Um livro por semana 81

 

«A ressurreição da água» de Maria Antonieta Preto

Quatro anos depois de «Chovem cabelos na fotografia» Antonieta Preto regressa com «A ressurreição da água». Num espaço e num tempo plenos pelas novidades uniformizadoras (automóvel, TV, Internet, telemóvel, hipermercado) a autora constrói narrativas nas quais os protagonistas se defrontam com problemas essenciais e antigos. A falta de água por exemplo: «Era uma tristeza já a gente olhar para o campo. Lembro-me quando houve as últimas novenas. Pedimos água a cantar, enxurradas de força. Perdemos todas as criações: o nosso campo inteiro. Perdemos também as mulas e as cabras a pastarem. Perdemos as romãs nas romãzeiras. Perdemos as batatas, as favas, os alhos, as cebolas.» A água é a fonte da vida; a terra é o lugar da morte. A autora explica que «Antigamente os mortos não morriam» porque eles «iam vivos para dentro da terra.» Surge aqui uma dualidade: a narrativa e o Mundo: «Tenho os olhos cheios de estórias como os meus olhos estão cheios de mundo. Aquilo que se conta sonha-nos e transforma-nos e dá-nos um mundo dentro de outro mundo. O mundo nunca é verdadeiro sem todos os mundos dentro dele». Entre o Mundo e a Escrita a autora não pára de inventar («Invento todos os dias a vida que existe») criando novas realidades em si («criei um céu no meu quintal») e nos outros: «Às mulheres desta aldeia oiço dizer coisas esquisitas: que os seus homens não querem amá-las.» Contra a secura da terra e a aridez do Mundo só a alegria da água pode salvar e fazer a ressurreição das vidas perdidas: «A vida lá fora é insalubre. A vida lá fora é pantanosa. A vida lá fora é desperdiçada.»

 

(Editora: QuidNovi, Foto: Daniel Mordzinski, Notas: Paulo Barriga, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel Silva Ramos, Jorge Listopad e Miguel Real) 

2 thoughts on “Um livro por semana 81”

  1. Meu caro José do Carmo:

    Haverá alguém que se lembre que a terra e a água são a própria vida ?
    Um Abraço
    Joaquim

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