Um livro por semana 50

«Angústia fragmentária» de Luísa Santos

A partir da memória de uma infância vivida em clima de repressão familiar («Não quero que te dês com rapazes. Uma menina deve dar-se apenas com meninas e da sua idade. Não me contraries nunca, eu sou o teu pai.») e de uma vocação contrariada («Pai, quero ser bailarina. Pai, porque não posso?») surge uma adolescência povoada pela solidão e pela morte desejada: «Sinto-me só, sem ninguém ao fim de quinze anos de existência. A solução é matar-me.» Muito tempo depois da crise dos quinze anos a problemática é a mesma «apenas algumas palavras mudaram» na relação da jovem (hoje mulher) com a sociedade: «Tudo é material. Primeiro são as notas e a competição desenfreada na Escola. Depois o casamento, institucionalização hipócrita da vida a dois e do juro bonificado. Na profissão rodeia-nos a falsidade, a inveja sobretudo. Vivemos mergulhados numa cultura de maledicência e ciúme doentio.» Depois de perguntar num fragmento «Porque estou sozinha?!» a autora responde noutro fragmento: «Tenho mais medo da solidão dos outros do que da minha. Conheço bem o meu deserto, aprendi a orientar-me nele e hoje anseio pelo seu silêncio.» Mais à frente constata noutro fragmento a mesma solidão: «Fui beber um café comigo ao fim da tarde». E por fim surge a moral desta história desenhada em fragmentos de angústia: «Nada mais ilusório do que pensarmos que podemos despojar-nos tão facilmente do baú das recordações.»

(Editora: Bico de Lacre, Capa: Roberto Medeiros, Foto: Henrique Coelho, Ilustrações: Artur Campos)

One thought on “Um livro por semana 50”

  1. cada vez mais acho que faz sentido o discurso “diarístico” (nem sei se existe esta palavra). O discurso feminino é atraído pelo microcosmos, esse alfinetezinho da vida para dentro. É um continente a explorar, por mim estou farta da tradicional narrativa romanesca, acho que tem os dia contados o romance!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.