Vinte Linhas 287

A francesinha torceu o pé no domingo de manhã

Num destes domingos de sol inesperado nos arredores de Paris, a francesinha torceu o pé. Bastou perceber que o pai (português) estava a bater à porta do quintal com os tios de Lisboa para, alvoroçada pela surpresa, surpreendida pela ousadia do pai, ter torcido o pé. Afinal o pai (português) estava só a mostrar uma parte dos arredores de Paris onde vive a canalha de Sarkosy (marroquinos, senegaleses, tunisinos, argelinos) e, como estava muito perto, foi mostrar a pequena moradia da filha aos tios de Lisboa.

Há trinta anos a avó da francesinha ficou muito surpreendida quando o pai (português) recusou de modo firme a hipótese (para ela óbvia) de passar a ser cidadão francês. Ele, cidadão de um país com fronteiras definidas muito antes da França que, ao tempo, era apenas um amontoado de ducados e condados. Mas para ela não era o genro nem o pai dos seus netos; era o estrangeiro. Há quinze anos a mãe da francesinha acusou o pai (português) de estar a assediar uns pequenos ladrões de bicicletas vizinhos quando ele apenas tentava recuperar as três bicicletas que os pequenos ladrões tinham roubado aos seus três filhos. Mas para ela não era o marido nem o pai dos seus filhos; era o estrangeiro. Neste domingo a francesinha torceu o pé porque se surpreendeu e alvoroçou num domingo de manhã cheio de sol ao ver o pai com os tios de Lisboa a bater ao ferrolho da porta do quintal. Mas para ela não era o pai, aquele em cuja casa os seus filhos ficam todos os dias; era o estrangeiro.

A ligadura que envolve todas estas pequenas histórias tem um nome (chauvinismo) e uma raiz comum: a maldade humana que, como sabemos, é infinita.

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