Um livro por semana 95

«Fidel» por José Fernandes Fafe

José Fernandes Fafe (Porto, 1927) tem o perfil indicado para escrever um livro sobre Fidel. Foi embaixador de Portugal em Cuba de 1975 a 1977. Antes já tinha estado em Havana em 1963, 1969 e 1974. Voltará em 1996. Mas, antes de dissertar sobre Fidel, o autor recapitula a guerra da independência de Cuba (1868), um governo provisório em 1909 chefiado por um americano William Taft e o estranho aluguer de Guantánamo que só pode caducar quando os americanos quiserem.
Sobre Fidel são 200 páginas de texto entre o testemunho (muitas horas de convívio) e a investigação (muitas horas de livros lidos). Apenas umas linhas: «Um dia destes Fidel Castro morre. E, se pensarmos na vida que teve, bem o merece. Em criança andava sempre à pancada. Adolescente, aprendeu a disciplina dos Jesuítas. Na universidade foi um praxista de tiroteio entre bandos civis. Da atracção da aventura nunca se libertou. Compreende-se, é um afrodisíaco. O assalto ao quartel Moncada, a prisão, o exílio, o naufrágio do desembarque do Granma. Dois anos de guerra de guerrilhas. Depois, a revolução e, como dizia Heine, «uma revolução traz sempre violência, sangue, lama». O circo dos julgamentos de 1959 (de que sente remorsos? sentirá alguns?) A vitória de Girón. Ainda não haviam passado dois anos tangenciou a guerra nuclear… A implosão da URSS. Reconstruir tudo, outra vez. Mas este homem é um sísifo! Com a vida que teve bem merece um descanso. E, proporcional aos trabalhos e aos dias que levou, só a morte.»

(Editora: Círculo de Leitores – Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo)

7 thoughts on “Um livro por semana 95”

  1. “Mas este homem é um sísifo!”
    Neste caso o termo deveria ser aplicado ao “Tio Sam” com muito mais propriedade. Mas cada um vê os factos históricos à luz da candeia que lhe ilumina a vida.

  2. Não li o livro.
    Quem é que se esqueceu de dizer que Fidel é (ou foi) um ditador e que em Cuba há prisioneiros políticos e nenhuma liberdade – José Fernandes Fafe ou José do Carmo Francisco?

  3. Porque é que será que Cuba,apesar da reconhecida falta de liberdade,continua a ter para todos que como eu se reclamam de esquerda,por muito anti-estalinistas que sejam,um encanto tão particular,uma atracção tão visceral?
    José Coimbra

  4. Eu não sou de esquerda, mas conheço muitas pessoas de esquerda que não sentem esse encanto e essa atracção – pois sentem encanto e atracção pela democracia. Se calhar é esse o problema do José Coimbra: não se sente atraído pela democracia. É que não ser estalinista (grande coisa…) não é o mesmo que ser democrata. Porque é que não lê umas coisas? Informe-se e vai ver que o encanto e atracção pelo regime comunista cubano desaparece e fica só o encanto e a atracção pelo país e pelo povo.

  5. Trata-se de uma simples nota de leitura – não me tentem fazer o ninho atrás da orelha. Conversas da treta é outra coisa – é com o Toni e o Zezé.

  6. Caro jcfrancisco:

    “Conversas da treta” é fazer uma “nota de leitura” de um livro sobre um ditador sem mencionar esse facto. Mas nisso em Portugal não está sozinho: muitos jornalistas, comentadores, escritores, etc., quando falam de Cuba “branqueiam” o regime. E são sempre “simples nota de…”

  7. Caro Carlos Pires (será o advogado do Porto amigo da minha irmã?),eu falei,se reparar bem,em atracção por Cuba,não por Fidel e pelo regime cubano.A atracção que sinto é pela revolução,aliás sinto-a por todos os movimentos revolucionários.Ou seja,pelo derrube do ditador Batista e pelos ideais posteriormente traídos.Mas que não se esqueça a IMPORTÂNCIA do papel dos norte-americanos na radicalização do regime.Claro que muito maior atracção ainda sinto pelo país,pelo povo e pela cultura cubana.

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