Síndrome do Alasca

A Síndrome do Alasca é patologia antiga, mas só há poucos meses tipificada. Caracteriza-se pela emissão de opiniões que desafiam as evidências, as quais apresentam uma correlação directa entre as respectivas potências: quão maior a evidência, maior o esforço para a contrariar. O fenómeno chamou a atenção dos investigadores aquando da escolha de Sarah Palin para candidata Republicana à vice-presidência. Sendo óbvio que a senhora até para perceber as políticas de Bush teria invencíveis dificuldades, ficava por explicar tão pasmoso convite. Imediatamente, várias universidades e institutos internacionais começaram um ambicioso estudo. Uma das linhas de pesquisa trouxe uma equipa a Portugal, pois aparecerem textos em português (assinados!) (e alguns em blogues de esquerda…) onde se defendia o mérito, e até o brilhantismo, da escolha de Palin. Estes autores recolhiam sondagens favoráveis a McCain, apontavam a injustiça, mesmo hipocrisia trapalhona, das críticas que choviam sobre a coitadinha, denunciavam falhas e ambivalências no lado de Obama, gozavam com desprezo senil dos que não tinham perdido tempo a elencar as evidências, chegaram a vaticinar que Palin iria dar a volta por cima à primeira leva de revelações fatais. Isto durou várias semanas, e a equipa de investigação estava fascinada com a intensidade da Síndrome do Alasca observada nesses indivíduos. Um dos catedráticos presentes, por sinal veterinário, aventou a hipótese de se tratar de um foco particularmente agudo que poderia estar relacionado com a Gripe das Lideranças do PSD, problema endémico que poderá fugir de controlo e tornar-se numa pandemia. Não tiveram tempo para aprofundar essa suspeita, pois depararam-se com o maior desafio das suas carreiras: o Pacheco.


Uma denúncia anónima, entregue num envelope do PS, levou à investigação das opiniões de Pacheco Pereira. Descobriu-se que esta figura é indefectível apoiante de Manuela Ferreira Leite, afirma que o Via CTT é uma poderosa arma de manipulação ao serviço do Governo, despreza futebol, acha que 99% dos blogues são lixo, tem uma inquietante fixação em Sócrates, utiliza a palavra spin para catalogar qualquer opinião de que discorde e fez do ataque ao computador Magalhães o combate político da sua vida. E porquê este ataque ao simpático, e muito bem esgalhado, portátil? Simples: porque faz parte de um projecto educativo inovador e urgente, é uma pechincha dada a relação qualidade/preço e ainda surge como excelente negócio de exportação. Estes factos ameaçam a sanidade mental do Pacheco, desesperado perante a evidência de se poder criar riqueza apenas com o talento dos nativos e sem haver um mariola do PSD a encher o bolso pela surra. O estado de negação em que se afundou tem prognóstico muito reservado, sendo por isso preferível que braceje e espume a que fique catatónico. Claro que este mesmíssimo Magalhães teria sido uma prova de dinamismo, empreendedorismo e modernidade social-democrata na boca e dedinhos do mesmíssimo Pacheco caso a pequena-maravilha tivesse chancela da Manela, ou até do Menezes. Nesse universo paralelo, estar a vender Classmates ao Chávez já teria aparecido como genial.

Ao mesmo tempo, análises periciais mostraram um Pacheco a conviver apaziguado com a corrupção no cavaquismo, a corrupção na Madeira, a corrupção no sistema político e a corrupção no sistema judicial. Especialmente elucidativo, de um ponto de vista científico, foi a constatação de que ver Cavaco Presidente a ser humilhado por Jardim, por exemplo, não lhe suscita alvoroços intestinos. Idem para o imparável cortejo de figuras graúdas do cavaquismo, e dos Governos Barroso/Santana, envolvidas no submundo criminoso da economia e finança. Idem para as negociatas ilegais autárquicas, as quais lhe passam ao lado seja qual for a sua cor partidária. Os peritos internacionais concluíram que estes assuntos não lhe despertam interesse porque o homem tem que manter os poleiros na política-espectáculo; e não se conservam poleiros dando bicadas nos galos de cobrição. Tudo isto consta do relatório final da investigação ao fenómeno da Síndrome do Alasca em Portugal, e tudo isto deixou apavorados os investigadores: não estavam preparados para verem Palin – que tinha recentemente atingido um máximo por muitos considerado inultrapassável com as suas declarações sobre a mosca-da-fruta – a ser superada pela dor de corno que escorre deste artigo.

Mas o que é a Síndrome do Alasca? É o processo gerado pelo súbito abaixamento da temperatura no tecido neuronal, interrompendo o fluxo eléctrico nas sinapses. O raciocínio fica imobilizado, a inteligência cristaliza-se, o intelecto seca. As vítimas acreditam ter atingido a eternidade ao perderem a capacidade de percepcionar alterações na realidade exterior. Esse estado de privação, curiosamente, provoca exuberante actividade opinativa.

7 thoughts on “Síndrome do Alasca”

  1. Não contesto a tua opinião de que o Pacheco é um idiota quando se põe
    a falar de “más companhias”, mas não achas que andas a dar-lhe o tipo de importância que pode levar outros admiradores da tua pessoa menos dedicados que eu a pensar que o homem é capaz de ter razão nalgumas coisas que diz?

    Deixa-te disso e cumpre um dever judaico-cristão: manda um postal de pêsames ao Obama pela morte da avó. Não fales da CIA nem em devassas aos registos de nascimentos de Bali Ai para não levantar suspeitas.

  2. Não sei se é só uma questão patológica. Penso que nalguns casos é só uma questão de fé. Nesses casos temos que ser honestos, as pessoas até são saudáveis, mas têm uma tal crença e devoção nos seus messias que até alguns analistas precipitados podem confundir com fanatismo. Veja-se o fenómeno da Santa do Silêncio.

  3. CHICO, mas o homem tem razão nalgumas coisas que diz. Só que ele é pago para dizer coisas, e é por isso que merece tau-tau quando proporciona um mau espectáculo para a inteligência.
    __

    Jeronimo, concordo. As referências às patologias são retóricas, não passam de metáforas. Dito isto, a noção de saúde mental é uma construção cultural e muito flutuante… Mas uma coisa é certa: é possível identificar aqueles que fazem crítica com honestidade intelectual, apesar das variações de gosto e momento.

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