Vinte Linhas 305

Mário Nóbrega também foi «levado» na gralha

Na edição de hoje (26-12-2008) do jornal «A Bola» um texto assinado pelo jornalista Mário Nóbrega começa por referir-se ao mais recente livro de José Saramago e acaba por citar o «Levantado do chão». Jornalista culto, correcto e competente, Mário Nóbrega cita bem a propósito a frase de Almeida Garrett que está na página 7 do «Levantado do chão» e na página 19 da «Viagens»:

«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta para produzir um rico.» Lá está de novo a «infância» em vez de «infâmia». Agora num jornal que é lido por perto de um milhão de pessoas em todo o Mundo.

Contactado por telefone na sala de maquetagem do jornal onde trabalha, manteve um curto diálogo comigo e explicou-me que também no momento de passar a citação de A. Garrett para o seu texto hesitou longamente porque «infância» não lhe soava bem mas como aparecia em todos os livros de José Saramago que consultou e como não tinha à mão as «Viagens» de A. Garrett para desfazer as dúvidas, lá deixou seguir como estava.

O jornalismo é o esplendor do efémero e não se compadece com a calma e a ponderação. Nem os semanários escapam a essa febre. Perante a pressão do fecho das páginas que há pouco tempo eram feitas de granéis de chumbo e hoje seguem do ecran do jornalista para a gráfica por linha RDIS, não há (nunca há) tempo para grandes meditações nem para desfazer dúvidas. As gralhas também crescem e se multiplicam, como na Bíblia.

17 thoughts on “Vinte Linhas 305”

  1. Zé do Carmo, tens que confessar a causa do teu ódio de estimação pelo Saramago. Há aí qualquer coisa de obsessivo, idêntico ao teu anti-benfiquismo, mas para pior. É fácil e compreensível não gostar do Saramago. Eu não gosto nem da obra nem da pessoa do prémio Nobel. Mas andar a pescar gralhas, que nem serão da responsabilidade do autor, só para tentar amesquinhá-lo, é patético e doentio.

  2. Ó Zé,

    Queres acabar com esse problema, que se vem arrastando aborrecedoramente aqui nos nossos corredores, duma vez por todas?

    Faz isto: pede ajuda a alguém e pega nesses volumes todos cheios de gralhas infantis e espalha-os pela avenida da Liberdade, em montinhos de 100 ou 200, com a fotografia dum árabe muito feio em cima; depois faz uma telefonema para Telaviv e pede a um general aviador para mandar uns “caças” do último modelo que os americanos lhes fornecem à borliu, e e, se não se importa, fazer-te o favor reduzir isso a cinzas.

    Se a operação mesmo assim ficar cara (há sempre a despesa com mísseis e gasolina) diz-lhe que depois pagamos quando um dos nossos ministros for à Terra Santa dar um beijinho no murito e apanhar um banho de lama no mar dos potássios e magnésios.

    Depois não digas que não sou teu amigo.

  3. Também penso que a dita gralha não é da responsabilidade do autor, porque se fosse, era razão suficiente para me perguntar como tinha conseguido construir a sua obra que, convenhamos, não é nada que se despreze!

  4. Chico, não é para te esmorecer mas fiz o seguinte raciocínio:

    -imaginemos que cada geração dura 30 anos em média
    -então nos ultimos três mil anos houve 100 gerações

    quantas poessoas teria de haver há 3000 anos atrás para que fossemos todos linhagens independentes?

    tu tens 2 progenitores, os teus avós eram 4, os teus bisavós 8…

    ou seja trata-se da sucessão 2,4,8,16,32, …, 2^100

    ora 2^100=1,26676*10^30, ou seja mete trinta zeros por aí fora

    portanto para que não fôssemos todos primos, há 3000 anos teria de haver mais de um pentilhão de pessoas diferentes, sendo um pentilhão igual a um milhão de milhão de milhão de milhão de milhão,

    ora como devia haver para aí apenas umas dezenas de milhões somos todos primíssimos é só procurar o suficiente,

    tem uma grande vantagem: o negócio do mistério rende muito, quando bem aproveitado por escritores e cineastas de aeroporto especialistas

  5. “se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta para produzir um rico”

    eu calculei.
    o resultado é zero.

    por outro lado, o numero de individuos que é forçoso condenar à miseria (etc) para produzir distribuiçao de riqueza é elevadissimo.
    mas nao digam a ninguem, é segredo.

  6. Z, “na Índia SÃO corvos aqui SÃO gralhas”.
    Ai, a admiração que o JCF tem pelo Saramago! É pena um homem que não chegou ainda aos 60 anos com tamanha carga de senilidade. Nota-se já uma certa infância nesta infâmia de atacar por tudo e por nada o coitado do nobel. Será porque o Saramago não está entre o número dos “condenados à miséria”? JCF, houve tempo em que o Saramago tinha de pedir dinheiro emprestado, sabia? Tenha um pouco mais de respeito e menos mesquinhez quando fala do homem e do escritor José Saramago, só lhe fica mal e cansa ouvir sempre a mesma coisa. Parece uma criança a martelar no piano o dó-ré-mi!

  7. Z, meu caro Amigo,

    Percebes muito de algarismos mas nada de genealogia. Ou botânica. Muitos ramos na árvore mas só um tronco central. Chega? Se não chegar lembra-te daquele primo, secundário e acessório, do teu pai que já não vês desde que tinhas dois anos e nem sequer te lembras do nome.Se isto for improvável, faz como eu, põe no cesto dos pendentes, porque a contagem é dinâmica. Por exemplo: estamos nós agora a falar disto e, calhando, daqui a pouco olhamos para o lado e já existem menos trezentos semitas genuinos na faixa de Gaza. E a possibilidade de um deles pertencer à Família merece consideração.

    Esta coisa do crescimento das populações (incluindo as populações eliteiras) traz muita água no bico mesmo quando bebemos das bocas de professores muito sabidos. Por exemplo: quando Portugal andava a pastar cabras, os Judeus já faziam frente ao Império Romano com tropa e armadura. Hoje, eles são três meros milhões, no máximo, e nós seis vezes mais do que isso. Não me perguntes porquê, mas desconfio que esse facto-ficção-carochinha terá algo a ver com morrinhas de casamentos em família misturado com certas tendências para se adquirir a exclusividade de certas doenças. Espécie de monopólio dos negócios de fraqueza constitucional.

    Depois, claro, se lesses com atenção todos os comentários que aqui se publicam poderias ter reparado num dum senhor que nos informou que a media de vida em tempos atrazados rondava pelos trinta anos. Quase que não havia tempo para dar uma pirocada para multiplicação da espécie, não achas?

    Daí, disto tudo, haver notas em livrinhos sobre várias dinastias que se apagam, por falta de ovos ou esperma, ou se reinventam, por vezes pela via do bastardo, que é bom ter sempre em reserva, como uma das formas de fazer frente ao males que também grassam nos sangues azuis e amarelos.

    Um abraço e cuidado com os Corvos.

  8. és muito multidimensional na tua poética, bem conseguida,

    pronto então tu tens mais jeito do que eu para rastrear as linhagens, as estirpes, cá por mim está aí uma salsa tão grande que me perco, excepto nos epifenómenos, procuro reconstituir o campo potencial a partir daí,

    mordes mais no real,

    mas eu estou atento a Gaza, Paquistão, Grécia, não sei que te diga, sempre achei que a Isabel podia ser vampira mas isso é outra coisa,

    obrigado pelo aviso, eu sei

    um belo 2009 para ti seja lá o que isso fôr

  9. eu fiz geração igual a trinta anos que não é a mesma coisa de tempo de vida, é o sector intermédio do tempo de vida, as gerações reprodutoras sobrepoem-se, não são mutuamente exclusivas como os tijolos em série,

    exactamente, mas há arvores multitronco, ou de tronco múltiplo, também

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