Vinte Linhas 300

Será que Fernando Pessoa tem razão?

Fernando Pessoa é o mais avassalador de quantos polígrafos o século XX deu à literatura portuguesa. Em boa hora a editora «Bonecos Rebeldes» resolveu publicar uma recolha de Zetho Cunha Gonçalves que junta textos de ficção narrativa publicados em jornais e revistas pelo próprio Fernando Pessoa. «Contos, fábulas & outras ficções» é um livro irreverente e indisciplinador, um hino à liberdade e um libelo contra toda e qualquer forma de censura, prepotência, submissão e conformismo. Na página 83 deste livro aparece «A origem do conto do vigário» no qual Fernando Pessoa explica à sua maneira a origem da expressão «conto do vigário» como tendo a ver com as façanhas de um tal Manuel Peres Vigário, lavrador ribatejano que teria enrolado seus irmãos num negócio de vinho. Mas a versão que eu tenho como correcta sobre a expressão vem de Vasco Botelho do Amaral e tem a ver com o conto do vigário «lisboeta» digamos assim. O burlão diz ao papalvo que o vigário da sua freguesia lhe confiou uma grande quantia para entregar a alguém quantia essa que está no embrulho – chamado paco. A pessoa que vai na conversa entrega o dinheiro pedido, acreditando que dentro do embrulho estão as notas que largamente compensarão o dinheiro emprestado em troca. E assim «vai no embrulho» pois, aberto o dito, vê que dentro dele só havia papel de jornal inútil e não as notas que seduzem os incautos. Estaremos perante uma invenção, mais uma, de Fernando Pessoa que teria aproveitado a expressão «conto do vigário» para imaginar uma história que viria a publicar no jornal «Sol» em 30-10-1926? Quem tem razão – Vasco Botelho do Amaral ou Fernando Pessoa? Será que a razão está com os dois? Responda quem souber…

16 thoughts on “Vinte Linhas 300”

  1. Serão, talvez, poucas as pessoas que saberão qual a história que estará por detrás da expressão “cair no conto do vigário”. No entanto, não resta dúvidas a ninguém, ao ouvi-la, que se está perante um golpe onde aparece um vigário e, muito embora sejam várias as histórias sobre a origem da expressão, a que parece ser a mais conhecida é a que faz referência a uma disputa entre dois vigários de Ouro Preto, Brasil, que terão vivido no século XVIII.

    De acordo com aquela história, tudo terá começado com a disputa entre os vigários das paróquias de Pilar e da Conceição, pela mesma imagem de Nossa Senhora. Um dos vigários teria proposto que amarrassem a santa num burro que andava pela rua. Segundo o plano, o animal seria então colocado entre as duas igrejas e aquela para onde o animal se dirigisse seria a paróquia a ficar com a imagem da Santa. Assim foi feito, tendo o animal tomado a direcção da igreja do Pilar, que acabou por ficar com a Santa ganhando, assim, a disputa.

    Mais tarde, terá sido descoberto que o burro em causa era do vigário da igreja do Pilar e que só por esse motivo se terá dirigido para essa paróquia.

    Esta uma das histórias defendidas para a origem da palavra vigarista e conto do vigário.
    http://www.osetubalense.pt/noticia.asp?idEdicao=252&id=9167&idSeccao=2085&Action=noticia

  2. Ó Zézitoº

    Tu achas mesmo que o Fernando avassalou tanto este mundo como polígrafo, ou isto é mais outro conto do vigário? Para além da Tabacaria, e alguns poemas em inglês sul-africano, mais umas ameaças esotéricas de poderes de cu à mostra ao salazarismo, só me estou a lembrar da coincidência de ele ter roubado, quiçá por coincidência, um dos seus nomes a outro grande poeta – esse anarquista, da mesma família, diferente ramo – o Neruda. Instrui-me, que ando a precisar disso como de vinagre para os diabetes.

    Não sei dessas macadadas sobre a origem do “conto do vigário”. A única coisa que sei é que contactei pessoalmente com alguns contadores dessa popular espécie que fizeram disso a sua profissão. Eram todos anti-salazaristas, por sinal.

  3. Ó Chico Estaca!

    Explica lá como é que o Pessoa roubou um dos seus nomes ao Neruda?

    Já agora estou curioso com a explicação que deves ter?

    Não te esqueças de tomar os comprimidos, mas com água…

  4. Desculpa lá, Teófilo, mea culpa, o nome foi “roubado” a um outro famoso poeta chileno da mesma época chamado Neftali Ricardo Reys. Enganos destes acontecem. Coisas de anacronismos. Já tomei os comprimidos, como aconselhas.

  5. Ai, chico chico, você não devia ser a estaca. Você devia ser o … estacado. E o amordaçado, também, de preferência. A ver se a mordaça lhe obstruia essa cloaca que defeca sobre Pessoa.
    Tenha vergonha e informe-se, que pior que não ser informado é parecê-lo sem o ser.
    Francamente!

  6. (… e quanto ao vigário, costumam aparecer muitos por aqui a tentar vender ignorância por sabedoria…
    Alguns até já ascenderam na hierarquia eclesiástica. Cardeais, pelo menos.)

  7. mc,

    Não me amordaces (isto é, não me ponhas a fralda)que estragas tudo. Não tenho vergonha nem quero informar-me, quero que saibas isso. Mas se quizeres dar um arzinho do teu jeito para a leitorice e dessa forma impressionares a rapaziada, aproveita. Quem sabe será essa a primeira vez que os vendedores de ignorância irão reparar na tua presença.

    Estou preparado, vergonha não há, mas rubor enlatado, felizmente, ainda tenho há algum na despensa.

    E tu, que pareces saber dessas coisas, já agora diz-me quantos galões tem um cardeal a mais que um vigário, tu que percebes de hierarquias. Sem querer informar-me, ardo de curiosidade.

    Chegou a vez da tua cloaca se abrir….

  8. O vigário, na Igreja Católica, é uma figura hierárquica que exerce as funcões de delegado do Papa, do Bispo ou até de um simples pároco, para ajudar nas tarefas pastorais e não só! Uma das tarefas delegadas era «zelar pela boa administração dos bens eclesiásticos». Mais concretamente, zelar para que tudo o que fosse devido ao bispado ou ao papado não ficasse em mãos alheias. Por exemplo, cobrar a dízima devida, ainda que para isso tivessem de inventar uma qualquer história para levar os fiéis ao cumprimento do dever…Está-se mesmo a ver: com a sua proverbial predisposição para escapar a impostos, o zé povinho descarregou a sua raiva em quem, além de lhe roubar a alma, lhe esvaziava os pobres bolsos. E conta-se, lá para os lados do meu verde Minho, que numa “visita pastoral” do Sr Vigário da diocese de Braga, que o diligente pároco transformava sempre em festa, com foguetes e vivas, um entusiasmado freguês, cândidamente, aclama a ilustre figura, desta maneira: «Viva o sr. Vigarista!»
    Quem conta um conto…

  9. Em Portalegre havia no dia das sortes um grupo de rapazes que andava na rua a cantar. Um dia pararam à porta de uma livraria e gritaram: Viva quem ficou livre! Viva a livraria! O dono da livraria respondeu encantado: Obrigado meus senhores! (Isto foi há 50 anos mas a graça continua…)

  10. A tua redacção está muito bonita, Mário, mas não explicaste tudo aos paroquianos sobre delegados e embaixadores.

    Podias ter dito que a Hierarquia é o conjunto total dos poderes da Igreja para governar – em homens, leis e mantimentos. Há dois tipos de Hierarquia, uma dita “da Jurisdição” e outra dita “da Ordem”. E de acordo com literatura da Igreja, quase tão vasta como a da organizão de Bruxelas que deu o dinheiro para a ponte do Vasco, ambas são inspiradas na Hierarquia Celestial, a dos Anjos. Rapa essa anti-tonsura.

    Mas não era bem a esse tipo de hierarquia que mc se referia, ou era?

  11. já agora, se alguém quiser ter a graça de me esclarecer, mistérios :)

    lá na Charola do ConVento de Cristo em Tomar tem dois, um está referido como o Anjo de Portugal e tem o escudo de Armas, outro está referido como arcanjo,

    não sei se isto está bem dito, e também não sei se o Anjo de Portugal é S. Miguel ou S.Jorge ou ainda se pode ser outro,

    seja como fôr parece isto é tudo cá por debaixo, que lá em cima estão os serafins e os querubins,

  12. «António Franco Alexandre vale por 20 milhões de Fernandos Pessoa?»
    Já agora,Chico Estaca,também gostava de saber como é que Pessoa roubou um dos seus nomes ao Neruda…Ah,bom,já se desculpou no post seguinte.
    Depois de ter apresentado ontem uma conferência (só fui o pivot) sobre Pessoa e o conferencista,que trazia/ dizia Pessoa por todos os poros-não fosse ele Jesuíta-ver aqui o poeta «No conto do vigário»…Convenhamos…Mas não deixa de ter graça.

  13. Se Pessoa, umas das nossas grandes referências,aclamado por excelência a nível mundial, começar a ser minimizado entre nós, o que poderemos então esperar do pouco que nos resta das nossas elites?

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