Vinte Linhas 294

Os «Narcóticos» de Camilo num banco frente ao mar da Ericeira

Leio o volume II dos «Narcóticos» de Camilo Castelo Branco (Bonecos Rebeldes) no banco de Marta (blog laberintodepapel) frente ao mar da Ericeira. O sol de Outono ilumina as páginas: «O leitor não se assuste. Pelo facto de chamar-se Narcóticos o meu livro, abstenha-se V. Exa. da pretensão egoísta de abrir a boca logo que abrir o livro e estirar-se de papo acima numa regalada modorra cheia de roncos assobiados em cromática infernal pelas trompas nasais. Não pretendo ser mais opiado e calmante que outro qualquer livro nacional. Estimo que adormeçam mas devagar, com os espreguiçamentos usuais nas duas Câmaras e etiquetados com frascos na grande farmácia do Diário das Cortes». Camilo comenta os direitos de autor, discorda de Alexandre Herculano e afirma: «A literatura-mercadoria, a literatura-agiotagem tem na verdade progredido espantosamente». Mais à frente, sobre a poesia, proclama: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». As eleições de 1879 originam esta observação: «O Governo progressista de 1879 fez retroceder a liberdade do sufrágio a 1845, com a diferença que antepôs à violência da paulada o suborno das consciências com mais suaves pressões, exceptuando os dorsos que as sentiram duras». A suspensão do «Boletim da Bibliografia Portuguesa» dirigida por Fernandes Tomás merece a Camilo este reparo: «A suspensão deste periódico é um dos sintomas da podridão que nos vai relaxando e acanalhando a um raso de desprezo das letras que não tem semelhante em parte do Mundo, onde, alguma hora, houvesse livros e civilização».

A Anabela trouxe das Caves de Gaia um Ramos Pinto de lei. Com ele, com as castanhas e os sonhos de abóbora da esplanada de Santa Marta poderíamos fazer um pão-por-Deus. Marta, se não sabes o que é um pão-por-Deus eu explico na próxima crónica.

3 thoughts on “Vinte Linhas 294”

  1. É o esplendor da maldade. Não é elogio; é encontro. Lá porque ninguém se encontra contigo não sejas maldoso para com os outros. Procura mudar mas para melhor. Não sejas mau; já existe tanto mal no Mundo, porquê mais?

  2. A quem pretendes enganar? Trouxeste para aqui o endereço do blog da rapariga com o único fito de lá irmos ver o que a desprevenida dizia de ti. O Evereste é pequeno ao lado da tua vaidade.

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