Vinte Linhas 295

O «pão-por-Deus» num dia de sol na Ericeira

Pois é, Marta. Ainda há terras portuguesas onde a tradição não se perdeu. No meu tempo de criança ia, quase sempre debaixo de chuva, com um saquinho de pano, pedir o «pão-por-Deus» a todas as casas da sede de freguesia entre os dois Paços que são pequenas capelas a marcar o fim da terra. Já nesse tempo toda a regra tinha excepção: do lado de cá íamos longe até à casa da tia Laura que tinha para nós as melhores nozes e do lado de lá íamos sempre à casa do tio Zé Ivo que tinha as melhores batatas-doces assadas.

A minha filha mais velha ainda andou no «pão-por-Deus», na minha terra tinha ela quatro anos. Aqui na Ericeira gostei de ver os miúdos mais pequeninos a entrarem nas lojas e nos cafés a pedirem «pão-por-Deus». Até a Junta de Freguesia colocou um empregado a oferecer bolachas e chocolates aos pequeninos no largo do Jogo da Bola. A mim, no T Zero, apareceram três miúdos tinha eu chegado há minutos e felizmente tinha nozes na mesa da cozinha. Lá me desenrasquei com o «pão-por-Deus». Nem tudo é igual. Aqui na Ericeira os miúdos pedem no dia 1 nas terras à volta e no dia 2 dentro da terra. Foi por serem tantos que o carro da Junta de Freguesia teve que ir buscar «reforços». Nada que uma chamada de telemóvel não resolva. Num mundo tão hostil onde o habitual é virem sacar o nosso dinheiro para pagar os desvarios dos outros, esta oferta de «pão-por-Deus» surge como um oásis de alegria convocada e reunida por uma tradição. Os olhos das crianças não mentem. E eu fiquei comovido pois até me parecia que o meu neto também andava por aqui, neste grupo que acaba de entrar no café Central a pedir «pão-por-Deus» com um saco meio-cheio de nozes, passas, figos secos e bolos com erva-doce.

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