Vinte Linhas 285

«Uma memória de Pereiros» de Joaquim do Nascimento

São 14 crónicas de revisitação («Nasci nos Pereiros e ali vivi até aos doze anos») e daí o subtítulo – «Quotidianos de uma aldeia do Alto Douro – 1930-1980». A geografia sentimental é vasta: «A fonte da aldeia, a azenha ou lagar do azeite e o forno, tal como a igreja, as capelas, o cemitério, as tabernas, ou sotos quando vendiam tecidos, a escola do Combro e as salas de aula que precederam esta, se alguém ainda as conseguir identificar, os velhos caminhos, o rio e os seus açudes e pontes, o moinho da tia Elisa, a caminho de Valongo mas ainda do lado de cá do rio, tudo isto constitui a memória colectiva do povo dos Pereiros». Tudo começa na paisagem («As árvores da minha terra são os sobreiros, embora uma ou outra oliveira de tronco carcomido pelos anos possa figurar em segundo lugar») e acaba no povoamento: «Nos Pereiros, ao pedreiro, ao carpinteiro, ao ferreiro, ao ferrador, ao sapateiro chamava-se artista». Fiquemos pela crónica sobre a carreira: «Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias e nos ligava pela EN 222 à Vila, ao Comboio e ao Mundo. A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava todas as manhãs, pelas oito e trinta minutos a caminho do Pinhão e regressava às quatro e meia da tarde. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira constituía a actividade social mais importante da gente da Vila e não vestir a melhor roupa para solenizar esse momento podia desqualificar um cidadão. Nesse curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas, comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras, bisbilhotando quem tinha chegado e imaginando o destino de quem seguia, assim alimentando o seu imaginário de moradores desta pequena Vila do interior, onde nada se passava desde os tempos do senhor Marquês de Pombal e da criação da Real Companhia Velha».

(Editora: Padrões Culturais, Capa: Mário Andrade, Apoio: Associação Amigos de Pereiros)

2 thoughts on “Vinte Linhas 285”

  1. Obrigado, José Francisco, pela sua amável atenção.
    Ainda um dia lhe hei-de mostrar os Pereiros, não a aldeia dos dias de hoje que vai desaparecendo aos poucos, mas os Pereiros da minha infância onde cabia o
    Mundo e o Futuro
    J. Nascimento

  2. Ola!
    Procurando algumas informaçoes sobre a aldeia de Pereiros, acabei por encontrar este site internet onde se fala d’um livro sobre os Pereiros.

    Gostaria de saber onde posso comprar este livro, e gostaria saber se o senhor JOAQUIM DO NASCIMENTO tem alguma relaçao com o meu pai o senhor Américo Do Nascimento Ribeiro.

    Obrigado pela sua resposta.

    Philippe.

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