Vinte Linhas 291

Jorge Bretão – o sacerdote da liturgia da memória

Os telemóveis não paravam de avisar na quinta-feira cheia de sol: morreu o Jorge Bretão. Assim de repente, esta notícia. Ele, jornalista sem jornal e poeta sem livro publicado, deixava de contar histórias e entrava para a história. Açoriano e Terceirense apaixonado, fez parte de duas das mais curiosas tertúlias de Lisboa. Uma semanal na Sociedade de Geografia e outra mensal com Dulce Matos na Valenciana em Campolide.

Almoçar ou jantar com o Jorge era ter direito a todas as memórias. Ele era um sacerdote que as celebrava com fervor. Podia ser uma viagem a Buenos Aires, uma tourada em Vila Nova, um certo teatro de Viena ou uma ilha de Veneza onde as mulheres ficam a repetir nas rendas o quadrado branco das redes dos pescadores da laguna. Ou podia ser uma procissão, um tremor de terra, um império do Espírito Santo (Glória ao Divino!) ou um grupo de músicos a tocar o pezinho dos bezerros. Ou ainda uma história da Universidade de Coimbra, uma aventura em Cabinda no serviço militar ou a paixão pelo Belenenses, o único clube que tem a Cruz de Cristo no emblema.

Natália Correia escreveu um dia estes versos definitivos: «Nasce-se em Setúbal / Nasce-se em Pequim / Eu sou dos Açores / Mas não é assim / A gente só nasce / Quando somos nós / que temos as dores». Se é assim para a vida, talvez para a morte seja a mesma coisa. Assim, por exemplo: «A gente só morre / quando são os outros / que nos esquecem».

Se morreu o poeta sem livro e o jornalista sem jornal, o amigo não morre e continua na memória activa dos seus companheiros. Todas as segundas-feiras e nas últimas quartas-feiras de cada mês, na mesa do encontro, altar pequeno onde se celebra a memória.

2 thoughts on “Vinte Linhas 291”

  1. Choremos a sua partida e recordemos a sua memória, com toiros, alcatra e sopas do Santo Espírito, como ele desejaria
    Joaquim

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