho da minha governanta, que se chamam ambos Ruben…)

  2. Do esplendor na relva passámos ao esplendor no Prado, e dos vaporettos aos tintorettos. Lindo, e com muito mais espaço para estenderes o olho de apreciador fino do pincel renascentista. Na epíxotala postálica ninguém faz farinha contigo.
    Fiquei banzado: dois gigantescos euros para ver as ervas do botânico, mesmo apresentando a tua carteira de profissional? Que falta de consideração!

    E não me digas que livro é que a senhora bela ( a tua, pois claro, os negócios, os negócios, meu carteirista profissional) da livraria de Lisboa anda a ler. Prefiro viver no esplendor da expectativa de que poderá ser aquele que nos conta que o Hitler, os bolchevickies e o Roosevelt do New Deal eram todos financiados pela mesma bolsa. Ou talvez não, mas nem quero pensar nisso porque fico logo cheio de nervos.

    Manda mais, Zé, és o último vestígio de imaparcialidade neste blogue.

  3. Desgraçadamente, lá voltamos nós ao mesmo. Perdão, lá volta o Carmo ao mesmo. Versado – ou verseto? – na acepção da palavra. Em tudo, mesmo na pintura. Do Tintoretto ao palheto, passando pela aguardente do tio, este José do Carmo Francisco é um portento de sabedoria, de cultura, de conhecimentos a todos os níveis. Até os porteiros do Museu do Prado lhe aceitaram a carteira profissional, e com um sorriso, imagine-se! Mas foi pena. Aos Zés pacóvios como ele devia cobrar-se era a dobrar!

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