Moderados radicais

A notícia da execução de Aisho Ibrahim Dhuhulow é ocasião para referir o livro Arguing the Just War in Islam, de John Kelsay. Como aponta o autor, há muçulmanos moderados que se opõem aos métodos terroristas e criminosos dos muçulmanos extremistas, mas que não renegam os mesmos objectivos. Isso explica o seu silêncio e efectiva cumplicidade com a demência. Mas não só, e ainda mais importante: isso explica a sua calada recusa do Ocidente, da democracia, da secularidade e, fatal, dos Direitos Humanos. Porque todas as noções legais e morais que defendemos nas sociedades seculares são antagónicas com o projecto totalitário das religiões, quaisquer. Não é possível aceitar alguma forma de compromisso que venha a limitar a secularidade, terão de ser os religiosos a capitular ou fugir. A grande vantagem histórica do cristianismo na comparação com o islamismo está no facto de já se ter vencido o condicionamento indentitário de cariz religioso no Ocidente. Essa luta levou séculos, e é hoje uma realidade irreversível: damos a César o que é de César, e respeitamos a prática daqueles que querem dar a Deus o que é de Deus.

Na morte da mulher somali violada que foi denunciar os seus violadores, e que acabou os seus dias como alvo de lapidação num estádio de futebol com centenas de pessoas a assistir, o mais importante não está na violência, no escabroso, no grotesco e no aberrante. Para aquelas pessoas envolvidas, tratou-se de um cerimonial e espectáculo que faz parte da sua experiência quotidiana e respectivos códigos de doação de sentido. Conduzir alcoolizado e provocar a morte a terceiros é igualmente escabroso e aberrante. O mais importante, para nós à distância, está no reconhecimento da lógica mais funda do acontecimento – aquela rapariga foi morta para servir de exemplo à comunidade: quem denuncia violadores, morre sem honra. Assim, ou também assim, desvela-se uma sociedade onde as mulheres são violadas e ameaçadas de morte sem disso poder haver denúncia pública, onde as famílias não têm nenhuma autoridade que as proteja. A invocação das leis religiosas é secundária, pois qualquer argumento serve para tentar manter as mulheres em permanente estado de alienação de direitos. Mesmo em tribunais seculares, durante séculos se protegeram os violadores e abusadores masculinos. Neste preciso momento, é provável que um homem em Portugal esteja a agredir verbal ou fisicamente uma qualquer mulher com quem viva, ou de cujo espaço se tenha apropriado, se ela der sinais de o querer abandonar ou se ele despejar nela a sua loucura. Este nosso patrício, que até pode ser muito bem visto pelos vizinhos no café do bairro ou pelos colegas no local de trabalho, não é diferente daqueles que assassinaram a miúda corajosa.

Os muçulmanos têm de se assumir: se estão contra a barbárie que se faz em nome do seu Deus e Profeta, digam-no alto e bom som, repitam-no às suas crianças e jovens, dêem exemplos de respeito pela vida e pela dignidade; se nada querem dizer, então é lícito vê-los como cúmplices. O mesmo para os cidadãos em relação à violência doméstica e aos crimes sexuais: se estamos contra, vamos intervir e fazer o que pudermos para salvar as vítimas; se nos calamos, somos aliados dos cobardes.

No que toca à moderação, há que ser radical.

15 thoughts on “Moderados radicais”

  1. tão despachado, meu irmão… É que nós cá em Portugal somos muito ciumentos, se calhar veio dos fenícios sabe-se lá. Mas também concordo que em vez de bater na mulher vá é curtir para não-sei-onde,

  2. “Neste preciso momento, é provável que um homem em Portugal esteja a agredir verbal ou fisicamente uma qualquer mulher com quem viva, ou de cujo espaço se tenha apropriado, se ela der sinais de o querer abandonar ou se ele despejar nela a sua loucura.” (Valupi)

    Pois é, Val, não duvides que nesta abençoada terra secularizada já houve este ano muito mais mulheres secularmente assassinadas pelos seus seculares maridos do que na remota Kismayu, cidade da Somália sequestrada desde Agosto por uma guerrilha de radicais islamistas. Li nos jornais que já morreram este ano perto de 40 mulheres assassinadas pelos maridos em Portugal. Não sei se estes maridos assassinos vão a Fátima, se não.

    A violência machista contra as mulheres é um fenómeno mundial, independente das religiões, das Sharias e outras Inquisições. Surge onde menos se espera neste mundo ocidental. O que tu fazes, na esteira dos radicais anti-islamistas, é pretender estabelecer uma ligação essencial entre o Islão e o fenómeno mundial da violência machista contra a mulher. Para isso, dás crédito, ou finges dá-lo, às afirmações de ortodoxia islâmica desses bandos de guerrilheiros. Por fim, tentas responsabilizar todos os muçulmanos moderados (do mundo?) pelo acontecido na região de Kismayu. A caricatura provocatoriamente anti-islâmica (mais uma) que reproduzes tem duas leituras possíveis, aliás simultâneas. Uma é a de que os muçulmanos “moderados” são cúmplices dos actos dos “radicais”. Outra é que mesmo os muçulmanos moderados são religiosamente estúpidos como avestruzes. Repara no detalhe anti-religioso e ofensivo de colocar o muçulmano na sua posição de oração com a cabeça enterrada. Repara na representação do muçulmano orando com o cu em primeiro plano e ampliado. Repara na associação desse cu à inscrição nele feita de “moderados muçulmanos”.

  3. Valupi, meu rabino das mil e uma noites,

    Porque não dizes ao teu amigo Sócrates para manifestar “alto e bom som” a sua oposição aos crimes que andam a ser cometidos pelos seus aliados no Iraque e no Afeganistão? Experimenta, pode ser que depois possas comprar mais do mesmo com os trocos que receberes.

  4. Caro Valupi, deste boa luta e melhor conta de ti na bem estruturada argumentação, com convicção e sabedoria sobre os desencontrados críticos (pouco ou nada esclarecidos) do grande mundo que é a igreja católica.

    Aqui, neste tema cais de quatro como a figura que amplias no desdém.

    Se me é permitido, o Z ainda se exclama perante este país de opereta? Porquê?

    O NIK, faz uma abordagem séria: um desvelo pelo Sócrates sem sentido, não é só opinião. É sentido da norma e do dever ser.

    Os mestrados dão uma trabalheira, dai o afastamento. Não é demérito.

  5. Z, parece que somos mais fenícios do que romanos. Faria todo o sentido.
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    Nik, não sei o que andaste a beber, mas espero que tenha sido proveitoso para outras actividades que não a leitura deste texto. O que eu fiz, e continua em exposição, foi o oposto do que leste: eu separei a temática da religião daquela relativa à violência sobre as mulheres. É por isso que afirmo o seguinte:

    “A invocação das leis religiosas é secundária, pois qualquer argumento serve para tentar manter as mulheres em permanente estado de alienação de direitos.”

    E logo a seguir, para ajudar a malta mais dada ao disparate, acrescentei:

    “Mesmo em tribunais seculares, durante séculos se protegeram os violadores e abusadores masculinos.”

    Mas não esperaste pela digestão etílica, o que também explica as tuas considerações sobre os moderados e a caricatura. Primeiro, os moderados são responsáveis por si mesmos, e esse aspecto foi o realçado. Enquanto pessoas inseridas nas suas comunidades, o que se pede é que sejam parte integrante dessas mesmas comunidades – portanto, que declarem estar contra o terror e os crimes. Quanto à caricatura, se a achas ofensiva, tenho a informar-te que chegaste tarde: a PIDE já não está a contratar. Mas podes sempre ir mendigar emprego no Vaticano, pois eles também estão a ser ofendidos com bonecos e piadas a toda a hora, coitadinhos.
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    CHICO, mas de que crimes falas? Diz tu, que estás bem informado. Caso haja novidades, prometo que as levo a correr ao meu amigo Sócrates.
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    ramalho, desdém por quem? Explica lá isso melhor.

  6. Caro Valupi, parte ii.

    “desdém por quem? Explica lá isso melhor”.

    Seguramente, com a superior inteligência que te reconheço, sabes muito bem a resposta, mas, admitindo a tua boa fé, o que pretendes é: concluir como cheguei ao íntimo do teu legitimo mas não oculto sentimento?

    Vejamos, sem ser necessário laminar o teu texto: a caricatura aborda o que as multidões por norma, e em todas as épocas, praticam quando os radicais fazem e aplicam a “sua lei”, não em especial a muçulmana a não ser para enquadrar o teu texto sobre o martírio de uma pobre mulher. Certo?

    A caricatura, é igualmente desdenhosa para uma religião por criar de forma bizarra
    uma ambivalência, “reza ? Não, enterra a cabeça na areia”.

    ”mas que não renegam os mesmos objectivos”. Os moderados.

    Valerá somente afirmar que muitos portugueses nem rezavam nem enterravam a cabeça na areia quando os fascistas governavam radicalmente o nosso país.

    Assim como hoje.

    Quanto ao mais.

    Era só até aqui?

    Cumprimentos Valupi

  7. Caro Val, não sei o que tu bebes, mas chá de menta (como eu) não é com certeza.

    Bem reparei que o teu texto é metade no cravo, metade na ferradura. (a caricatura é só ferradura). Por isso é que destaquei uma frase do que dizes, com a qual concordo. Podia ter destacado outras. Não gostei foi do resto, nem do conjunto.

    O teu primeiro parágrafo fala dos extremistas e dos moderados islâmicos, no fundo todos guiados pelos “mesmos objectivos”, da desejável separação das esferas religiosa e temporal e compara o cristianismo com o Islão, com vantagem para o primeiro. No segundo introduzes de chofre o tema da mulher lapidada pelos islamistas da Somália, mas curiosamente defendes que, ali, a invocação da religião não é o essencial da questão. No terceiro voltas aos considerandos iniciais e intimas “os muçulmanos” a demarcarem-se da barbárie dos guerrilheiros de Kismayu, como se esse bando de guerrilheiros fanáticos fosse representativo de mil milhões de muçulmanos que há no mundo.

    Declaras, com efeito:
    “Os muçulmanos têm de se assumir: se estão contra a barbárie que se faz em nome do seu Deus e Profeta, digam-no alto e bom som, repitam-no às suas crianças e jovens, dêem exemplos de respeito pela vida e pela dignidade; se nada querem dizer, então é lícito vê-los como cúmplices.”

    É uma acusação, aliás gratuita, insinuada em forma de recomendação condicional. Como é que tu sabes que “os muçulmanos” (quais?) nada dizem contra a lapidação de mulheres, contra esta em particular? Na dúvida, presumes? Repetes o que algum fanático anti-islamista sustenta?

    Atrás dizes, de facto, que a invocação das leis religiosas é secundária. Muito bem. Mas agora, a concluir, já falas da “barbárie que se faz em nome do seu Deus e Profeta” (Maomé não é deus). Afinal a Sharia é que é o importante?

    E estás mesmo convencido que a nossa (vossa…) religião cristã, civilizadamente separada da esfera de César, nos impede ou desencoraja, a nós país catolicíssimo, de cometermos crimes contra as mulheres? Que o culto da imagem feminina da Virgem de Fátima protege as mulheres cristãs de levarem porrada, facadas e tiros dos seus devotos maridos?

    E estará a nossa Igreja católica assim tão, tão distante daquele clericalismo que a impelia durante o salazarismo a defender legislação proibitiva do divórcio e contemplando penas de prisão não inferiores a um ano para o crime de adultério?

  8. ramalho, a caricatura é um exercício de crítica política numa questão que é também política: o terror e crimes de bandeira islamita. Não se está, pois, a tomar partido sobre uma religião, mas a discursar sobre um problema que diz respeito à segurança de todos os cidadãos.

    O facto de haver mais do que um tópico relacionado nesta problemática não te deve deixar preguiçoso. É legítimo, e até necessário, tomar posição contra a violência. E se ela está a vir com sinal religioso, mesmo que usurpado, mais urgente é a sua denúncia.
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    Nik, de certeza que esse cházinho de menta tem lá mais qualquer coisa misturada, porque não é possível distorceres tanto o que está escrito sem o contributo de alguma substância química externa. Vamos lá:

    – O primeiro parágrafo fala de um acontecimento e convoca um livro e declarações do respectivo autor. Este é o território do que se escreve a seguir, mas tu ainda nem sequer falaste deste nexo.

    – É o autor que refere a existência de alguns islâmicos moderados que não partilham dos métodos dos terroristas, mas que comungam dos seus objectivos. Naturalmente, haverá outro tipo de moderados, mas isso não estava em causa visto não se estar a fazer um tratado sobre moderação no islão, apenas a referir um aspecto. De resto, se tivesses lido o artigo em ligação, verias que Kelsay faz referência a um grupo que chama de “muçulmanos democratas”, os quais tomam partido público – e intelectual, desenvolvendo trabalho académico e editorial, etc. – contra o “fascismo islâmico” defendido e praticado pelos fundamentalistas.

    – Não se afirma que os muçulmanos “não dizem” seja o que for contra a violência e crimes, defende-se é a obrigação de dizerem, e de dizerem sempre, e de dizerem alto, e de dizerem uns aos outros. Isto porque os terroristas islamitas querem matar ocidentais e cristãos pelo simples facto de serem ocidentais e cristãos. Portanto, se há muçulmanos a viverem em comunidades ocidentais ou em que haja cristãos, está em causa colher deles uma posição inequívoca contra esta barbárie.

    – Pois não, Maomé não é Deus, e foi por isso que leste “do seu Deus e Profeta”.

    – O texto não tinha como missão defender a Igreja, falares disso revela que andas aos papéis no entendimento do que está escrito (o que pode ser problema da forma como está escrito, concedo). O que vai de alto a baixo no texto é esta noção de vivermos em sociedades seculares, onde as leis não têm origem religiosa. E foi por isso que desconstruí a relação, do caso na Somália, com as leis islâmicas, ou meramente religiosas, porque me interessou realçar a base antropológica daquele crime. Mas estando tu sob o efeito do chá de menta, é naturalíssimo que excluas do teu campo de visão afirmações como esta:

    “Porque todas as noções legais e morais que defendemos nas sociedades seculares são antagónicas com o projecto totalitário das religiões, quaisquer. Não é possível aceitar alguma forma de compromisso que venha a limitar a secularidade, terão de ser os religiosos a capitular ou fugir.”

  9. Val, aqui para nós, sabes tanto como eu, ou menos, do que se passou realmente em Kismayu. Eu ainda me dei ao trabalho de ler alguns noticiários de diferentes origens. Tu também? Uma notícia dizia que a mulher era uma menina de 13 (treze anos). Outra dizia 23, pouca diferença. A história das violações é do mais incerto que há. Cá para mim, a mulher foi barbaramente assassinada, mas por motivos políticos, ponto final.

    Aquilo ali não é a Somália, de resto, é uma cidade e a região em volta tomada militarmente por bandos de energúmenos em Agosto e que até ao fim do ano ou lá para 2009 hão-de estar todos mortos ou em fuga para o Sudão. Que eles invoquem o Corão ou a História da Carochinha, para mim é igual.

    Mil milhões de muçulmanos (“os muçulmanos”) não podem ser chamados à pedra por esse incidente. Como a ninguém lembraria pedir explicações a João Paulo II por aquilo que um fundamentalista extremista fascistóide como monsenhor Lefebvre lhe aprazia dizer ou fazer. Um apaniguado do monsenhor até tentou matar o papa com uma baioneta, em Fátima, em 1982, não sei se estarás alembrado. E o padre Krohn não era muçulmano, nota bem.

    A caricatura que pespegaste no teu post é feia, porca e má.

  10. Sei tanto como todos os outros, Nik, e se leste o editorial do Público de hoje ficaste ainda com mais informação. Verdadeira? Foda-se, eu também não acompanhei os astronautas à Lua, e não tenho forma de provar que ela não é uma bola de queijo.

    Mas é indiferente, porque os casos sucedem-se. No Afeganistão, por exemplo, há deliberações judiciais que são para nós aberrantes, por estarem fundamentadas na lei islâmica. Não é pelo facto de estarem rodeados de americanos e ocidentais que eles abdicam da sua cultura e códigos de matriz religiosa. E o problema é mesmo este da “lei islâmica”, pois não existe consenso sobre o que seja, estando dependente das interpretações corânicas, as quais podem ser díspares. Como o Islão não tem um centro político unificador, vale tudo. Mais uma razão para pedirmos ajuda aos moderados que convivem nas nossas sociedades, e os quais recolhem a nossa protecção, gozando de todos os direitos e benesses das democracias seculares e laicas.

    A caricatura é feia, porca e má? Só para aqueles que não aceitam a crítica. Ficas, assim, em péssima companhia.

  11. o que vale é que Marrocos e a Tunísia têm relações muito estreitas com a UE senão era diabólico. Os moderados são vistos como cobardes pelos radicais, quando esquentam os ânimos.

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