Na melhor inteligência cai a imbecilidade

Fernanda Câncio é uma jornalista de prestígio já estabelecido (o PSD que o diga), e uma personalidade com crescente carisma público. O nascimento do jugular estará ligado, em parte, ao seu cleopátrico nariz propenso a atrair mostarda. E o espirro, dito alérgico, deu origem a um novo blogue muito bem composto. Ora, estas circunstâncias não a protegem contra a imbecilidade, como este seu texto faz questão de lembrar. O caso explica-se em poucas linhas, porque nasce de poucos raciocínios.

O primeiro parágrafo situa-nos na África mais miserável, onde uma jovem foi morta por decisão de autoridades religiosas islâmicas. O segundo parágrafo transforma o caso individual num símbolo de todas as vítimas da violência exercida em nome de certas ideias de Bem. E o terceiro parágrafo faz uma surpreendente e atarantada confusão entre escrituras sagradas e práticas religiosas. Termina referindo o Deuteronómio como prova de culpa dos católicos. Estamos, pois, perante um exercício de escrita expressionista, o qual se qualifica como imbecilidade pela sua completa falta de lógica.

Como foi dito na caixa de comentários, estabelecer uma relação causal directa entre palavras e actos obriga, então, a reconhecer nos actos de bondade, e de sacrifício, a influência da mesma fonte de todas as palavras que uma qualquer religião venere. Esta é a primeira contradição, pois quem ataca os textos das religiões não aceita que eles possam ser validados pela acção dos crentes. Quem age pela fé terá ainda, e sempre, de se conformar ao edifício axiológico dos críticos para não ser atacado. Mas assim que faça algo oposto, ou meramente diferente (abstinência sexual, por exemplo), vai levar com o carimbo da censura e da maledicência. Os ateus não toleram exibições públicas das equipas concorrentes, só um dos credos pode ter direito à cidadania.

A segunda contradição, e a mais grave, é a que resulta de não se ter formação em ciências socias (ou, a ter, ela não ter gasto). Isso permite a deformação inverosímil, repetida pela autora nos comentários, de relacionar passagens do Deuteronómio com a experiência de fé dos católicos. Esta é uma situação que desperta a tentação do achincalhamento, tamanha a estupidez, mas até para efeitos de economia é preferível ficar por uma só palavra: historicidade. Este conceito remete para o concreto do devir histórico, afastando as abstracções reducionistas e ideológicas. No caso do livro convocado, estamos perante um texto que – no mínimo dos mínimos! – é fulcral para se conhecerem dimensões etnográficas, históricas e antropológicas de povos que viveram há 3, 4 e 5 mil anos; e ainda mais longínquos, pois tudo na ciência é correlacionável e cumulativo. Este mesmo texto tem valor sagrado para os católicos, todavia em grau muito inferior ao da sua importância no judaísmo. Mas o que é obrigatório afirmar é a sua ineficácia jurídica e social. As leis, regras e preceitos descritos no Deuteronómio não resistiram ao tempo na sua valência literal. Porém, permaneceram como fonte de inspiração no contexto maior da hermenêutica e exegese bíblicas, as quais alimentam constante e renovadamente a teologia. Se quiséssemos limpar a Bíblia do que nos parece desajustado segundo a moral e compreensão de cada um, e no tempo e local que for o seu, quem decidiria o quê? E que restaria? Isto, como é óbvio, constrange ter de ser explicado.

Fernanda Câncio, afinal, também está Bem-intencionada. É esse o seu inferno.

51 thoughts on “Na melhor inteligência cai a imbecilidade”

  1. Pois, dizes bem e fizeste uma excelente síntese nesses 3 pontos.

    Eu já nem estou para perder tempo com paranóias. Mas gostei de ver como ela perdeu autenticamente as estribeiras com o educadíssimo António Parente.

    Vieram-lhe os azeites à tona, apenas por lhe mostrarem que precisava de estudar primeiro.

  2. O António Parente tem esse dom. É tão educado e com paciência de santo que os proselitistas não aguentam. Ó Ludovico da Treta já foi uma besta com ele e o maluco que pede para as pessoas comentarem com o nome verdadeiro- um gajo que tem um nome que é mentira- o Desidério Murcho- ainda fez figura mais triste.

  3. O Desidério é mesmo pior que a Côncio, porque é um empinado grunho que até insulta os colegas do blogue. E manda bacorada até dizer chega- aquele tique de confundir a noção de Deus com os grifos e fadas, para chamar a tudo patranhas, dava direito a chumbo num primeiro ano de Filosofia.

    Mas eu farto-me de rir com a estupidez de continuar com aquele pedido para os comentadores usarem o seu verdadeiro nome, porque ele também usa.

    Como se a malta tivesse de pagar pelo padrinho.

    ahahahahaha

  4. O problema da Câncio é que transforma tudo em causa política. Também já escreveu gigantescas asneiras a atribuir os instintos homicidas a leituras de Fernando Pessoa ou de Nietzsche.

    Como disse o bacano do Filipe Moura, ela tem 2 causas na vida- os casamentos gay e as rendas de casa.

    E devia ficar-se por aí que já é trabalho para uma vida.

  5. Olá zazie, estás boa? Eu vou indo menos mal, com a graça de deus.

    Desidério Murcho é um nome de antologia, de facto. Presta-se a especulações. Contradição viva: desejo e murchidão no mesmo pacote. Disfunção eréctil, pela certa. Em o gajo tomando um daqueles comprimidos azuis, passa a assinar Desidério Firme.

  6. Z, fazes muito bem.
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    zazie, de facto, aquilo com o António Parente é já romance. Mas foi curioso ver a rapariga a esfalfar-se toda para dar a volta ao texto. Sinal de uma óbvia má-consciência. Também teve graça a invocação do apoio recebido por email vindo de vários católicos. Os argumentos de autoridade nunca perderão utilidade.
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    shark, faço minhas as tuas palavras.

  7. Olá sharkão

    “;O)

    O Valupi é um bacano. Não lhe fica nada atravessado.
    Eu farto-me de rir com o António Parente porque aquilo há-de ser catolicismo macrobiótico. Muito gosta o gajo de tentar convencer o inimigo com pequenas doses de religião.
    Eu não era capaz

    Mas a passagem mais gira foi a do profeta. O bacano do macrobiótico não tinha mesmo dado pela passagem bíblica. E a Câncio entrou em paranóia que ele estava a embicar com ela por não ter sido mais educada e chamado Deus a Cristo em vez de profeta.

    E ele vai e explica-lhe que de profetas está a Bíblia cheia mas Cristo há só um. E não lhe cairiam os parentes na lama se lhe tivesse chamado, Jesus em vez de profeta como fazem os islâmicos

    ahahaha

    …………
    Olá Nik, para ti também, mas olha que Deus não se diz, porque, como sabes, Deus não existe. Era assim que um puto meu vizinho, com 4 anos, dizia sempre que se despedia- «”até amanhã- Se Deus quiser não se diz, porque Deus não existe”.»

    Os pais eram comunas.

  8. a virgula era a seguir a Jesus.

    Fartei-me de rir com aquele desatinanço. Ela passou-se como não se passaria se fosse para lá um à bruta.
    Agora com falinhas mansas e a ensiná-la é que não.

  9. Eu não sei é porque não hei-de interpetrar a Biblia , ou seja o que fôr , como me der na real gana. E passo a explicar : não foi a Biblia feita por homenzinhos iguaizinhos a mim? , ainda por cima nascidos antes da era industrial e patati patata . Era só o que faltava , achar que ninguém pode ser mais imbecil que eu.
    Ps ) digo a Zazie que o único filósofo português que conheço não necrofágo é o Desidério.Ao menos ele acha toda a gente digna de pensar e saber.
    Ps 2 ) da câncio nada sei , mas caramba , vocês acham mesmo que foi Deus que ditou a Biblia ? Santa paciência.

  10. zazie, um dia em que te dê para ler o meu primeiro poste aqui no Aspirina, entenderás (espero) que não é possível ficar com algo atravessado.
    __

    imbecil, podes interpretar a Bíblia como te der na real gana, garantidamente. O que não podes é dizer que ela foi escrita por homens iguais a ti.
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    Aviador, muito obrigado. Deixei-te um agradecimento mais detalhado lá na sempre pícara Mala Aviada.

  11. A F. Câncio não precisa de mim para se defender, mas parece-me que estas a fazer a festa e deitar os foguetes sozinho.

    O texto dela não critica o Deuteronómio, nem culpa os catolicos por causa do Deuteronómio, apenas critica as pessoas que acreditam que o que vem no Deuteronómio é verdade, simplesmente por vir no Deuteronómio, e que agem em consequência, por vezes de forma atroz e idiota (não utilizo a palavra “imbecil” uma vez que ela tem manifestamente, para ti, um sentido peculiar que so tu entendes).

    E diz também que as religiões, nomeadamente a catolica, não podem fazer de conta que não têm nada a ver com esta triste realidade…

    E claro que, se o ateismo autorizar atitudes semelhantes (e às vezes é o caso, pois ha também um ateismo fanatico como sabemos), as mesmas criticas podem validamente ser-lhe dirigidas.

    E finalmente, não é menos claro que a critica não se dirige a religiosos que não hesitam em demarcar-se claramente da atitude descrita, por exemplo ao admitirem que o valor sagrado dos textos tem muito que se lhe diga. Mas isto, pelos vistos, custa a muitos crentes, como a tua reacção deixou bem patente…

  12. mas Valupi, tirando pormenores, tu e a Câncio estão na mesma batalha, por certo. É verdade que o Deuteronómio é um metaprograma para maximizar a reprodução dentro da tribo e suas aliadas, contrariando o incesto e o adultério, o primeiro por causa da consaguinidade e o segundo por causa da propriedade, com um regime de sanções adoptado e adaptado à gravidade do desvio, onde creio que se inclui a lapidação. A partir do momento que o D. é um dos livros do AT que serve de base às três religiões do Livro pode ser invocado como dispositivo legitimador destas barbaridades. Confesso que devia passar outra vez os olhos pelo D., coisa que não fiz.

    Eu não quero limpar a Biblia de coisa alguma, mas podemos discernir metaprogramas associados a regimes de promoção ou sanção.

    Ressalvados pormenores deu-te foi para dar uma dentadinha no nariz cleopátrico da F.

  13. olha o bush, evangélico, psicopata, incapaz de comutar penas de morte e protagonista de crimes contra a Humanidade numa escala terrível, em nome da luta contra o ‘mal’, bah, obsceno

  14. Com tanta discussão religiosa perdeu-se o que realmente importava comentar nesta história – a bestialidade do ser humano.

    Somalian rape victim, 13, stoned to death
    • Chris McGreal, Africa correspondent
    • The Guardian,
    • Monday November 3
    An Islamist rebel administration in Somalia has had a 13-year-old girl stoned to death for adultery after the child’s father reported that she was raped by three men.
    Amnesty International said al-Shabab militia, which controls the southern city of Kismayo, arranged for 50 men to stone Aisha Ibrahim Duhulow in front of about 1,000 spectators. A lorry load of stones was brought to the stadium for the killing.
    Amnesty said Duhulow struggled with her captors and had to be forcibly carried into the stadium.
    “At one point during the stoning, Amnesty International has been told by numerous eyewitnesses that nurses were instructed to check whether Aisha Ibrahim Duhulow was still alive when buried in the ground. They removed her from the ground, declared that she was, and she was replaced in the hole where she had been buried for the stoning to continue,” the human rights group said. It continued: “Inside the stadium, militia members opened fire when some of the witnesses to the killing attempted to save her life, and shot dead a boy who was a bystander.”
    Amnesty said Duhulow was originally reported by witnesses as being 23 years old, based on her appearance, but established from her father that she was a child. He told Amnesty that when they tried to report her rape to the militia, the child was accused of adultery and detained. None of the men accused was arrested.
    “This was not justice, nor was it an execution,” said Amnesty’s Somalia campaigner, David Copeman. “This killing is yet another human rights abuse committed by the combatants to the conflict in Somalia, and again demonstrates the importance of international action to investigate and document such abuses, through an international commission of inquiry.”

  15. zazie, percebeste na perfeição.
    __

    joão viegas, é um facto que a Câncio não precisa de ti para se defender, até porque tu nem a ti és capaz de proteger. Repara: ninguém no Mundo se serve do Deuteronómio para justificar as suas acções. Ninguém? Bom, se calhar algum maluco, ou algum judeu de alguma seita fundamentalista maluca, mas não foi isso o que se disse no poste. Lá, ligou-se o catolicismo ao Deuteronómio para comprovar esta ideia: as religiões conservam textos que são aviltantes para a moral contemporânea. Ora, fazer esta acusação é uma imbecilidade. E se precisares que te ajude a entender porquê, não te acanhes.

    Quanto à tua luminosa expressão, “o valor sagrado dos textos tem muito que se lhe diga”, não posso concordar mais. Rogo-te é que não me incluas no grupo dos crentes, porque te irias equivocar.
    __

    Z, o Deuteronómio está inserido num conjunto muito mais vasto. As religiões judaica e católica não sobreviveram na forma fundamentalista, portanto ninguém se serve de uma parte para a sobrepor ao todo. É ao contrário: o todo é que permite compreender cada parte.
    __

    AChata, essa história está em destaque no poste abaixo, aqui trata-se da Fernanda. Mas tens razão quanto ao essencial, claro.

  16. Valupi,

    A desconversar, como sempre: as pessoas que lapidaram fizeram-no por referência ao Deuteronomino (e mais precisamente por referência ao valor sagrado do texto). E não foram, de longe, as primeiras…

    Foi so isso que a F. Câncio criticou, e bem. E o que ela disse sobre as religiões não poderem voltar as costas como se não fosse nada com elas vai no mesmo sentido que o que escreveste no teu post anterior (que não tinha lido).

    Bom, na verdade, a F. Câncio vai um pouco mais longe.

    Mas o caso não é para menos.

  17. “Há católicos que não se reconhecem no Deuteronómio. Mas, vistos do Deuteronómio e da sua infinita crueldade, são infiéis como os outros.” (Fernanda Câncio)

    Onde está a imbecilidade desta afirmação?

    Duas citações do Deuteronómio, para se saber do que se fala:

    – Se um membro da própria família se tornar apóstata, a família não deve ter pena dele, mas deve tomar parte no seu apedrejamento até a morte (13:6-11)

    – Os delinquentes cujos pais não conseguem controlá-los devem ser apedrejados até morrerem (21:18-21)

  18. joão, tens a certeza certezinha de que a decisão de matar a rapariga foi fundada no Deuteronómio? Estarás ciente do que acabas de escrever? Vou-te dar uns minutos para beberes água, respirar fundo e depois voltares a ler o que escreveste.
    __

    Nik, a imbecilidade está no facto de nenhum católico (ou judeu!) seguir esse (entre tantos outros!) texto para elaborar a sua jurisprudência ou mero sentido de justiça. A imbecilidade está no facto de não se reconhecer esse passo pelo que ele, objectivamente, é: uma memória de um passado. A imbecilidade está no facto de não se relacionar esse livro com todos os outros que constituem a Bíblia. A imbecilidade está em não reconhecer que a Bíblia tem várias dimensões, uma delas a do registo histórico. A imbecilidade está em querer colar uma herança etnográfica com uma experiência de fé, uma moral, uma ética e uma práxis. E por aí fora, que a imbecilidade é tanta que se arrisca a não ter fim.

  19. A Bíblia é uma intrujice ambígua, uma boa imbecilidade, para usar o vocabulário valupino. Está lá uma coisa e o seu contrário, como no Corão. Apedreje-se e não se apedreje. Tudo e mais umas botas.

    Falas do registo histórico do Deuteronómio. Mas tudo na Bíblia, sem excepção, é “histórico”. Ou querias que fosse só aquilo com que as gentes de hoje não concordam?

    No sentido literal, aproveita-se uma parte. Quando a coisa começa a resvalar, a Igreja diz que é alegórico. Nas alegorias bíblicas temos o que quisermos, depende do interpretador. Uma coisa e o seu contrario. Como no Corão.

    Peço desculpa por um minutinho de publicidade ateia (também temos tempo de antena). Comprem e leiam:

    Richard Dawkins, The God Delusion – traduzido para português por A Desilusão de Deus (imbecil tradução, diria o Valupi) – ou seja, A Quimera de Deus ou O Delírio de Deus ou A Ilusão de Deus. Leiam em inglês, porque a tradução portuguesa foi feita por uma senhora católica com medo de ir para o inferno. Um extraordinário livro de um biólogo, professor de Oxford e grande divulgador científico. Refresquem esses miolos. Desde Helvétius e Kant que não se via nada assim.

    Até amanhã.

  20. Pois não V , interpretado literalmente. Quando digo homens , assim no geral , refiro-me a humanidade , homens e mulheres. E mais , agora que falas nisso , vou ler a Biblia outra vez à procura de subtis ou descarados sinais de machismo. Nestas coisas , é tudo uma questão de óculos.

  21. E Zazie , prefiro ser imbecil da era industrial que sabichona de tudo e mais alguma coisa. ao menos estou disposta a aprender , ideias feitas ? não tenho. já sei que o mais certo é estarem erradas daqui por uns tempos ou até agora. Mudo de ideias como mudo de camisa , sem problema nenhum , tem a ver com dinámica.
    Vá lá ler o Desidério ,e aprenda com ele , humildemente , qual é o papel de um filósofo : não é ser adorado e admirado como fonte de saber , não é saber mais de Kant ou de Ortega do que o vizinho , e passar horas a discutir que é que ele disse ou não disse , a devorar cadáveres , é apenas fazer com que uma criança , ou adulto , pense. E se liberte de amarrras. Não gosta de ser mais uma? problema seu. É que somos todos mais um , sofre mais quem não percebe.

  22. V. tem a certeza que sabe o que está a dizer? Enxerga-se?

    É que eu até fiz post acerca daquilo e desafiava-a rebatê-lo.

    Mais uma vez o Murcho meteu água e da grande, confundindo teoria acerca da moralidade das acções com as próprias.

    Dizer que os biólogos precisavam de consultar os filósofos para saberem se as activdades que praticam são éticas ou não é das maiores bacoradas que me lembro de ter lido.

    Mas tem razão- vale a pena ler-se aquele texto seguido do debate com o MP-S (Miguel) lá isso vale- precisamente para se perceber a que ponto a coisa se tornou idiota.

    O mesmo se diga para quem lê o Dawkins e nem lhe topa a ignorância. Mas enfim… cada um contenta-se com o que pode.

  23. Quanto ao resto, acerca da interpretação de textos, para os quais até é necessário domíno de várias línguas mortas, fora um gigantesco conhecimento dos factos históricos, passo.
    Só lhe digo que apenas para ter uma ideia do Genesis e com a papinha já feita- é preciso tirar muitos dias de estudo.

    Mas pronto, leiam a Bíblia como lêem a Gina ou a Maria que para mim é igual ao litro.

  24. Mas o Murcho ainda disse pior no meio do debate com o Miguel. Chegou ao ponto de dizer que a própria sociedade precisaria de consultar filósofos especialistas em ética para se poder aferir da legitimidade de uma série de questões problemáticas que a biologia já anda a fazer.

    Só teve piada ele ter reconhecido que até há filósofos que defendem que a ética pode ser objectiva. Não o explicou- deixou lá as indicações bibliográficas e eu matei-me a rir porque sei o motivo pelo qual ele nunca o explicaria.

    ehehe

  25. E olhe, se quiser saber a resposta também lhe posso indicar bibliografia- o Ratzinger explica-o. Como até explica o problema do relativismo contrário (o do subjectivismo) ou do cientismo se julgar capaz de critério ético, à custa de consensos democráticos.

    Mas a piada é que o Murcho apenas luta pelo lugar de guru-filosófico-social, tal como lutam os cientóinos, com os critérios tão positivistas quanto os dele.

  26. E eu até li o texto antes de espreitar o debate e nem ia tão longe naquela passagem. Estava dúbia. Podia interpretar-se como o simples facto da filosofia ética não ser acessível pelo senso comum. E daí, ser tão legítimo um filósofo precisar de consultar estudos de biologia, para entender algo específico da mesma, como um biólogo necessitar de formação filosófica para entender o que se pode equacionar acerca da teoria da moral.

    Mas não, na conversa ele ainda foi mais claro- a finalidade era prática- era apenas para se saber distinguir o que se deve e não deve fazer.

    Isto significa o mesmo que se dizer que qualquer ser humano adulto, pelo simples facto de não ser filósofo não aprendeu a distinguir o bem do mal.

    E a sociedade inteira dependeria de gurus éticos para aprender aquilo que não conseguiu em pequena- como se fossemos todos uns animaizinhos a ouvir a música de Deus pela boca do Murcho.

  27. O Murxo ( eu gosto mais de Desidério , caramba , quem chama a um filho Desidério Murcho?) , é apenas um homem de quem a gente gosta , pois não quer que ciência , ou qualquer outro ramo do saber , ocupe o lugar de religião , Zazie. Pode estar mil parágrafos a debitar o seu conhecimento que o meu nìvel de respeito por si não sobe. Odeio sacerdotes de qualquer espécie. Odeio quem não me deixa mastigar. E , apesar de ter uma licenciatura ,e tal , senso comum é coisa que não deito no caixote do lixo. Ando muito à frente , a par dos novos cientistas , que dizem que , afinal , senso comum…se calhar é melhor incorporá-lo na ciência ( olha o Boaventura Sousa Santos , já vai pelo mesmo caminho). É curioso , para quem reduz o ser humano à sua verdadeira dimensão : caca , ver como os diferentes discursos lutam por um lugar ao sol. Religião , népia , ciêmcia , népia , filosofia , népia , new age , népia. Cresça e apareça, perca o medo à perda de poder e é tudo muito mais divertido.

  28. Bem, apenas para sua informação e para riso que o resto que para aí diz já chegava por si: quem botou o nome ao Desidério Murcho foi o próprio pai que também se chama Desidério Murcho

    ahahahahahhahaha

    O resto nem respondo que não tem ponta por onde se pegue e eu não me atrevo a bater em quem não tem as mesmas armas.

    Mas se dorme mais tranquila com ódios, boa- odeie muito. Eu não tenho nada a ver com a vida de cada um e ainda menos com prazeres kinky desse tipo.

  29. A parte surrealista é que o pai dele contou isto num directo televisivo com pessoas com nomes disparatados.

    E lá explicou como passou a vida a ser gozado à custa de nome tão estranho. E depois, com um humor involuntário de meter inveja ao Swift, disse que fez o mesmo quando lhe nasceu o filho- chamou-lhe também Desidério Murcho

    ahahahaha

    Não admira que o rapaz tenha ficado traumatizado e com tanto ódio a Deus por ter permitido uma anormalidade destas.

    E agora vinga-se fazendo o mesmo na blogosfera: em vez de escolher um nik obriga as pessoas a meterem a mão na consciência antes de comentarem e não se esquecerem de usar o verdadeiro nome.

    E ele está tão atento ao critério da consciência de cada um que insulta logo alguém que em vez de assinar Manuel Silva tenha a triste ideia de se auto-denominar “matorras”

  30. De qualquer modo estou à vontade porque nem me aproximei um décimo da prepotência grunha e ordinária que o Murcho é capaz de fazer com qualquer leitor. Já por lá vi enxovalho a uma desgraçada de uma médica que até metia dó. E, mais uma vez, com bruto tiro no pé da parte dele. Até a rapariga que nem tinha qualquer formação de filosofia lhe mostrou por mero raciocínio como o que ele tinha dito não fazia sentido.
    O gajo ainda lhe disse que era melhor ela pensar noutra profissão apenas porque ela estava a usar mal um termo filosófico. Mas depois ilustrou o erro da rapariga com um brutal erro conceptual.

  31. Valupi,

    Os livros, sejam eles quais forem, não apedrejam ninguém enquanto permanecem na estante. Eu tenho a Biblia em casa e não peço às minhas filhas para terem cuidado quando passam em frente. E o mesmo vale para qualquer livro, incluindo o Mein Kampf (que não tenho em casa)…

    O problema levantado pela F. Câncio, não esta no livro em si, mas na cabeça das pessoas que, por razões religiosas, consideram que o que vem la escrito comanda, ou justifica, ou desculpa, as piores atrocidades.

    Podemos dizer que essas pessoas não existem, ou que não são significativas, ou que é tudo propaganda, ou ainda que se trata de acidentes criados por Deus para pôr à prova a nossa fé. Tudo é possivel e até ha quem se recuse a acreditar que os campos de concentração tenham existido.

    E um ponto de vista…

    Eu prefiro de longe o ponto de vista da F. Câncio (desculpa eu chama-la assim mas so a conheço atravês do seu trabalho de jornalista, e não atravês dos seus talentos liricos), que é também o defendido no teu post imediatamente anterior, que diz que não é aceitavel enfiar a cabeça na areia acerca desses comportamentos, que se reclamam da religião.

    E repara que esse ponto de vista não radica na negação de que existam bens ou coisas sagradas. Pelo contrario, radica na convicção de que a dignidade, a liberdade e a igualdade são mais sagradas do que um pedaço de pergaminho…

    E so não acrescento “a vida”, para não argumentares que, no caso em apreço, quem começou por atentar à vida foi a desgraçada da rapariga, ao não saber resistir a comportamentos sexuais quand era evidente que eles não visavam à perpetuação da espécie.

    Bom esta ultima foi retorica e (admito) um pouco excessiva. Digamos que serve para ilustrar que pode ser ténue a distância que vai das palavras ao que as pessoas fazem com elas…

  32. fernando antolim, resumiste toda esta conversa com superior mestria.
    __

    Nik, a Bíblia tem lá uma coisa e o seu contrário? Não. Mas tem contradições, paradoxos, mistérios. É como a Humanidade, e como qualquer um de nós. Daí o seu valor, pois conservou os homens e o tempo, não tentou apagar o que parecia errado, incómodo, incompreensível, chocante. É à capacidade que desprezas, a interpretação, que tens de agradecer a cultura e a civilização. Estás muito enganado.

    Quanto aos ateus, ó pázinho… É preciso desconhecer tudo da tradição religiosa para ignorar que os ateus são os que mais pensam em Deus. Estás a precisar de outras leituras.
    __

    imbecil, entendi-te à primeira. E por isso mantenho: são seres humanos como nós, mas não pessoas como tu, ou como eu. E nestas diferenças está uma riqueza que tem de começar por ser conhecida para depois se saber o que fazer com ela.
    __

    joão viegas, tu não pescaste nada deste assunto, e vais fazendo afirmações incríveis. Primeiro terás de entender que no caso da sentença que ditou a morte da miúda somali não está em causa a palavra escrita, antes a manipulação da mesma. Vários clérigos muçulmanos apontaram a ilegitimidade para tal sentença, pois o Corão não o admitiria face às circunstâncias. Ora, isto tudo acontece porque a religião islâmica é uma manta de retalhos onde cada um faz o que lhe dá na veneta. Isso não se passa no catolicismo, bem pelo contrário. Por esta muito precisa e concreta razão, o texto da Fernanda é imbecil.

    Quanto ao teu penúltimo parágrafo, pura e simplesmente não o percebo. Mas podes voltar a tentar.

  33. “não está em causa a palavra escrita, antes a manipulação da mesma” : Por quem ? Em nome de quem ?

    “Isso não se passa no catolicismo” : Nunca se passou ? Nunca o catolicismo deu origem a “desvios” como este ?

    Estas são as duas perguntas colocadas pela F. Câncio. Mas nos percebemos que não as queiras ouvir…

  34. joão, por quem? Por quem quiser. Em nome de quem? Sei lá! Tens é de estudar o mínimo sobre teocracias islâmicas antes de ambicionares entrar na temática das religiões comparadas.

    O catolicismo está cheio de erros e crimes. E a Igreja é a primeira a reconhecê-los. Fica sempre espaço para mais crítica, obviamente, e cada um que malhe à vontade. Mas não tens possibilidade alguma de resgatar a referência ao Deuteronómio, o tal livro que disseste ter sido usado como fundamento para a morte da desgraçada miúda. E continuas a achar que eu represento o catolicismo, quando nem sequer cristão me afirmo. Tens de largar o vinho, pois.

  35. Vi um post com mais de 40 comentários e desconfiei logo que a Zazie andava por aqui.
    Gosto muito das Cartas sobre a Educação da Mocidade dela.

  36. “os ateus são os que mais pensam em Deus” – toda gente sabe, sobretudo o Valupi.

    Orienta-me lá então nas leituras, pá-zote (vou abusar do hífen até Deus me levar).

    Aconselhas-me os Exercício Espirituais, de Iñaki de Loyola? Ou a Missão Abreviada, do padre Couto? Esta aconselho-te eu a ti, que andas nas bordas da Verdade revelada, a querer entrar.

    Ora abóboras, senhor Valupi. Estás a precisar de um bocadinho de Kant, para entenderes onde os racionalistas enfiam Deus.

  37. Nik, com o Kant estás com azar, pois dele se disse ter criado uma moral para anjos, não para homens. Foi aí que ele enfiou Deus, exigindo uma perfeição moral que não é digerível para ateus e agnósticos. Mais graça tem ainda a boca que lhe mandam os teólogos: a de que Kant disse do homem o que S. Tomás disse do animal. Mas adiante.

    O que te aconselho, para começares pelas leituras fáceis, é o Evangelho. Já leste? Se não, vai ler. Se sim, que encontraste lá?

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